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sexta-feira, 5 de abril de 2013
As Revelações Celestiais de Santa Brígida da Suécia - Livro 1, Capítulo II
Capítulo 2: Palavras de Jesus Cristo à sua filha - que tomou por sua esposa - sobre os artigos da verdadeira fé, e sobre que tipos de adornos, sinais e desejos a esposa precisa ter para agradar o Esposo.
Eu sou o Criador dos céus, da terra, do mar e de tudo que está neles. Eu sou um com o Pai e o Espírito Santo, não como os deuses de pedra ou de ouro, como os utilizados pelo povo antigo, e não vários deuses, como o povo pensava, mas um só Deus: Pai, Filho e Espírito Santo, três pessoas, mas um em natureza divina, o Criador de tudo, mas por ninguém criado, imutável, todo-poderoso e eterno - sem princípio ou fim. Eu sou o que nasceu da Virgem, sem perder minha divindade, mas unindo-a à minha humanidade, de forma que, em uma pessoa, possa ser o verdadeiro Filho de Deus e Filho da Virgem. Eu sou o que pregado na cruz, morreu e foi sepultado, mas minha divindade permaneceu intacta.
Embora eu tenha morrido na humanidade e na carne, que Eu, o Filho único, assumi, eu ainda continuei a existir na minha natureza divina, sendo um só Deus com o Pai e o Espírito Santo. Eu sou o mesmo que ressuscitou dos mortos e subiu ao Céu, e que agora falo contigo em meu Espírito. Eu te escolhi e tomei por esposa para mostrar-te os caminhos do mundo e meus segredos divinos, porque isso me agrada. Tu és minha por direito, porque quando teu marido morreu, colocaste toda a tua vontade em minhas mãos, e após sua morte, pensaste e rezaste sobre como poderias te tornar pobre e abandonar tudo por mim. Então, és minha por direito, por causa deste teu imenso amor, e por isso cuidarei de ti. Então, Eu te tomo como minha esposa, e para meu próprio prazer, como é próprio Deus ser com uma alma casta.
É obrigação da noiva, estar preparada quando o noivo quer celebrar o casamento, de forma que ela esteja adequadamente vestida e pura. Tu já estarás limpa se teus pensamentos estiverem sempre atentos a teus pecados, em como no batismo Eu te purifiquei do pecado de Adão, e quantas vezes eu fui paciente e te sustentei quando caíste em pecado. A noiva deve também trazer a insígnia de seu noivo em seu peito, que significa que deves observar e reconhecer os favores e benefícios que eu te fiz, assim como quão nobremente eu te criei, dando-te um corpo e alma; quão nobremente eu te enriqueci, dando-te saúde e bens temporais; quão amorosamente e docemente eu te redimi quando morri por ti e restaurei a tua herança celestial - se quiseres tê-la.
A esposa deve também fazer a vontade do seu esposo. Mas qual é minha vontade, se não que deves querer me amar acima de todas as coisas e não desejar nada a não ser Eu?
Criei todas as coisas pelo bem da humanidade e coloquei todas as coisas sob a autoridade dela, mas ela ama todas as coisas exceto a mim, e não odeia nada mas a mim. Eu recuperei sua herança, que tinham perdido por causa do pecado, mas eles ela é tão tola e sem razão, que prefere a glória passageira - que é como a espuma do mar que se levanta por um momento como uma montanha, e depois rapidamente cai em nada - ao invés da glória eterna na qual há bem que nunca acaba.
Mas se não desejas, minha esposa, nada a não ser Eu, se desprezas todas as coisas pelo meu bem – não somente seus filhos e parentes, mas também honras e riquezas - eu te darei a mais preciosa e amorosa recompensa! Eu não te darei nem ouro nem prata, mas a mim mesmo, para ser seu noivo - e em recompensa, Eu, que sou o Rei da Glória. Mas se tu estás com vergonha de ser pobre e desprezada, então considera como Eu, seu Deus, fiquei antes de ti, quando meus servos e amigos me abandonaram no mundo. Eu não estava procurando amigos do mundo, mas amigos do céu. E se agora estiveres preocupada e com medo do peso e dificuldade do trabalho, bem como da doença, considere quão difícil e penoso é queimar no inferno!
O que não merecerias se tivesses ofendido um senhor terrestre, como me fizeste? Assim, embora eu te ame com todo o meu coração, não fica sem justiça o menor ponto. Então, como pecaste em todos os teus membros, tens também que prestar satisfação e penitência em cada membro. Mas, por causa de tua boa vontade e tua propósito de reparar seus pecados, vou mudar tua sentença com misericórdia, trocando a dolorosa punição por uma pequena penitência.
Então, abrace e tome sobre ti um pequeno sofrimento, para que possas ser limpa do pecado e alcances o grande premio em pouco tempo! A esposa deve ficar cansada trabalhando ao lado do seu esposo de modo que possa ainda mais confiantemente ter seu descanso com ele.
Revelações Celestiais de Santa Brígida da Suécia
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
Os maus costumes - Santo Afonso Maria de Ligório
A falta de fé naqueles que vivem em pecado não nasce da obscuridade da fé. Embora Deus tenha desejado que as coisas da fé nos fossem em grande parte incompreensíveis e ocultas, para que tivéssemos merecimento em crer, contudo as verdades da fé se tornam evidentes pelos sinais que as manifestam. Não acreditar nelas seria não só imprudência, mas também falta de religião e loucura.
A fraqueza da fé de muitos nasce de seus maus costumes. Quem despreza a amizade de Deus para não se privar de prazeres ilícitos, desejaria que não houvesse lei que os proibisse, nem castigo para os que pecam. Faz tudo para evitar a reflexão sobre as verdades eternas, a morte, o juízo, o inferno, a justiça divina. Tudo isso lhe causa muito medo e torna amargo os seus prazeres. Espreme, então, o cérebro procurando razões, ao menos prováveis, para se persuadir ou se convencer que não existe alma, nem Deus, nem inferno. Assim poderíamos viver e morrer como o animal que não conhece lei nem razão.A dissolução dos costumes é a fonte donde nascem e saem todos os dias tantos livros e sistemas materialistas indiferentistas, deístas e naturalistas. Uns negam a existência de Deus; outros negam a Providência Divina, dizendo que Deus, depois de criar os homens, não se importa mais com eles, sendo-lhes indiferente se o amam ou se o ofendem, se os homens se salvam ou se perdem. Outros negam a bondade divina, afirmando que Deus criou muitas almas para o inferno, forçando-as ele mesmo a pecarem para que assim se condenem e o almadiçoem para sempre no fogo eterno.– Tudo isso é ingratidão e maldade dos homens! Deus os criou por sua misericórdia para os fazer eternamente felizes no céu. Encheou-os de tantas luzes, benefícios e graças, para que alcançássemos a vida eterna. Para esse mesmo fim ele os remiu com tantas dores e com tanto amor. E os homens se esforçam por não acreditar em nada, para se entregarem aos vícios e viverem à vontade.Mas, não adianta! Por mais esforços que façam, nunca esses infelizes poderão libertar-se do remorso da má consciência e do temor da justiça divina. Certamente não poriam em dúvida as verdades da fé e acreditariam firmemente em todas as verdades reveladas por Deus, se deixassem os vícios e se dedicassem a amar a Jesus Cristo.
(A Prática do Amor a Jesus Cristo, Santo Afonso Maria de Ligório, editora Santuário, 1996, pág. 200)
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
São Bernardo - Sermão sobre o Conhecimento e a Ignorância - Sermão 36 sobre o Cântico dos Cânticos
São Bernardo de Claraval
Sermão 36 sobre o Cântico dos Cânticos
O CONHECIMENTO DAS LETRAS É BOM PARA A INSTRUÇÃO, MAS O CONHECIMENTO DA PRÓPRIA FRAQUEZA É MAIS ÚTIL PARA A SALVAÇÃO
I
Aqui
estou para cumprir o que vos prometi; aqui estou para satisfazer vosso
desejo; aqui estou, também, obrigado pela dívida que tenho para com
Deus, a Quem sirvo.
Como vedes, três são as razões que me impelem a pregar: o compromisso assumido, o amor fraterno e o temor a Deus.
Se me abstivesse de falar, pela minha
boca condenar-me-ia. Mas o que acontece se eu falar? Também neste caso,
corro o mesmo risco, o de ser condenado pela minha própria boca: por
pregar e não praticar o que prego. Ajudai-me, pois, com vossas orações,
para que eu possa sempre falar o que é necessário e, com minha conduta,
praticar o que prego.
Tinha vos anunciado o tema do sermão de
hoje: a ignorância, ou melhor, as ignorâncias, porque, como lembrais, há
duas ignorâncias: a de nós próprios e a de Deus. E vos aconselhava a
evitar uma e outra, pois ambas são perdição.
Hoje, procuraremos esclarecer melhor esse
assunto. Antes, porém, discutiremos se toda ignorância é condenável.
Parece-me que não, pois nem toda ignorância produz perdição: há muitas e
mesmo inúmeras coisas que se podem ignorar sem problema algum para a
salvação.
Se alguém, por exemplo, desconhece artes
mecânicas, como a carpintaria, a arte de edificação e outras que são
exercidas para a utilidade da vida neste mundo, acaso tal ignorância
constitui obstáculo para a salvação?
Também são muitos são os que se salvaram e
agradaram a Deus pela sua conduta e com seus atos sem as artes liberais
(e, certamente, são úteis e moralmente bons esses estudos). Quantos não
enumera a Epístola aos Hebreus (cap. XI), que se tornaram
agradáveis a Deus não com erudição, “mas com consciência pura e fé
sincera” (1 Tm 1,5). E agradaram a Deus com os méritos de sua vida e não
com os de seu saber. Cristo não foi buscar Pedro, André, os filhos de
Zebedeu e todos os outros discípulos, entre filósofos; nem em escola de
retórica e, no entanto, valeu-se deles para realizar a salvação na
terra.
Não é porque fossem mais sábios do que todos os homens – como diz de si mesmo o Eclesiastes
(1, 16) -, mas, por causa de sua fé e de sua benignidade, o Senhor os
salvou e fez deles santos e mestres. Pois os Apóstolos mostraram ao
mundo o caminho da vida, não com sublimidade de discurso, nem com
palavras eloqüentes de sabedoria humana, mas pelo modo como aprouve a
Deus: pela estultícia de sua pregação, aprouve a Deus salvar os que
crêem, porquanto o mundo com sua sabedoria não O conheceu (cf. 1 Cor 2,
1; 1, 17-21).
II
Posso estar dando a impressão de querer
lançar em descrédito o saber, de repreender os doutos, de proibir o
estudo das letras. Longe de mim, tal atitude! Conheço muito bem o
inestimável serviço que os homens doutos têm prestado à Igreja: seja
refutando os adversários dela, seja na instrução dos simples.
Com efeito, o que li na Sagrada Escritura
foi: “Como rejeitaste o saber, também Eu te rejeitarei, para que não
exerças Meu sacerdócio” (Os 4, 6). E mais: “Os doutos resplandecerão com
o brilho do firmamento, e os que tiverem ensinado a muitos a justiça,
brilharão como estrelas em perpétuo resplendor” (Dn 12, 3).
Mas, por outro lado, li também: “O saber incha” (1 Cor 8, 1).
E, finalmente: “No acúmulo de saber, acumula-se a dor” (Ecl 1, 18).
Vede que há saberes e saberes: há um
saber que produz o inchaço e há um saber que contrista. Quero que sejais
capazes de distinguir qual deles é útil e necessário para a salvação: o
que incha ou o que dói? E não duvido que prefiras o que aflige ao que
incha, porque, se a saúde pela inchação é aparentada, pela aflição é
procurada.
Ora, quem procura, acaba encontrando,
pois “quem pede, recebe” (Lc 11,10). E é certo que Aquele que cura os
que têm o coração contrito abomina o inchaço dos orgulhosos, pois a
Sabedoria diz: “Deus resiste aos soberbos e dá Sua graça aos humildes”
(Tg 4,6). E o Apóstolo diz: “Exorto-vos, em virtude do ministério que
pela graça me foi dado, a não pretender saber mais do que convém, mas
saber com sobriedade” (Rm 12,3).
O Apóstolo não proíbe saber, mas sim
saber mais do que convém. E o que é saber com sobriedade? É cuidar de
aplicar-se prioritariamente ao que mais interessa saber, pois o tempo é
breve. Ora, ainda que todo saber, desde que submetido à verdade, seja
bom, tu, que buscas com temor e tremor a salvação e a buscas
apressadamente, dada a brevidade do tempo, deves aplicar-te a saber,
antes e acima de tudo, o que conduz mais diretamente à salvação.
Acaso não dizem os médicos do corpo que
parte da medicina é precisamente determinar a ordem dos alimentos: qual
deve ser ingerido antes, qual depois e o modo de os ingerir? Ora, mesmo
sendo bons os alimentos que Deus criou, tu os tornas nocivos se não
observas o modo e a ordem ao ingeri-los. Aplica, pois, aos saberes, o
que dissemos dos alimentos.
III
Mas o melhor é encaminhar-vos ao Mestre.
Não é nossa esta sentença, mas d’Ele; ou antes, é nossa porque a
aprendemos d’Aquele que é a Verdade. E diz: “Se alguém pensa que sabe
alguma coisa, ainda não sabe como deveria saber” (1 Cor 8,2).
Vede como não é aprovado o saber muitas
coisas se se ignora o modo de saber. Vede como o fruto e a utilidade do
saber consiste no modo de saber.
Mas o que é este modo de saber? O que, senão saber segundo a ordem, o amor e o fim devidos?
Segundo a ordem, isto é, priorizando o
que é mais necessário para a salvação; segundo o amor, isto é,
voltando-nos mais ardentemente para o que mais nos impele a amar;
segundo o fim: não por vaidade ou curiosidade ou objetivos semelhantes,
mas somente pela tua própria edificação e pela de teu próximo.
Há quem busque o saber por si mesmo, conhecer por conhecer: é uma indigna curiosidade.
Há quem busque o saber só para poder
exibir-se: é uma indigna vaidade. Estes não escapam à mordaz sátira que
diz: “Teu saber nada é, se não há outro que saiba que sabes” (Persius, Satyra 1, 27).
Há quem busque o saber para vendê-lo por dinheiro ou por honras: é um indigno tráfico.
Mas há quem busque o saber para edificar, e isto é amor. E há quem busque o saber para se edificar, e isto é prudência.
IV
De todos estes que buscam o conhecimento,
só os dois últimos não incorrem em abuso do saber, já que o buscam para
praticar o bem. Deles é que fala o salmo: “O saber é bom para quem o
põe em prática” (Sl 111, 10). Os demais devem ouvir a Escritura: “Quem
conhece o bem e não o pratica, comete pecado” (Tg 4, 17).
É como se, numa comparação, disséssemos:
tomar alimento e não digeri-lo faz mal. Um alimento indigesto, mal
cozinhado, produz maus humores e, em vez de nutrir o corpo, corrompe-o.
Assim também pode dar-se o caso de o estômago da alma, que é a memória,
ingerir muitos conhecimentos que não foram cozinhados pelo fogo do amor e
nem passaram para ser elaborados pelo aparelho digestivo da alma (no
caso, os atos e costumes), a fim de que a alma se torne boa pelo bom
conhecimento (o que pode ser atestado pela vida e pelos costumes). E
acaso um tal saber indigesto não deve ser considerado pecado, tal como
um alimento que se transforma em humores maus e nocivos? E os maus
humores do corpo não equivalem aos maus costumes da alma? E não virá a
sofrer de inchaços e cólicas de consciência quem conhece o bem e não o
pratica?
Acaso não se lhe aplicará a sentença de
morte e condenação, toda vez que lhe vier à mente a palavra de Deus: “O
servo, que conhece a vontade de seu senhor e não a pratica, torna-se
digno de muitos açoites” (Lc 12,47)?
E não será em nome desta alma, o pranto
do profeta (Jr 4,19): “Doem-me as entranhas, doem-me as entranhas”?
Gemidos geminados que – salvo outra interpretação – apontam para o que
dizíamos: o profeta fala de si mesmo, pois estava pleno de saber,
inflamado de amor e, desejando intensamente transmitir esse saber, não
encontrou quem se interessasse por ouvir e teve de arcar sozinho com o
peso de um saber que não pôde comunicar. Chorou, pois, o zeloso doutor
da Igreja, tanto por aqueles que menosprezam a busca do saber que dirige
o bem viver, como pelos que, embora sabendo, no entanto, vivem mal. E,
por isso, o profeta repete seu lamento.
V
Compreendes agora quão verdadeira é a
sentença do Apóstolo: “O saber incha”? Por isso, convém que a alma antes
se conheça a si mesma, coisa que é requerida pela ordem e pela
utilidade.
Pela ordem, porque, para nós, o primeiro
conhecimento deve ser o do que somos; pela utilidade, porque tal
conhecimento não incha, mas humilha e serve de fundação para a
edificação. Pois o edifício espiritual que não tem seu fundamento na
humildade, não se agüenta em pé.
E para aprender a humildade, a alma não
encontra nada mais convincente do que descobrir-se a si mesma na
verdade. Deve-se, portanto, evitar a dissimulação, o auto-engano doloso,
deve o homem encarar-se de frente, evitando fugir de si mesmo.
Pois, defrontando-se a alma com a límpida
luz da verdade, encontrar-se-á muito diferente do que julgava ser e,
suspirando em sua miséria – uma miséria que já não pode esconder porque é
verdadeira e manifesta -, clamará com o salmista ao Senhor: “Em Tua
verdade me humilhaste” (Sl 119, 75). Como não se humilhará neste
verdadeiro conhecimento de si, ao dar-se conta da carga de seus pecados,
sob o peso deste corpo mortal, ao ver-se imersa em preocupações
terrenas, infectada pelos desejos carnais, cega, curvada, fraca, envolta
em mil pavores, angustiada ante mil dificuldades, sufocada ante mil
dúvidas, indigente de mil necessidades, inclinada ao vício, impotente
para as virtudes?
Onde está agora o olhar arrogante? Onde, a
cabeça orgulhosamente erguida? Não será ela ainda mais arremessada em
sua desolação, trespassada por espinhos? (Sl 32, 4). Que ela – diz o
salmista – derrame lágrimas, que chore e gema, que se volte para o
Senhor e clame em sua humildade: “Cura, Senhor, minha alma, pois pequei
contra Ti” (Sl 41,5).
Se ela se voltar para o Senhor, encontrará consolo, pois Ele é o Pai das misericórdias e o Deus de toda consolação.
VI
Eu, quando olho para mim mesmo, fico
imerso em amargura; logo, porém, que alço a vista para o auxílio da
misericórdia divina, suaviza-se meu amargor com a alegria da visão de
Deus e Lhe digo: “Minha alma está conturbada interiormente, por isso me
lembro de Ti” (Sl 42,7).
Basta um pouco de conhecimento de Deus
para experimentar que Ele é piedoso e solícito, pois, na verdade, Ele é
um Deus de bondade e misericórdia, que perdoa a maldade (Jl 2,13); Sua
natureza é a bondade e é próprio d’Ele perdoar e ter misericórdia
sempre.
Deus se dá a conhecer nesta experiência e
desta maneira salutar, a partir do momento em que o homem se reconheça
indigente e clame ao Senhor; e Ele o ouvirá e dir-lhe-á: “Eu te
libertarei e tu Me glorificarás” (Sl 50,15).
Assim, o conhecimento próprio é um passo
para o conhecimento de Deus. Vê-lO-ás em Sua imagem, que em ti se forma,
na medida em que tu, desarmado pela humildade, com confiança, irás
refletindo a glória do Senhor e, levado pelo Espírito de Deus, de
claridade em claridade, irás te transformando nessa imagem.
VII
Reparai, pois, como ambos conhecimentos
são necessários para a salvação, de tal modo que não pode faltar nenhum
dos dois. Pois, se desconheces a ti mesmo, não terás temor de Deus em
ti, nem humildade. Por acaso pensas que podes alcançar a salvação sem
temor de Deus e sem humildade?
(Neste momento, o auditório murmura: “Não, não!”).
Fizestes bem de indicar-me o “não”
absoluto de vosso juízo, ou antes, que não estais desprovidos de juízo…
Nem vale a pena continuar falando sobre o óbvio.
Mas, prestai atenção a um outro ponto…
Ou será melhor parar, por causa dos que
já estão pestanejando? Eu pretendia, em um só sermão, dar conta do que
tinha prometido: falar da dupla ignorância, e fá-lo-ia se não me
parecesse que este discurso já está demasiadamente longo para os que o
acham cansativo. E vejo alguns bocejando e outros dormitando. E não é de
admirar, pois a longuíssima vigília de oração que tivemos hoje os
desculpa.
O que direi, porém, daqueles que dormem
agora, mas dormiram também enquanto rezávamos os ofícios? Não quero,
porém, levar isto adiante e envergonhá-los, baste ter mencionado o fato…
Penso que de hoje em diante cuidarão de estar atentos, advertidos que
foram pela nossa correção.
Com esta esperança e em atenção a eles,
em vez de continuar, partamos, suspendendo por clemência o discurso, e
dêmos-lhe fim, embora não tenha atingido seu fim. Eles, por sua vez,
tendo sido objeto de nossa compreensão, associem-se a nós em glorificar o
Esposo da Igreja, Nosso Senhor Jesus Cristo, que está acima de todas as
coisas, Deus bendito pelos séculos. Amém.
* * *
São Bernardo de Claraval,
rogai por nós!
rogai por nós!
Fonte: Blog Ecclesia Una
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
Santa Catarina de Siena - Carta 51: Caminho para a humildade
Para Félix de Massa
Saudação e objetivo
Em
nome de Jesus Cristo crucificado e da amável Maria, meu caríssimo filho
(1) no doce Cristo Jesus, eu Catarina, serva e escrava dos servos de
Jesus Cristo, vos escrevo no seu precioso sangue, desejosa de vos ver
alicerçado na verdadeira e perfeita humildade.
Iluminação divina e humildade
Quem é
humilde também é paciente no suportar dificuldades por amor à verdade,
pois a humildade alimenta e sustenta a caridade. Quem possui a chama da
caridade nunca é negligente, mas sempre solícito, porque a caridade não é
preguiçosa, sempre trabalha. Todavia, sem uma iluminação divina,
ninguém possui a caridade e a humildade, que afastam o orgulho. Se o
olho tem um objeto que possa ver, mesmo que esteja sadio e haja luz, se
ele não estiver aberto, nada verá. O olho da nossa alma é a
inteligência, e sua iluminação vem da fé, se tal olho não estiver velado
pelo pano do amor-próprio ou egoísmo. Quando o egoísmo é afastado,
nossa inteligência torna-se limpa e conhece. Desperta a afeição da alma,
que começa a amar seu benfeitor. Impulsionado pelo amor, o pensamento
se abre e contempla o objeto, que é Cristo crucificado. A alma
compreende, sobretudo no precioso sangue, o abismo do seu infinito amor
(2).
A humildade é a cela do auto conhecimento
Onde a
inteligência (iluminada pela fé) encontra Cristo crucificado? Na cela
do coração, na qual a alma vê a própria miséria, os próprios defeitos, o
próprio nada. Mas, ao mesmo tempo, conhece a bondade de Deus. Se a alma
ficasse conhecendo somente si mesma, seu conhecimento de Deus não seria
verdadeiro; nem a pessoa colheria os frutos que resultam do
conhecimento de si. Ela mais perderia do que ganharia, uma vez que
retiraria do conhecimento de si apenas tédio e confusão. Cairia na
aridez (espiritual). E se continuasse assim, sem a devida cura,
terminaria no desespero. De outro lado, se a alma apenas conhecesse a
Deus e não a si mesma. Colheria como fruto apodrecido uma grande
confusão (intelectual), que alimenta a soberba. Aliás, uma coisa nutre a
outra. É preciso, portanto, que o conhecimento iluminado da alma chegue
a um grau completo, tanto do conhecimento de Deus como de si mesma.
Desse
modo a alma evita a presunção e o desespero, e colhe na cela do coração o
fruto da vida, a partir do conhecimento de si e de como o desprezo do
pecado e da perversa lei (da sensualidade), sempre disposta a lutar
contra o espírito (Rm 7,23). Tal desprezo gera a paciência, que é o
cerne da caridade. No conhecimento de Deus (presente) em si, a alma
atingi o abismo do amor por Deus e pelo próximo. Na luz da fé compreende
que o amor que tem por Deus não pode ser útil ao Criador. Por isso,
imediatamente a alma começa a ser útil ao próximo, por amor a Deus. Ama a
criatura por compreender que Deus a ama sumamente. É condição do amor
que alguém ame tudo o que a pessoa amada ama.
Conselhos materiais de Catarina. Conclusão
Filho
caríssimo, com a iluminação divina recebemos a humildade e a caridade.
Graças ao esforçado empenho, dado pela chama da caridade, destruiremos
toda negligência; ao mesmo tempo, a água da humildade lavará nossa
soberba. Ficamos sedentos da glória divina e zelosos pela salvação das
almas mediante a cruz do Cordeiro imaculado e humilde. Outro caminho não
existe! Foi ao considerar que temos de caminhar por tal caminho da
humildade, que eu disse acima estar desejosa de vos ver alicerçado na
verdadeira e perfeita humildade. Quero que vivais dessa maneira, sem
medo e sem confusão na mente. Mas, sobretudo, quero que recomeceis a
viver com fé viva, esperança firme, obediência pronta. Quero que
reabasteçais e alimenteis vossa alma. Que ela não resseque pela confusão
e cansaço da mente. Pelo contrário, com muito empenho esforçai-vos por
despertar do sono da negligencia, imitando as virtudes que vedes nos
vossos irmãos e conservando-as em vosso coração. Amai a verdade! Que ela
esteja sempre em vossos lábios. Quando ocorrer, difundi-a nos outros,
sobretudo entre as pessoas que amais. Mas fazei-o com delicadeza,
assumindo os defeitos alheios. Se não fizeste isso no passado, com a
necessária cautela corrigi-o no futuro. Quero que não vos aflijais, nem
vos preocupeis comigo. Dia após dia, deixemos passar as ondas deste
tempestuoso mar, na humildade, caridade fraterna e paciência.
Nada mais acrescento. Permanecei no santo e doce amor de Deus. Jesus doce, Jesus amor.
(1) Félix
Massa foi um discípulo muito fiel de Catarina. Acompanhou-a até
Avinhão, na França. Catarina ficou sabendo que Ele andava muito abatido
pelas críticas que ela estava suportando em seus apostolado. Enviou-lhe
então esta carta.
(2) Este
parágrafo foi de difícil tradução, porque Catarina compara a
inteligência com o olho; a claridade da luz é a fé; objeto da visão é
Jesus Cristo; o egoísmo é a venda que impede a visão da fé.
Cartas completas – Editora Paulus – Tradução Frei João Alves Basílio O. P.
Fonte: Blog Servo dos Servos de Deus
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