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sábado, 5 de abril de 2014
Conselho de Santa Catarina de Sena sobre a Santa Paciência
"Deveremos afirmar, então, que nenhum sofrimento é grande? De modo algum. E se a sensualidade se revoltar, lembremos-lhe: 'Atenção, pois o fruto da impaciência é o castigo eterno, que receberás no dia do juízo. É melhor para ti querer o que Deus quer, amar o que Ele ama, ao invés de querer o que preferes e amar o que agrada à sensualidade. Quero que suportes virilmente a dor, já que os sofrimentos desta vida não têm comparação com a glória futura, preparada por Deus aos que o temem (Rom. VIII, 18; ICor. II, 9) e cumprem sua vontade".
Santa Catarina de Sena. Carta 5. Para Francisco de Montalcino.
Fonte: Blog São Pio V
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
Santa Catarina de Siena, Carta 23: sobre a parábola do Evangelhode São Mateus
Belíssimo comentário de Santa Catarina sobre a parábola do Evangelho de São Mateus (Mt 25)
Carta 23
à sobrinha Nanna
Saudação e objetivo
Em nome de
Jesus Cristo crucificado e da amável Maria, caríssima filha no doce
Cristo Jesus, eu, Catarina, serva e escrava dos servos de Jesus Cristo,
escrevo-te no seu precioso sangue, desejosa de ver-te verdadeira esposa
de Cristo crucificado, a evitar tudo o que te impeça de ter Jesus como
bondoso e sublime esposo.
Nosso coração é como uma lâmpada
Pois tal
coisa não conseguiras, se não fores como aquelas virgens prudentes (Mt
25), consagradas a Cristo, que possuíam lâmpadas, óleo e luz. Presta
atenção. Para ser esposa de Cristo, e preciso ter uma lâmpada, o óleo e a
luz. Sabes, minha filha, o significado dessas coisas?
A lâmpada
significa o coração, o qual tem a forma de uma lâmpada. Bem sabes que a
lâmpada é larga no alto e estreita embaixo. Também nosso coração é
assim, para indicar que devemos possuí-lo espaçoso, em cima, para os
bons pensamentos, as santas imaginações e a oração contínua, retendo na
memória, continuamente, os favores divinos, sobretudo os benefícios do
sangue com que fomos remidos. Minha filha! O bondoso Jesus não nos
resgatou a preço de ouro, prata, pérolas e demais pedras preciosas, mas
com seu sangue. Tal favor nunca deve ser esquecido, sempre terá de estar
diante do nosso olhar com santa e terna gratidão, pois e incomensurável
o amor de Deus por nós. Deus Pai não recusou entregar seu Filho único a
uma cruel morte na cruz para nos dar a vida da graça.
Eu disse que
a lâmpada é estreita embaixo. Também nosso coração deve sê-lo em
relação às realidades terrenas. O coração não pode desejar tais bens
desordenadamente, nem desejá-los ou procurá-los mais do que for do
agrado divino. Vendo que Deus nos prove com amor, nada nos deixando
faltar, o coração sempre lhe será grato. Agindo assim, nosso coração
realmente será como uma lâmpada.
O óleo é a humildade
Recorda-te
porém, minha filha, de que tudo isso não basta se faltar o óleo na
lâmpada. Com a palavra "óleo" entende-se uma delicada e oculta virtude, a
grande humildade. Pois a esposa de Cristo tem de ser humilde, mansa e
paciente. Tão humilde quanto paciente, tão paciente quanto humilde. Mas
nunca alcançaremos a humildade sem o autoconhecimento.
E necessário
que reconheçamos a nossa miséria e fraqueza, convencidos de que por nós
mesmos somos incapazes de praticar qualquer ato virtuoso e superar
lutas internas e inquietações. Não somos capazes de afastar de nós as
doenças corporais, as dores, as dificuldades íntimas. Se fossemos
capazes, fa-lo-íamos imediatamente. De nós mesmos somos apenas vergonha,
miséria, mau cheiro, fraqueza e pecado. Importa-nos ficar sempre
embaixo, humildes.
Mas não é
bom permanecer apenas em tal conhecimento de si. A pessoa cairia no
desânimo e na perturbação, chegando até ao desespero. A isso procura
levar-nos o demônio. E necessário conhecer também a presença de Deus em
nós, refletindo que Ele nos fez à sua imagem e semelhança, nos recriou
pela graça no sangue do Verbo, seu Filho unigênito, e a bondade divina
age continuamente em nosso favor. Todavia, quem se reduzisse somente a
esse conhecimento de Deus em si, cairia na presunção e na soberba.
Ocorre
mesclar esses dois conhecimentos: não somente pensar em Deus, nem
somente em nós. Assim fazendo, seremos humildes, pacientes, mansos.
Possuiremos o óleo na lâmpada.
A luz é a fé
Devemos ter
também a luz, a luz da fé. Mas os Santos dizem que a fé sem as obras é
morta. Ocorre, pois, agir sempre virtuosamente, abandonar a
infantilidade das vaidades, não viver como jovem fútil, mas como esposa
fiel, consagrada a Cristo crucificado. Desse modo, teremos a lâmpada, o
óleo e a luz.
Deus é ciumento de suas esposas
Diz o
Evangelho (Mt 25,2) que as virgens prudentes eram cinco. Pois bem,
afirmo-te que cada um de nós há de "ser cinco", sob pena de ficar
excluído das núpcias eternas. A palavra "cinco" significa nossa
obrigação de dominar e mortificar os cinco sentidos corporais, jamais
ofendendo a Deus com eles, na procura de afeições ou prazeres
desordenados com todos ou alguns deles. Seremos "cinco" dominando os
cinco sentidos do corpo.
Mas
recorda-te: o esposo Jesus Cristo é ciumento de suas esposas; eu nem
saberia dizer-te quanto! Se ele nota que tu amas outras pessoas mais que
a Ele, ficará indignado contigo. E se não mudares (teu comportamento),
para ti não será aberta a porta do lugar onde o Cordeiro imaculado
celebra as núpcias com todas as suas esposas. Quais adúlteras, seremos
rechaçadas a semelhança daquelas cinco virgens imprudentes. Elas se
gloriavam única e tolamente da sua integridade e virgindade corporal;
por isso perderam a virgindade da alma, pela corrupção dos cinco
sentidos do corpo. Faltava-lhes o óleo da humildade e suas lâmpadas se
apagavam. Então foi-lhes dito: "Ide comprar o óleo" (Mt 25,9). Nessa
passagem o "óleo" indica os atrativos e engodos mundanos, vendidos pelos
aduladores e lisonjeadores do mundo. Como se o esposo dissesse: "Não
quisestes comprar a vida eterna pela virgindade e boas obras;
preferistes os galanteios humanos e por eles vivestes. Ide comprá-los.
Aqui não entrareis".
Catarina aconselha a vida consagrada
Minha filha,
toma cuidado com os elogios dos homens. Nunca procures ser elogiada por
alguma boa ação que praticares. Aporta da eternidade não te seria
aberta. E porque eu considero ótima aquela estrada (da vida consagrada),
disse antes que desejava ver-te fiel esposa de Cristo crucificado. Peço
e suplico que te esforces para o ser.
Conclusão
Nada mais acrescento. Permanecei no santo e doce amor de Deus. Jesus doce, Jesus amor!
__________
As Cartas, Santa Catarina de Sena - Tradução Frei João Alves Basílio, O.P. Editora Paulus
Santa Catarina de Siena, Carta 9: Compaixão e conforto
Para uma senhora anônima
Saudação e objetivo
Em nome de Jesus Cristo crucificado e da amável Maria, caríssima irmã no bondoso Cristo Jesus, eu Catarina, serva e escrava dos servos de Jesus Cristo, vos escrevo no seu precioso sangue, desejosa de vos ver iluminada pela verdade de Deus.
Vós precisais da iluminação Divina
Sem tal iluminação não podeis participar da vida da graça neste mundo, vivereis em contínua amargura e, no fim, tereis a condenação eterna. Sem a luz de Deus, será má a vossa atitude diante do mistério (divino), ao interpretar como um ato de ódio os acontecimentos que Deus vos envia por amor, como algo mortífero, o que Deus vos concede para a vida.
Que verdade devemos conhecer, caríssima irmã? Devemos compreender que Deus nos ama intensamente. Por amor, Ele nos criou à sua imagem e semelhança, para que gozemos de sua eterna visão. E quem nos revela tal verdade, tal amor? O sangue do humilde e puro Cordeiro. Com o pecado de Adão, fôramos privados da visão de Deus e excluídos da vida eterna. O bom e amoroso Verbo de Deus foi mandado (ao mundo) para morrer, dando por nós sua vida e lavando nossas culpas em seu precioso sangue. Enamorado (dos homens), Jesus obedeceu a Deus Pai, correu ao encontro de uma muito vergonhosa morte e nos salvou. Tudo isso não é uma verdade oculta e o sangue (de Jesus) o manifesta. Se Deus não nos tivesse criado para o céu, se Ele não nos amasse também não enviaria (ao mundo) o Redentor.
Tal iluminação nos dá paciência e paz
Quando uma pessoa iluminada (por Deus), logo recebe em sua mente a luz da fé e começa a considerar bom tudo o que Deus lhe manda ou permite durante esta vida. Tudo o que Deus faz é por amor, para que sua verdade se cumpra em nós. A pessoa se torna paciente, nada a pertuba. Alegra-se com o que Deus permite que lhe aconteça. Com paciência verdadeira e santa, suporta enfermidades, perda de bens (materiais), de posições sociais, de parentes, de amigos. E o suporta não apenas com paciência, mas com respeito, como que diante de algo amorosamente enviado por Deus para santificá-la. De fato, ninguém é tão louco ou tolo, a ponto de pertubar-se quando recebe coisas boas para si; só mesmo quem nada compreende sobre a verdade e o próprio bem.
Deus é o médico de nossos males
Querida irmã, desejo que vosso entendimento se abra, extirpando toda raiz de egoísmo e de delicadezas egocêntricas. Se fizerdes assim, entendereis essa verdade, comprendereis que Deus é o supremo médico de nossos males. Com paciência calma, santa e reta aceitareis o medicamento que Deus vos mandou num ato especial de amor pela vossa pessoa. Bondosa irmã! convido-vos a tal atitude. Não deixeis de aproveitar o fruto de vossas fadigas, pela impaciência. Permanecei calma e tranquila, aceitando a vontade divina. Não vos pertubeis, a não ser por causa das ofensas cometidas contra Deus e pela condenação das almas. Desse modo, mostrareis que estais iluminada por Deus e no último dia recebereis a paga de vossos sofrimentos.
Conclusão
Senti compaixão pelo que vos aconteceu. Mas se vos vir conformada com a vontade divina, alegrar-me-ei convosco. Nada mais acrescento. Permanecei no santo e doce amor de Deus. Jesus doce, Jesus amor.
Fonte: Servo dos Servos de Deus
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quarta-feira, 4 de setembro de 2013
Santa Catarina de Siena, carta 13: Como adquirir a paciência
Santa Catarina de Sena
Para Marcos Bindi
Saudação e objetivo
Caríssimo irmão no doce Cristo Jesus, eu Catarina, serva e escrava dos servos de Deus, vos escrevo no seu precioso sangue, desejosa de vos ver alicerçado na verdadeira e santa paciência, pois de outro modo não agradaremos a Deus e perderemos o prêmio de nossas fadigas.
A paciência é possível a todos
De fato, todos precisamos desta bela virtude. Se me disserdes:”Vivo em grandes dificuldades, não tenho forças para ser paciente e nem sei como chega-lo a sê-lo”, eu vos respondo: Quem segue a luz da sua razão (iluminada pela fé) consegue atingir a paciência. Concordo que somos fracos em nossa sensualidade. Sobretudo se a pessoa se apega desordenadamente a si mesmo, às pessoas e aos bens materiais. Quem é assim, sofre muito quando perde algo. Mas para quem usa retamente sua razão Deus lhe fortalece sua vontade e aquela fraqueza é vencida. Deus jamais despreza os esforços feitos para superar queixas exageradas. Ele aceita os bons desejos e concede a paciência na dificuldade.
Como vedes, todos podem chegar a ter paciência se usarem a reta razão e não ficarem unicamente ruminando a própria fraqueza. A nós dotados de razão, seria muito inconveniente fixarmo-nos numa atitude irracional. Não somos como os animais. Ao nos impacientar escandalizamo-nos por acontecimentos permitidos por Deus e o ofendemos.
Quatro coisas necessárias para ser paciente.
Que devemos fazer para sermos pacientes, já que podemos e devemos adquirir esta atitude para não ofender a Deus? Quatro coisas!
Primeiro devemos ter fé
Digo que a primeira coisa é possuir a iluminação da fé. Com a luz desta virtude conseguiremos todas as outras; sem ela andaremos no escuro como um cego, para quem o dia torna-se noite. Para pessoa sem fé, tudo o que Deus faz por amor na claridade da luz, torna-se escuridão, trevas de ódio, pois a pessoa pensa que é por ódio que Deus permite os sofrimentos e as dificuldades. Vede como precisamos da luz da fé!
Segundo, devemos pensar que tudo vem de Deus por amor
A segunda coisa é crer firmemente que Deus existe e que tudo vem Dele menos o pecado. Não vem de Deus a má vontade do pecador. O restante – quer provenha do fogo, da água, da morte ou de qualquer outra coisa – vem de Deus. Diz Jesus no evangelho que sem a providência Divina não cai uma folha das árvores e diz ainda que os cabelos da nossa cabeça estão todos contados, e que nenhum deles cai sem que Deus o saiba (Mt 10,29). Ora, se Jesus fala assim a respeito das coisas materiais com maior razão cuida de nós criaturas racionais. Em tudo o que nos manda o permite, Deus usa da sua providência. Tudo é feito por Deus com mistério e amor. Jamais por ódio!
Terceiro, devemos crer que até na dor Deus nos quer felizes
Terceiro ponto; ocorre entender na fé que Deus é bondade suprema e eterna, que ele somente quer nosso bem. Desejo de Deus é que nos santifiquemos. Tudo o que Ele nos manda ou permite tem esta finalidade. Se duvidarmos disto, erramos. Basta pensar no sangue do humilde e imaculado cordeiro, transpassado pela lança, sofrido, atormentado. Entenderemos que o Pai eterno nos ama. Por causa do pecado, nos tínhamos tornado inimigos de Deus. Amorosamente, o Pai nos deu o Verbo, seu filho Unigênito. Este último entregou por nós sua vida, correndo para uma vergonhosa morte na cruz. Por qual razão? Por amor a nossa salvação. Como vedes o sangue de Jesus dissipa toda a dúvida em nós, de que o Pai queira outra coisa além da nossa santificação. Aliás, como poderia Deus querer algo fora do bem? Impossível! Como poderia o supremo Bem descuidar-se de nós? Ele que nos amou antes de existirmos, Ele que por amor nos criou à sua imagem e semelhança, não poderia deixar de nos amar de prover às necessidades de nossa alma e do nosso corpo.
O criador sempre nos ama como criaturas suas. Somente o pecado Deus detesta em nós. Durante esta vida, na medida das nossas necessidades, Ele permite dificuldades quanto aos bens materiais. Como sábio médico nos ministra o remédio de que precisa nossa enfermidade. Deus age assim para eliminar nossos defeitos aqui na terra de maneira que tenhamos que sofrer menos na vida futura; ou para pôr à prova nossa paciência. Querendo experimentar Jó o senhor retirou-lhe os filhos e filhas; quanto ao corpo, mandou-lhe uma verminose e usou sua mulher para prová-lo no sofrimento, pois ela o atormentava com maldosas ofensas. Após provar a paciência de Jó Deus restitui-lhe o dobro em tudo e Jó não reclamou. Pelo contrário, dizia: “O Senhor me deu, o Senhor me tirou. Bendito seja o seu nome” (Jó 1,21).
Deus permite algumas vezes tais coisas, para que nos conheçamos melhor em nossa instabilidade. E também conheçamos a instabilidade deste mundo. Tudo o que temos – vida, saúde, esposa, filhos, riquezas, posições sociais, prazeres – tudo nos é dado por Deus como empréstimo para nosso uso. Não como propriedade. É assim que devemos tratar tais coisas. Tanto é verdade, que não podemos impedir que tais coisas nos sejam retiradas. Quanto à graça divina é diferente. Nem os demônios nem outras criaturas nem as perseguições conseguem retirar de nós, se não dermos nosso consentimento.
Quando uma pessoa entende qual é a perfeição da graça e qual é a imperfeição do mundo e do nosso corpo, ela deixa de valorizar os prazeres mundanos e a própria fragilidade, pois tais realidades muitas vezes ocasionam a perda da graça por causa do amor sensível. E em sentido oposto começa a valorizar as virtudes que são os meios para conservarmos a graça. Pois bem, tudo isso nos vem de Deus por amor, afim de que viril e santamente preocupados nos afastemos do mundo e busquemos os bens eternos; deixemos de lado a terra com suas mazelas e procuremos ganhar o céu.
Sim não fomos criados para nos alimentar de terra. Somos peregrinos por aqui passam praticando a virtude em busca do Fim. Durante a caminhada não nos devemos deter por causa de algum prazer oferecido pelo mundo. Virilmente temos de nos apressar olhando as coisas da vida não com desordenada alegria ou com impaciência, mas na paciência e no Santo Temor.
O sofrimento que padeceis é de grande utilidade para vós. Deus vos oferece o modo de romper muitas amarras e de aperfeiçoar vossa consciência. Deus vos libertou e vos indicou a estrada, se é que a desejais segui-la. A eles (ou:elas) Deus deu a vida eterna e vos convida a alcançá-la também por meio do sofrimento, afim de que conheçais a bondade divina e vossos defeitos, durante o restante da vossa vida.
Quarto, devemos meditar sobre os próprios pecados
A quarta coisa necessária para se tornar paciente é esta: Refletir sobre os próprios pecados e defeitos, sobre quanto já ofendemos a Deus. Ele é o Bem infinito. Destes pecados e defeitos, grandes ou pequenos que sejam, resultaria para nós um castigo infinito. Infelizes que somos! Ofendemos nosso Criador e merecemos mil infernos. E quem é este Criador ofendido! É a bondade sem limites. E nós quê somos? Nada! O ser que temos e qualquer outro beneficio a ele acrescentado, tudo veio de Deus. Por nós mesmos, nada somos. Em tal situação e merecendo um castigo eterno, Deus nos purifica aqui na terra. Mas ainda se aceitamos o sofrimento purificador alcançamos méritos. Isso não se cede na purificação da vida futura; no purgatório a alma se purifica mas nada merece. Como nos convém, pois tolerar com paciência estas pequenas dores agora.
Pequenas dores repito, por causa da brevidade desta existência. Aqui na terra a dimensão da dor tem a dimensão do tempo. E qual é a extensão do tempo? Assemelha-se à ponta de uma agulha. Assim sendo a dor é pequena. O sofrimento que passou ficou para trás, não o sinto mais; o sofrimento futuro ainda não padeço, e nem tenho certeza de continuar vivo. Posso morrer e não sei quando. Somente o presente existe nada mais. Soframos, então, com alegria. Toda ação boa é remunerada. Toda culpa é punida. São Paulo afirma: “Os sofrimentos desta vida não se comparam com a glória que receberá a alma paciente.” (cf. Rm 8,18).
Últimos conselhos. Conclusão
Eis a maneira como podereis adquirir a virtude da perfeita paciência. Tal virtude adquirida com amor na fé vos fará tirar proveito de todo sofrimento. Em caso contrário, perdereis os bens terrenos e os celestes. Não existe outra solução. Por tal motivo disse eu acima que desejava vos ver alicerçado na perfeita paciência. Rogo-vos agir assim. Lembrai-vos do sangue de Jesus Cristo crucificado. Toda tristeza se mudará em alegria, todo peso se tornará leve. Não fiqueis a escolher tempos e lugares; contentai-vos com aquilo que Deus vos dá. Senti compaixão pelo que aconteceu. Ao que parece foi muito doloroso mas tudo aconteceu por providência divina e para vossa salvação. Peço-vos sejais forte e não relaxeis na suave disciplina da religião.
Nada mais acrescento, a não ser que aproveiteis o tempo em quanto o temos. Permaneceis no santo e doce amor de Deus. Jesus doce, Jesus amor.
Fonte: Servo dos Servos de Deus
segunda-feira, 2 de setembro de 2013
Santa Catarina de Siena, Carta 195 - Defender a cidade da tua alma
(Carta 195) Defender a cidade de tua alma
Para Estevão Maconi.
Saudação e objetivo
Em nome de Jesus Cristo crucificado e da amável Maria, caríssimo filho no doce Cristo Jesus, eu Catarina, serva e escrava dos servos de Jesus Cristo, te escrevo no seu precioso sangue, desejosa de te ver como verdadeiro defensor da cidade de tua alma.
O cão de guarda é a consciência
Ó filho caríssimo, a cidade da alma tem muitas portas. Três as principais: memória, Inteligência e vontade. O criador permitiu que todas elas possam ser atacadas, mas apenas uma não pode ser aberta pelo lado de fora, e esta é à vontade. Assim acontece que algumas vezes a inteligência se obscurece e a memória passa a lembrar realidades vazias e passageiras, com numerosas e diversificadas imaginações, pensamentos desonestos e coisas semelhantes, enquanto todos os sentimentos corporais ficam desordenados e arruináveis. Com isto percebe-se que estas portas não dependem de nosso livre controle. Somente a porta da vontade esta sobre nosso poder e tem como guarda o livre-arbítrio. É uma porta tão robusta, que demônio e pessoa alguma podem abri-la, se o seu guarda não consentir. Mas abrindo-se esta porta, ou seja, sendo dado o consentimento ao que a memória, a inteligência e outras portas sentem, para sempre fica desprotegida nossa cidade. Reconheçamos pois, filho, reconheçamos o grande benefício e desmedido amor que recebemos de Deus, dando-nos posse livre de tão nobre cidade. Esforcemo-nos em pôr junto ao livre- arbítrio um bom e nobre guarda, que é o cão da consciência. Quando alguém se aproxima da porta, latindo ele acorda a razão para que a inteligência veja se é amigo ou inimigo. Então o livre-arbítrio deixara entrar os amigos, para que realizem boas e santas inspirações; mas expulsará os inimigos, fechando a porta da vontade para que não consinta as más imaginações que diariamente se aproximam da porta. Assim fazendo, quando o senhor te pedir, prestarás contas a Ele, poderás entregar a cidade salva e adornada com muitas virtudes através da sua graça.
Conclusão Nada mais acrescento aqui. Como escrevi em comum a todos os filhos no primeiro dia deste mês, chegamos aqui no primeiro domingo do Advento com muita paz. Permanece no santo e doce amor de Deus.
Jesus doce, Jesus amor.
Fonte: Servo dos Servos de Deus
Cartas Completas de Santa Catarina de Siena, Editora Paulus
segunda-feira, 29 de abril de 2013
O caminho da Humildade - Por Santa Catarina de Sena
Saudação e objetivo
Em nome de Jesus Cristo crucificado e da amável Maria, meu caríssimo filho, no doce Cristo Jesus, eu, Catarina, serva e escrava dos servos de Jesus Cristo, vos escrevo no seu precioso sangue, desejosa de vos ver alicerçado na verdadeira e perfeita humildade.
Iluminação divina e humildade
Quem é humilde também é paciente no suportar dificuldades por amor à verdade, pois a humildade alimenta e sustenta a caridade. Quem possui a chama da caridade nunca é negligente, mas sempre solícito, porque a caridade não é preguiçosa, sempre trabalha.
Todavia, sem uma iluminação divina, ninguém possui a caridade e a humildade, que afastam o orgulho. Se o olho tem um objeto que possa ver, mesmo que esteja sadio e haja luz, se ele não estiver aberto, nada verá. O olho da nossa alma é a inteligência, e a sua iluminação vem da fé, se tal olho não estiver velado pelo pano do amor-próprio ou egoísmo. Quando o egoísmo é afastado, a nossa inteligência torna-se limpa e conhece.
Desperta a afeição da alma, que começa a amar o seu benfeitor. Impulsionado pelo amor, o pensamento se abre e contempla o objecto, que é Cristo crucificado. A alma compreende, sobretudo no precioso sangue, o abismo do seu infinito amor.
A humildade é a cela do auto-conhecimento
Onde a inteligência (iluminada pela fé) encontra Cristo crucificado? Na cela do coração, na qual a alma vê a própria miséria, os próprios defeitos, o próprio nada. Mas, ao mesmo tempo, conhece a bondade de Deus. Se a alma ficasse somente a conhecer-se a si mesma, o seu conhecimento de Deus não seria verdadeiro; nem a pessoa colheria os frutos que resultam do conhecimento de si. Ela mais perderia do que ganharia, uma vez que retiraria do conhecimento de si apenas tédio e confusão. Cairia na aridez (espiritual). E se continuasse assim, sem a devida cura, terminaria no desespero. Por outro lado, se a alma apenas conhecesse a Deus e não também a si mesma, colheria como fruto apodrecido uma grande confusão (intelectual), que alimenta a soberba.
Aliás, uma coisa nutre a outra. É preciso, portanto, que o conhecimento iluminado da alma chegue a um grau completo, tanto do conhecimento de Deus como de si mesma.
Desse modo a alma evita a presunção e o desespero, e colhe na cela do coração o fruto da vida, a partir do conhecimento de si e do desprezo do pecado e da perversa lei (da sensualidade), sempre disposta a lutar contra o espírito (Rm 7,23). Tal desprezo gera a paciência, que é o cerne da caridade. No conhecimento de Deus (presente) em si, a alma atinge o abismo do amor por Deus e pelo próximo. Na luz da fé compreende que o amor que tem por Deus não pode ser útil ao Criador. Por isso, imediatamente, a alma começa a ser útil ao próximo, por amor a Deus. Ama a criatura por compreender que Deus a ama sumamente. É condição do amor que alguém ame tudo o que a pessoa amada ama.
Conselhos materiais de Catarina. Conclusão
Filho caríssimo, com a iluminação divina, recebemos a humildade e a caridade. Graças ao esforçado empenho, dado pela chama da caridade, destruiremos toda a negligência; ao mesmo tempo, a água da humildade lavará a nossa soberba. Ficamos sedentos da glória divina e zelosos pela salvação das almas, mediante a cruz do Cordeiro imaculado e humilde. Outro caminho não existe! Foi ao considerar que temos de caminhar por tal caminho da humildade, que eu disse acima estar desejosa de vos ver alicerçado na verdadeira e perfeita humildade. Quero que vivais dessa maneira, sem medo e sem confusão na mente. Mas, sobretudo, quero que recomeceis a viver com fé viva, esperança firme, obediência pronta. Quero que reabasteçais e alimenteis a vossa alma.
Que ela não resseque pela confusão e cansaço da mente. Pelo contrário, com muito empenho, esforçai-vos por despertar do sono da negligência, imitando as virtudes que vedes nos vossos irmãos e conservando-as no vosso coração. Amai a verdade! Que ela esteja sempre nos vossos lábios. Quando oportuno, difundi-a aos outros, sobretudo entre as pessoas que amais. Mas fazei-o com delicadeza, assumindo os defeitos alheios. Se não fizestes isso no passado, com a necessária cautela, corrigi-o no futuro. Quero que não vos aflijais, nem vos preocupeis comigo. Dia após dia, deixemos passar as ondas deste tempestuoso mar, na humildade, caridade fraterna e paciência.
Nada mais acrescento. Permanecei no santo e doce amor de Deus. Jesus doce, Jesus amor.»
Santa Catarina de Sena, carta 51
Créditos: Católicos Tradicionais/ O Segredo do Rosário
sábado, 10 de novembro de 2012
Carta de Santa Catarina de Siena a um judeu (Carta 15)
(carta 15) CONVITE À CONVERSÃO
Saudação e objetivo
Louvado seja Jesus Cristo crucificado, filho da gloriosa virgem Maria. A ti, caríssimo irmão, (1) resgatado como eu pelo precioso sangue do Filho de Deus, eu Catarina indigna escrevo, obrigada pelo Cristo crucificado e pela sua amável mãe Maria, a fim de pedir a recordar com insistência que abandoneis a infidelidade, vos convertais e recebais a graça do santo batismo, pois sem ele não podeis receber a graça de Deus e o dom divino.
Apelo à conversão
Quem não é batizado não participa dos benefícios da santa Igreja, mas como um membro apodrecido e separado da comunidade dos fiéis cristãos, passa da morte temporal para a morte eterna, e com razão recebe o castigo e as trevas, porque não quis lavar-se na água do santo batismo e desprezou o sangue do Filho de Deus, que o derramou com tanto amor.
Caríssimo irmão em Jesus Cristo!Abre o olhar da inteligência e contempla a infinita Bondade, que age no teu coração e mediante os seus servidores (2) te pede e convida, que deseja fazer a paz contigo; sem olhar a longa guerra que lhe fizeste por tua infidelidade.
Nosso Deus é tão bondoso e benigno, que depois que nos veio a lei do amor e que o Filho de Deus nasceu da virgem Maria, derramou seu sangue no madeiro da cruz e podemos acolher em abundância a misericórdia divina. A lei de Moisés baseava-se na justiça, na punição. A nova lei, dada por Cristo crucificado, fundamenta-se no amor e na misericórdia. Deus é bondoso e benigno: acolhe quem a Ele retorna com humildade, fidelidade e fé na vida eterna. Parece nem se recordar das ofensas que lhe fazemos, não quer condenar-nos eternamente. Deus só deseja ser misericordioso.
Portanto, meu irmão, levante-te desejoso de unir-te a Cristo. não durmas na cegueira. Deus não quer, nem eu, que a morte te encontre na cegueira. A minha quer ver-te batizado, como um servo sedento da água viva (sl 41,2). Não resistas ao Espírito Santo, que te chama; não desprezes o amor de Maria por ti; não recuses as orações que são feitas a teu favor. Em tudo isso seria grave o julgamento divino.
Exortação. Conclusão
Permanece na santo e doce amor de Deus. Pessoalmente peço à Verdade suprema que nos ilumine, nos encha de sua santissima graça e realize o meu desejo em ti, Consílio. É o que Jesus Cristo mandou dizer-te Consílio. Louvado seja Jesus Crucificado e sua amável mãe, a gloriosa virgem Maria. Jesus doce, Jesus amor
(1) Consílio era um judeu nascido em Pádua, que se estabelecera em Sena como banqueiro de empréstimos, junto com seu irmão Dattaro. Eram riquíssimos. Obtida da República a licença para tal trabalho, não incorriam em penas eclesiásticas. Catarina convida Consílio a se batizar. Talvez ela pensasse também no irmão, pois a certa altura fala em vós.
(2) Com a palavra sevidores o texto quer indicar os discípulos de Catarina, muito numerosos em Sena, os quais certamente falaram a ela sobre o banqueiro
Fonte: Cartas Completas
Servos dos Servos de Deus
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
Santa Catarina de Siena - Carta a Francisco Casini, sobre o pecado mortal
Santa Catarina de Sena fala sobre o pecado mortal
Em nome de Jesus Cristo crucificado e da amável Maria, caríssimo irmão, eu Catarina, serva e escrava dos servos de Jesus Cristo, vos escrevo no seu precioso sangue, desejosa de vos ver repudiando o pecado mortal.
É que de outro modo não podereis receber a graça divina em vossa alma. Mas nem vós, nem qualquer outra pessoa alcançará a graça sem a iluminação divina (da fé), que dê a conhecer a relevância do pecado e o valor da virtude. Ninguém ama o que desconhece. Assim, é impossível conhecer e amar algo digno de amor ou repudiar algo digno de repúdio, sem a fé. Portanto, precisamos da luz da fé, que é a pupila da nossa inteligência, supondo que o amor-próprio não a tenha obscurecido. Havendo egoismo na alma, cumpre eliminá-lo, para que nosso olhar interior não seja impedido. Através do amor santo, é preciso afastar o perverso amor da sensualidade, que abafa a graça divina na alma e corrompe toda a atividade. Acontece como numa árvore contaminada, cujos frutos são podres. A pessoa cheia de amor sensual perde o sentido da gravidade do pecado mortal. Toda a sua atividade se corrompe, desaparece sua luz interior. Nas trevas, a alma deixa de ver a verdade. Mais ainda, a sensibilidade espiritual e a tendência da alma são prejudicadas, de modo que as coisas boas lhe parecem más e as más parecem boas. Quem foge do amor a Deus e ao próximo, põe a felicidade nos prazeres e orgias deste mundo. E quando ama alguém, não o faz por causa de Deus, mas para a própria utilidade.
Ao contrário, quem eliminou todo amor sensual ama o Criador acima de tudo e o próximo como a si mesmo. Mas, para chegar a tal amor, é preciso que a inteligência, iluminada (por Deus), reconheça antes o próprio nada, sua dependência de Deus quanto ao ser e a todo o mais que possui. Somente então a pessoa conhece a si mesma, a própria imperfeição e como Deus é bom. Também condena a própria imperfeição e sua fonte, que é o egoísmo. Passa a amar a vida virtuosa por amor do Criador, dispõe-se a sofrer toda dificuldade para não ofender a Deus e não prejudicar a vida na virtude. Afinal, orienta todas as suas atividades espirituais e materiais a Deus. Em qualquer estado de vida se encontre, ama e teme o Criador. Assim, se possui riquezas, alta posição social, filhos, parentes e amigos, tudo considera emprestado, não como coisa sua.
E tudo usa disciplinadamente, sem abusos. Vivendo no matrimônio, comporta-se segundo as normas do sacramento e as leis da santa Igreja. Tendo de conviver com outras pessoas e servi-las, age sem interesses pessoais, sem fingimento, livre e comprometida somente com Deus. Ele regulamenta as faculdades da alma e os sentidos corporais: orienta a memória para recordar-se dos benefícios divinos; a inteligência para conhecer qual é a vontade de Deus, que apenas quer a nossa santificação; a vontade, para amar o Criador acima de toda outra coisa. Assim reguladas as faculdades da alma, põe ordem nos sentidos.
É o que vos peço fazer, caríssimo irmão. Organizai vossa vida, procurai compreender a gravidade do pecado e a imensidão da bondade divina. Se o fizerdes, seresi do agrado divino em todas as condições em que vos encontrardes. Sereis uma árvore frutífera de santas e autêntica virtudes. Já neste mundo começareis a gozar as garantias da vida eterna. Julgando eu que de nenhum modo poderemos alcançar a paz, a quietude e a graça (divina) sem a iluminação da fé - que nos permite conhecer a nós mesmos, a gravidade do pecado mortal, abondade divina e o tesouro das virtudes - afirmei que desejava vos ver repudiando o pecado mortal. Espero que assim façais. Nada mais acrescendo. Permanecei no santo e doce amor de Deus.
Jesus Doce, Jesus amor.
Santa Catarina de Sena, Virgem e Doutora da Igreja, Carta para Francisco Casini, Cartas Completas.
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
Santa Catarina de Siena - Carta 51: Caminho para a humildade
Para Félix de Massa
Saudação e objetivo
Em
nome de Jesus Cristo crucificado e da amável Maria, meu caríssimo filho
(1) no doce Cristo Jesus, eu Catarina, serva e escrava dos servos de
Jesus Cristo, vos escrevo no seu precioso sangue, desejosa de vos ver
alicerçado na verdadeira e perfeita humildade.
Iluminação divina e humildade
Quem é
humilde também é paciente no suportar dificuldades por amor à verdade,
pois a humildade alimenta e sustenta a caridade. Quem possui a chama da
caridade nunca é negligente, mas sempre solícito, porque a caridade não é
preguiçosa, sempre trabalha. Todavia, sem uma iluminação divina,
ninguém possui a caridade e a humildade, que afastam o orgulho. Se o
olho tem um objeto que possa ver, mesmo que esteja sadio e haja luz, se
ele não estiver aberto, nada verá. O olho da nossa alma é a
inteligência, e sua iluminação vem da fé, se tal olho não estiver velado
pelo pano do amor-próprio ou egoísmo. Quando o egoísmo é afastado,
nossa inteligência torna-se limpa e conhece. Desperta a afeição da alma,
que começa a amar seu benfeitor. Impulsionado pelo amor, o pensamento
se abre e contempla o objeto, que é Cristo crucificado. A alma
compreende, sobretudo no precioso sangue, o abismo do seu infinito amor
(2).
A humildade é a cela do auto conhecimento
Onde a
inteligência (iluminada pela fé) encontra Cristo crucificado? Na cela
do coração, na qual a alma vê a própria miséria, os próprios defeitos, o
próprio nada. Mas, ao mesmo tempo, conhece a bondade de Deus. Se a alma
ficasse conhecendo somente si mesma, seu conhecimento de Deus não seria
verdadeiro; nem a pessoa colheria os frutos que resultam do
conhecimento de si. Ela mais perderia do que ganharia, uma vez que
retiraria do conhecimento de si apenas tédio e confusão. Cairia na
aridez (espiritual). E se continuasse assim, sem a devida cura,
terminaria no desespero. De outro lado, se a alma apenas conhecesse a
Deus e não a si mesma. Colheria como fruto apodrecido uma grande
confusão (intelectual), que alimenta a soberba. Aliás, uma coisa nutre a
outra. É preciso, portanto, que o conhecimento iluminado da alma chegue
a um grau completo, tanto do conhecimento de Deus como de si mesma.
Desse
modo a alma evita a presunção e o desespero, e colhe na cela do coração o
fruto da vida, a partir do conhecimento de si e de como o desprezo do
pecado e da perversa lei (da sensualidade), sempre disposta a lutar
contra o espírito (Rm 7,23). Tal desprezo gera a paciência, que é o
cerne da caridade. No conhecimento de Deus (presente) em si, a alma
atingi o abismo do amor por Deus e pelo próximo. Na luz da fé compreende
que o amor que tem por Deus não pode ser útil ao Criador. Por isso,
imediatamente a alma começa a ser útil ao próximo, por amor a Deus. Ama a
criatura por compreender que Deus a ama sumamente. É condição do amor
que alguém ame tudo o que a pessoa amada ama.
Conselhos materiais de Catarina. Conclusão
Filho
caríssimo, com a iluminação divina recebemos a humildade e a caridade.
Graças ao esforçado empenho, dado pela chama da caridade, destruiremos
toda negligência; ao mesmo tempo, a água da humildade lavará nossa
soberba. Ficamos sedentos da glória divina e zelosos pela salvação das
almas mediante a cruz do Cordeiro imaculado e humilde. Outro caminho não
existe! Foi ao considerar que temos de caminhar por tal caminho da
humildade, que eu disse acima estar desejosa de vos ver alicerçado na
verdadeira e perfeita humildade. Quero que vivais dessa maneira, sem
medo e sem confusão na mente. Mas, sobretudo, quero que recomeceis a
viver com fé viva, esperança firme, obediência pronta. Quero que
reabasteçais e alimenteis vossa alma. Que ela não resseque pela confusão
e cansaço da mente. Pelo contrário, com muito empenho esforçai-vos por
despertar do sono da negligencia, imitando as virtudes que vedes nos
vossos irmãos e conservando-as em vosso coração. Amai a verdade! Que ela
esteja sempre em vossos lábios. Quando ocorrer, difundi-a nos outros,
sobretudo entre as pessoas que amais. Mas fazei-o com delicadeza,
assumindo os defeitos alheios. Se não fizeste isso no passado, com a
necessária cautela corrigi-o no futuro. Quero que não vos aflijais, nem
vos preocupeis comigo. Dia após dia, deixemos passar as ondas deste
tempestuoso mar, na humildade, caridade fraterna e paciência.
Nada mais acrescento. Permanecei no santo e doce amor de Deus. Jesus doce, Jesus amor.
(1) Félix
Massa foi um discípulo muito fiel de Catarina. Acompanhou-a até
Avinhão, na França. Catarina ficou sabendo que Ele andava muito abatido
pelas críticas que ela estava suportando em seus apostolado. Enviou-lhe
então esta carta.
(2) Este
parágrafo foi de difícil tradução, porque Catarina compara a
inteligência com o olho; a claridade da luz é a fé; objeto da visão é
Jesus Cristo; o egoísmo é a venda que impede a visão da fé.
Cartas completas – Editora Paulus – Tradução Frei João Alves Basílio O. P.
Fonte: Blog Servo dos Servos de Deus
quinta-feira, 28 de junho de 2012
Abraça Jesus crucificado, amante e amado - Santa Catarina de Siena
"Querida irmã em Jesus. Eu, Catarina, serva dos servos de Jesus, escrevo-te no seu precioso sangue, desejosa que te alimentes do amor de Deus e que dele te nutras, como do seio de uma doce mãe. Ninguém, de facto, pode viver sem este leite!
Quem possui o amor de Deus, nele encontra tanta alegria que cada amargura se transforma em doçura e cada grande peso se torna leve. E isto não nos deve surpreender porque, vivendo na caridade, vive-se em Deus:
“Deus é amor; quem permanece no amor habita em Deus e Deus habita nele”.
Vivendo em Deus, por conseguinte, não se pode ter amargura alguma porque Deus é delícia, doçura e alegria infinita!
É esta a razão pela qual os amigos de Deus são sempre felizes! Mesmo se doentes, necessitados, aflitos, atribulados, perseguidos, nós estamos alegres.
Mesmo quando todas as línguas caluniosas nos metessem em má luz, não nos preocuparemos, mas nos alegraremos com tudo porque vivemos em Deus, nosso repouso, e saboreamos o leite do seu amor. Como a criança suga o leite do seio da mãe assim nós, inamorados de Deus, atingimos o amor de Jesus Crucificado, seguindo sempre as suas pegadas e caminhando com ele pelo caminho das humilhações, das penas e das injúrias.
Não procuramos a alegria se não em Jesus e fugimos de toda a glória que não seja aquela da cruz.
Abraça, portanto, Jesus Crucificado elevando a ele o olhar do teu desejo! Toma em consideração o seu amor ardente por ti, que levou Jesus a derramar sangue de todas as partes do seu corpo!
Abraça Jesus Crucificado, amante e amado e nele encontrarás a verdadeira vida, porque ele é Deus que se fez homem. Que o teu coração e a tua alma ardam pelo fogo do amor do qual foi coberto Jesus cravado na cruz!
Tu deves, portanto, tornar-te amor, olhando para o amor de Deus, que tanto te amou, não porque te devesse obrigação alguma, mas por um puro dom, impelido somente pelo seu inefável amor.
Não terás outro desejo para além daquele de seguir Jesus! E, como que inebriada do Amor, não farás caso se te encontras só ou acompanhada: não te preocuparás com tantas coisas mas somente de encontrar Jesus e segui-lo!
Corre, Bartolomea, e não estejas a dormir, porque o tempo corre e não espera nem um momento!
Permanece no doce amor de Deus.
Doce Jesus, amor Jesus."
Das “Cartas” de Santa Catarina de Sena (1347-1380) (carta n.165 a Bartolomea, esposa de Salviato da Lucca)
FONTE: Site do Vaticano
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