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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

«Este é o tempo favorável, este é o dia da salvação» (2Cor 6,2)

 

São Leão Magno (IV Sermão para a Quaresma, 1-2)


«Este é o dia da salvação!». É certo que não há período nenhum que não esteja cheio de dons divinos, pois a graça de Deus proporciona-nos, em todo o tempo, o acesso à sua misericórdia. Nesta época, porém, os corações devem ser estimulados ainda com mais ardor ao progresso espiritual, e animados com mais confiança, porque o dia em que fomos resgatados convida-nos a praticar obras espirituais. Deste modo, celebraremos de corpo e alma purificados o mistério que ultrapassa todos os outros: o sacramento da Páscoa do Senhor. [...] 

Tais mistérios exigem de nós um esforço espiritual sem quebras [...], a fim de permanecermos sempre sob o olhar de Deus: era assim que a festa da Páscoa devia encontrar-nos. Contudo, são poucos os dotados desta força espiritual; para nós, que nos encontramos no meio das atividades desta vida, devido à fraqueza da carne, o zelo abranda. [...] Por isso, para nos devolver a pureza de alma, o Senhor previu o remédio de um treino de quarenta dias, no decurso dos quais possamos resgatar as nossas faltas com boas obras e consumi-las com santos jejuns [...]. Tenhamos, pois, o cuidado de obedecer ao apóstolo Paulo: «Purificai-vos de toda a mancha da carne e do espírito» (2Cor 7, 1). Mas que a nossa maneira de viver esteja de acordo com a nossa abstinência. O jejum não consiste apenas na abstenção de alimentos; de nada aproveita subtrair os alimentos ao corpo, se o coração se não desviar da injustiça, se a língua se não abstiver da calúnia [...]. Este é um tempo de suavidade, de paciência, de paz [...]; uma altura em que a alma forte se habitua a perdoar as injustiças, a contar em nada as afrontas, a esquecer as injúrias [...]. 

Mas que a moderação espiritual não seja triste; que seja santa. Que não se oiça o murmúrio das queixas, porque àqueles que assim vivem nunca faltará o consolo de uma alegria santa.

 

Fonte: Evangelho Quotidiano

quarta-feira, 6 de março de 2019

Os exercícios da Quaresma: a esmola, a oração, o jejum - Por São Pedro Crisólogo



Meus irmãos, começamos hoje a grande viagem da Quaresma. Levemos, pois, no navio todas as nossas provisões de alimento e bebida, colocando sobre elas a misericórdia abundante de que teremos necessidade. Porque o nosso jejum terá fome, o nosso jejum terá sede se não se alimentar de bondade, se não se dessedentar com misericórdia. O nosso jejum terá frio, o nosso jejum desfalecerá se o velo da esmola não o cobrir, se a capa da compaixão não o envolver.

Irmãos, a misericórdia está para o jejum como a primavera está para os solos: a suave brisa primaveril faz florescer os rebentos nas planícies; a misericórdia do jejum faz brotar as nossas sementes até à floração, fá-las encherem-se de frutos até à colheita celeste. A bondade está para o jejum como o óleo está para o candeeiro: tal como a matéria gorda do óleo alimenta a luz do candeeiro, e com tão pouco alimento o faz brilhar para o conforto de toda a noite, assim a bondade faz o jejum resplandecer, emitindo raios até atingir o brilho pleno da continência. A esmola está para o jejum como o sol está para o dia: o esplendor do sol aumenta o brilho do dia, dissipa a obscuridade das nuvens; a esmola que acompanha o jejum santifica a santidade do mesmo jejum e, graças à luz da bondade, remove dos nossos desejos tudo o que poderia ser mortífero. Em suma, a generosidade está para o jejum como o corpo está para a alma: quando a alma se retira do corpo, traz-lhe a morte; se a generosidade se afastar do jejum, é a morte deste.


São Pedro Crisólogo (c. 406-450)
bispo de Ravena, doutor da Igreja
Sermão 8; CCL 24, 59; PL 52, 208

Fonte: Evangelho Quotidiano

sexta-feira, 9 de março de 2018

São Francisco de Sales - O verdadeiro amor


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São Francisco de Sales (1567-1622), bispo de Genebra, doutor da Igreja 

«Sobre o amor às criaturas»

O verdadeiro amor

Há certos amores que parecem extremamente grandes e perfeitos aos olhos das criaturas, e que diante de Deus são pequenos e de nenhum valor. E a razão é que estas amizadas não estão fundadas na verdadeira caridade, que é a caridade para com Deus, mas apenas em certas tendências e inclinações naturais. 

Pelo contrário, há outros amores que parecem extremamente reduzidos e vazios aos olhos do mundo, e que diante de Deus serão cheios e muito excelentes, porque os atos correspondentes se fazem apenas por Deus e em Deus, sem mistura do nosso interesse pessoal. Os atos de caridade que fazemos por aqueles que amamos desta maneira são mil vezes mais perfeitos, na medida em que tudo é puramente por Deus, mas os serviços e outras ajudas que prestamos àqueles que amamos por inclinação têm muito menos mérito, devido à grande complacência e satisfação que obtemos com a sua realização, e ao facto de, em geral, os fazermos mais por este movimento que por amor a Deus. 

Há ainda outra razão que torna as primeiras amizades de que falamos menores que as segundas: o facto de não durarem, uma vez que, sendo a sua causa tão frágil, logo que surge um obstáculo, esfriam e alteram-se; coisa que não acontece àquelas que são apenas em Deus, porque a sua causa é sólida e permanente. 

Os sinais de amizade que damos contra a nossa inclinação às pessoas pelas quais temos antipatia são melhores e mais agradáveis a Deus que aqueles que damos atraídos pelo afeto sensível. E a isto não deve chamar-se duplicidade nem dissimulação, porque o sentimento contrário que experimento reside na parte inferior de mim, e os atos que faço são feitos com a força da razão, que é a parte principal da minha alma. 


Assim, aqueles que nada têm de amável são felizes, porque o amor que se lhes dá é excelente, pois vem de Deus.

Fonte: Evangelho Quotidiano.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

"Jonas, figura de Cristo" - por São Jerônimo

Profeta Jonas sendo engolido pela baleia


São Jerónimo (347-420), presbítero, tradutor da Bíblia, doutor da Igreja 
Sobre Jonas II, 2, 5, 6, 11

Jonas, figura de Cristo


Se Jonas é figura do Senhor, por evocar, por meio da sua estadia de três dias e três noites nas entranhas do cetáceo, a Paixão do Salvador, a sua oração também deve ser uma expressão da oração do Senhor. 

«Fui rejeitado diante dos teus olhos. Mas verei ainda o teu santo templo» (Jn 2,5). Quando estava contigo, gozando da tua luz, não dizia: «Fui rejeitado». Mas, quando me encontrei no fundo do mar, envolvido na carne de um homem, assumi sentimentos de homem e disse: «Fui rejeitado diante dos teus olhos». Disse-o enquanto homem; e o que vem a seguir disse-o como Deus, Eu que, sendo da tua condição, não Me vali da minha igualdade contigo (cf Fil 1,6), porque queria elevar a Ti o género humano: «Mas verei ainda o teu santo templo». Assim, diz o texto do evangelho: «Pai, manifesta a minha glória junto de Ti, aquela glória que Eu tinha junto de Ti antes de o mundo existir» (Jo 17,5); e o Pai responde: «Já a manifestei e voltarei a manifestá-la!» (Jo 12,28). O único e mesmo Senhor pede enquanto homem, promete enquanto Deus e está seguro da glória que foi sempre sua. 

São Jerônimo
«As águas me cercaram até ao pes­coço, o abismo envolveu-me» (Jn 2,6). Que o inferno não Me aprisione! Que não Me recuse a saída! Desci livremente, que livremente Me eleve. Voluntariamente vim como cativo para libertar os cativos, a fim de que se cumpra este verísculo: «Tu subiste às alturas e levaste contigo prisioneiros» (Sl 68,19; Ef 4,8). Com efeito, Ele conquistou para a vida aqueles que eram cativos da morte. 

«Então, o Senhor ordenou ao pei­­­xe e este vomitou Jonas em terra firme» (Jn 2,11). Foi ordenado a este cetáceo, aos abismos e aos infernos, que restituíssem o Salvador a terra; assim, Aquele que tinha morrido para libertar os que estavam presos nos laços da morte pode levar uma multidão consigo para a vida.

Fonte: Evangelho Quotidiano

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

"Se o orgulho nos fez sair, a humildade far-nos-á voltar a entrar" - Santo Agostinho



(354-430), bispo de Hipona (norte de África), doutor da Igreja 
Tratado sobre o evangelho de S. João 25, fim 15-16


«Não é Ele o carpinteiro?»

Se o orgulho nos fez sair, a humildade far-nos-á voltar a entrar. [...] Tal como o médico, depois de ter feito o diagnóstico, trata a causa do mal, também tu deves tratar a fonte do mal, que é o orgulho; desse modo, deixará de haver mal em ti. Foi para tratar o teu orgulho que o Filho de Deus desceu e Se fez humilde. Porque te orgulhes, se Deus Se fez humilde por ti. Talvez te envergonhe imitar a humildade de um homem; pois imita a humildade de Deus. O Filho de Deus fez-Se humilde, vindo sob a forma de homem. A ti, ordena-se que sejas humilde; não se te pede que te tornes um animal. Deus fez-Se homem. Tu, homem, conhece que és homem; a tua humildade consiste simplesmente em te conheceres. 

Ouve a Deus que te ensina a humildade: «Não vim fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que Me enviou» (Jo 6,38). Vim, humilde, ensinar a humildade, como mestre de humildade. Aquele que vem a Mim incorpora-se a Mim e torna-se humilde. Aquele que adere a Mim será humilde; esse não faz a minha vontade, mas a vontade de Deus. Desse modo, não será lançado fora (Jo 6,37), como quando era orgulhoso.

Fonte: Evangelho Quotidiano

sábado, 11 de novembro de 2017

«Nenhum servo pode servir a dois senhores» - Comentário ao Evangelho (11/11) por São Gregório Magno


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«Nenhum servo pode servir a dois senhores»

Querer pôr a esperança e a confiança em bens passageiros é querer fazer fundações em água corrente. Tudo passa; Deus permanece. Agarrarmo-nos ao que é transitório é desligarmo-nos do que é permanente. Quem é o homem que, levado no turbilhão agitado de um rápido, consegue manter-se firme no seu lugar, no meio dessa torrente fragorosa? Se não quisermos ser levados pela corrente, temos de nos afastar de tudo o que corre; senão, o objeto do nosso amor constranger-nos-á a chegar ao que precisamente queremos evitar. Aquele que se agarra aos bens transitórios será certamente arrastado até onde vão ter essas coisas a que se apega.

A primeira coisa a fazer é pois abstermo-nos de amar os bens materiais; a segunda, não pormos total confiança naqueles bens que nos são confiados para serem usados e não para serem desfrutados. A alma que se prende aos bens perecíveis cedo perde a sua estabilidade. O turbilhão da vida atual arrasta quem nele se deixa ir, e é uma tonta ilusão aquele que é levado nesta corrente querer manter-se de pé.

Créditos: Evangelho Quotidiano

sábado, 23 de setembro de 2017

«Quem tem ouvidos para ouvir, ouça» Comentário ao Evangelho do dia (23/09) por São João Crisóstomo


(c. 345-407), presbítero de Antioquia, bispo de Constantinopla, doutor da Igreja 
Sermão n° 44 sobre S. Mateus; PG 57, 467


«Quem tem ouvidos para ouvir, oiça»


Se a semente seca, não é devido ao calor. Jesus não disse que a semente secou por causa do calor, mas sim por não ter raiz. Se a Palavra é asfixiada, não será por causa dos espinhos, mas de quem os deixou crescer em liberdade. Ora, se quiseres, podes impedir que eles cresçam, fazendo bom uso das riquezas. É por isso que o Salvador não fala do mundo, mas dos cuidados do mundo, não fala das riquezas, mas dos cuidados com as riquezas. Por conseguinte, não acusemos as coisas em si mesmas, mas a corrupção da nossa consciência. [...] 

Não é o agricultor, como vês, não é a semente, mas a terra onde ela é recebida que explica tudo, ou seja, as disposições do nosso coração. Também aí a bondade de Deus para com o homem é imensa, dado que, longe de exigir a todos a mesma medida de virtude, acolhe os primeiros, não repudia os segundos e dá lugar aos terceiros. [...] 

É necessário, pois, começar por ouvir atentamente a Palavra, depois guardá-la fielmente na memória, em seguida encher-se de coragem, desprezar as riquezas e libertar-se do amor aos bens do mundo. Se Jesus coloca em primeiro lugar a atenção à Palavra, se a coloca antes de todas as outras condições, é porque ela é a condição fundamental. «E como hão de acreditar naquele de quem não ouviram falar?» (Rom, 10,14). Também nós, se não dermos atenção ao que nos é dito, ficaremos sem conhecer os deveres que temos de cumprir. Só depois vem a coragem e o desprezo pelos bens deste mundo. Para pôr a render estas lições, fortifiquemo-nos de todas as maneiras: estejamos atentos à Palavra, façamos crescer profundamente as nossas raízes e libertemo-nos das preocupações do mundo.

Fonte: Evangelho Quotidiano

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

"Deus convida-nos incansavelmente à conversão" - Comentário ao Evangelho do dia (20/09) por São Basílio


(c. 330-379), monge, bispo de Cesareia da Capadócia, doutor da Igreja 
«Prólogo às Regras Maiores»


Deus convida-nos incansavelmente à conversão


Irmãos, não nos deixemos ficar na indiferença e no desleixo; não adiemos sempre para amanhã ou para mais tarde, com ligeireza, o momento de pormos mãos à obra. «É este o tempo favorável, é este o dia da salvação», diz o apóstolo Paulo (2Cor 6,2). Agora é o tempo da penitência, mais tarde será o da recompensa; o presente é o tempo da perseverança, e um dia virá o da consolação. Agora, Deus vem em auxílio daqueles que se afastam do mal; mais tarde, Ele será o juiz dos atos, das palavras e dos pensamentos dos homens. Hoje, usufruímos da sua paciência; conheceremos a justiça dos seus julgamentos no momento da ressurreição, quando cada um de nós receber consoante as obras realizadas. 

Até quando adiaremos a nossa obediência a Cristo, que do seu Reino celeste nos interpela? Não desejamos a nossa purificação? Quando nos decidiremos a abandonar o tipo de vida que levamos, para seguirmos o Evangelho até ao extremo?

Fonte: Evangelho Quotidiano

terça-feira, 19 de setembro de 2017

«Jovem, Eu te ordeno, levanta-te» Comentário ao Evangelho do dia (19/09) por Santo Ambrósio



(c. 340-397), bispo de Milão, doutor da Igreja 
«Tratado sobre o Evangelho de S. Lucas», 5, 89, 91-92


«Jovem, Eu te ordeno, levanta-te»


Mesmo que os sintomas da morte tenham afastado por completo a esperança de vida, mesmo que os corpos dos defuntos jazam perto do túmulo, ainda assim, à voz de Deus, os cadáveres preparados para a decomposição voltam a erguer-se, recuperam a fala; o filho é devolvido a sua mãe, é chamado do túmulo, é arrancado ao túmulo. Qual é o teu túmulo? São os teus maus hábitos, é a tua falta de fé. É deste túmulo que Cristo te liberta, é deste túmulo que ressuscitarás, se ouvires a Palavra de Deus. Ainda que o teu pecado seja tão grave, que não consigas lavar-te a ti mesmo pelas lágrimas do arrependimento, a Igreja tua Mãe chorará por ti, ela que intervém a favor de todos os seus filhos, qual mãe viúva por seu único filho. Porque se compadece, por uma espécie de dor espiritual que lhe é natural, ao ver os seus filhos serem conduzidos à morte por pecados fatais. […] 

Que ela chore, pois, esta Mãe piedosa, e que a multidão a acompanhe; que não seja apenas uma multidão, mas uma multidão considerável, a compadecer-se desta Mãe terna. Então ressuscitarás do túmulo, dele serás libertado; os carregadores deter-se-ão, começarás a falar como um vivo e todos ficarão estupefactos. O exemplo de um só servirá para corrigir muitos, que louvarão a Deus por nos ter concedido tais remédios para evitarmos a morte.


Fonte: Evangelho Quotidiano

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Comentário ao Evangelho do dia (18/09) por Santo Agostinho


(354-430), bispo de Hipona (norte de África), doutor da Igreja 
Sermão 62

«Senhor, não mereço que entres em minha casa»


Na leitura do Evangelho, ouvimos Jesus louvar a nossa fé, associada à humildade. Quando prometeu ir a casa do centurião curar-lhe o servo, este respondeu: «Não mereço que entres em minha casa [...]. Mas diz uma palavra e o meu servo será curado». Ao considerar-se indigno, revela-se digno – digno não só de que Cristo entre em sua casa, mas também no seu coração. [...] 

Pois não teria sido para ele grande alegria se o Senhor Jesus tivesse entrado em sua casa sem entrar no seu coração. Com efeito, Cristo, Mestre de humildade pelo seu exemplo e pelas suas palavras, sentou-Se à mesa em casa de um fariseu orgulhoso chamado Simão (Lc 7,36ss.); mas, embora Se sentasse à sua mesa, não entrou no seu coração: aí, «o Filho do Homem não tinha onde reclinar a cabeça» (Lc 9,58). Pelo contrário, não entra em casa do centurião, mas entra no seu coração. [...] 

Por conseguinte, é a fé unida à humildade que o Senhor elogia neste centurião. Quando este diz: «Não mereço que entres em minha casa», o Senhor responde: «Digo-vos que nem mesmo em Israel encontrei tão grande fé». [...] O Senhor veio ao povo de Israel segundo a carne, para procurar primeiramente neste povo a sua ovelha perdida (cf Lc 15,4). [...] Nós, como homens, não podemos medir a fé dos homens. Foi Aquele que vê o fundo dos corações, Aquele a quem ninguém engana, que testemunhou como era o coração deste homem; ao ouvir as suas palavras repletas de humildade, responde-lhe com uma palavra que cura.

Fonte: Evangelho Quotidiano

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Comentário ao Evangelho do dia (12/09) por Santo Ambrósio



(c. 340-397), bispo de Milão, doutor da Igreja 
Comentário sobre S. Lucas 5, 41ss


«Passou a noite em oração a Deus.»


O Senhor não reza para pedir por Ele, mas por mim. Embora o Pai tenha posto tudo à disposição do Filho, este, para realizar plenamente a sua condição de homem, achou por bem implorar ao Pai por nós, já que é o nosso advogado. Não deis ouvidos a vozes enganadoras, imaginando que é por fraqueza que Cristo implora, para obter o que não pode realizar, Ele que é o autor de todo o poder; mas, sendo Mestre de obediência, Cristo, com o seu exemplo, molda-nos nos preceitos de virtude. Está dito que «nós temos um advogado junto do Pai» (1Jo 2,1). Se Ele é advogado, deve interceder pelos meus pecados. Portanto, não é por fraqueza, mas antes por bondade que Cristo implora. Quereis saber até que ponto Ele pode tudo o que quer? Cristo é ao mesmo tempo advogado e juiz: num reside o ofício de compaixão, no outro, a insígnia do poder. «Passou a noite em oração a Deus»: Cristo dá-vos um exemplo, traça-vos um modelo que podeis imitar. 

O que é preciso fazer para vossa salvação quando, por vós, Cristo passa a noite em oração? O que deveis fazer quando quereis começar um dever de piedade, quando o próprio Cristo, antes de enviar os seus apóstolos, rezou e rezou sozinho? Se não me engano, em parte nenhuma se encontra que Cristo tenha orado com os apóstolos; Ele ora sozinho. É que o grande desígnio de Deus não pode ser captado por desejos humanos e ninguém pode tomar parte no íntimo pensamento de Cristo. Aliás, quereis ver que foi unicamente por mim, e não por Ele, que Jesus rezou? «Chamou os discípulos e escolheu doze entre eles» para os enviar, como semeadores da fé, a propagar o auxílio e a salvação dos homens em todo o universo.

Fonte: Evangelho Quotidiano

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Comentário ao Evangelho do dia (11/09) por Santo Ambrósio



(c. 340-397), bispo de Milão, doutor da Igreja 
Comentário sobre o Evangelho de S. Lucas, V, 39


«Estava lá um homem com a mão direita paralítica.»


O Senhor impregnou com a seiva salutar das boas obras a mão que Adão estendera para colher os frutos da árvore proibida, para que, estando ressequida pelo erro, fosse então curada pelas boas obras. Naquela ocasião, Cristo ataca os seus adversários, que com falsas interpretações violavam os princípios da Lei; julgavam eles que o sábado devia ser observado como dia de descanso, não sendo permitido o trabalho, nem sequer para a realização de boas obras. Mas a Lei prefigurou no presente o aspeto do futuro onde, seguramente, será o mal a não trabalhar, não o bem [...]. 

Ouviste, pois, as palavras do Senhor: «Estende a mão.» Eis o remédio para todo o homem. E tu, que crês ter a mão sã, toma cuidado para que a avareza, o sacrilégio, não a paralise. Estende-a pois, sempre: estende-a a esse pobre que te implora auxílio, estende-a para ajudares o teu próximo, para socorreres a viúva, para arrancares da injustiça aquele que vês submetido a imerecida vexação; estende-a a Deus, pelos teus pecados. Assim se deve estender a mão; e assim ela será curada.

Fonte: Evangelho Quotidiano

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Natividade de Nossa Senhora - Comentário ao Evangelho do dia (08/09) por São João Damasceno



(c. 675-749), monge, teólogo, doutor da Igreja 
Homilia sobre a Natividade da Virgem


«Exultemos de alegria no Senhor, ao celebrar o nascimento da Virgem Santa Maria, da qual nasceu o Sol da Justiça» (antífona de entrada)

Hoje aproxima-se de nós uma porta virginal; por ela, o Deus que está para além de todos os seres vem ao mundo «corporalmente», na expressão de Paulo (Heb 1,6; Col 2,9). Hoje, da raiz de Jessé sai um rebento (Is 11,1), de onde se elevará para o mundo uma flor, unida à divindade pela sua natureza, Hoje, a partir da natureza terrena, Aquele que outrora tornou sólido o firmamento, separando-o das águas e elevando-o nas alturas, formou um céu na Terra. Mas é um céu bem mais surpreendente que o primeiro, porque Aquele mesmo que, no primeiro, criou o sol ergueu-Se neste novo céu como Sol de Justiça (Mal 3,20). [...] A luz eterna, nascida da luz eterna antes de todos os séculos, o ser imaterial e incorpóreo, toma corpo desta mulher e sai como esposo da sua câmara nupcial (Sl 18,6). [...] 

Hoje, «o filho do carpinteiro» (Mt 13,55), a Palavra presente e ativa daquele que tudo fez por Si mesmo, o braço poderoso do Deus Altíssimo [...] construiu para Si uma escada viva, cuja base assenta na terra e cujo cimo se eleva até ao céu. Deus repousa nela; foi a sua imagem que Jacob contemplou (Gn 28,12); por ela Deus, desceu na sua imobilidade, ou antes, inclinou-Se com condescendência, «tornou-Se visível na terra e conversou com os homens» (Bar 3,38). Porque estes símbolos representam a sua vinda cá abaixo, a sua descida por pura graça, a sua existência terrena, o verdadeiro conhecimento que dá de Si mesmo aos que estão neste mundo. A escada espiritual, a Virgem, está plantada na terra, porque na terra tem a sua origem, mas a sua cabeça eleva-se até ao céu. [...] Foi por ela e pelo Espírito Santo que «o Verbo Se fez carne e habitou entre nós» (Jo 1,14). Foi por ela e pelo Espírito Santo que se realizou a união de Deus com os homens.

Fonte: Evangelho Quotidiano

Comentário ao Evangelho do dia (07/09) por Santo Antônio de Lisboa



(c. 1195-1231), franciscano, doutor da Igreja 
Sermões para o Domingo e as festas dos santos


«Não temas. Daqui em diante serás pescador de homens.»

«Já que o dizes, lançarei as redes.» É por indicação da graça celeste, por inspiração sobrenatural, que se deve lançar a rede da pregação. Senão, é em vão que o pregador lança as linhas das suas palavras. A fé dos povos não se obtém através de discursos sabiamente compostos, mas pela graça da vocação divina. [...] Ó frutuosa humildade! Quando aqueles que até aí não tinham pescado nada confiam na palavra de Cristo, apanham uma multidão de peixes. [...] 

«Já que o dizes, lançarei as redes.» Cada vez que por mim próprio as lancei, quis guardar o que me pertencia. Fui eu que pesquei e não Tu, foram as minhas palavras e não as tuas. Por isso não pesquei nada. Ou, se pesquei qualquer coisa, não foi peixe, mas rãs, prontas a espalhar lisonjas sobre mim. [...] 

«Já que o dizes, lançarei as redes.» Lançar a linha por ordem de Jesus é atribuir-Lhe tudo e não guardar nada para si mesmo: é viver em conformidade com o que se pesca. Nessa altura, apanhamos uma grande quantidade de peixes.

Fonte: Evangelho Quotidiano

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Comentário ao Evangelho do dia (12/06) feito por São João Crisóstomo



(c. 345-407), presbítero de Antioquia, bispo de Constantinopla, doutor da Igreja 
Homilia sobre a Segunda carta aos Coríntios


«Alegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa.»

Só os cristãos estimam as coisas pelo seu verdadeiro valor, não tendo os mesmos motivos para se regozijarem e se entristecerem que o resto dos homens. À vista de um atleta ferido, levando na cabeça a coroa de vencedor, quem nunca praticou um desporto considera somente as feridas que fazem sofrer aquele homem e não imagina a felicidade que lhe proporciona a sua recompensa. Assim fazem as pessoas de quem falamos: sabem que sofremos provações, mas ignoram porque as suportamos e só consideram os nossos sofrimentos; veem as lutas nas quais estamos envolvidos e os perigos que nos ameaçam, mas as recompensas e as coroas permanecem-lhes ocultas, não menos que a razão dos nossos combates. Como afirma S.Paulo: «Creem que nada temos, e nós possuímos tudo» (2Cor 6,10). [...] 

Por causa dos que nos olham, quando somos submetidos a provações por amor a Cristo, suportemo-las corajosamente, mais ainda, com alegria: se jejuamos, espelhemos alegria, como se estivéssemos em delícias; se nos ultrajam, dancemos alegremente como se estivéssemos a ser cumulados de elogios; se sofremos algum mal, consideremo-lo um ganho; se damos alguma coisa a um pobre, persuadamo-nos de que recebemos. [...] Antes de tudo, lembra-te de que combates pelo Senhor Jesus. Assim, entrarás na luta com gosto e viverás sempre na alegria, porque nada nos torna mais felizes que uma boa consciência.

Fonte: Evangelho Quotidiano

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Ninguém se salva a não ser por meio de Maria - Santo Afonso de Ligório




Maria Santíssima esmaga a cabeça da Serpente, protegendo a todos os seus filhos devotos.
Jesus foi o fruto de Maria, como diz Santa Isabel. Quem quer o fruto deve também querer a árvore. Quem, pois, quer a Jesus, deve procurar Maria; e quem acha Maria, certamente acha também Jesus.


Uma sentença de S. Bernardo diz: Cooperaram para nossa ruína um homem e uma mulher. Convinha, pois, que outro homem e outra mulher cooperassem para nossa reparação. E estes foram Jesus e Maria, sua Mãe. Não há dúvida, diz o Santo, Jesus Cristo, só, foi suficientíssimo para remir-nos. Mais conveniente era, entretanto, que para nossa reparação servissem ambos os sexos, assim como haviam cooperado ambos para nossa ruína. Pelo que S. Alberto chamou a Maria cooperadora da redenção. A própria Virgem revelou a S. Brígida que assim como Adão e Eva por um pomo venderam o mundo, assim também ela e seu Filho com um coração o resgataram. Do nada pôde Deus criar o mundo, observa S. Anselmo, mas não quis repará-lo sem a cooperação de Maria.

De três modos, explica o Padre Suárez, cooperou a divina Mãe para a nossa salvação. Primeiro, merecendo com merecimento de côngruo a Encarnação do Verbo. Segundo, rogando muito a Deus por nós, enquanto esteve no mundo. Terceiro, sacrificando com boa vontade a Deus a vida do Filho para nossa salvação. Tendo, pois, Maria cooperado para a redenção com tanto amor pelos homens e tanto zelo pela glória divina, com razão determinou o Senhor que todos nos salvemos por intermédio de sua intercessão.

Maria é chamada cooperadora de nossa justificação, diz Bernardino de Busti, porque Deus lhe entregou as graças todas que nos quer dispensar. Por isso, no dizer de S. Bernardo, todas as gerações, passadas, presentes e futuras, devem considerar Maria como medianeira e advogada da salvação de todos os séculos.

Garante-nos Jesus Cristo que ninguém pode vir a ele, a não ser que o Pai o traga. "Ninguém pode vir a mim, se o Pai não o atrair" (Jo 6, 44). O mesmo também, no sentir de Ricardo de S. Lourenço, diz Jesus de sua Mãe. Ninguém pode vir a mim, se minha Mãe o não atrair com suas preces. Jesus foi o fruto de Maria, como diz S. Isabel (Lc 1, 42). Quem quer o fruto deve também querer a árvore. Quem, pois, quer a Jesus, deve procurar Maria; e quem acha Maria, certamente acha também Jesus. Vendo Isabel a Santíssima Virgem que a fora visitar em sua casa, e não sabendo como lhe agradecer, exclamou cheia de humildade: E donde a mim esta dita, que venha visitar-me a Mãe do meu Senhor? (Lc 1, 43). Mas como assim pergunta? Não sabia já Isabel que não só Maria, como também Jesus tinha vindo a sua casa? Por que, pois, se declara indigna de receber a Mãe, em vez de confessar-se indigna de ver o Filho vir a seu encontro? Ah! é porque bem entendia a Santa que Maria vem sempre com Jesus e que, portanto, lhe bastava agradecer à Mãe sem nomear o Filho.

No livro dos Provérbios (31, 14), diz-se da mulher prudente: Fez-se como a nau do negociante, que traz de longe o seu pão. Maria foi esta ditosa nau, que do céu nos trouxe Jesus Cristo, pão vivo descido do céu para dar-nos a vida eterna, como ele diz: Eu sou o pão vivo, que desci do céu; se alguém comer deste pão, viverá eternamente (Jo 6, 51). Daí conclui Ricardo de S. Lourenço que no mar deste mundo todos se perdem, quantos não se tiverem recolhido a esta nau, isto é, que não forem protegidos de Maria. Sempre, portanto, continua ele, que estivermos em perigo de nos perdermos pelas tentações ou paixões desta vida: urge recorrer a Maria, clamando: Depressa, Senhora, ajudai-nos, salvai-nos, se não quereis ver-nos perdidos. E note-se aqui, de passagem, que o sobredito autor não se faz escrúpulo de dizer a Maria: Salvai-nos que perecemos! Não imita, por conseguinte, o autor mencionado no parágrafo anterior, o qual nos proíbe que peçamos à Virgem salvação, porquanto no seu parecer só de Deus devemos esperá-la. Bem pode um condenado à morte dizer a algum valido do rei que o salve, pedindo ao príncipe indulto para a sua vida. Mas por que então não poderemos nós dizer à Mãe de Deus que nos salve, impetrando-nos a graça da vida eterna? S. João Damasceno sem dificuldade dizia à Virgem Santíssima: Rainha pura e imaculada, salvai-me, livrai-me da condenação eterna! S. Boaventura saúda-a como "salvação dos que a invocam". A Santa Igreja aprova o chamar-lhe "saúde dos enfermos". E teremos nós escrúpulos de pedir-lhes que nos salve, quando um escritor afirma que ninguém se salva senão por ela? E já antes deles, S. Germano afirmou "que ninguém se salva a não ser por meio de Maria".

Da obra Glórias de Maria (I, 5), de Santo Afonso Maria de Ligório,
3. ed. Aparecida: Santuário, 1989, pp. 141-143.

Créditos: padrepauloricardo.org

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Comentário ao Evangelho do dia (12/04) por Santo Agostinho

(354-430), bispo de Hipona (norte de África), doutor da Igreja 
Sermões sobre o evangelho de João, n.° 27, § 10


Deus tira do mal o bem e da injustiça a justiça


«Não vos escolhi Eu a vós, os Doze? Contudo, um de vós é um diabo» (Jo 6,70). O Senhor devia dizer: «Escolhi onze de vós»; terá ele escolhido um demónio, haveria um demónio entre os eleitos? [...] Diremos nós que, ao escolher Judas, o Salvador quis cumprir, através dele e contra sua vontade, sem que ele soubesse, uma obra tão grande e tão boa? Isto é próprio de Deus [...]: fazer que as más obras dos maus sirvam o bem [...]. O mau faz que todas as boas obras de Deus sirvam o mal; o homem de bem, ao contrário, faz que as más ações dos maus sirvam o bem. Haverá alguém tão bom quanto o Deus único? O próprio Senhor diz: «Ninguém é bom senão um só: Deus» (Mc 10,18) [...] 

Haverá quem seja pior do que Judas? De entre os discípulos do Mestre, de entre os Doze, foi ele o escolhido para guardar a bolsa e prover aos pobres (Jo 13,29). Mas depois de tal dom, é ele quem recebe dinheiro para entregar Aquele que é a Vida (Mt 26,15); perseguiu como inimigo Aquele a quem tinha seguido como discípulo [...]. Mas o Senhor fez que tão grande crime servisse o bem. Aceitou ser traído para nos resgatar: eis como o crime de Judas se transmuta em bem. 

Quantos mártires terá Satanás perseguido? Mas, se não o tivesse feito, não celebraríamos hoje o seu triunfo [...]. O mau não pode contrariar a bondade de Deus. Ainda que Satanás seja um artesão do mal, o supremo Artesão não permitiria a existência do mal se não soubesse servir-Se dele para que tudo concorra para o bem.

Fonte: Evangelho Quotidiano

terça-feira, 11 de abril de 2017

Comentário ao Evangelho do dia (11/04) feito por São Leão Magno



(?-c. 461), papa, doutor da Igreja 
Sermão 3 sobre a Paixão, 4-5


«Eram os nossos sofrimentos que Ele levava sobre si» (Is 53,4)


O Senhor revestiu-Se de uma grande fraqueza, para cobrir a nossa inconstância com a firmeza da sua força. Ele veio do Céu a este mundo como um mercador rico e generoso e, através de uma troca admirável, concluiu um negócio: tomando o que era nosso, concedeu-nos o que era seu; pelo que fazia a nossa vergonha, deu a sua honra, pelas dores a cura, pela morte a vida. [...] 

O santo apóstolo Pedro foi o primeiro a fazer a experiência de quanto essa humildade foi proveitosa para todos os crentes. Abalado pela tempestade violenta da sua perturbação, voltou a si por uma mudança brusca, e recuperou a sua força: encontrara remédio no exemplo do Senhor. [...] O servo, com efeito, não podia ser maior que o seu senhor, nem o discípulo que o seu mestre (Mt 10,24); e ele não teria podido vencer o tremor da fragilidade humana se o vencedor da morte não tivesse tremido primeiro. O Senhor olhou, portanto, para Pedro (Lc 22,61); no meio das calúnias dos sacerdotes, das mentiras das testemunhas, das injúrias dos que Lhe batiam e escarneciam dele, encontrou o seu discípulo, abalado por esses olhos que haviam visto antecipadamente a sua perturbação. A Verdade penetrou-o com o seu olhar, chegando aonde o seu coração precisava de ser curado. Foi como se a voz do Senhor se tivesse feito ouvir para lhe dizer: «Aonde vais, Pedro, porque foges? Vem a Mim, confia em Mim e segue-Me. Este é o tempo da minha Paixão, a hora do teu suplício ainda não chegou. Porque temes agora? Também tu o ultrapassarás. Não te deixes desconcertar pela fraqueza que assumi. Por causa do que tomei de ti é que tremi, mas tu não tenhas medo por causa do que vês em Mim».

Fonte: Evangelho Quotidiano

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Comentário do Evangelho do dia (10/04) por São João Crisóstomo



(c. 345-407), presbítero de Antioquia, bispo de Constantinopla, doutor da Igreja 
Homilia 15 sobre a Carta aos Romanos; PG 60, 543-548

«Pobres, sempre os tereis convosco»

O Pai não poupou o seu próprio Filho (Rom 8,32); e tu não dás sequer um bocado de pão Àquele que foi entregue e imolado por ti. Por ti, o Pai não O poupou; e tu passas com desprezo ao lado de Cristo que tem fome, enquanto vives dos benefícios que Ele te conquistou. [...] Ele foi entregue por ti, imolado por ti, vive em necessidade por ti e quer que a tua generosidade seja vantajosa para ti; mesmo assim, tu não dás. Haverá pedras tão duras como o vosso coração quando tantas razões o interpelam? Não bastou a Cristo sofrer a morte e a cruz; Ele quis ainda tornar-Se pobre, mendigo e nu, ser metido na prisão (Mt 25,36), a fim de que ao menos isso te tocasse: «Se nada me dás pelas minhas dores», diz-nos, «tem piedade de Mim por causa da minha pobreza. Se não queres ter piedade de Mim por casa da minha pobreza, que seja a minha doença a vergar-te, que sejam as minhas correntes a enternecer-te. E, se isso não te toca, consente ao menos por causa da pequenez do pedido. Não te peço coisas difíceis; peço-te pão, um teto e umas palavras de amizade. [...] Estive preso por ti e continuo a estar, a fim de que, comovido com as minhas cadeias do passado ou com as do presente, tu queiras ser misericordioso para comigo. Passei fome por ti, e continuo a passar. Tive sede quando estava suspenso da cruz e continuo a ter sede pelos pobres, a fim de te atrair a Mim dessa maneira, e te salvar». [...] 

Com efeito, Ele diz: «Quem recebe um destes pequeninos, a Mim recebe (Mc 9,37) [...] Podia coroar-te sem isso, mas quero tornar-Me teu devedor, a fim de que uses a coroa com segurança. É por isso que, podendo alimentar-Me a Mim próprio, ando a mendigar dum lado para o outro, Me coloco à tua porta e te estendo a mão. É por ti que quero ser alimentado, porque te amo ardentemente. A minha felicidade consiste em estar sentado à tua mesa.»

Fonte: Evangelho Quotidiano

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Comentário ao Evangelho (06/04) por Santo Ambrósio


Comentário do dia 
Santo Ambrósio (c. 340-397), bispo de Milão, doutor da Igreja 
Abraão, Livro I, 19-20

«Abraão, vosso pai, exultou por ver o meu dia»

Consideremos a recompensa que Abraão pede ao Senhor. Não Lhe pede riquezas, como um avaro, nem vida longa, como quem teme a morte, nem poder, mas um digno herdeiro do seu trabalho. «Que me dareis, Senhor Deus, vou-me sem filhos» (Gn 15,2). […] Agar deu à luz um filho, Ismael, mas Deus diz-lhe: «Não é ele que será o teu herdeiro, mas aquele que sairá das tuas entranhas» (Gn 15,4). De quem fala Ele? Não se trata de Ismael, mas de Santo Isaac. […] Em Isaac, filho legítimo, podemos ver o verdadeiro Filho legítimo, o Senhor Jesus Cristo, que, no começo do evangelho de São Mateus, é chamado filho de Abraão (Mt 1,1). Ele mostrou ser um verdadeiro filho de Abraão, fazendo resplandecer a descendência do seu antepassado; foi graças a Ele que Abraão, olhando para o céu, viu brilhar a sua posteridade como as estrelas (Gn 15,5). O apóstolo Paulo afirma: «Uma estrela difere da outra em resplendor. Assim também é a ressurreição dos mortos» (1Cor 15,41-42). Ao associar à sua ressurreição os homens que a morte mantinha na terra, Cristo fê-los participar no reino dos céus. 

A filiação de Abraão apenas se propagou pela herança da fé, que nos prepara para o céu, nos aproxima dos anjos, nos eleva até às estrelas. Disse Deus: «"Será assim a tua descendência." Abraão confiou no Senhor» (Gn 15,5-6). Ele acreditou que, pela sua encarnação, Cristo seria seu herdeiro. Para to fazer compreender, o Senhor afirmou: «Abraão exultou por ver o meu dia.» Deus considerou-o justo porque ele não pediu explicações, antes acreditou sem a menor hesitação. É bom que a fé se sobreponha às explicações, pois de outro modo parecia que estávamos a exigi-las ao Senhor nosso Deus, como quem as exige a um homem. Que inconveniência, acreditar nos homens quando eles dão testemunho de outro, e não acreditar em Deus, quando fala de Si! Imitemos, pois, Abraão, para herdarmos o mundo pela justificação da fé, que o tornou a ele herdeiro da terra.

Fonte: Evangelho Quotidiano
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