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terça-feira, 11 de abril de 2017

Terça Feira Santa - Cristo preparando-se para lavar os pés dos discípulos



Levantou-se da mesa, depôs as suas vestes e pegando duma toalha, cingiu-se com ela (Jo 13, 4).

1. Cristo, em seu serviço humilde, mostra que é Ele mesmo verdadeiramente um servo, mantendo-se fiel à sua palavra: O Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por uma multidão (Mt 20, 28).

Três coisas se buscam num bom servo ou ministro:

(i) Que ele seja cuidadoso ao ter diante de si os numerosos detalhes nos quais seu serviço pode facilmente falhar. Ora, para um servo, sentar ou deitar durante seu serviço é tornar impossível essa supervisão necessária. Daí é que os servos ficam de pé. Portanto, diz o Evangelho sobre Nosso Senhor: levantou-se da mesa. Nosso Senhor pergunta-nos Ele mesmo: Pois qual é o maior: o que está sentado à mesa ou o que serve? (Lc 22, 27).

(ii) Que Ele demonstre destreza em fazer na hora certa todas as coisas que o seu ofício particular exige. Ora, roupas elaboradas são um obstáculo para isso. Portanto, Nosso Senhor depôs as Suas vestes. E isto foi prefigurado no Antigo Testamento, quando Abraão escolheu entre seus servos os melhor equipados (Gn 14, 14).

(iii) Que ele seja diligente, tendo logo à mão todas as coisas que precisa. São Lucas diz de Marta que ela estava toda preocupada na lida da casa (10, 40). É por isso que Nosso Senhor, pegando duma toalha, cingiu-se com ela. Assim Ele estava não apenas pronto para lavar os pés, mas também para secá-los. Então Ele (que saíra de Deus e para Deus voltava - Jo 13, 3), enquanto lava os pés deles, esmaga para sempre a nossa inflada e humana vaidade.

2. Em seguida, deitou água numa bacia e começou a lavar (Jo 13, 5)

É-nos dado para consideração este serviço de Cristo; e de três maneiras sua humildade nos vale de exemplo.

(i) Pelo tipo de serviço que era feito, pois que era o mais baixo serviço de todos. O Senhor de toda a majestade, curvando-se para lavar os pés de seus escravos!

(ii) Pela quantidade de serviços prestados, porque, como nos é dito, Ele colocou água na bacia, lavou os pés deles, e os secou, e assim por diante.

(iii) Pelo método como o serviço foi feito, pois Ele não o fez através de outros, nem sequer com outros O ajudando. Ele fez o serviço sozinho. Quanto mais fores elevado, mais te humilharás em tudo (Eclo 3, 20).  

Meditações para a Quaresma - Santo Tomás de Aquino

Segunda Feira Santa - É necessária uma purificação perfeita - Por Santo Tomás de Aquino



1. Se eu não tos lavar, não terás parte comigo (Jo 13, 8). Ninguém pode compartilhar a herança da eternidade, ser co-herdeiro com Cristo, a não ser aquele que está espiritualmente limpo, pois assim está dito no Apocalipse: Nela não entrará nada de profano (Ap 21, 27); e nos Salmos nós lemos: Senhor, quem há de morar em Vosso tabernáculo? (Sl 14, 1). Quem deverá subir a montanha do Senhor, ou quem deve permanecer em Seu lugar santo? O que tem as mãos limpas e o coração puro (Sl 23, 3-4).

É, portanto, como se Nosso Senhor dissesse: Se eu não tos lavar, não estarás limpo, e se não estiveres limpo, não terás parte comigo.

2. Exclamou então Simão Pedro: Senhor, não somente os pés, mas também as mãos e a cabeça (Jo 13, 9). Pedro, totalmente perturbado, se oferece todo para ser lavado, tão confuso está entre o amor e o temor. Lemos, de fato, no livro chamado The Journeying of Clement [A jornada de Clemente], que Pedro costumava submeter-se tanto à presença física de Nosso Senhor, a qual ele havia amado devotissimamente, que sempre que, depois da Ascenção de Nosso Senhor, a memória dessa tão amada presença e santíssima companhia lhe sobrevinha, ele costumava derreter-se em lágrimas, tanto que suas bochechas pareciam já desgastadas por elas.

Podemos considerar o corpo do homem em três partes - a cabeça, que é a mais elevada, os pés, que são a parte mais baixa, e as mãos, que ficam entre as outras duas. No homem interior, isto é, na alma, há também três partes. Correspondente à cabeça há a razão superior, a potência pela qual a alma opera as boas ações. Aos pés correspondem os sentidos e os desejos e sensações que surgem deles. Ora, Nosso Senhor sabia que seus discípulos estavam limpos no tocante à cabeça, pois Ele sabia que estava unidos a Deus pela fé e pela caridade. Ele sabia que suas mãos também estavam limpas, pois Ele conhecia suas boas obras. Porém, quanto aos seus pés, Ele sabia que os discípulos ainda estavam de algum modo emaranhados naquelas inclinações às coisas terrenas que derivam da vida dos sentidos.

Pedro, alarmado pelo aviso de Nosso Senhor, não apenas consentiu que seus pés fossem lavados, mas implorou que suas mãos e cabeça fossem lavadas também.

Senhor, ele disse, não somente os pés, mas também as mãos e cabeça. Como se dissesse: "Eu não sei se minhas mãos e cabeça precisam ser lavadas. De nada me acusa a consciência, mas nem por isso sou justificado (1Cor 4, 4). Portanto, estou pronto para que não apenas meus pés sejam lavados, isto é, aquelas inclinações que advêm da vida de meus sentidos, mas também minhas mãos, isto é, minhas obras, e minha cabeça também, isto é, minha razão superior". 

3. Disse-lhe Jesus: Aquele que tomou banho não tem necessidade de lavar-se; Está inteiramente puro. Ora, vós estais puros (Jo 13, 10). Orígenes, em comentário a esse texto, diz que os Apóstolos estavam puros, mas precisavam ser ainda mais puros. Pois a razão deve sempre querer como prêmio as melhores coisas, deve sempre se condicionar a alcançar os píncaros da virtude, deve aspirar resplandecer com o brilho da própria justiça. Aquele que é santo, que santifique-se ainda mais (Ap 2, 11). 

Meditações para a Quaresma - Santo Tomás de Aquino

segunda-feira, 10 de abril de 2017

A Paixão de Cristo nos serve de exemplo - Por Santo Tomás de Aquino



A Paixão de Cristo é suficiente para nos formar quanto a todas as virtudes. Quem quer que busque viver perfeitamente, basta para tanto que despreze o que Cristo desprezou na cruz e deseje o que lá Ele desejou. Não há virtude da qual Cristo, do alto da cruz, não nos dê um exemplo.

Se buscamos um exemplo de caridade: Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos (Jo 15,13), o que Cristo fez na cruz. E já que foi por nós que Ele entregou sua vida, não deveria pesar-nos suportar por Ele quaisquer males que porventura nos ocorram. Mas que poderei retribuir ao Senhor por tudo o que Ele me tem dado? (Sl 115,3 [12].

Se buscamos um exemplo de paciência, na cruz encontramos o melhor de todos. A paciência verdadeira se mostra de duas maneiras. Ou quando alguém sofre grandes males pacientemente, ou quando sofre males que poderia evitar, mas não evita. Ora, Cristo na cruz sofrera grandes males. Ó vós todos, que passos pelo caminho: olhai e julgai se existe dor igual à dor que me atormenta (Lm 1, 12). E os sofreu pacientemente, pois Ele, ultrajado, não retribuía com idêntico ultraje (1Pe 2, 23), mas como um cordeiro que se conduz ao matadouro, Ele estava como uma ovelha muda nas mãos do tosquiador (Is 53, 7).

Estava também em seu poder evitar o sofrimento, e Ele não o fez. Crês tu que não posso invocar meu Pai e Ele não me enviaria imediatamente mais de doze legiões de anjos (Mt 26, 53). A paciência de Cristo na cruz, portanto, foi a maior paciência jamais demonstrada. Corramos com paciência ao combate proposto, com o olhar fixo no autor e consumador de nossa fé, Jesus. Em vez de gozo que se lhe oferecera, Ele suportou a cruz, e está sentado à direita do trono de Deus (Hb 12, 1-2).

 Se procuramos um exemplo de humildade, miremos o crucificado. Pois é Deus quem escolheu ser julgado e morto pela vontade de Pôncio Pilatos. Tua causa foi julgada como a dos perversos (Jó 36, 17). De fato, como a dos perversos, pois: Condenemono-lo a uma morte infame (Sb 2, 20). O Senhor quis morrer pelos escravos, e Aquele que dá vida aos anjos quis morrer pelo homem.

Se procuramos um exemplo de obediência, sigamos aquele que se fez obediente até a morte (Fp 2, 8), pois assim como pela desobediência de um só homem foram todos constituídos pecadores, assim pela obediência de um só todos se tornarão justos (Rm 5, 19).

Se procuramos um exemplo de desprezo das coisas deste mundo, sigamos Aquele que é o Rei dos reis, o Senhor dos senhores, no qual estão todos os tesouros da sabedoria. Contemplemos na cruz aquele que está suspenso desnudo, zombado, cuspido, surrado, coroado com espinhos, saciado pelo fel e o vinagre, morto. Repartem entre si as minhas vestes, e lançam sorte sobre a minha túnica (Sl 21, 19).

Erro é ansiar por honrarias, pois que Ele foi exposto à desgraça e à humilhação. Erro é buscar títulos e condecorações, pois trançaram uma coroa de espinhos, meteram-lha na cabeça e puseram-lhe na mão  uma vara. Dobrando os joelhos diante d'Ele, diziam com escárnio: Salve, rei dos judeus! (Mt 27, 29).

Erro é apegar-se a prazeres e confortos, pois puseram fel no meu alimento, na minha sede deram-me vinagre para beber (Sl 68, 22).

Meditações para a Quaresma - Santo Tomás de Aquino
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