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quarta-feira, 28 de março de 2018

Quarta-feira da Semana Santa - por Bento XVI

A captura de Cristo - pintura de Caravaggio



«Um de vós há-de entregar-Me».

Porque é que Judas traíu Jesus? A questão é objeto de várias hipóteses. Alguns recorrem ao fator da sua avidez de dinheiro; outros dão uma explicação de ordem messiânica: Judas teria ficado desiludido ao ver que Jesus não inseria no seu programa a libertação político-militar do seu próprio país. Na realidade, os textos evangélicos insistem sobre outro aspeto: João diz expressamente que «tendo já o diabo metido no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, que O entregasse» (Jo 13,2); analogamente escreve Lucas: «entrou Satanás em Judas, chamado Iscariotes, que era do número dos Doze» (Lc 22,3). 

Desta forma, vai-se além das motivações históricas e explica-se a vicissitude com base na responsabilidade pessoal de Judas, o qual cedeu miseravelmente a uma tentação do maligno. A traição de Judas permanece, contudo, um mistério. Jesus tratou-o como um amigo (cf Mt 26,50), mas, nos seus convites a segui-lo pelo caminho das bem-aventuranças, Ele não forçava as vontades nem as preservava das tentações de Satanás, respeitando a liberdade humana. [...] 

Recordemo-nos de que também Pedro se queria opor a Ele e ao que O esperava em Jerusalém, tendo aliás recebido uma forte reprovação: «Tu não aprecias as coisas de Deus, mas só as dos homens» (Mc 8,32-33)! Depois da sua queda, Pedro arrependeu-se e encontrou perdão e graça. Também Judas se arrependeu, mas o seu arrependimento degenerou em desespero e assim tornou-se autodestruição. [...] 

Tenhamos presentes duas coisas. A primeira: Jesus respeita a nossa liberdade. A segunda: Jesus espera a nossa disponibilidade para o arrependimento e para a conversão; é rico de misericórdia e de perdão. Afinal, quando pensamos no papel negativo desempenhado por Judas, devemos inseri-lo na condução superior dos acontecimentos por parte de Deus. A sua traição levou à morte de Jesus, que transformou este tremendo suplício em espaço de amor salvífico e em entrega de Si ao Pai (cf Gal 2,20; Ef 5,2.25). 

O Verbo «trair» deriva de uma palavra grega que significa «entregar». Por vezes, o seu sujeito é Deus em pessoa: foi Ele que, por amor, «entregou» Jesus por todos nós (cf Rom 8,32). No seu misterioso projeto salvífico, Deus assume o gesto imperdoável de Judas como ocasião de doação total do Filho para a redenção do mundo.

Bento XVI, papa de 2005 a 2013 
Audiência geral do dia 18/10/06 (trad. © Libreria Editrice Vaticana, rev)
Fonte: Evangelho Quotidiano

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

São Mateus: convertido, apóstolo, evangelista - Bento XVI


S. Mateus, Apóstolo e Evangelista – Festa

Comentário do dia 
Bento XVI, papa de 2005 a 2013 
Audiência geral de 30/08/06 (© Libreria Editrice Vaticana)

São Mateus: convertido, apóstolo, evangelista

«Levantou-se e seguiu Jesus». A concisão da frase põe claramente em evidência a prontidão com que Mateus respondeu à chamada. Para ele, tal significava tudo abandonar, sobretudo aquilo que lhe garantia uma fonte segura de rendimentos, embora fosse desonrosa e muitas vezes injusta. Mateus compreendeu que a intimidade com Jesus o impedia de manter uma atividade desaprovada por Deus. Facilmente se tira daqui uma lição para o presente: também hoje é inadmissível o apego a coisas incompatíveis com a caminhada de seguir Jesus, como é o caso das riquezas desonestas. Ele próprio o disse sem rodeios: «Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que possuis, dá-o aos pobres e terás um tesouro nos céus. Depois vem e segue-Me» (Mt,19,21). Foi o que fez Mateus: «Levantou-se e seguiu Jesus». Neste «levantou-se», conseguimos ler um nítido repúdio pela situação de pecado e simultaneamente a adesão consciente a uma existência nova, reta, em comunhão com Jesus. 

Recordemos que a tradição da Igreja atribui unanimemente a Mateus a paternidade do primeiro Evangelho. Já Papias, bispo de Hierápoles, na Frígia, o tinha dito, cerca do ano 130: «Mateus verteu as palavras [do Senhor] em língua hebraica, e cada um as interpretou como podia» (Eusébio de Cesareia, «Hist. Ecl.» III, 39, 16). O historiador Eusébio acrescenta esta informação: «Mateus, que primeiro pregara entre os judeus, quando a certa altura decidiu ir também evangelizar outros povos, escreveu na língua materna o Evangelho que anunciava; procurou deste modo recompensar aqueles de quem se separava, substituindo pela escrita o que perdiam com a sua partida» (III, 24, 6). Já não possuímos o Evangelho escrito por Mateus em hebraico ou aramaico, mas no Evangelho grego que chegou até nós continuamos a ouvir, de alguma maneira, a voz persuasora do publicano Mateus, que, tornado apóstolo, continua a anunciar-nos a misericórdia salvífica de Deus, e escutamos essa mensagem, nela meditando sempre de novo, para aprendermos, também nós, a levantarmo-nos e a seguir Jesus com determinação.

Créditos: Evangelho Quotidiano

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Comentário ao Evangelho (26/01) feito pelo Papa Bento XVI


Comentário ao Evangelho feito por Bento XVI
São Timóteo e São Tito, sucessores dos apóstolos
A comunidade que surgiu do anúncio evangélico reconhece-se convocada pela palavra daqueles que foram os primeiros a fazer a experiência do Senhor e por Ele foram enviados. Ela sabe que pode contar com a orientação dos Doze, como também com a de quantos a eles se associam pouco a pouco como sucessores no ministério da Palavra e no serviço à comunhão. Por conseguinte, a comunidade sente-se comprometida a transmitir aos outros a «feliz notícia» da presença atual do Senhor e do seu mistério pascal, que age no Espírito.

Isto é bem evidenciado nalguns textos das Epístolas de São Paulo: «Transmiti-vos o que eu próprio recebi» (1Cor 15,3). E isto é importante. São Paulo sabe que foi originariamente chamado por Cristo com uma vocação pessoal, que é um verdadeiro Apóstolo e, contudo, também para ele o que conta sobretudo é a fidelidade ao que recebeu. Ele não queria «inventar» um novo cristianismo, por assim dizer «paulino». Por isso insiste: «Transmiti-vos o que eu próprio recebi.» Transmitiu o dom inicial que vem do Senhor e é a verdade que salva. Depois, no fim da vida, escreve a Timóteo: «Tu és o depositário do Evangelho. Guarda, pelo Espírito Santo que habita em nós, o precioso bem que te foi confiado» (2Tim 1,14).

Mostra-o também com eficiência este antigo testemunho da fé cristã, escrito por Tertuliano por volta do ano 200: «[Os Apóstolos,] no princípio, afirmaram a fé em Jesus Cristo e estabeleceram Igrejas para a Judeia; logo a seguir, espalhados pelo mundo, anunciaram a mesma doutrina e uma mesma fé às nações e, por conseguinte, fundaram a Igreja em cada cidade. A partir destas, as outras Igrejas procederam à ramificação da sua fé e das sementes da doutrina, e continuamente o fazem, para serem verdadeiras Igrejas. Desta forma, também elas são consideradas apostólicas, porque descendentes das Igrejas dos apóstolos» (De praescriptione haereticorum, 20; PL 2, 32).

Créditos: Evangelho Quotidiano

sábado, 17 de setembro de 2016

Comentário do Evangelho do dia (16/09) por Bento XVI



Papa de 2005 a 2013 
Audiência geral de 14/2/07


«Acompanhavam-No os Doze, bem como algumas mulheres»


Sabemos que, de entre os seus discípulos, Jesus escolheu doze homens como pais do novo Israel, e escolheu-os para «estarem com Ele e para os enviar a pregar» (Mc 3,14). Este facto é evidente mas, além dos Doze, colunas da Igreja, pais do novo Povo de Deus, também há muitas mulheres que são incluídas no número dos discípulos. Posso apenas mencionar brevemente aquelas que se encontram no caminho do próprio Jesus, a começar pela profetisa Ana (Lc 2,36-38), até à Samaritana (Jo 4,1-39), à mulher sírio-fenícia (Mc 7,24-30), à hemorroíssa (Mt 9,20-22) e à pecadora perdoada (Lc 7,36-50). Não me referirei sequer às protagonistas de algumas eficazes parábolas, por exemplo a uma dona de casa que amassa o pão (Mt 13,33), à mulher que perde a dracma (Lc 15,8-10), à viúva que importuna o juiz (Lc 18,1-8). Mais significativas nesta nossa reflexão são aquelas mulheres que desenvolveram um papel ativo no contexto da missão de Jesus. 

Em primeiro lugar, pensamos naturalmente na Virgem Maria que, com a sua fé e a sua obra maternal, colaborou de modo único na nossa Redenção, de tal forma que Isabel a proclamou «bendita [...] entre as mulheres» (Lc 1,42), acrescentando: «Feliz de ti que acreditaste» (Lc 1,45). Tornando-se discípula de seu Filho, Maria manifestou em Caná total confiança nele (Jo 2,5) e seguiu-O até à Cruz, onde recebeu dele uma missão maternal para com todos os seus discípulos de todos os tempos, representados por João (Jo 19,25-27). 

Surgem depois várias mulheres que, a diversos títulos, gravitaram em torno da figura de Jesus, com funções de responsabilidade. São exemplo eloquente disso as mulheres que seguiam Jesus para O assistir com os seus bens e das quais Lucas nos transmite alguns nomes: Maria de Magdala, Joana, Susana e «muitas outras» (Lc 8,2-3). Depois, os Evangelhos informam-nos de que as mulheres, diversamente dos Doze, não abandonaram Jesus na hora da Paixão (Mt 27,56.61; Mc 15,40). Entre elas destaca-se, em particular, Madalena, que presenciou a Paixão, mas que foi também a primeira testemunha do Ressuscitado e quem O anunciou (Jo 20,1.11-18). É precisamente para Maria de Magdala que S. Tomás de Aquino reserva a singular qualificação de «apóstola dos apóstolos», dedicando-lhe este bonito comentário: «Assim como uma mulher tinha anunciado ao primeiro homem palavras de morte, assim também foi uma mulher a primeira a anunciar aos apóstolos palavras de vida».

Fonte: Evangelho Quotidiano

segunda-feira, 23 de março de 2015

Comentário do Evangelho do dia (22/03) feito por Cardeal Joseph Ratzinger (Papa Bento XVI)



(Bento XVI, Papa de 2005 a 2013) 
"Um só Senhor", 1965


«Se morrer dará muito fruto»


Ser cristão é, antes de mais e sempre, arrancar-se ao egoísmo que vive exclusivamente para si, para entrar numa grande orientação inabalável de vida de uns para os outros. No fundo, todas as grandes imagens escriturais traduzem esta realidade. A imagem da Páscoa [...], a imagem do êxodo [...], que começa com Abraão e se torna uma lei fundamental ao longo de toda a história sagrada: tudo isso é a expressão desse mesmo movimento fundamental que consiste em repudiar uma existência virada para si mesma.

O Senhor Jesus enunciou esta realidade da maneira mais profunda na comparação do grão de trigo, que mostra simultaneamente que essa lei essencial não só domina toda a História, como marca, desde o princípio, a criação inteira de Deus: «Em verdade vos digo, se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, ficará só; mas se morrer, dará muito fruto.»

Na sua morte e ressurreição, Cristo cumpriu a lei do grão de trigo. Na Eucaristia, no pão de trigo, tornou-Se verdadeiramente o fruto cêntuplo (Mt 13,8) de que vivemos ainda e sempre. Mas, no mistério da sagrada Eucaristia, onde continua a ser para sempre Aquele que é verdadeira e plenamente «para nós», convida-nos a entrar, dia após dia, nessa lei que mais não é do que a expressão da essência do amor verdadeiro [...]: sair de si mesmo para servir os outros. O movimento fundamental do cristianismo é, em última análise, o simples movimento do amor pelo qual participamos no próprio amor criador de Deus.

Fonte: Evangelho Quotidiano

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Comentário ao Evangelho do dia (30/12) feito pelo Papa Francisco



«Falava do menino a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém»

«Deus prepara para eles uma cidade» (cf Heb 11,16): a fé e o bem comum. Ao apresentar a história dos patriarcas e dos justos do Antigo Testamento, a Carta aos Hebreus põe em relevo um aspecto essencial da sua fé; esta não se apresenta apenas como um caminho, mas também como edificação, preparação de um lugar onde os homens possam habitar uns com os outros […]. Se o homem de fé assenta sobre o Deus-Amen, o Deus fiel (cf Is 65,16), tornando-se assim ele mesmo firme, podemos acrescentar que a firmeza da fé se refere também à cidade que Deus está a preparar para o homem. A fé revela quão firmes podem ser os vínculos entre os homens, quando Deus Se torna presente no meio deles. Não evoca apenas uma solidez interior, uma convicção firme do crente; a fé também ilumina as relações entre os homens, porque nasce do amor e segue a dinâmica do amor de Deus. O Deus fiável dá aos homens uma cidade fiável.

Devido precisamente à sua ligação com o amor (cf Gal 5,6), a luz da fé coloca-se ao serviço concreto da justiça, do direito e da paz. A fé nasce do encontro com o amor gerador de Deus que mostra o sentido e a bondade da nossa vida; esta é iluminada na medida em que entra no dinamismo aberto por este amor, isto é, enquanto se torna caminho e exercício para a plenitude do amor. A luz da fé é capaz de valorizar a riqueza das relações humanas, a sua capacidade de perdurarem, serem fiáveis, enriquecerem a vida comum. A fé não afasta do mundo, nem é alheia ao esforço concreto dos nossos contemporâneos.

Sem um amor fiável, nada poderia manter verdadeiramente unidos os homens: a unidade entre eles seria concebível apenas enquanto fundada sobre a utilidade, a conjugação dos interesses, o medo, mas não sobre a beleza de viverem juntos, nem sobre a alegria que a simples presença do outro pode gerar. […] A fé é um bem para todos, um bem comum: a sua luz não ilumina apenas o âmbito da Igreja nem serve somente para construir uma cidade eterna no além, mas também ajuda a construir as nossas sociedades de modo que caminhem para um futuro cheio de esperança. 
 
Lumen Fidei
 
Créditos: Evangelho Quotidiano,

sábado, 28 de dezembro de 2013

Comentário do dia (26/12) feito pelo Papa Bento XVI (Festa de Santo Estevão, protomártir)




Queridos irmãos e irmãs!

No dia após a solenidade do Natal, celebramos a festa de Santo Estêvão, diácono e primeiro mártir. À primeira vista a proximidade da recordação do "Protomártir" do nascimento do Redentor pode-nos fazer admirar, porque é tocante o contraste entre a paz e a alegria de Belém e o drama de Estêvão em Jerusalém na primeira perseguição contra a Igreja nascente. Na realidade, o aparente rangido é superado se considerarmos mais profundamente o mistério do Natal. O Menino Jesus, que jaz na gruta, é o Unigénito Filho de Deus que se fez homem. Ele salvará a humanidade morrendo na cruz. Agora vemo-lo envolvido em panos no presépio; depois da sua crucifixão será novamente envolvido por faixas e colocado no sepulcro. Não era ocasionalmente que a iconografia natalícia por vezes representava o Menino divino colocado num pequeno sarcófago, para indicar que o Redentor nasce para morrer, nasce para dar a vida em resgate por todos.

Santo Estêvão foi o primeiro que seguiu os passos de Cristo com o martírio; morreu, como o divino Mestre, perdoando e rezando pelos seus algozes (cf. Act 7, 60). Nos primeiros quatro séculos do cristianismo, todos os santos venerados pela Igreja eram mártires. Trata-se de uma multidão inumerável, que a liturgia chama "o cândido exército dos mártires", martyrum candidatus exercitus. A sua morte não incutia receio nem tristeza, mas entusiasmo espiritual que suscitava sempre novos cristãos. Para os crentes, o dia da morte, e ainda mais o dia do martírio, não é o fim de tudo, mas a "passagem" para a vida imortal, é o dia do nascimento definitivo, em latim dies natalis. Compreende-se então o vínculo que existe entre o "dies natalis" de Cristo e o dies natalis de Santo Estêvão. Se Jesus não tivesse nascido na terra, os homens não teriam podido nascer no Céu. Precisamente porque Cristo nasceu, nós podemos "renascer"!

Maria, que estreitou entre os braços o Redentor em Belém, sofreu também ela o martírio interior. Partilhou a sua paixão e teve que o estreitar, mais uma vez, quando foi descido da cruz. A esta Mãe, que conheceu a alegria do nascimento e a dor lancinante da morte do seu Filho divino, confiamos quantos são perseguidos e sofrem, de várias formas, para testemunhar e servir o Evangelho. Com especial proximidade espiritual, penso também naqueles católicos que mantêm a própria fidelidade à Sé de Pedro sem ceder a compromissos, por vezes também ao preço de graves sofrimentos. Toda a Igreja admira o seu exemplo e reza para que eles tenham a força de perseverar, sabendo que as suas tribulações são fonte de vitória, mesmo se no momento podem parecer uma falência.

Mais uma vez, desejo a todos bom Natal! 
 
Fonte: Vatican.va

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Comentário do Evangelho do dia (07/10) feito pelo Papa Bento XVI



Papa de 2005 a 2013
Encíclica «Deus caritas est», §15

«Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?»

A parábola do bom Samaritano (cf Lc 10,25-37) leva a dois esclarecimentos importantes. Enquanto o conceito de «próximo», até então, se referia essencialmente aos concidadãos e aos estrangeiros que se tinham estabelecido na terra de Israel, ou seja, à comunidade solidária de um país e de um povo, agora este limite é abolido. Qualquer um que necessite de mim e eu possa ajudá-lo, é o meu próximo.

O conceito de próximo fica universalizado, sem deixar todavia de ser concreto. Apesar da sua extensão a todos os homens, não se reduz à expressão de um amor genérico e abstracto, em si mesmo pouco comprometedor, mas requer o meu empenho prático aqui e agora. (...)

É preciso, enfim, recordar de modo particular a grande parábola do Juízo final (cf Mt 25,31-46), onde o amor se torna o critério para a decisão definitiva sobre o valor ou a inutilidade de uma vida humana. Jesus identifica-Se com os necessitados: famintos, sedentos, forasteiros, nus, enfermos, encarcerados. «Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes» (Mt 25,40). Amor a Deus e amor ao próximo fundem-se num todo.




Créditos: Evangelho Quotidiano

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Comentário ao Evangelho (06/010) feito por Bento XVI

Papa de 2005 a 2013
Encíclica «Deus caritas est», §15
«Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?»
A parábola do bom Samaritano (cf Lc 10,25-37) leva a dois esclarecimentos importantes. Enquanto o conceito de «próximo», até então, se referia essencialmente aos concidadãos e aos estrangeiros que se tinham estabelecido na terra de Israel, ou seja, à comunidade solidária de um país e de um povo, agora este limite é abolido. Qualquer um que necessite de mim e eu possa ajudá-lo, é o meu próximo.

O conceito de próximo fica universalizado, sem deixar todavia de ser concreto. Apesar da sua extensão a todos os homens, não se reduz à expressão de um amor genérico e abstracto, em si mesmo pouco comprometedor, mas requer o meu empenho prático aqui e agora. (...)

É preciso, enfim, recordar de modo particular a grande parábola do Juízo final (cf Mt 25,31-46), onde o amor se torna o critério para a decisão definitiva sobre o valor ou a inutilidade de uma vida humana. Jesus identifica-Se com os necessitados: famintos, sedentos, forasteiros, nus, enfermos, encarcerados. «Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes» (Mt 25,40). Amor a Deus e amor ao próximo fundem-se num todo.

Fonte: Evangelho Quotidiano

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Catequese do Papa Bento XVI sobre Santo Afonso Maria de Ligório, Doutor da Igreja

 

PAPA BENTO XVI
AUDIÊNCIA GERAL
Praça de São Pedro
Quarta-feira, 30 de Março de 2011





Santo Afonso Maria de Ligório


Prezados irmãos e irmãs

Hoje gostaria de apresentar-vos a figura de um santo Doutor da Igreja, ao qual devemos muito, porque foi um insigne teólogo moralista e um mestre de vida espiritual para todos, principalmente para as pessoas simples. É o autor das palavras e da música de um dos cânticos de Natal mais populares na Itália, e não só: Tu scendi dalle stelle.

Pertencente a uma família napolitana nobre e rica, Afonso Maria de Ligório nasceu em 1696. Dotado de acentuadas qualidades intelectuais, com apenas 16 anos obteve a licenciatura em direito civil e canónico. Era o advogado mais brilhante do foro de Nápoles: durante oito anos venceu todas as causas que defendeu. Todavia, na sua alma sedenta de Deus e desejosa de perfeição, o Senhor levava-o a compreender que outra era a vocação à qual o chamava. Com efeito, em 1723, indignado pela corrupção e a injustiça que viciavam o ambiente forense, abandonou a sua profissão — e com ela a riqueza e o sucesso — e decidiu tornar-se sacerdote, não obstante a oposição da parte do pai. Teve mestres excelentes, que o introduziram no estudo da Sagrada Escritura, da História da Igreja e da Mística. Adquiriu uma vasta cultura teológica, que fez frutificar quando, depois de alguns anos, empreendeu a sua obra de escritor. Foi ordenado presbítero em 1726 e, pelo exercício do ministério, uniu-se à Congregação diocesana das Missões apostólicas. Afonso deu início a uma obra de evangelização e de catequese no meio das camadas mais humildes da sociedade napolitana, às quais gostava de pregar, e que instruía acerca das verdades basilares da fé. Não poucas destas pessoas, pobres e modestas, às quais se dirigia, dedicavam-se com frequência aos vícios e praticavam acções criminosas. Com paciência ensinava-as a rezar, encorajando-as a melhorar o seu estilo de vida. Afonso alcançou resultados excelentes: nos bairros mais miseráveis da cidade multiplicavam-se grupos de pessoas que, à noite, se reuniam nas casas particulares e nas oficinas, para rezar e para meditar a Palavra de Deus, sob a orientação de alguns catequistas formados por Afonso e por outros sacerdotes, que visitavam regularmente estes grupos de fiéis. Quando, por vontade do arcebispo de Nápoles, estas reuniões começaram a realizar-se nas capelas da cidade, receberam o nome de «capelas nocturnas». Elas constituíram uma verdadeira fonte de educação moral, de restabelecimento social e de ajuda recíproca entre os pobres: furtos, duelos e prostituição quase chegaram a desaparecer.

Embora o contexto social e religioso da época de santo Afonso fosse muito diferente do nosso, as «capelas nocturnas» parecem um modelo de obra missionária em que podemos inspirar-nos também hoje, para uma «nova evangelização», particularmente dos mais pobres, e para construir uma convivência humana mais justa, fraterna e solidária. Aos sacerdotes é confiada uma tarefa de ministério espiritual, enquanto leigos bem formados podem ser animadores cristãos eficazes, fermento evangélico autêntico no seio da sociedade.

Depois de ter pensado em partir para evangelizar os povos pagãos, Afonso, com 35 anos de idade, entrou em contacto com os camponeses e com os pastores das regiões do interior do Reino de Nápoles e, impressionado com a sua ignorância religiosa e com o estado de abandono em que viviam, decidiu deixar a capital e dedicar-se a estas pessoas, que eram pobres espiritual e materialmente. Em 1732 fundou a Congregação religiosa do Santíssimo Redentor, que pôs sob a tutela do bispo Tommaso Falcoia, e da qual sucessivamente ele mesmo se tornou o superior. Estes religiosos, guiados por Alfonso, foram autênticos missionários itinerantes, que chegaram até aos povoados mais remotos, exortando à conversão e à perseverança na vida cristã, sobretudo por meio da oração. Ainda hoje os Redentoristas, espalhados por muitos países do mundo, com novas formas de apostolado, continuam esta missão de evangelização. Penso neles com reconhecimento, exortando-os a ser sempre fiéis ao exemplo do seu santo fundador.

Estimado pela sua bondade e pelo seu zelo pastoral, em 1762 Afonso foi nomeado bispo de Santa Águeda dos Godos, ministério que, a seguir às enfermidades que o afligiam, deixou em 1775, por concessão do Papa Pio VI. Em 1787 o mesmo Pontífice, recebendo a notícia do seu falecimento, ocorrido depois de muitos sofrimentos, exclamou: «Era um santo!». E não se equivocava: Afonso foi canonizado em 1839 e, em 1871, proclamado Doutor da Igreja. Este título adapta-se-lhe por múltiplos motivos. Antes de tudo, porque ele propôs um rico ensinamento de teologia moral, que exprime adequadamente a doutrina católica, a tal ponto que foi proclamado pelo Papa Pio XII «Padroeiro de todos os confessores e moralistas». Na sua época difundiu-se uma interpretação muito rigorosa da vida moral, também por causa da mentalidade jansenista que, em vez de alimentar a confiança e a esperança na misericórdia de Deus, fomentava o medo e apresentava um rosto de Deus áspero e severo, muito distante daquele que nos foi revelado por Jesus. Sobretudo na sua obra principal, intitulada Teologia moral, santo Afonso, propõe uma síntese equilibrada e convincente entre as exigências da lei de Deus, esculpida nos nossos corações, revelada plenamente por Cristo e interpretada respeitavelmente pela Igreja, e os dinamismos da consciência e da liberdade do homem que, precisamente na adesão à verdade e ao bem, permitem o amadurecimento e a realização da pessoa. Aos pastores de almas e aos confessores, Afonso recomendava que fossem fiéis à doutrina moral católica, assumindo ao mesmo tempo uma atitude caritativa, compreensiva e dócil, a fim de que os penitentes pudessem sentir-se acompanhados, sustentados e encorajados no seu caminho de fé e de vida cristã. Santo Afonso nunca se cansava de repetir que os sacerdotes são um sinal visível da misericórdia infinita de Deus, que perdoa e ilumina a mente e o coração do pecador a fim de que se converta e mude de vida. Na nossa época, em que existem claros sinais de perda da consciência moral e — é necessário reconhecê-lo — de uma certa falta de estima pelo Sacramento da Confissão, o ensinamento de santo Afonso ainda é de grande actualidade.

Além das obras de teologia, santo Afonso compôs muitíssimos outros escritos, destinados à formação religiosa do povo. O estilo é simples e agradável. Lidas e traduzidas em numerosas línguas, as obras de santo Afonso contribuíram para plasmar a espiritualidade popular dos últimos dois séculos. Algumas delas são textos que se devem ler com grande proveito ainda hoje, como As Máximas eternas, As glórias de Maria e A prática de amar Jesus Cristo; esta última obra representa a síntese do seu pensamento e a sua obra-prima. Ele insiste muito sobre a necessidade da oração, que permite abrir-se à Graça divina para cumprir quotidianamente a vontade de Deus e alcançar a santificação pessoal. No que se refere à oração, ele escreve: «Deus não nega a ninguém a graça da oração, com a qual se obtém a ajuda para vencer qualquer concupiscência e tentação. Digo, reitero e repetirei sempre, enquanto viver, que toda a nossa salvação se encontra na oração». Daqui deriva o seu famoso axioma: «Quem reza, salva-se» (Del gran mezzo della preghiera e opuscoli affini. Opere ascetiche II, Roma 1962, p. 171). A este propósito, volta-me ao pensamento a exortação do meu predecessor, o Venerável Servo de Deus João Paulo II: «As nossas comunidades cristãs devem tornar-se “escolas de oração”... Então, é preciso que a educação para a oração se torne um ponto qualificativo de toda a programação pastoral» (Carta Apostólica Novo millennio ineunte, 33.34).

Entre as formas de oração aconselhadas fervorosamente por santo Afonso sobressai a visita ao Santíssimo Sacramento ou, como diríamos hoje, a adoração, breve ou prolongada, pessoal ou comunitária, diante da Eucaristia. «Sem dúvida — escreve Afonso — entre todas as devoções, a de adorar Jesus sacramentado é a primeira depois dos sacramentos, a mais querida a Deus e a mais útil para nós... Oh, como é bom permanecer diante de um altar com fé... e apresentar-lhe as próprias necessidades, como faz um amigo a outro amigo, no qual se tem toda a confiança!» (Visitas ao Santíssimo Sacramento e à Santíssima Maria para cada dia do mês. Introdução). Com efeito, a espiritualidade afonsiana é eminentemente cristológica, centrada em Cristo e no seu Evangelho. A meditação do mistério da Encarnação e da Paixão do Senhor é frequentemente objecto da sua pregação. Com efeito, nestes acontecimentos a Redenção é oferecida «abundantemente» a todos os homens. E precisamente porque é cristológica, a piedade afonsiana é também requintadamente mariana. Devotíssimo de Maria, ele explica o seu papel na história da salvação: Sócia da Redenção e Medianeira da graça, Mãe, Advogada e Rainha. Além disso, santo Afonso afirma que a devoção a Maria nos será de grande conforto na hora da nossa morte. Ele estava persuadido de que a meditação sobre o nosso destino eterno, sobre a nossa chamada a participar para sempre nas bem-aventuranças de Deus, assim como sobre a trágica possibilidade da danação, contribui para viver com serenidade e empenhamento, e para enfrentar a realidade da morte, conservando sempre plena confiança na bondade de Deus.

Santo Afonso Maria de Ligório é um exemplo de pastor zeloso, que conquistou as almas pregando o Evangelho e administrando os Sacramentos, unido a uma maneira de agir caracterizada por uma bondade suave e mansa, que nascia da relação intensa com Deus, que é a Bondade infinita. Ele tinha uma visão realisticamente optimista dos recursos de bem que o Senhor concede a cada homem, e dava importância aos afectos e aos sentimentos do coração, mas também da mente, para poder amar a Deus e ao próximo.

Como conclusão, gostaria de recordar que o nosso santo, analogamente a são Francisco de Sales — sobre o qual já falei há algumas semanas — insiste em dizer que a santidade permanece acessível a cada cristão: «O religioso como religioso, o secular como secular, o sacerdote como sacerdote, o casado como casado, o mercador como mercador, o soldado como soldado, e assim por diante com todas as outras condições» (Prática de amar Jesus Cristo. Obras ascéticas i, Roma 1933, p. 79). Demos graças ao Senhor que, com a sua Providência, suscita santos e doutores em diferentes lugares e tempos, que falam a mesma linguagem para nos convidar a crescer na fé e a viver com amor e alegria o nosso ser cristãos, nos gestos simples de cada dia, para caminhar pela vereda da santidade, pela estrada rumo a Deus e à verdadeira alegria. Obrigado!

 Fonte: Site do Vaticano

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Comentário ao Evangelho do dia (29/04) feito por Cardeal Joseph Ratzinger





(Bento XVI, Papa de 2005 a 2013)
Der Gott Jesu Christi

                                  «O Paráclito, o Espírito Santo que o Pai
                                                 enviará em Meu nome»


Diferentemente das palavras «Pai» e «Filho», o nome do Espírito Santo, a terceira pessoa divina, não é a expressão de uma especificidade; designa pelo contrário, o que é comum a Deus. Ora é justamente aí que aparece o que é «próprio» à terceira pessoa; Ela é «o que é comum», a unidade do Pai e do Filho, a Unidade em pessoa. O Pai e o Filho são um na medida em que vão para além de Si próprios; são um nessa terceira pessoa, na fecundidade do dom. Tais afirmações não poderão nunca ser mais do que aproximações; não podemos reconhecer o Espírito a não ser através dos Seus efeitos. Consequentemente, a Escritura nunca descreve o Espírito em Si mesmo; só fala da maneira como Ele vem ao homem e como Se diferencia dos outros espíritos. [...]

Judas Tadeu pergunta: «Senhor, porque é que Te manifestas a nós e não ao mundo?» A resposta de Jesus parece passar ao lado desta pergunta: «Se alguém Me ama, viverá segundo a Minha palavra, Nós viremos a ele e faremos nele a Nossa morada». Na verdade é a resposta exacta à pergunta do discípulo e à nossa pergunta sobre o Espírito. Não se pode expor o Espirito de Deus como uma mercadoria. Só O pode ver aquele que O traz em si. Ver e vir, ver e permanecer, andam aqui juntos e são indissociáveis. O Espírito Santo permanece na palavra de Jesus e não se obtém a Palavra com discursos, mas através da constância, através da vida.


Créditos: Evangelho Quotidiano

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Comentário ao Evangelho do dia (12/04) feito por Cardeal Joseph Ratzinger



(Bento XVI, Papa de 2005 a 2013) - Meditationen zur Karwoche, 1969

                               «Dai-lhes vós de comer» (Mt 14,16)


No pão da eucaristia recebemos a multiplicação inesgotável dos pães do amor de Jesus Cristo, que é suficientemente rico para saciar a fome de todos os séculos, e que procura assim a colocar-nos, também a nós, ao serviço desta multiplicação dos pães. Os poucos pães de cevada da nossa vida poderão parecer inúteis, mas o Senhor precisa deles e pede-no-los.

Tal como a própria Igreja, também os sacramentos são fruto do grão de trigo que morre (Jo 12,24). Para os receber, temos de entrar no movimento de onde eles provêm. Este movimento consiste em nos perdermos a nós próprios, sem o que não nos podemos encontrar: «Quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a sua vida por Mim e pelo Evangelho salvá-la-á» (Mc 8,35). Esta palavra do Senhor é a fórmula fundamental da vida cristã [...]; a forma característica da vida cristã vem-lhe da cruz. A abertura cristã ao mundo, tão enaltecida actualmente, só pode encontrar o seu verdadeiro modelo no lado aberto do Senhor (Jo 19,34), expressão deste amor radical, que é o único capaz de salvar.

Do lado perfurado de Jesus crucificado saíram sangue e água. O que, à primeira vista, é sinal de morte, sinal do mais completo fracasso, constitui ao mesmo tempo um começo novo: o Crucificado ressuscita e não morre. Das profundezas da morte surgiu a promessa da vida eterna. Por cima da cruz de Jesus Cristo resplandece já a claridade vitoriosa da manhã de Páscoa. É por isso que viver com Ele sob o signo da cruz é sinónimo de viver sob a promessa da alegria pascal.


Créditos: Evangelho Quotidiano

sábado, 30 de março de 2013

Comentário ao Evangelho do dia (30/03) feito por Bento XVI



Papa de 2005 a 2013
Homilia de 7/4/2012 [da Vigília Pascal]


                                  «A luz brilha nas trevas» (Jo 1,5)



Na Vigília Pascal, a Igreja fixa as suas atenções sobretudo na primeira frase da narração da Criação: «Deus disse: “Faça-se a luz”!» (Gn 1, 3). Emblematicamente, a narração da Criação começa pela criação da luz. [...] O facto de Deus ter criado a luz significa que criou o mundo como espaço de conhecimento e de verdade, espaço de encontro e de liberdade, espaço do bem e do amor. A matéria-prima do mundo é boa; o próprio ser é bom. E o mal não vem do ser que é criado por Deus, mas existe só em virtude da sua negação. É o «não».


Na Páscoa, ao amanhecer do primeiro dia da semana, Deus disse novamente: «Faça-se a luz!». Antes tinham vindo a noite do Monte das Oliveiras, o eclipse solar da paixão e morte de Jesus, a noite do sepulcro. Mas, agora, é de novo o primeiro dia; a criação recomeça, inteiramente nova. «Faça-se a luz!», disse Deus. «E a luz foi feita». Jesus ressuscita do sepulcro. A vida é mais forte do que a morte. O bem é mais forte do que o mal. O amor é mais forte do que o ódio. A verdade é mais forte do que a mentira. A escuridão dos dias anteriores dissipou-se no momento em que Jesus ressuscita do sepulcro e Se torna, Ele mesmo, pura luz de Deus.


Isto, porém, não se refere somente a Ele, nem se refere apenas à escuridão daqueles dias. Com a ressurreição de Jesus, a própria luz é novamente criada. Ele atrai-nos a todos, levando-nos atrás de Si para a nova vida da Ressurreição, e vence toda a forma de escuridão. Ele é o novo dia de Deus, que vale para todos nós. Mas como pode isto acontecer? Como é possível tudo isto chegar até nós, de tal modo que não se reduza a meras palavras, mas se torne uma realidade que nos envolve? Por meio do sacramento do Baptismo e da profissão da fé, o Senhor construiu uma ponte até nós, uma ponte pela qual o novo dia nos alcança. No Baptismo, o Senhor diz a quem o recebe: Fiat lux – faça-se a luz. O novo dia, o dia da vida indestrutível chega também a nós. Cristo toma-te pela mão. Daqui para a frente, serás sustentado por Ele e assim entrarás na luz, na vida verdadeira.


Créditos: Evangelho Quotidiano

sábado, 2 de março de 2013

Comentário ao Evangelho do dia (02/03) feito por Papa Bento XVI



Encíclica «Deus Caritas Est» §§ 12-13 (trad. © copyright Libreria Editrice Vaticana, rev.)

«Quando ainda estava longe, o pai viu-o e, enchendo-se de compaixão, correu
a lançar-se-lhe ao pescoço e cobriu-o de beijos.»

A verdadeira novidade do Novo Testamento não reside em novas ideias, mas na própria figura de Cristo, que dá carne e sangue aos conceitos - um incrível realismo. Já no Antigo Testamento a novidade bíblica não consistia simplesmente em noções abstractas, mas na acção imprevisível e, de certa forma, inaudita de Deus. Esta acção de Deus ganha agora a sua forma dramática devido ao facto de que, em Jesus Cristo, o próprio Deus vai atrás da «ovelha perdida» (Lc 15,1ss.), a humanidade sofredora e transviada. Quando Jesus fala, nas Suas parábolas, do pastor que vai atrás da ovelha perdida, da mulher que procura a dracma, do pai que sai ao encontro do filho pródigo e o abraça, não se trata apenas de palavras, mas de uma explicação do Seu próprio ser e agir. Na Sua morte de cruz, cumpre-se aquele virar-Se de Deus contra Si próprio, com o qual Ele Se entrega para levantar o homem e salvá-lo - o amor na sua forma mais radical. O olhar fixo no lado trespassado de Cristo de que fala João (cf 19,37) compreende o que serviu de ponto de partida a esta Carta Encíclica: «Deus é amor» (1 Jo 4,8). É aí que esta verdade pode ser contemplada. E, partindo daí, pretende-se agora definir em que consiste o amor. A partir daquele olhar, o cristão encontra o caminho do seu viver e do seu amar.

Jesus deu a este acto de oferta uma presença duradoura através da instituição da Eucaristia durante a Última Ceia. Antecipa a Sua morte e ressurreição entregando-Se já a Si mesmo naquela hora aos Seus discípulos, no pão e no vinho, Seu corpo e sangue [...]. A Eucaristia arrasta-nos no acto oblativo de Jesus. [...] A «mística» do Sacramento, que se funda no abaixamento de Deus até nós, é de um alcance muito diverso e conduz muito mais alto do que qualquer mística elevação do homem poderia realizar.

Créditos: Evangelho Quotidiano
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