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quinta-feira, 16 de março de 2017

Comentário ao Evangelho (16/03) feito por Santo Agostinho



Comentário do dia 
Santo Agostinho (354-430), bispo de Hipona (norte de África), doutor da Igreja 
Discursos sobre os salmos, 85,3; CCL 39, 1178

A verdadeira riqueza e a verdadeira pobreza

Meus irmãos, quando digo que Deus não inclina os seus ouvidos para o rico, não deduzais que Deus não atende os que possuem ouro e prata, criados e patrimónios. Se eles nasceram nessas condições e ocupam esse lugar na sociedade, que se lembrem desta palavra do apóstolo Paulo: «Recomendo aos ricos deste mundo que não sejam orgulhosos» (1Tim 6,17). Aqueles que não são orgulhosos são pobres diante de Deus, que inclina os seus ouvidos para os pobres e os necessitados (Sl 85,1). Com efeito, eles sabem que a sua esperança não está no ouro nem na prata, nem nas coisas de que gozam durante algum tempo. Basta que as riquezas não os levem à perdição e que, se elas nada podem para os salvar, ao menos não lhes sirvam de obstáculo. Quando um homem despreza tudo quanto alimenta o seu orgulho, é um pobre de Deus; e Deus inclina-Se para ele, porque conhece os tormentos do seu coração. 

Não há dúvida, irmãos, de que o pobre Lázaro, que permanecia, coberto de chagas, à porta do rico, foi levado pelos anjos ao seio de Abraão; é isto que lemos e nisto que acreditamos. Quanto ao rico, que se vestia de púrpura e de linho fino e festejava esplendidamente todos os dias, foi precipitado nos tormentos do inferno. Terá sido, realmente, o mérito da sua indigência que valeu ao pobre ter sido levado pelos anjos? E o rico terá sido entregue aos tormentos do inferno por causa da sua opulência? Não, mas ao pobre foi a humildade que o dignificou, e ao rico foi o orgulho que o condenou.

Fonte: Evangelho Quotidiano

domingo, 5 de janeiro de 2014

Santo Afonso Maria de Ligório - Sobre a pobreza de Jesus Menino

 
MEDITAÇÃO XI.

SOBRE A POBREZA DE JESUS MENINO.

Céu!! quem não se compadeceria ao ver o filho dum rei nascer em pobreza tal que o obrigasse a abrigar-se numa caverna úmida e fria, a não ter nem leite, nem servos, nem lume, nem mesmo os paninhos necessários para se acalentar?

Ah! meu Jesus, sois o Filho do Senhor do céu e da terra, e nessa gruta gelada não tendes senão uma manjedoura por berço, um pouco de palha por leito, e miseráveis paninhos para vos cobris! Os anjos vos rodeiam e louvam, mas não trazem nenhum alívio à vossa pobreza. Meu Redentor, quanto mais pobre sois, tanto mais amável vos devemos achar pois abraçastes essa grande pobreza para melhor ganhar o nosso amor. Se tivésseis nascido num palácio, se tivésseis um berço de ouro, se fosseis servido pelos maiores príncipes da terra, inspira-ríeis aos homens mais respeito, mas menos amor; essa gruta em que estais, esses panos grosseiros que vos cobrem, essa palha em que repousais, essa manjedoura que vos serve de berço, oh! como tudo isso obriga nossos corações a amar-vos, tanto mais que vos fizestes tão pobre a fim de vos tornar mais caro aos nossos olhos. “Quanto mais ele se abaixa por mim, exclama S. Bernardo, tanto mais caro me é”. Fizestes-vos pobre para enriquecer-nos dos vossos bens, isto é, da vossa graça e da vossa glória; é S. Paulo que o diz: Ele se fez indigente... a fim de que sua indigência nos enriquecesse.

A pobreza de Jesus Cristo é para nós uma fonte de grandes riquezas, porque nos move a adquirirmos os bens do céu desprezando os da terra. — Ó meu Jesus, a quantos santos a vossa pobreza fez deixar tudo, riquezas, honras, mesmo coro-as, para viverem pobres convosco. Por favor, ó meu Salvador, desapegai-me também de toda afeição aos bens terrenos, a fim que me torne digno de obter o vosso santo amor e de possuir a vós, Bem infinito!


Afetos e Súplicas.

Ó divino Infante, pena que não posso dizer-vos com vosso caro S. Francisco: “Meu Deus, sois tudo para mim!” ou com Davi: Que há para mim no céu? e fora de vós, que posso desejar sobre a terra? Sois o Deus do meu coração, e a minha única herança para a eternidade. Oxalá pudesse, também eu, não desejar no futuro outra riqueza senão a do vosso amor; de maneira que as vaidades do mundo não tivessem mais domínio sobre o meu coração, e só vós fosseis o seu único Senhor, ó meu Bem-amado! Sim, quero começar hoje a dizer-vos: Sois o Deus do meu coração e a minha herança para a eternidade!

Ah! no passado procurei os bens terrestres, e que encontrei? espinhos e fel! Hoje sinto mais contentamento em me achar aos vossos pés, para vos agradecer e amar, do que proporcionaram todos os meus pecados. Uma só coisa me aflige: o te-mor de que me não tenhais ainda perdoado. Mas as vossas promessas de perdoar a quem se arrepende, a pobreza a que vos vejo reduzido por meu amor, a vossa voz que me convida a amar-vos, as lágrimas, o sangue que derramastes por mim, as dores, as ignomínias, a morte cruel que sofrestes para a minha salvação, tudo isso me consola e me faz esperar com segurança o meu perdão. E se ainda me não perdoastes, dizei-me o que tenho a fazer. Quereis me arrependa de minhas iniqüidades, oh! arrependo-me de todo o coração de vos haver ofendido, meu Jesus! Quereis que vos ame? amo-vos mais do que a mim mesmo. Quereis que renuncie e tudo? oh! sim, renuncio a tudo e dou-me todo a vós. Sei que me aceitais; sem isso, não teria nem arrependimento, nem amor, nem desejo de dar-me a vós. Dou-me pois a vós, ó meu Deus, e vós me recebeis; amo-vos e vós me amais. Não permitais que esse nosso mútuo a-mor cesse jamais de nos unir.
Minha Mãe, Maria, obtende-me a graça de amar sempre a Jesus e de ser sempre amado por Jesus.


Fonte: Blog São Pio V

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Comentário do Evangelho do dia (11/09) feito por São Leão Magno



(?-c. 461), papa, doutor da Igreja
Sermão 95; PL 54, 461

 
«Felizes vós, os pobres»


«Felizes os pobres de espírito porque é deles o reino dos céus» (Mt 5,3). Poderíamos perguntar-nos a que pobres quereria a Verdade referir-se se, ao dizer «Felizes os pobres», não tivesse acrescentado nada sobre o tipo de pobres de que falava. Pensar-se-ia então que, para merecer o Reino dos Céus, bastaria a indigência de que muitos sofrem devido a uma necessidade penosa e dura. Mas ao dizer: «Felizes os pobres de espírito», o Senhor mostra que o Reino dos Céus deve ser dado aos que são recomendados mais pela humildade da alma, do que pela penúria dos recursos.


No entanto, não podemos duvidar de que os pobres adquirem mais facilmente do que os ricos o bem que é esta humildade, pois a doçura é uma amiga da sua indigência, ao passo que o orgulho é o companheiro da opulência dos ricos. Porém, também se encontra entre muitos ricos esta disposição de alma que os leva a servirem-se da sua abundância, não para se encherem de orgulho, mas para praticarem a bondade, e que encaram como grande lucro o que gastaram para aliviar a miséria e a infelicidade dos outros. A todos os tipos e classes de homens é dada a oportunidade de participarem nesta virtude, porque podem ser simultaneamente iguais em intenção e desiguais em fortuna; e pouco importam as diferenças entre os recursos terrenos que encontramos entre os homens que são iguais em bens espirituais. Feliz esta pobreza que não está agrilhoada pelo amor das riquezas materiais; ela não deseja aumentar a sua fortuna neste mundo, antes aspira a tornar-se rica dos bens dos céus.


Créditos: Evangelho Quotidiano

terça-feira, 30 de abril de 2013

Maria Santíssima, modelo de pobreza - Por Santo Afonso Maria de Ligório



Si vis perfectus esse, vade, vende quae habes, et da pauperibus; ...et veni, sequere me - "Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, e dá-o aos pobre; ...depois vem, e segue-me" (Matth. 19, 21).


Sumário. O divino Redentor, para nos ensinar a desprezar os bens do mundo, quis sempre ser pobre nesta terra. E a Santíssima Virgem seguiu-lhe o exemplo, mostrando-se a sua discípula mais perfeita, porque ela também nasceu, viveu e morreu na maior pobreza. Somos nós também amantes de tão bela virtude e dos incômodos que a acompanham?... Esforcemo-nos a todo custo por imitar a nossa querida Mãe, lembrando-nos de que o que ama as comodidades e as riquezas, nunca será santo.


I. O nosso amoroso Redentor, para nos ensinar a desprezar os bens mundanos, quis ser pobre neste mundo. Por isso Jesus exorta a todo aquele que queira segui-Lo a que venda todos os seus haveres e distribua o produto entre os pobres: Si vis perfectus esse, vade, vende quae habes, et da pauperibus... et veni, sequere me - "Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, e dá-o aos pobres... depois vem e segue-me". Eis como Maria, a sua discípula mais perfeita, lhe seguiu exatamente o exemplo. Afirma o bem-aventurado Canisio, que a Santíssima Virgem, com a herança de seus pais, teria podido viver muito comodamente, mas preferiu ficar pobre, reservando para si uma pequena parte, e distribuindo o mais em esmolas ao templo e aos pobres.


Querem muitos escritores que Maria tivesse feito também voto de pobreza, e sabe-se que ela mesma revelou a Santa Brígida, que desde o principio de sua vida prometera no coração nunca possuir alguma coisa no mundo: A principio vovi in corde meo, nihil umquam possidere in mundo. - Os dons que recebeu dos santos Magos não foram certamente de pouco valor, mas distribuiu-os todos aos pobres, como atesta São Bernardo. Isto se deduz também de que ela, indo ao templo, não ofereceu o cordeiro, que era a oferta das pessoas abastadas (1), mas duas rolas ou dois pombinhos (2), a oferta dos pobres. Maria mesma disse a Santa Brigida: "Tudo o que podia obter, eu dava-o aos pobres, e não reservei nada para mim, senão um tênue alimento e o vestido."


Por amor à pobreza a Virgem não duvidou desposar-se com um pobre oficial, qual foi São José, e depois sustentar-se com o trabalho de suas mãos, fiando ou cosendo, como atesta São Boaventura. Numa palavra, as riquezas do mundo foram para Maria como que lodo, e ela sempre viveu pobre e morreu pobre. Na morte não se sabe que deixasse outra coisa além de duas pobres vestes, que deu a duas mulheres que a haviam servido em vida (3).


II. Quem ama os bens do mundo, nunca se fará santo, dizia São Filipe Neri. E Santa Teresa acrescentava: É justo que quem vai atrás das coisas perdidas, também se perca. por outro lado, dizia a mesma Santa que a virtude de pobreza é um bem que encerra todos os outros bens. - Disse a virtude de pobreza, a qual, como observa São Bernardo, não consiste em ser somente pobre, mas em amar a pobreza. Pelo que Jesus Cristo disse: Beati pauperes spiritu - "Bem-aventurados os pobres de espírito" (4). Bem-aventurados, sim, porque aqueles que não querem senão a Deus, em Deus acham todos os bens, e encontram na pobreza o seu paraíso na terra.


Amemos, pois, aquele único bem em que se acham todos os bens, conforme exortava Santo Agostinho, e peçamos ao Senhor com Santo Ignácio: Meu Deus, dai-me somente o vosso amor com a vossa graça, e sou bastante rico. E quando nos aflige a pobreza, consolemo-nos com o pensamento que Jesus e sua divina Mãe foram também pobres como nós.


Ah, minha Mãe Santíssima, bem tivestes razão de dizer que em Deus estava a vossa alegria: Et exultavit spiritus meus in Deo salutari meo (5) - "E meu espírito alegrou-se em Deus meu Salvador", porque neste mundo não ambicionastes nem amastes outro bem senão Deus. Trahe me post te (6). Senhora, desapegai-me do mundo e arrastai-me atrás de vós, para amar só àquele que só merece ser amado. - E Vós, ó meu Jesus, vinde pelo vosso amor consumir em mim todos os afetos que não sejam para Vós. Fazei com que no futuro eu não atenda senão a Vós, não pense senão em Vós, não suspire senão por Vós. Fazei, numa palavra, com que imitando a virtude de vossa querida Mãe e minha grande Rainha, eu morra a todos os bens da terra e a todas as minhas inclinações, para não amar senão a vossa bondade infinita e não desejar senão a vossa graça e o vosso amor. (*I 267.)

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1 Lev. 12, 6.
2 Luc. 2, 24.
3 Apost. Metaph.
4 Matth. 5, 3.
5 Luc. 1, 47.
6 Cant. 1, 3.


(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 72 - 73.)
Créditos: Blog São Pio V

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Santa Teresa D'Ávila, Caminho de Perfeição - CAPÍTULO 2. Trata como se hão-de descuidar das necessidades corporais, e do bem que há na pobreza.



1. Não penseis, minhas irmãs, que, por não andar a contentar os do mundo, vos há-de faltar de comer; isto vos asseguro. Jamais, por artifícios humanos, pretendais sustentar-vos, porque morrereis de fome, e com razão. Ponde os olhos em vosso Esposo; Ele vos há-de sustentar. Contente Ele, ainda que o não queiram, dar-vos-ão de comer os vossos menos devotos, como tendes visto por experiência. Se, fazendo vós isto, morrerdes de fome, bem-aventuradas as freiras de S. José. Não vos esqueçais disto, por amor do Senhor. Já que deixais as rendas, deixai os cuidados da comida; se não, tudo vai perdido. Aqueles que o Senhor quer que a tenham, em boa hora tenham esses cuidados, que é de muita razão, pois é a sua vocação; mas em nós, Irmãs, é disparate.

2. Cuidado de rendas alheias, me parece seria estar pensando no que os outros gozam. Sim; porque, com o vosso cuidado, não muda ninguém o seu pensamento, nem lhe vem o desejo de dar esmola. Deixai este cuidado a Quem os pode mover a todos, que Ele é o Senhor das rendas e dos rendeiros. À Sua chamada viemos aqui; as Suas palavras são verdadeiras; não podem faltar; antes faltarão os céus e a terra. Não Lhe faltemos nós, e não haja medo de que Ele falte. Se alguma vez vos faltar, será para maior bem, tal como faltava a vida aos Santos quando os matavam pelo Senhor, e era para lhes aumentar a glória pelo martírio. Boa troca seria acabar depressa com tudo e ir gozar da fartura imperdurável!

3. Olhai, irmãs, que isto importa muito depois da minha morte; e, por isso, aqui vo-lo deixo escrito. Enquanto eu viver, eu vo-lo recordarei, pois vejo, por experiência, o grande lucro que há nisto. Quando menos há, mais descuidada estou, e o Senhor sabe que, segundo me parece, dá-me mais pena quando sobra muito do que quando falta. Não sei se o faz como já tenho visto; o Senhor logo no-lo dá. Outra coisa seria enganar o mundo, fazendo-nos pobres não o sendo de espírito, mas somente no exterior. Isto seria, para mim, um caso de consciência, a modo de dizer, e parecer-me-ia serem ricas a pedir esmola. Praza a Deus que não seja assim; pois onde há estes cuidados excessivos para que dêem, uma vez ou outra irão pelo costume, ou poderiam ir e pedir aquilo de que não precisam a quem talvez tenha mais necessidade. Esses, nada podem perder com isso, senão ganhar; mas nós, sim perderíamos. Não o queira Deus, minhas filhas; se isto houvesse de suceder, mais quisera eu que tivésseis renda.

4. De nenhum modo se ocupe nisto o vosso pensamento, eu vo-lo peço como esmola, por amor de Deus. E quando a mais pequena de entre vós, alguma vez verificasse isto nesta casa, clame a Sua Majestade e lembre-o à Maior. Diga-lhe com humildade que vai errada e tanto, que, pouco a pouco, se vai perdendo a verdadeira pobreza. Eu espero no Senhor que não será assim e que Ele não abandonará as Suas servas. Para isso, ainda que para mais não seja, sirva-vos isto que me mandastes escrever como um despertador.

5. E creiam, minhas filhas, que, para vosso bem, deu-me o Senhor a entender um poucochinho dos bens que há na santa pobreza e, as que o experimentarem, entendê-lo-ão; talvez não tanto como eu, porque não só eu não tinha sido pobre de espírito, ainda que o tivesse professado, mas sim louca de espírito, porque experimentei o contrário. É este um bem que encerra em si todos os bens do mundo. É grande senhorio. Digo que é um assenhorear-se de novo de todos os bens da terra para quem deles não faz caso. Que me importam os reis e senhores, se não quero as suas rendas, nem os pretendo mesmo contentar, se para isso se me atravessa por diante um tudo-nada que seja o ter de descontentar nalguma coisa a Deus? Ou, que se me dá das suas honras, se tenho entendido que, para um pobre, a maior honra está em ser verdadeiramente pobre?

6. Tenho para mim, que honras e dinheiro quase sempre andam juntos e, quem quer honras, não aborrece o dinheiro e, quem o aborrece, pouco se lhe dá de honras. Entenda-se bem isto, pois me parece que isto de honras sempre traz consigo algum interesse de rendas ou dinheiro. É que, só por maravilha, é digno de honra no mundo o que é pobre; antes, pelo contrário, ainda que de si a mereça, é tido em pouco. A verdadeira pobreza traz consigo uma tal honra, que não há quem lhe resista. Digo a pobreza que é abraçada só por Deus, pois que não precisa de contentar senão a Ele. E é coisa muito certa, em não havendo necessidade de ninguém, ter muitos amigos. Eu bem o tenho visto por experiência.

7. Porque há tanto escrito sobre esta virtude, não sei porque falo dela, pois nem o saberei entender, quanto mais dizer; assim, para não lhe fazer agravo, louvando-a eu, nada mais digo. Só tenho dito o que sei por experiência, e confesso ter estado tão embebida nisto, que nem me dei conta,até agora, do que escrevi. Mas, porque está dito, por amor do Senhor vos peço: já que as nossas armas são a santa pobreza, e o que no princípio da fundação da nossa Ordem era tão estimada e guardada pelos nossos Santos Padres (que me disse quem o sabe que dum dia para o outro não guardavam nada), ainda que no exterior não se guarde agora com tanta perfeição, procuremos tê-la no interior. Duas horas temos de vida e grandíssimo é o prémio; e mesmo que não houvesse nenhum, a não ser o de cumprir o que nos aconselhou o Senhor, seria já grande paga imitar em alguma coisa a Sua Majestade.

8. Estas armas hão-de ter nossas bandeiras, que, de todas as maneiras, queiramos guardar: na casa, no vestido, nas palavras e muito mais no pensamento. E, quando isto fizerem, não tenham medo que decaia a religião desta casa com o favor de Deus; pois, como dizia Santa Clara, grandes muros são os da pobreza. Destes, dizia ela, e da humildade, queria cercar os seus conventos; e, certo é que, se isto se guarda de verdade, a honestidade e tudo o mais estará muito melhor fortalecido do que em sumptuosos edifícios. Destes, guardem-se, por amor de Deus; eu vo-lo peço pelo Seu sangue; e, se em consciência o posso dizer, digo: que, no dia em que tal fizerem, voltem a cair.

9. Muito mal parece, filhas minhas, que da fazenda dos pobrezinhos se façam grandes casas. Não o permita Deus, mas pobres em tudo e pequenas. Pareçamo-nos em alguma coisa ao nosso Rei, que não teve casa, a não ser o presépio de Belém, onde nasceu, e a cruz onde morreu. Casas eram estas em que se podia ter pouca recreação. Os que as fazem grandes, lá se avenham; têm outras intenções santas. Mas, a treze pobrezitas, qualquer canto lhes basta. Se tiverem campo, porque é necessário pelo muito encerramento (e até ajuda à oração e devoção), com algumas ermidas para se apartarem a orar, tanto melhor. Mas, edifícios e casa grande e curiosa, nada! Deus nos livre! Lembrai-vos sempre que há-de cair tudo no dia do juízo; e E sabemos se será em breve?

10. Que faça muito ruído ao desmoronar-se a casa de treze pobrezitas, não é bem, pois os verdadeiros pobres não hão-de fazer ruído; gente sem ruído hão-de ser, para que deles tenham pena. E, como se alegrarão, se virem alguém, pela esmola que lhes tiver feito, livrar-se do inferno; tudo é possível, porque estais muito obrigadas a rogar muito continuamente por suas almas, pois vos dão de comer.' E o Senhor também quer, embora venha da Sua parte, que agradeçamos às pessoas, por cujo meio Ele no-lo dá. Nisto não haja descuido.

11. Não sei o que tinha começado a dizer, pois me distraí. Creio que o Senhor assim quis, porque nunca pensei escrever o que disse Sua Majestade nos tenha sempre de Sua mão para não decairmos disto, amen.

Fonte: Caminho de Perfeição

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Santo Rosário - São Josemaría Escrivá - Mistérios Gozosos - Segundo e Terceiro


2 Agora, menino amigo, espero que já saibas desembaraçar-te. Acompanha, alegremente, José e Santa Maria... e ficarás a par das tradições da Casa de David.

Ouvirás falar de Isabel e de Zacarias, enternecer-te-ás com o amor puríssimo de José e baterá com mais força o teu coração, cada vez que pronunciarem o nome do Menino que há-de nascer em Belém...

Caminhamos, apressadamente, em direcção às montanhas, até uma aldeia da tribo de Judá (Lc I, 39).

Chegamos. - É a casa onde vai nascer João Baptista. - Isabel aclama, agradecida, a Mãe do Redentor: Bendita és tu, entre todas as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre! - A que devo eu tamanho bem, que venha visitar-me a Mãe do meu Senhor? (Lc I, 42 e 43).

O Baptista, ainda por nascer, estremece... (Lc I, 41)... A humildade de Maria verte-se no Magnificat... E tu e eu, que somos - que éramos - uns soberbos, prometemos ser humildes.



3
Foi promulgado um édito de César Augusto, que manda recensear toda a gente. Para isso, cada qual tem de ir à terra dos seus antepassados. - Como José é da casa e da família de David, vai com a Virgem Maria, de Nazaré até à cidade chamada Belém, na Judeia (Lc II, 1-5).

E, em Belém, nasce o nosso Deus: Jesus Cristo! Não há lugar na pousada: num estábulo. - E Sua Mãe envolve-O em paninhos e reclina-O no presépio (Lc 11, 7) . Frio. - Pobreza. - Sou um escravozito de José. - Que bom é José! Trata-me como um pai a seu filho. - Até me perdoa, se estreito o Menino entre os meus braços e fico, horas e horas, a dizer-Lhe coisas doces e ardentes!...

E beijo-O - beija-O tu - e embalo-O e canto para Ele e chamo-Lhe Rei, Amor, meu Deus, meu Único, meu Tudo!... Que lindo é o Menino... e que curta a dezena!


Fonte: São Josemaría Escrivá







segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Santa Clara de Assis - Carta II a Inês de Praga


Ainda no clima do dia de Santa Clara, que celebramos no último sábado.

Carta II
A Segunda Carta de Santa Clara a Inês de Praga
Clara, serva inútil e indigna das pobres damas, saúda dona Inês, filha do Rei dos reis, serva do Senhor dos senhores, esposa digníssima de Jesus Cristo e por isso rainha nobilíssima, augurando que viva sempre na mais alta pobreza.

Agradeço ao Doador da graça, do qual cremos que procedem toda dádiva boa e todo dom perfeito, pois adornou-a com tantos títulos de virtude e a fez brilhar em sinais de tanta perfeição, 4 para que, feita imitadora atenta do Pai perfeito, mereça ser tão perfeita que seus olhos não vejam em você nada de imperfeito.

É essa perfeição que vai uni-la ao próprio Rei no tálamo celeste, onde se assenta glorioso sobre um trono estrelado. 6 Desprezando o fausto de um reino da terra, dando pouco valor à proposta de um casamento imperial, 7 você se fez seguidora da santíssima pobreza em espírito de grande humildade e do mais ardente amor, juntando-se aos passos daquele com quem mereceu unir-se em matrimônio.

Mas eu sei que você é rica de virtudes e vou ser breve para não a sobrecarregar de palavras supérfluas, 9 mesmo que não lhe pareça demasiado nada que lhe possa dar alguma consolação. Mas, como uma só coisa é necessária, é só isso que eu confirmo, exortando-a por amor daquele a quem você se entregou como oferenda santa e agradável. Lembre-se da sua decisão como uma segunda Raquel:

Não perca de vista seu ponto de partida, conserve o que você tem, faça o que está fazendo e não o deixe mas, em rápida corrida, com passo ligeiro e pé seguro, de modo que seus passos nem recolham a poeira, confiante e alegre, avance com cuidado pelo caminho da bem-aventurança. Não confie em ninguém, não consinta com nada que queira afastá-la desse propósito, que seja tropeço no caminho, para não cumprir seus votos ao Altíssimo na perfeição em que o Espírito do Senhor a chamou.

Nisso, para ir com mais segurança pelo caminho dos mandamentos do Senhor, siga o conselho de nosso venerável pai, o nosso Frei Elias, ministro geral. Prefira-o aos conselhos dos outros e tenha-o como o mais precioso dom.

Se alguém lhe disser outra coisa, ou sugerir algo diferente, que impeça a sua perfeição ou parecer contrário ao chamado de Deus, mesmo que mereça sua veneração, não siga o seu conselho. Abrace o Cristo pobre como uma virgem pobre.

Veja como por você ele se fez desprezível e o siga, sendo desprezível por ele neste mundo. 20 Com o desejo de imitá-lo, mui nobre rainha, olhe, considere, contemple o seu esposo, o mais belo entre os filhos dos homens feito por sua salvação o mais vil de todos, desprezado, ferido e tão flagelado em todo o corpo, morrendo no meio das angústias próprias da cruz.

Se você sofrer com ele, com ele vai reinar; se chorar com ele, com ele vai se alegrar; se morrer com ele na cruz da tribulação vai ter com ele mansão celeste nos esplendores dos santos. 22 E seu nome, glorioso entre os homens, será inscrito no livro da vida.

Assim, em vez dos bens terrenos e transitórios, você vai ter parte na glória do reino celeste eternamente, para sempre, vai ter bens eternos em vez dos perecedouros, e viverá pelos séculos dos séculos.

Adeus, irmã querida, senhora minha pelo Senhor que é seu esposo. 25 Em suas piedosas preces, procure lembrar-se de mim e de minhas Irmãs, que nos alegramos com os bens que o Senhor realiza em você por sua graça. 26 Recomende-nos também, e muito, às suas Irmãs.

Fonte; Volta para Casa
Intratext
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