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quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Por que choras, Menino bom? - Por São João de Ávila, sermão de Natal.


 Por São João de Ávila, sermão de Natal.
Pregado no dia de Santo Estevão (26 de dezembro)
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O Menino chora na estreiteza do estábulo. Por que choras, Menino bom? Estará aqui presente algum grande pecador que trema quando Deus lhe disser: – “Onde estás?”? Que grande mal tê-lo ofendido muito, lembrar-se de vinte anos de grandes ofensas! Que resposta darás quando Deus te interpelar?
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Assim como tu tremes, tremiam os irmãos de José quando este lhes disse: “Eu sou José, vosso irmão, que vós vendestes (Gên 45, 4). E eles pensaram: “Infelizes de nós! Ele agora é Rei. Há de querer matar-nos, tem motivos e pode fazê-lo”. Tremiam.
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É o pecador que treme por ter ofendido a Deus. Ofendestes a Deus e por isso tendes razão em tremer. Convido os que estão em erro, os que têm a consciência pesada e os grandes pecadores a ir até à manjedoura ver o Menino chorar.
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Por que chorais, Senhor? Os irmãos daquele José não ousavam aproximar-se dele, até que o viram chorar: “Eu sou vosso irmão, aproximai-vos, não tenhais medo. José levanta a voz, chora e, não contente com isso, conforme diz a Sagrada Escritura, beijou em seguida a cada um dos seus irmãos, chorando com todos eles (Gên 45, 15), e os irmãos pediram-lhe perdão.
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- “Não tenhais receio (Gên 45, 5)” – dizia-lhes ele -, “vendestes-me por maldade, mas, seu não tivesse vindo para cá, todos morreríeis de fome. Deus tira dos males o bem”.
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Menino, por que chorais? – “Para que os pecadores compreendam que, embora tenham pecado, devem aproximar-se de Mim sem temor, se se arrependerem de ter-Me ofendido”.
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O Menino chora de ternura e amor. Bendito Menino! Quem Vos colocou nessa manjedoura senão o amor que tendes por mim? Fomos maus e ingratos, como contra o nosso irmão José. Vendemo-lO. Um disse: – “Prefiro cometer uma maldade a ficar com Cristo”. Outro disse: – “Prefiro um prazer da carne a Ele”. Vendemos o nosso Irmão, traí-mo-lO.
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E José, o santo, convida-nos a aproximar-nos da manjedoura e a ouvir esse choro causado por cada um de nós. Se olhásseis para esse Menino com os olhos limpos, se adentrásseis na Sua alma, encontraríeis uma inscrição que vos diria: “Estou chorando por ti”, pois desde a concepção Ele teve conhecimento divino e conhecia todos os nosso pecados e chorava por eles.
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E se está chorando pelos nossos pecados, que pecador não sentirá confiança, se quiser corrigir-se? Há algo no mundo que inspire mais confiança do que ver Cristo numa manjedoura, chorando pelos nossos pecados?
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Por que chorais? Que fazeis, Senhor? – “Começo a fazer penitência pelo que tu fizeste”. Pois bem, que fará um cristão que olhe com olhos de fé para Cristo que chora pelos seus pecados? Ai de mim, porque tarde Vos conheci, Senhor! Ai de mim por tantos anos perdidos sem Vos conhecer! Quem se deixará dominar pela tibieza ao ver Deus humanado chorar?

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Santa Edith Stein, O Mistério do Natal, Parte 3.3





3.3 - SEJA FEITA A TUA VONTADE
Com isto estamos tocando no terceiro sinal
da filiação divina: Ser um com Deus, foi o primeiro. Que
todos sejam um em Deus, foi o segundo. O terceiro:
Nisto reconheço que vós me amais, se observardes os
meus mandamentos”.
Ser filho de Deus significa: andar apoiado na
mão de Deus, na vontade de Deus; não fazer a vontade
própria, colocar todo cuidado e toda a esperança
nas mãos de Deus, não se preocupar consigo e com seu
futuro. Nisto consiste a liberdade e a alegria dos filhos
de Deus. Tão poucos as possuem, mesmo entre os
realmente piedosos, mesmo entre os heroicamente dispostos
ao sacrifício. Sempre andam encurvados sob o
peso dos cuidados e obrigações.
Todos conhecem a parábola dos pássaros do
céu e dos lírios do campo. Mas quando encontram uma
pessoa que não tem herança, nem pensão e nem seguro
e, mesmo assim, vive tranqüilo quanto ao seu futuro,
aí meneiam a cabeça como se fosse algo incomum.
Contudo, quem esperar do Pai do céu, que
cuide a toda hora de seu dinheiro e da condição de
vida que ele gostaria de ter, por certo, vai se enganar.
A confiança em Deus vai se firmar inabalavelmente,
quando incluir a disposição de aceitar tudo das mãos
do Pai. Pois, somente Ele sabe o que é bom para nós.
E, se a necessidade e a privação forem mais convenientes
do que uma renda folgada e segura, ou insucesso e
humilhação, melhor do que honra e reputação, então
se deve estar preparado para isso. Se assim fizermos,
podemos viver despreocupados com o futuro e com o O “seja feita a vossa vontade”, em toda a sua amplitude, deve ser o fio condutor da vida cristã. Ele
deve nortear o correr do dia, da manhã até a noite, o
correr do ano e de toda a vida. Será a única preocupação
do cristão. Todos os outros cuidados, o Senhor assume.
Mas, esta única preocupação pertence a nós, enquanto
vivermos. Objetivamente, não somos definitivamente
firmes para permanecermos sempre nos caminhos
de Deus. Assim como os primeiros pais perderam
a filiação divina pelo distanciamento de Deus,
assim cada um de nós está sempre entre o nada e a
plenitude da vida divina. Mais cedo ou mais tarde isto
se torna também uma experiência subjetiva. No começo
da vida espiritual, quando começamos a nos entregar
à direção de Deus, é que sentimos bem forte e
firme a mão que nos conduz; de forma clara aparece
para nós, o que devemos fazer ou deixar de fazer. Mas
isto não é sempre assim. Quem pertence a Cristo,
deve viver a vida de Cristo. Deve-se amadurecer até à
idade adulta de Cristo, ele deve iniciar a via-sacra para
o Getsêmane e o Gólgota. E todos os sofrimentos que
vêm de fora, são nada comparados com a noite escura
da alma, quando a luz divina cessa de clarear e a voz
do Senhor se cala. Deus está presente, porém, escondido
e silencioso. Por que acontece isto? São os mistérios
de Deus, dos quais falamos, ele não se deixa penetrar
completamente. Só podemos vislumbrar algumas
facetas desse mistério e, por isso, Deus se fez homem;
para voltar e fazer-nos participar da sua vida. Esse é o
começo e a meta final. Mas, no meio se encontra ainda
outra coisa. Cristo é Deus e homem e, quem quer partilhar
a sua vida, deve fazer parte de sua vida divina e
humana. A natureza humana que Ele aceitou, deu-lhe
a possibilidade de sofrer e morrer; a natureza divina,
que Ele possui desde toda a eternidade, deu à sua paixão e morte um valor infinito e uma força redentora.
A paixão e morte de Cristo continuam no seu corpo
místico e em todos os seus membros. Todo homem
tem que sofrer e morrer. Porém, se ele for membro
vivo no corpo de Cristo, então, o seu sofrimento e sua
morte adquirem pela divindade de seu corpo, força
salvadora. Esta é a causa objetiva por que todos os santos
desejam sofrer. Não se trata de um prazer doentio
de sofrer. Aos olhos da razão natural, isto pode parecer
perversidade. À luz do mistério da redenção, contudo,
isto se revela de maneira sublime. E assim a pessoa -
ligada - a Cristo, mesmo na noite escura do distanciamento
subjetivo de Deus e abandono, persistirá; talvez
a divina providência permita o tormento, para libertar
a pessoa objetivamente aprisionada. Por isto:
“Seja feita a Vossa vontade”, mesmo quando na noite
mais escura.

Santa Edith Stein, O Mistério do Natal, Editora da Universidaade do Sagrado Coração

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Vigília da Natividade


S. Boaventura, Bispo
O que nela foi concebido é do Espírito Santo (Mt 1,20).
Embora não se possa encontrar na natureza exemplo adequado para o que é acima da natureza, contudo vemos de modo diverso originar-se o esplendor da luz, o broto da vide, a flor da haste da árvore.
O raio se origina da luz, que é da mesma natureza, mas não dizemos que a luz sejam raios e vice-versa; assim, é o Filho, do Pai, dado que é substancial ao Pai, mas nem o Filho é o Pai, nem o Pai é o Filho. Por isso é que, relembrando a Igreja essa gloriosa natividade, canta: Ó Oriente, esplendor da luz eterna. (Antífona do Advento).
Nasce o broto na vide por isso que a fecunda e vitaliza, mas não a abre nem a viola, nem lhe altera a integridade. Assim nasce Deus na virgem a ponto de a cumular, fecundar, santificar, mas sem a dilacerar, sem a violar, sem a macular. Por isso, ao comparar o que dela nasceu ao broto, diz o Senhor pelo Profeta: "A Davi suscitarei rebento justo; (Jer 23,5) e, vós, ó céus, lá do alto orvalhai, e chovam as nuvens o justo; abra-se a terra e brote o Salvador. (Is 45,8).

Origina-se a flor do ramo ou da árvore, de modo que nem altera o ramo mas o melhora: nem o dilacera, senão que o adorna. Assim nasceu da Virgem, não abrindo nem alterando, pois essa porta será fechada para sempre, não se abrirá e varão não passará por ela (Ez 44,2), diz Ezequiel, mas fecundando e ornando. Por isso se compara seu nascimento ao desabrochar da flor: Sairá haste da raiz de Jessé e uma flor se desprenderá dela. (Is 11,1).
Assim, pois, o dela nascido, nasceu de Deus Pai, antes de estar no ventre, assim como o esplendor, da luz; nascido do ventre da Virgem Mãe, assim como o broto, da videira; nascido também do ventre, assim como a flor nasce do ramo, da haste ou da árvore.
No primeiro nascimento, nasceu e sempre nasce de seu Pai, segundo a natureza divina; no segundo e no terceiro, nasceu da Virgem Mãe, segundo a natureza humana; no segundo e no terceiro, se nos mostrou na terra para remédio; o primeiro se nos reserva no céu, como prêmio. O segundo nascimento se refere ao dia da presente solenidade, em que lemos acerca de seu nascimento; o terceiro diz respeito ao da solenidade de amanhã, em que cantamos: Nasceu-nos um menino; o primeiro se refere ao dia da eterna solenidade.
S. Boaventura, Vigília da Natividade, Ofício Marial.
 
Fonte: Blog GRAA

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Santa Edith Stein, O Mistério do Natal- (Parte III) : O Corpo Místico de Cristo



 
3.1 - SER UM COM DEUS
Para onde o Menino-Deus nos conduzirá nesta
terra, isto não sabemos e não deveríamos perguntar
antes do tempo. Só sabemos que para aqueles que
amam o Senhor, todas as coisas servem para o bem. Os
caminhos pelos quais o Senhor nos conduz, levam-nos
para além desta terra.
Ó troca maravilhosa! O criador do gênero humano
encarnando-se, concede-nos a sua divindade. Por
causa desta obra maravilhosa o Redentor veio ao mundo.
Deus se tornou Filho do homem, para que os homens
se tornassem filhos de Deus. Um de nós rompeu
o laço da filiação divina, e um de nós devia reatar o
laço, pagando pelo pecado. Nenhum da antiga e enferma
raça podia fazê-lo. Devia ser um rebento novo, sadio
e nobre. Tornou-se um de nós e, mais do que isto:
unido conosco. O maravilhoso no gênero humano é
que todos somos um. Se fosse diferente, estaríamos
lado a lado, como indivíduos autônomos e separados, e
a queda de um não poderia ter se tornado a queda de
todos. Podia ter sido pago e atribuído a nós o preço da
expiação, mas não teria passado a sua justiça para os
pecadores, e não teria sido possível nenhuma justificação.
Mas Ele veio, para tornar-se conosco um corpo
místico. Ele, nossa cabeça, nós, os seus membros. Po-nhamos nossas mãos nas mãos do Menino-Deus, pronunciando
o nosso “Sim” ao seu “Siga-me”. Então, nos
tornamos Seus, e o caminho está livre, para que a sua
vida divina possa passar para a nossa.
Isto é o começo da vida eterna em nós. Não é
ainda a visão beatífica de Deus na luz da glória, é ainda
escuridão da fé, mas não é mais deste mundo, já é
estar no Reino de Deus. Quando a bem-aventurada
Virgem pronunciou o seu “Fiat”, aí começou o Reino
de Deus na terra e ela se tornou a sua primeira serva.
E todos, que antes e depois do nascimento da criança,
por palavras e obras, se declararam a seu favor: São
José, Santa Isabel com seu filho e todos os que estavam
ao redor do presépio, entraram no Reino de
Deus.
Tornou-se diferente do que se pensou, conforme
os salmos e profetas o reinado do divino rei. Os romanos
continuaram os dominadores da terra, os sumo sacerdotes
e os doutores da lei continuaram a subjugar o
povo pobre.
De forma invisível, cada um, que pertencia ao
Senhor, trazia o Reino de Deus em si. O seu fardo terreno
não lhe foi tirado, e sim outros fardos acrescentados;
mas, o que ele trazia dentro de si, era uma força
animadora, fazendo o fardo suave e a carga leve. Assim
acontece ainda hoje com os filhos de Deus. A vida divina,
acesa em sua alma, é a luz que veio nas trevas, o
milagre da noite santa. Quem traz esta luz dentro de
si, compreende quando se fala dela. Para os outros, porém,
tudo o que se pode dizer a respeito, é um balbuciar
incompreensível. Todo o evangelho de São João é
um canto à luz eterna, que é amor e vida. Deus está
em nós e nós nele, esta é a nossa parte no reino de
Deus, para a qual a Encarnação colocou o alicerce.


3.2 - SER UM EM DEUS
Ser um com Deus: este é o primeiro passo. Mas,
o segundo é a conseqüência do primeiro. Cristo sendo
a cabeça e nós membros do corpo místico, estamos
unidos elo a elo, todos somos um em Deus, uma única
vida divina. Se Deus é Amor e está em nós, então não
pode ser diferente o nosso amor para com os irmãos.
Por isto o amor humano é a medida do nosso amor a
Deus. Mas, é algo mais do que o simples amor humano.
O amor natural se dirige a um outro, ligado pelos
laços do sangue ou por afinidades de caráter ou por interesses
comuns. Os outros são “estranhos”, que “não
nos importam”, talvez até por seu jeito antipático, de
forma que mantemos a devida distância. Para o cristão
não existe “gente estranha”. Próximo é aquele que encontramos
em nosso caminho e que mais necessita de
nós; indiferentemente, se é parente ou não, se a gente
gosta dele ou não, se ele é “moralmente digno” da
nossa ajuda ou não. O amor de Cristo não tem limites,
ele nunca termina, ele não recua diante da feiura ou
sujeira. Ele veio por causa dos pecadores e não por
causa dos justos. E se o amor de Cristo mora em nós,
então, façamos como Ele, indo ao encontro das ovelhas
perdidas.
O amor natural visa a ter a pessoa amada para
si, possuindo-a de forma mais exclusiva. Cristo
veio, para devolver ao Pai a humanidade perdida;
e quem ama com seu amor, este quer os homens
para Deus e não para si. Este é, ao mesmo
tempo, o caminho mais seguro para possuí-las
para sempre; pois, se amamos uma pessoa em
Deus, então somos com ela um em Deus, enquanto que o vício da conquista muitas vezes -
mais cedo ou mais tarde - sempre resulta em
perda.
Há um princípio válido para todas as almas e
para os bens exteriores: quem, ambiciosamente,
se ocupa em ganhar e apropriar, perde; porém,
aquele que tudo oferece a Deus, ganha para
sempre.

 Fonte: Santa Edith Stein, O Místério do Natal, Editora da Universidade doSagrado Coração 

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