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terça-feira, 28 de março de 2017

A oração de um carmelita para a Quaresma


Precisamos “mergulhar”, “descer sempre mais”, “fazer uma viagem” ao interior de nossa alma, porque, se estamos em estado de graça, é aí que mora o Senhor.

É uma especialidade da Ordem do Carmo fazer-nos entrar em contato com Deus no mais íntimo de nosso ser — experiência que é, na verdade, fundamental para a fé cristã, e que foi condensada por Santo Agostinho na famosa frase de suas Confissões: "Eis que estavas dentro, e eu fora" (X, 27, 38). Santa Teresa d'Ávila comparava a alma do justo, por exemplo, a um jardim onde Deus encontra as suas delícias; Santa Teresinha do Menino Jesus, por sua vez, cantava a alegria de ter encontrado "o Céu na terra" — nada menos que Deus morando em seu coração; e Santa Elisabete da Trindadenão tomou este nome senão para honrar a inabitação trinitária em si.

A Quaresma, tempo de profunda interiorização, nada mais é que um resgate sempre necessário, portanto, do que precisamos fazer por toda a nossa vida: "mergulhar", "descer sempre mais", "fazer uma viagem" para dentro de nossa alma, até encontrarmos Aquele que é mais íntimo que o que há de mais íntimo de nós, para usar outra expressão agostiniana (cf. Confissões, III, 6, 11).

Um outro carmelita que compreendeu, viveu e transmitiu essa verdade foi o Beato Francisco Palau, sacerdote espanhol do século XIX e beatificado em 1988. São de sua pena, a propósito, as expressões "mergulhar" e "descer sempre mais", colhidas da seguinte oração para a Quaresma, a qual compartilhamos com todos os nossos visitantes:
Senhor, 
nesta Quaresma, 
tempo de mergulhar no meu interior, 
de revisão e de conversão, 
ensina-me a descer sempre mais 
até onde Tu te encontras: o meu coração. 

Como "descer" até aí? 
Pelo silêncio, encontrando tempo para rezar, 
pela leitura da Tua Palavra que tanto me quer dizer, 
pelos Sacramentos, 
especialmente a Confissão e a Santa Missa. 

Também pela aceitação das contrariedades, 
o peso das circunstâncias e da monotonia da vida… 
com os olhos postos em Ti. 

Senhor, Tu que estás no meu íntimo, 
ajuda-me nesta Quaresma, 
a fazer uma viagem ao meu interior, 
para aí me encontrar conTigo!

Que possamos, pela intercessão do bem-aventurado Francisco Palau, transformar essa brevíssima prece em um verdadeiro "projeto de vida": procurando a Deus, de fato, pelo silêncio, pela leitura da Palavra de Deus, pelos Sacramentos e pela aceitação das contrariedades, seguramente estaremos no caminho da perfeição.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Fonte: padrepauloricardo.org

quarta-feira, 15 de março de 2017

Beato Tito Brandsma - Oração feita diante da imagem de Cristo na prisão


Oração feita diante da imagem de Cristo na prisão

“Ó Jesus, quando te contemplo,
Eu redescubro, a sós contigo,
Que te amo e que teu coração
Me ama como a um dileto amigo.

Ainda que a descoberta exija
Coragem, faz-me bem a dor:
Por ela me assemelho a ti
Que ela é o caminho redentor.

Na minha dor me rejubilo:
Já não a julgo sofrimento,
Mas sim predestinada escolha
Que me une a ti neste momento.

Deixa-me, pois, nessa quietude,
Malgrado o frio que me alcança.
Presença humana não permitas,
Que a solidão já não me cansa,

Pois de mim sinto-te tão próximo
Como jamais antes senti.
Doce Jesus, fica comigo,
Que tudo é bom junto de ti”.

Esta oração foi escrita por Frei Tito, na passagem do dia 12 para 13 de fevereiro de 1942, na prisão de Scheveningen. Tradução de
Lacyr Schettino, terceira carmelita.

Beato Frei Tito Brandsma,
Carmelita e Mártir

Fonte: A Voz do Silêncio

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Comentário ao Evangelho (14/11) por Santa Teresa Benedita da Cruz (Santa Edith Stein)


Muitas vezes, tive a impressão de ficar sem forças. 
Mais vezes ainda, desesperei de ver a luz. 
Mas, quando o meu coração estava tomado pela dor, 
eis que uma estrela se elevou diante de mim. 
Ela conduziu-me e eu segui-a, 
primeiro com passo hesitante, depois com confiança. [...] 

Aquilo que tinha de esconder no mais fundo do meu coração, 
posso agora proclamá-lo alto e em bom som: 
«creio e confesso a minha fé». [...] 
Senhor, será possível que renasça 
quem já viveu metade da sua vida (Jo 3,4)? 
Tu o disseste e isso verificou-se comigo. 
O fardo de uma longa vida de faltas e sofrimentos 
caiu de cima dos meus ombros. [...] 

Ah! nenhum coração humano pode compreender 
o que Tu reservas aos que Te amam (1Cor 2,9). 
Agora que Te agarrei, nunca mais Te hei-de largar (Ct 3,4). 
Seja qual for o caminho que tome a minha vida, 
Tu estás comigo (Sl 22). 
Nada poderá separar-me do teu amor (Rom 8,39).

Créditos: Evangelho Quotidiano

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Elevação à Santíssima Trindade - Santa Elizabeth da Santíssima Trindade



Ó meu Deus, Trindade que adoro, ajudai-me a esquecer-me inteiramente de mim mesma para fixar-me em Vós, imóvel e pacífica, como se minha alma já estivesse na eternidade. Que nada possa perturbar-me a paz e nem me fazer sair de Vós, ó meu imutável, mas que em cada minuto eu me adentre mais na profundidade de Vosso Mistério. Pacificai minha alma, fazei dela o Vosso céu, Vossa morada preferida e o lugar de Vosso repouso. Que eu jamais Vos deixe só, mas aí esteja toda inteira, totalmente desperta em minha fé, toda em adoração, entregue inteiramente à Vossa Ação criadora.

Ó meu Cristo amado, crucificado por amor, quisera ser uma esposa para Vosso Coração, quisera cobrir-Vos de glória, amar-Vos... Até morrer de amor! Sinto, porém, minha impotência e peço-Vos revestir-me de Vós mesmo, identificar minha alma com todos os movimentos da Vossa, submergir-me, invadir-me, substituir-Vos a mim, para que minha vida seja uma verdadeira irradiação da Vossa. Vinde a mim como Adorador, como Reparador e como Salvador. Ó Verbo Eterno, Palavra de meu Deus, quero passar minha vida a escutar-Vos, quero ser de uma docilidade absoluta para tudo aprender de Vós. Depois, através de todas as noites, de todos vazios, de todas as impotências, quero ter sempre os olhos fixos em Vós e ficar sob Vossa grande luz; ó meu Astro amado, fascinai-me a fim de que não me seja mais possível sair de Vossa irradiação.

Ó Fogo devorador, Espírito de Amor, "vinde a mim" para que uma encarnação do Verbo; que eu seja para Ele uma humanidade de acréscimo na qual Ele renove todo o Seu Mistério. E Vós, ó Pai, inclinai-Vos sobre Vossa pobre e pequena criatura, cobri-a com Vossa sombra vendo só o Bem-Amado, no qual pusestes todas as Vossas complacências.

Ó meu Três, meu Tudo, minha Beatitude, Solidão infinita, Imensidade onde me perco, entrego-me a Vós qual uma presa. Sepultai-Vos em mim para que eu me sepulte em Vós, até que vá contemplar em Vossa luz o abismo de Vossas grandezas.


Santa Elisabeth da Santíssima Trindade, OCD

Fonte: Carmelo de São José - Campos dos Goytacazes

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Últimas palavras de Santa Teresinha do Menino Jesus



Últimas palavras de nossa querida
Santa Teresinha do Menino Jesus
(relato de Irmã Inês de Jesus)

30 de setembro de 1897


Quinta-feira, dia de sua preciosa morte.


De manhã, eu a vigiei durante a Missa. Não me dizia uma palavra. Estava esgotada, ofegante; eu a adivinhava que seus sofrimentos eram inexprimíveis. Em dado momento, juntou as mãos e olhando a estátua da Santa Virgem:

Oh! Rezei a Ela com um fervor! Mas é agonia pura, sem nenhuma mistura de consolação.

Disse-lhe algumas palavras de compaixão e afeto; acrescentei que ela me havia edificado muito, durante essa doença.

E vocês, as consolações que me deram! Ah! são muito grandes!

Pode-se dizer, sem exagero, que ela passou o dia todo sem um instante de repouso, em verdadeiros tormentos. Parecia estar no limite de suas forças, e no entanto, para nossa grande surpresa, podia mexer-se e sentar-se na cama.

... Vejam, dizia ela, como tenho força hoje! Não, não vou morrer! Ainda vou viver durante meses e, quem sabe, anos!

E se o bom Deus assim o quisesse, disse nossa Mãe, você aceitaria?
Começou a responder, angustiada:
Assim deveria...

Mas, imediatamente se corrigindo, disse com uma entonação de sublime resignação, caindo sobre os travesseiros:

Aceito!

Pude recolher estas exclamações, mas é impossível reproduzir a entonação:

Não creio mais na morte para mim... Só acredito no sofrimento... Bem, tanto melhor!
Ó meu Deus!...
Eu O amo, o bom Deus!

Ó minha boa Santa Virgem, vinde em meu socorro!
Se isto é agonia, o que é, então, a morte?!...
Ah! meu bom Deus!... Sim, Ele é muito bom, eu O acho muito bom...

Olhando para a Santa Virgem:

Oh! Sabeis que estou sufocada!

Para mim:

Se você soubesse o que é ficar sufocada!

O bom Deus vai ajudá-la, minha pobrezinha, e isto vai acabar logo.

Sim, mas quando?
... Meu Deus, tende piedade de vossa pobre filhinha! Tende piedade!

A nossa Mãe:

Ó minha Mãe, garanto-lhe que o cálice está cheio até a borda!...
... Mas o bom Deus não vai me abandonar, é claro...
... Ele nunca me abandonou.

... Sim, meu Deus, tudo o que quiserdes, mas tende piedade de mim!
... Meu Deus! meu Deus! Vós que sois tão bom!!!
... Oh! sim, Vós sois bom! eu sei...

Após as Vésperas, nossa Mãe colocou-lhe, sobre os joelhos, uma imagem de Nossa Senhora do Monte Carmelo. Olhou-a um instante e disse, quando nossa Mãe lhe tinha assegurado que ela logo acariciaria a Santa Virgem como o Menino Jesus na imagem:

Ó minha Mãe, apresente-me logo à Santa Virgem, pois sou um nenê que não agüenta mais! Prepare-me para morrer bem.

Nossa Mãe respondeu-lhe que, tendo sempre compreendido e praticado a humildade, estava completamente preparada. Refletiu um instante e pronunciou humildemente estas palavras:

Sim, parece-me que procurei sempre só a verdade; sim, compreendi a humildade do coração...

Repetiu ainda:

Tudo o que escrevi sobre meus desejos de sofrimentos. Oh! é bem verdade, assim mesmo! ... e não me arrependo de ter-me entregado ao Amor.

Com insistência:

Oh! não, não me arrependo, ao contrário!

Um pouco mais tarde:

Jamais poderia acreditar que fosse possível sofrer tanto! Jamais! Jamais! só posso explicar iso pelos desejos ardentes que tive de salvar almas.

Por volta das 5 horas, eu estava sozinha perto dela. Seu rosto se transformou de repente e compreendi que essa era sua última agonia. Quando a Comunidade entrou na enfermaria, ela recebeu todas as irmãs com um doce sorriso. Segurava seu Crucifixo e olhava-o constantemente.

Durante mais de duas horas, um terrível estertor dilacerou-lhe o peito. Seu rosto estava congestionado, as mãos violáceas; tinha os pés gelados, e o corpo tremia. Enormes gotas de suor abundante se formavam em sua testa e escorriam sobre as faces. A falta de ar ia aumentando sempre e, às vezes, para respirar, ela soltava gritinhos involuntários.

Durante esse período tão angustiante para nós, ouvia-se pela janela - e eu sofria muito com isso - todo um gorjeio de pintarroxos e outros passarinhos, mas tão forte, tão próximo e tão demorado! Rezava ao bom Deus para fazê-los calar, porém esse concerto me apunhalava o coração e eu temia que cansasse nossa pobre Teresinha.

Num dado momento, parecia ter a boca de tal modo ressecada, que Irmã Genoveva, pensando em aliviá-la colocou-lhe sobre os lábios um pedacinho de gelo. Aceitou-o, dirigindo-lhe um sorriso que jamais esquecerei. Era como se fosse um supremo adeus.

Às 6 horas, quando soou o Angelus, olhou demoradamente a imagem da Santa Virgem. Enfim, às 7 horas e alguns minutos, depois que nossa Mãe havia dispensado a comunidade, ela suspirou:

Minha Mãe! Não é ainda a agonia?... Não vou morrer?...

É minha pobrezinha, é a agonia, mas talvez o bom Deus queira prolongá-la por mais algumas horas.
Com coragem, retomou:

Pois bem!... Vamos!... Vamos!...
Oh! não gostaria de sofrer por menos tempo...

E olhando o Crucifixo:

Oh! eu O amo!...
Meu Deus... eu Vos amo!...

... Repentinamente, após ter pronunciado estas palavras caiu docemente para trás, com a cabeça inclinada para a direita. Nossa Mãe mandou, bem rápido, tocar o sino da enfermaria, para chamar a Comunidade.

"Abram todas as portas", dizia ela, ao mesmo tempo. Estas palavras tinham algo de solene, e me fizeram pensar que, no Céu, o bom Deus as dizia também a Seus anjos.

As irmãs tiveram tempo para se ajoelhar em volta da cama e testemunharam o êxtase da santinha moribunda. Seu rosto havia recuperado a tez de lírio que tinha quando gozava plena saúde; seus olhos, brilhantes de paz e alegria, estavam fixos no alto. Fazia alguns lindos movimentos com a cabeça, como se Alguém a tivesse, divinamente, ferido com uma flecha de amor, e em seguida a tivesse retirado para feri-la mais uma vez...

Ir. Maria da Eucaristia aproximou-se com um castiçal, para ver mais de perto seu olhar sublime. À luz desse castiçal, não apareceu nenhum movimento de suas pálpebras. Este êxtase durou aproximadamente o tempo de um Credo, e ela deu o último suspiro.

Após sua morte, conservou um sorriso celeste. Sua beleza era encantadora. Segurava seu Crucifixo com tanta força, que foi preciso arrancá-lo de suas mãos, para sepultá-la. Ir. Maria do Sagrado Coração e eu nos encarregamos desse serviço, juntamente com Ir. Aimée de Jesus; observamos então, que ela não parecia ter mais de 12 ou 13 anos.

Seus membros permaneceram flexíveis até o sepultamento, segunda-feira, 4 de outubro de 1897.


Irmã Inês de Jesus


(Relato retirado do livro: Obras completas de Santa Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face)

Fonte: A Grande Guerra

segunda-feira, 25 de julho de 2016

"Flos Carmeli" - Oração - Cântico que São Simão Stock dirigia a Santíssima Virgem Maria


Flor do Carmelo,
vinha florígera,
celeste velo,
Virgem frutífera,
és singular.

Doce e bendita,
ó Mãe puríssima,
aos carmelitas,
sê tu propícia,
Estrela do mar.

Raiz de Jessé,
de brotos floridos,
queiras, feliz,
ao céu dos séculos
nos elevar.

Entre os abrolhos,
viçoso lírio,
guarda de escolhos
o frágil ânimo,
Mãe tutelar.

Forte armadura
ante o adversário,
na guerra dura
o escapulário
vem nos guardar.

Nas incertezas,
conselho sábio,
nas asperezas,
consolo sólido
queiras nos dar.

Mãe de doçura
do Carmo régio,
sê a ventura
que o povo em júbilo
vem te aclamar.

Do paraíso
és chave, és pórtico;
prudente guia,
a nós, de glória,
vem coroar. Amém!


Fonte: Frei Patrício Sciadini, OCD, Escapulário de Nossa Senhora do Carmo

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