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domingo, 29 de março de 2015

A AGONIA DE JESUS - Padre Pio



A AGONIA DE JESUS

Padre Pio


Espírito Divino iluminai a minha inteligência, inflamai o meu coração, enquanto medito na Paixão de Jesus. Ajudai-me a penetrar nesse mistério de amor e sofrimento do meu Deus, que, feito homem sofre, agoniza, morre por mim.

Ó Eterno, ó Imortal, descei até nós para sofrer um martírio inaudito, a morte infame sobre a cruz no meio dos insultos, de impropérios e ignomínias, a fim de salvar a criatura que o ultrajou e continua a atolar-se na lama do pecado.

O homem saboreia o pecado e, por causa do pecado, Deus está mortalmente triste; os tormentos duma agonia cruel fazem-no suar sangue!...

Não, não posso penetrar neste oceano de amor e de dor sem a ajuda da vossa graça, ó meu Deus. Abri-me o acesso à mais íntima profundidade do coração de Jesus, para que eu possa participar da amargura que o conduziu ao Jardim das Oliveiras, até às portas da morte — para que me seja dado consolá-lo no seu extremo abandono. Ah! Pudesse eu unir-me a Cristo, abandonado pelo Pai e por Si próprio, a fim de expirar com Ele!

Maria, Mãe das Dores, permiti que eu siga Jesus e participe intimamente da sua Paixão e do seu sofrimento!

Meu Anjo da guarda velai para que as minhas faculdades se concentrem todas na agonia de Jesus e nunca mais se desprendam... No termo da sua vida terrestre, depois de se nos ter inteiramente entregue no Sacramento do seu amor, o Senhor dirige-se ao Jardim das Oliveiras, conhecido dos discípulos, mas de Judas também. Pelo caminho ensina-os e prepara-os para a sua Paixão iminente convida-os, por Seu amor, a sofrer calúnias, perseguições até à morte, para os transfigurar à semelhança dele, modelo divino. No momento de começar a sua Paixão amaríssima, não é nele que pensa; pensa em ti.

Que abismos de amor não contém o seu Coração! A sua Santa Face é toda tristeza, toda ternura. As suas palavras jorram da profundidade mais íntima do seu coração, e são todas palpitação de amor.

— Ó Jesus, o meu coração perturba-se quando penso no amor que vos obriga a correr ao encontro da vossa Paixão. Ensinastes-nos que não há amor maior que dar a vida por aqueles a quem se ama. Eis que estáis prestes a selar estas palavras com o vosso exemplo.

No Jardim da Oliveiras, o Mestre afasta-se dos discípulos e só leva três testemunhas da sua Agonia: Pedro, Tiago e João. Eles, que o viram transfigurado sobre o Tabor, terão força para reconhecer o Homem-Deus neste ser, esmagado pela angústia da morte?

Ao entrar no Jardim disse-lhes: “Ficai aqui! Velai e rezai para não cairdes em tentação. Acautelai-vos, porque o inimigo não dorme. Armai-vos antecipadamente com as armas da oração para não serdes surpreendidos e arrastados para o pecado. É a hora das trevas”. Tendo-os exortado, afastou-se à distância de uma pedrada e prostrou-se com a face em terra. A sua alma está mergulhada num mar de amargura e extrema aflição. É tarde. Na lividez da noite agitam-se sombras sinistras. A Lua parece injetada de sangue. O vento agita as árvores e penetra até aos ossos. Toda a natureza como que estremece de secreto pavor!

Ó noite, como nunca houve outra semelhante.

Eis o lugar onde Jesus vem orar. Ele despoja a sua santa Humanidade da força à qual tem direito pela sua união com a Divina Pessoa, e mergulha-a num abismo de tristeza, de angústia, de abjeção. O seu espírito parece submergir-se...

Via antecipadamente toda a sua Paixão.

Vê Judas, seu apóstolo tão amado, que o vende por alguns dinheiros. Ei-lo a caminho de Getsêmani, para o trair e entregar! Todavia, ainda há pouco não o alimentou com a sua carne, não lhe deu a beber o seu sangue? Prostrado diante dele, lavou-lhe os pés, apertou-os contra o coração, beijou-os com os seus lábios. Que não fez ele para o reter à beira do sacrilégio, ou pelo menos para o levar a arrepender-se! Não! Ei-lo que corre para a perdição... Jesus chora. Vê-se arrastado pelas ruas de Jerusalém onde ainda há alguns dias o aclamavam como Messias. Vê-se esbofeteado diante do sumo-sacerdote. Ouve os gritos: À morte! Ele, o autor da vida, é arrastado como um farrapo de um para outro tribunal. O povo, o seu povo tão amado, tão cumulado de bênçãos, vocifera contra Ele, insulta-o, reclama aos gritos a sua morte, e que morte, a morte sobre a cruz. Ouve as suas falsa acusações. Vê-se flagelado, coroado de espinhos, escarnecido, apupado como falso rei.

Vê-se condenado à cruz, subindo ao Calvário, sucumbindo ao peso do madeiro, trêmulo, exausto...

Ei-lo chegado ao Calvário, despojado das roupas, estendido sobre a cruz, impiedosamente trespassado pelos pregos, ofegante entre indizíveis torturas... Meu Deus! Que longa agonia de três horas, até sucumbir no meio dos apupos da gentalha, ébria de cólera!

Ei-lo com a garganta e as entranhas, devoradas por sede ardente. Para estancar essa sede, dão-lhe vinagre e fel.

Vê o Pai que o abandona, e a Mãe, aniquilada pela dor.

Para acabar, a morte ignominiosa no meio de dois ladrões. Um reconhece-o, e pôde salvar-se; o outro blasfema e morre réprobo.

Vê Longuinhos, que se aproxima para lhe trespassar o coração.

Ei-la, consumada, a extrema humilhação do corpo e da alma, que separam...

Tudo isto, cena após cena, passa diante dos seus olhos, apavora-o, acabrunha-o

Recusará?

Desde o primeiro instante tudo avaliou, tudo aceitou. Porque, pois, este terror extremo? É que expôs a sua santa humanidade como escudo, captando os ataques da Justiça, ultrajada pelo pecado.

Sente vivamente no espírito, mergulhado na maior solidão, tudo o que vai sofrer.

Para tal pecado, tal pena... Está aniquilado, porque se entregou, ele próprio, ao pavor, à fraqueza, à angústia.

Parece ter chegado ao auge da dor. Está de rastos, com a face em terra, diante da Majestade do Pai. Jaz no pó, irreconhecível, a santa Face do Homem-Deus, que goza da visão beatífica. Meu Jesus! Não sois Deus? Não sois o Senhor do Céu e da Terra, igual ao Pai? Para que haveis de abaixar-vos até perder todo o aspecto humano?

Ah, sim... Compreendo! Quereis ensinar-me, a mim, orgulhoso, que para entender o Céu devo abismar-me até ao fundo da Terra. É para expiar a minha arrogância que vos deixais afundar no mar da agonia. É para reconciliar o Céu com a Terra que vos abaixais até à terra como se quisesseis dar-lhe o beijo da paz...

Jesus ergue-se, volve para o céu um olhar suplicante, ergue os braços, reza. Cobre-lhe o rosto mortal palidez! Implora o Pai que se desviou dele. Reza com confiança filial, mas sabe bem qual o lugar que lhe foi marcado. Sabe-se vítima a favor de toda a raça humana, exposta à cólera de Deus ultrajado. Sabe que só ele pode satisfazer a Justiça infinita e conciliar o Criador com a criatura. Quer, reclama que seja assim. A sua natureza, porém, está literalmente esmagada. Insurge-se contra tal sacrifício. Todavia, o seu espírito está pronto à imolação e o duro combate continua. Jesus, como podemos pedir-vos para sermos fortes, quando vos vemos tão fraco e acabrunhado?

Sim, compreendo! Tomastes sobre vós a nossa fraqueza. Para nos dardes a vossa força, vos tornastes a vítima expiatória. Quereis ensinar-nos como só em vós devemos depositar confiança, até quando o céu nos parece de bronze.

Na sua Agonia, Jesus clama ao Pai: “Se é possível, afasta de mim este cálix”. É o grito da natureza que, prostrada, recorre cheia de confiança ao Céu. Embora saiba que não será atendido, porque não deseja sê-lo, contudo ora. Meu Jesus, por que pedis o que não podeis obter? Que mistério vertiginoso! A mágoa que vos dilacera vos faz mendigar a ajuda e conforto, mas o vosso amor por nós e o desejo de nos levar a Deus vos faz dizer: “Não se faça a minha vontade, mas a tua”.

O seu coração desolado tem sede de ser confortado, tem sede de consolação. Docemente, Ele levanta-se, dá alguns passos vacilantes; aproxima-se dos discípulos; eles, pelo menos, os amigos de confiança, hão de compreender e partilhar da sua mágoa...

Encontra-os mergulhados no sono. De súbito sente-se só, abandonado! “Simão, dormes?” pergunta docemente a Pedro. Tu, que há pouco me dizias que querias seguir-me até à morte!

Vira-se para os outros. “Não podeis velar uma hora comigo?”. Uma vez mais, esquece os sofrimentos, não pensa senão nos discípulos: “Velai e orai para não cairdes em tentação!”. Parece dizer “Se me esquecestes tão depressa, a mim, que luto e sofro, pelo menos no vosso próprio interesse, velai e orai!”.

Mas eles, tontos de sono, mal o ouvem.

Ó meu Jesus, quantas almas generosas, tocadas pelos vossos lamentos, vos fazem companhia no Jardim da Oliveiras, compartilhando da vossa amargura e da vossa angústia moral. Quantos corações têm respondido generosamente ao vosso apelo através dos séculos! Possam eles vos consolar e, comparticipando do vosso sofrimento, possam eles cooperar na obra da salvação! Possa eu próprio ser desse número e vos consolar um pouco, ó meu Jesus!

* * *

Jesus volta ao local da oração e apresenta-se-lhe diante dos olhos um outro quadro bem mais terrível. Desfilam diante dele todos os nossos pecados, nos seus mais ínfimos pormenores. Vê a extrema vulgaridade dos que os cometem. Sabe a que ponto ultrajam a divina Majestade. Vê todas as infâmias, todas as obscenidades, todas as blasfêmias que mancham os corações e os lábios, criados para cantar a glória de Deus. Vê os sacrilégios que desonram padres e fiéis. Vê o abuso monstruoso dos sacramentos, instituídos por Ele para nossa salvação, e que facilmente podem ser causa de nos perdermos.

Tem de cobrir-se com toda a lama fétida da corrupção humana. Tem de expiar cada pecado à parte, e restituir ao Pai toda a glória roubada. Para salvar o pecador, tem de descer a esta cloaca. Mas, isto não o detém. Vaga monstruosa, essa lama rodeia-o, submerge-o, oprime-o. Ei-lo em frente do Pai, Deus da Justiça, Ele, Santo dos Santos, vergado ao peso dos nossos pecados, tornando-se igual aos pecadores. Quem poderá sondar o seu horror e a sua extrema repugnância? Quem compreenderá a extensão da horrível náusea, do soluço de desgosto? Tendo tomado todo o peso sobre ele, sem exceção alguma sente-se esmagado por monstruoso fardo, e geme sob o peso da Justiça divina, em face do Pai que permitiu ao Seu filho se oferecesse como vítima pelos pecados do mundo, e se transformasse numa espécie de maldito.

A sua pureza estremece diante desta massa infame mas ao mesmo tempo vê a Justiça ultrajada, o pecador condenado... No seu coração defrontam-se duas forças, dois amores. Vence a Justiça ultrajada. Mas, que espetáculo infinitamente lamentável! Este homem, carregado com todos os nossos crimes. Ele, essencialmente Santidade, confundido, embora exteriormente, com os criminosos... Treme como um folha.

Para poder afrontar esta terrível agonia abisma-se na oração. Prostrado diante da Majestade do Pai, diz: “Pai, afasta de mim este cálice”. É como se dissesse: “Pai, quero a tua glória! Quero o cumprimento da tua justiça. Quero a reconciliação do gênero humano. Mas não por este preço! Que eu, santidade essencial, seja assim salpicado pelo pecado, ah! não... isso não! Ó pai, a quem tudo é possível, afasta de mim este cálice e encontra outro meio de salvação nos tesouros insondáveis da tua sabedoria. Porém, se não quiseres, que a tua vontade, e não a minha, se faça!

* * *

Desta vez ainda, fica sem efeito a prece do Salvador. Sente a angústia mortal, ergue-se a custo em busca de consolação. Sente como as forças o abandonam. Arrasta-se penosamente até junto dos discípulos. Uma vez mais, encontra-os a dormir. A sua tristeza torna-se mais profunda. E contenta-se simplesmente em os acordar. Sentiram-se confusos? Sobre isto nada sabemos. Só vemos Jesus indizivelmente triste. Guarda para ele toda a amargura deste abandono.

Mas Jesus, como é grande a dor que leio no teu coração, transbordante de tristeza. Vos vejo afastando-vos dos vossos discípulos, ferido, todo magoado! Pudesse eu dar-vos algum reconforto, consolar-vos um pouco... mas, incapaz de mais nada, choro aos vossos pés. Unem-se às vossas as lágrimas do meu amor e da minha compunção. E elevam-se até ao trono do Pai, suplicando que tenha piedade de nós, que tenha piedade de tantas almas, mergulhadas no sono do pecado e da morte.

Jesus volta ao lugar onde rezara, extenuado e em extrema aflição. Cai, sim, mas não se prostra. Cai sobre a terra. Sente-se despedaçado por angústia mortal e a sua prece torna-se mais intensa.

O Pai desvia o olhar, como se Ele fosse o mais abjeto dos homens.

Parece-me ouvir os lamentos do Salvador:

Se, ao menos as criaturas por causa de quem eu tanto sofro quisessem aproveitar-se das graças obtidas através de tantas dores! Se, ao menos reconhecessem pelo seu justo valor, o preço pago por mim para resgatar e dar-lhes a vida de filhos de Deus! Ah! este amor despedaça-me o coração, bem mais cruelmente do que os carrascos que irão, em breve, despedaçar-me a carne...

Vê o homem que não sabe, porque não quer saber; e blasfema do Sangue Divino e, o que é bem mais irreparável, serve-se desse Sangue para sua condenação.

Quão poucos o hão de aproveitar, quantos outros correrão ao encontro do próprio extermínio!

Na grande amargura do Seu coração, continua a repetir: “Quæ utilitas in sanguine meo? Quão poucos aproveitaram o meu Sangue!

O pensamento, porém, deste pequeno número basta para afrontar a Paixão e morte.

Nada existe, não há ninguém que possa dar-lhe sombra de consolação. O Céu fechou-se para Ele. O homem, embora esmagado ao peso dos pecados, é ingrato e ignora o seu amor. Sente-se submerso num mar de dor e grita no estertor da agonia: “A minha alma está triste até a morte”.

Sangue Divino, que jorras, irresistivelmente do Coração de Jesus, corres por todos os seus poros para lavar a pobre Terra ingrata. Permite-me que eu te recolha, Sangue tão precioso, sobretudo estas primeiras gotas. Quero guardar-te no cálice do meu coração.

És prova irrefutável deste Amor, única causa de teres sido vertido. Quero purificar-me através de ti, Sangue preciosíssimo! Quero com ele purificar todas as almas, manchadas pelo pecado. Quero oferecer-te ao Pai.

É o sangue do seu Filho Bem-Amado que caiu sobre a Terra para a purificar. É o Sangue do seu Filho que ascende ao Seu trono para reconciliar a Justiça ultrajada. A alegria é na verdade muito mais veemente do que a dor.

Jesus chegou então ao fim do caminho doloroso?

Não. Ele não quer limitar a torrente do seu amor! É preciso que o homem saiba quanto ama o Homem-Deus. É preciso que o homem saiba até que abismos de abjeção pode levar amor tão completo. Embora a Justiça do Pai esteja satisfeita com o suor do Sangue preciosíssimo, o homem carece de provas palpáveis deste amor.

Jesus seguirá pois até ao fim: até à morte ignominiosa sobre a cruz. O contemplativo conseguirá talvez intuir um reflexo desse amor que o reduz aos tormentos da santa agonia no Jardim das Oliveiras. Aquele, porém, que vive, entorpecido pelos negócios materiais, procurando muito mais o mundo do que o Céu, deve vê-lo também pelo aspecto externo, pregado à cruz, para que, ao menos, o comova a visão do seu Sangue e a Sua cruel agonia.

Não. o Seu coração, transbordante de amor, não está ainda contente! Domina-o a aflição, e ora de novo: “Pai, se este cálice não pode ser afastado, sem que eu bebe, faça-se a Tua vontade”.

A partir deste instante, Jesus responde do fundo do seu coração abrasado de amor, ao grito da humanidade que reclama a sua morte como preço da Redenção. À sentença de morte que seu Pai pronuncia no Céu, responde a Terra reclamando a sua morte. Jesus inclina a sua adorável cabeça: “Pai, se este cálice não pode ser afastado, sem que eu o beba, faça-se a Tua vontade”.

E eis que o Pai lhe envia um anjo de consolação. Que alívio pode um anjo oferecer ao Deus da força, ao Deus invencível, ao Deus Todo-Poderoso? Mas este Deus quis tornar-se inerme. Tomou sobre os ombros toda a nossa fraqueza. É o Homem das Dores, em luta com a agonia.

Ora ao Pai por Si e por nós. O Pai recusa atendê-lo, pois deve morrer por nós. Penso que o anjo se prostra profundamente diante da Beleza eterna, manchada de pó e sangue, e com indizível respeito suplica a Jesus que beba o cálice, pela glória do Pai e pelo resgate dos pecadores.

Rezou assim, para nos ensinar a recorrer ao Céu, unicamente quando as nossas almas estão desoladas como a Sua.

Ele, a nossa força, virá ajudar-nos, pois que consentiu em tomar sobre os ombros todas as nossas angústias.

Sim, meu Jesus, é preciso que bebais o cálice até ao fundo! Estais votado à morte mais cruel. Jesus, que nada possa separar-me de vós, nem a vida nem a morte! Se, ao longo da vida, só desejo unir-me ao vosso sofrimento, com infinito amor, ser-me-á dado morrer convosco no Calvário e convosco subir à Glória. Se vos sigo nos tormentos e nas perseguições tornar-me-eis digno de vos amar um dia, no Céu, face a face, convosco, cantando eternamente o vosso louvor em ação de graças pela cruel Paixão.

Vede! Forte, invencível, Jesus ergue-se do pó! Não desejou Ele o banquete de sangue com o mais forte desejo? Sacode a perturbação que o invadira, enxuga o suor sangrento da face, e, em passo firme dirige-se para a entrada do Jardim.

Onde ides, Jesus? Ainda há instantes, não estavas empolgado pela angústia e pela dor? Não vos vi eu, trêmulo, e como que esmagado sob o peso cruel das provações que vão tombar sobre vós? Aonde ides nesse passo intrépido e ousado? A quem vais entregar-vos?

— Escuta, meu filho. As armas da oração ajudaram-me a vencer; o espírito dominou a fraqueza da carne. A força foi-me transmitida, enquanto orava, e agora eis-me pronto a tudo desafiar. Segue o meu exemplo e arranja-te com o Céu, como eu fiz. Jesus aproxima-se dos apóstolos. Continuam a dormir! A emoção, a hora tardia, o pressentimento de alguma coisa horrível e irreparável, a fadiga — e ei-los mergulhados em sono de chumbo. Jesus tem piedade de tanta fraqueza. “O espírito está pronto, mas a carne é fraca”.

Jesus exclama. “Dormi agora e repousai”. Detém-se por instante. Ouvem que Jesus se vai aproximando, e entreabrem os olhos...

Jesus continua a falar: “Basta. É chegada a hora; eis que o Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos pecadores. Levantai-vos, vamos; eis que se aproxima o que me há de entregar”. Jesus vê todas as coisas com os seus olhos divinos. Parece dizer: Meus amigos e discípulos, vós dormis, enquanto que os meus inimigos velam e se aproximam para virem prender-me! Tu, Pedro, que há pouco te julgavas bastante forte para me seguir até na morte, também tu dormes agora! Desde o princípio tens-me dado provas da tua fraqueza! Está, porém, tranqüilo. Aceitei sobre mim a tua fraqueza e rezei por ti. Depois de confessares a tua falta, serei a tua força e apascentará os meus rebanhos...

E tu, João, também tu dormes? Tu, que acabavas de sentir as pulsações do meu coração, não pudeste velar uma hora comigo!

Levantai-vos, vamos partir, já não há tempo para dormir. O inimigo está à porta! É a hora do poder das trevas! Partamos. De livre vontade, vou ao encontro da morte. Judas acorre para trair-me, e eu vou ao seu encontro. Não impedirei que se cumpram à risca as profecias. Chegou a minha hora: a hora da misericórdia infinita.

Ressoam os passos; archotes acesos enchem o jardim de sombras e púrpura. Intrépido e calmo, Jesus avança seguido pelos discípulos.

— Ó meu Jesus, dai-me a vossa força quando a minha pobre natureza se revolta diante dos males que a ameaçam, para que possa aceitar com amor as penas e aflições desta vida de exílio. Uno-me com toda a veemência aos vossos méritos, às vossas dores, à vossa expiação, às vossas lágrimas, para poder trabalhar convosco na obra da salvação. Possa eu ter a força de fugir ao pecado, causa única da vossa agonia, do vosso suor de sangue, e da vossa morte.

Afasteis de mim o que vos desagrada, e imprimi no meu coração com o fogo do vosso santo amor todos os vossos sofrimentos. Abraçai-me tão intimamente, em abraço tão forte e tão doce, que nunca eu possa deixar-vos sozinho no meio dos vossos cruéis sofrimentos.

Só desejo um único alívio: repousar sobre o vosso coração. Só desejo uma única coisa: partilhar da vossa Santa Agonia. Possa a minha alma inebriar-se com o vosso Sangue e alimentar-se com o pão da vossa dor!

Amém.

Fonte: Permanência

sábado, 4 de janeiro de 2014

Comentário do dia (03/01) por Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein)



Comentário do dia
Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein) (1891-1942), carmelita, mártir, co-padroeira da Europa
As Bodas do Cordeiro, 14/09/1940


«O Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo»

No Apocalipse, o apóstolo São João escreveu: «Eis o que eu vi: em frente do trono […] havia um Cordeiro, que se mantinha de pé e que estava como que imolado» (Ap 5,6). Enquanto contemplava esta visão, uma lembrança se mantinha bem viva nele: a do dia inesquecível em que, na margem do Jordão, João Baptista tinha designado Jesus como «o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo». […]

Mas porque tinha o Senhor escolhido o cordeiro como seu símbolo por excelência? Porque Se mostrava ainda sob esse aspecto no trono eterno da glória? Porque era inocente como um cordeiro e humilde como um cordeiro e porque tinha vindo para ser levado ao matadouro como um cordeiro (Is 53,7). Também isto tinha o Apóstolo São João contemplado quando o Senhor deixara que Lhe atassem as mãos no Jardim das Oliveiras e Se deixara pregar na cruz no Golgotha. No Golgotha, fora consumado o verdadeiro sacrifício da reconciliação. Os sacrifícios antigos tinham perdido a sua força e, tal como o antigo sacerdócio, acabaram logo que o Templo foi destruído. Tudo isto tinha sido vivenciado por São João. Esta foi a razão pela qual ele não estranhou ver o Cordeiro no trono. […]

Como o Cordeiro devia ser morto para ser elevado ao trono da glória, também para todos os que são escolhidos para «o banquete das bodas do Cordeiro» (Ap 19,9) o caminho para a glória passa pelo sofrimento e pela cruz. Os que querem unir-se ao Cordeiro devem deixar-se pregar com Ele na cruz. Todos os que são marcados com o sangue do Cordeiro (cf Ex 12,7) – todos os baptizados – são chamados a isso; mas nem todos entendem a chamada e nem todos O seguem. 
 
 
Créditos: Evangelho Quotidiano

quinta-feira, 25 de abril de 2013

As Revelações Celestiais de Santa Brígida da Suécia, Livro 1, Capítulo VI



Capítulo 6: Palavras de Cristo à sua esposa sobre como seu Espírito não pode morar nos malvados; sobre a separação dos bons e perversos e o envio dos bons, armados com armas espirituais, à guerra contra o mundo.

Meus inimigos são como os mais selvagens animais, que nunca podem estar satisfeitos nem permanecer em calma. Seu coração está tão vazio de meu amor que o pensamento da minha paixão nunca os penetra. Nem sequer uma vez, desde o mais íntimo de seu coração, tem saído uma palavra como esta: ”Senhor, tu nos redimistes, louvado sejas por tua amarga paixão!” Como pode viver o meu Espírito em pessoas que não sentem o divino amor por mim, pessoas que estão desejando trair a outros para conseguir seu próprio benefício?

Seu coração está cheio de vermes vis, ou seja, cheio de paixões mundanas. O demônio deixou seus excrementos em suas bocas e por isso não têm gosto pelas minhas palavras. Por isso, com meu serrote os cortarei para apartá-los de meus amigos. Não há forma pior de morrer do que sob a serra. Igualmente não haverá castigo que eles não compartilhem: serão serrados em dois pelo demônio e separados de mim. Vejo-os tão odiosos que todos os que aderirem a eles, se separarão de mim.

Por esta razão, estou enviando meus amigos para que eles separem os demônios de meus membros, já que os demônios são meus verdadeiros inimigos. Eu os envio como nobres soldados à batalha. Todo aquele que mortifique sua carne e se abstenha do ilícito é meu verdadeiro soldado. Como lança levarão as palavras de minha boca e em suas mãos brandirão a espada da fé; em seu peito estará a couraça do amor para que, aconteça o que acontecer não deixem de me amar. Devem ter o escudo da paciência em suas costas, de forma que suportem tudo com paciência. Tenho-os entesourados como ouro num estojo: agora devem sair e andar em meus caminhos.

Segundo os desígnios da justiça, Eu não poderia entrar na glória de minha majestade sem suportar tribulação na minha natureza humana. Portanto, como entrarão eles? Se seu Senhor sofreu, não é de estranhar que eles também tenham de sofrer. Se seu Senhor suportou chicotadas, não será para eles grande coisa o suportar palavras. Não hão de temer porque nunca os abandonarei. Da mesma forma que é impossível para o demônio entrar no coração de Deus e dividi-lo, igualmente será impossível separá-los de mim. E como, diante de meus olhos são ouro puríssimo, pois foram testados com um pouco de fogo, não os abandonarei: é para sua maior recompensa.


Revelações Celestiais de Santa Brígida

domingo, 21 de abril de 2013

Padre Pio de Pietrelcina - Relatos em Suas Cartas sobre a oração.

 



            '' A oração é o pão e a vida da alma; é o ar do coração, não quero ser mais que isto, um frade que ora ''.

''Minha maneira habitual de orar é esta. Nem bem inicio a oração, sinto de repente que a alma começa a recolher-se numa paz e numa tranqüilidade impossíveis de exprimir com palavras. Os sentidos ficam suspensos, com exceção do ouvido, que algumas vezes não fica suspenso; geralmente, porém, esse sentido não me causa aborrecimento, e devo confessar que, ainda que se fizesse um enorme rumor à minha volta, nem por isso conseguiriam me incomodar nem um pouquinho. Por aí o senhor compreenderá que são poucas as vezes em que consigo meditar com o intelecto".

A mim parece que o tempo passa rapidamente e nunca é suficiente para orar. Tenho muito gosto pelas boas leituras; porém, leio bem pouco, não só por estar impossibilitado pelas enfermidades, como porque, abrindo o livro, depois de uma breve leitura, fico profundamente recolhido, de modo que a leitura se torna uma oração".

"Não me cansarei de orar a Jesus. É verdade que as minhas orações são, antes, dignas de castigo que de prêmio, porque desgostei demais a Jesus com meus inumeráveis pecados; mas por fim terá piedade de mim".

'' Veja que fenômeno curioso vem ocorrendo comigo, de certo tempo para cá e, aliás, não é pouca a preocupação que me causa. Na oração, acontece de me esquecer de rezar por quem me pede orações (não por todos, porém) ou por quem eu teria intenção de orar. Esforço-me, antes de começar a rezar,
para recomendar, por exemplo, esta ou aquela pessoa; mas assim que entro em oração, meu Deus, faz-se em minha mente um vazio perfeito e não resta mais nenhum vestígio do que, no entanto, me era tão caro. Outras vezes, ao contrário, estando em oração, sinto-me levado a rezar por quem nunca tive a intenção de rezar e, o que é mais maravilhoso, às vezes por quem jamais conheci, nem vi, nem ouvi e nem recomendou a minhas orações, ainda que fosse por meio de outros. E, cedo ou tarde, o Senhor sempre atende a essas orações".


Creditos: Sociedade das ciências antigas - Vida e obra do Padre Pio.

sábado, 20 de abril de 2013

As Revelações Celestiais de Santa Brígida da Suécia, Livro 1, Capítulo V



Capítulo 5: Amorosas palavras de Cristo à sua esposa com a preciosa imagem de uma nobre fortaleza que simboliza a Igreja Militante, e sobre como a Igreja de Deus será agora reconstruída pelas orações da gloriosa Virgem e dos Santos.

Eu sou o Criador de todas as coisas. Sou o Rei da gloria e o Senhor dos anjos. Construí para Mim uma nobre fortaleza e tenho colocado nela os meus eleitos. Meus inimigos têm corrompido seus fundamentos e tem dominado meus amigos - tanto que fazem sair a medula dos ossos de seus pés amarrados a colunas. Suas bocas são apedrejadas e são torturados pela fome e a sede. Assim, os inimigos perseguem o seu Senhor. Meus amigos estão agora gemendo e suplicando ajuda; a justiça pede vingança, mas a misericórdia invoca o perdão.

Então, Deus disse à Corte Celestial ali presente: ”O que pensais dessas pessoas que têm assaltado minha fortaleza?”. Eles, a uma voz responderam: “Senhor, toda a justiça está em Ti e em Ti vemos todas as coisas. A Ti foi dado todo juízo, Filho de Deus, que existes sem princípio nem fim, Tu és seu Juiz. E Ele disse: ”Como todos sabeis e vedes em Mim, pelo bem da Minha Esposa, decidam qual é a sentença justa”. Eles disseram: ”Isto é justiça: Que aqueles que derrubaram os muros sejam castigados como ladrões; que aqueles que persistem no mal, sejam castigados como invasores, que os cativos sejam libertados e os famintos saciados”.

Então Maria, a Mãe de Deus que a princípio havia permanecido em silencio, disse: “Meu Senhor e Filho querido, tu estiveste em meu ventre como verdadeiro Deus e homem. Tu te dignaste a santificar-me a mim que era um vaso de argila. Eu te suplico, tem misericórdia deles uma vez mais!” O Senhor respondeu a sua Mãe: ”Bendita seja a palavra de tua boca! Como um suave perfume sobe até Deus. Tu és a glória e a Rainha dos anjos e de todos os santos, porque Deus foi consolado por ti e a todos os santos deleitas. E porque tua vontade tem sido a Minha desde o começo de tua juventude, uma vez mais cumprirei o teu desejo”. Então Ele disse à Corte Celestial: ”Porque haveis lutado valentemente, pelo bem da vossa caridade, terei piedade por ora".

Vede, re-edificarei meu muro pelos vossos rogos. Salvarei e curarei os oprimidos pela força e os honrarei cem vezes pelo abuso que sofreram. Se os que fazem violência pedem misericórdia, terão paz e misericórdia. Aqueles que a desprezam, sentirão Minha justiça”. Então Ele disse à sua esposa:” Esposa minha, te escolhi e te revesti com Meu Espírito. Tu escutas Minhas palavras e as dos meus santos. Embora os santos vejam da mesma forma todas as coisas em mim, já que são espíritos, Eu agora vou também mostrar-te o que todas essas coisas significam. Afinal, tu que ainda estás no corpo, não me podes ver da mesma forma que eles, que são meus espíritos. Agora te mostrarei o que significam estas coisas.

A fortaleza da qual tenho te falado é a Santa Igreja, que construí com meu próprio sangue e o dos santos. Eu mesmo a cimentei com minha caridade e depois coloquei nela meus eleitos e amigos. Seu fundamento é a fé, ou seja, a crença em que Sou um Juiz justo e misericordioso. Este fundamento tem sido agora deturpado porque todos crêem e pregam que sou misericordioso, mas quase ninguém crê que Eu seja um Juiz justo. Consideram-me um juiz iníquo. De fato, um juiz seria iníquo, se, à margem da misericórdia, deixasse os maus sem castigo de forma que pudessem continuar oprimindo os justos.

Eu, porém sou um Juiz justo e misericordioso e não deixarei que o mínimo pecado fique sem castigo nem que o menor bem fique sem recompensa. Pelos buracos perfurados no muro, entram na Santa Igreja pessoas que pecam sem medo, que negam que Eu seja justo e atormentam meus amigos como se os cravassem em estacas. A estes meus amigos não se dá alegria nem consolo. Pelo contrário, são castigados e injuriados como se fossem demônios. Quando dizem a verdade sobre mim, são silenciados e acusados de mentir. Eles anseiam com paixão ouvir ou falar a verdade, mas não há ninguém que os escute nem quem lhes diga a verdade.

Além disso, Eu, Deus Criador, estou sendo blasfemado. As pessoas dizem: ”Não sabemos se Deus existe. E, se existe, não nos importa.” Jogam no chão minha bandeira e a pisoteiam dizendo: “Porque sofreu? Em que nos beneficia? Se cumpre nossos desejos estaremos satisfeitos, que mantenha Ele seu reino em seu Céu! “Quando quero entrar neles, dizem: ”Antes morrermos que submeter nossa vontade!” Dá-te conta, esposa minha, que tipo de gente é! Eu os criei e posso destruí-los com uma palavra! Que soberbos são para comigo! Graças aos rogos de minha Mãe e de todos os santos, permaneço misericordioso e tão paciente que estou desejando enviar-lhes palavras da minha boca e oferecer-lhes misericórdia. Se a quiserem aceitar, terei compaixão.

Do contrário, conhecerão minha justiça e, como ladrões, serão publicamente envergonhados diante dos anjos e dos homens e condenados por cada um deles. Como os criminosos são colocados nas forcas e devorados pelos corvos, assim eles serão devorados pelos demônios, mas não serão consumidos. Como as pessoas amarradas em cepos não podem descansar, eles padecerão dor e amargura em todas as partes.

Um rio de fogo entrará por suas bocas, mas seus estômagos não serão saciados e sua sede e suplício se reavivarão a cada dia. Porém, meus amigos estarão a salvo, e serão consolados pelas palavras que saem de minha boca.

Eles verão minha justiça junto de minha misericórdia. Revesti-los-ei com as armas do meu amor, que os tornarão tão fortes que os adversários da fé escorrerão diante deles como o barro; quando virem minha justiça, cairão em vergonha perpétua por haverem abusado de minha paciência.

As Revelações Celestiais de Santa Brígida da Suécia

sábado, 6 de abril de 2013

Pensamentos de Santa Teresinha






Pensamentos de Santa Teresinha – Mês de Abril



1. Oh! Como é doce o caminho do Amor! Eternamente,
cantarei o cântico sempre novo do Amor! (Carta à Madre Inês de Jesus)

2. Quando sentimos nossa impotência para fazer o bem, nosso
único recurso é oferecer as obras dos outros. Eis o benefício da comunhão dos Santos. (Conselhos e Lembranças)

3. Sim, tudo está bem, quando não se procura senão a vontade de Deus. (História de uma Alma, c. IX)

4. É preciso trabalhar, agir sempre com coragem; pois o
coração se fortifica e se vai de vitória em vitória. (Conselhos e Lembranças)

5. Quando pela manhã não sentirmos coragem alguma e força
para praticar a virtude, eis o momento de pôr o machado à raiz da árvore, não contando senão com Jesus só. (2*'carta à Celina)

6. Como pode unir-se intimamente a Deus um coração
entretido em amores humanos? É impossível, disto estou
persuadida. Tenho encontrado tantas almas fascinadas com esta
luz enganadora, tantas mariposas estonteadas, queimarem aí as
asas e tornarem assim para Jesus, fogo divino que sabe queimar sem Consumir. (História de uma Alma, c. IV)

7. Dando-se a Deus, o coração nada perde de sua ternura natural; ao contrário, esta ternura cresce e se torna mais pura e divina. (História de uma Alma, c. IX)

8. É bem consolador pensar-se que Jesus, o Divino Forte,
conheceu também todas as nossas fraquezas, e tremeu à vista do
cálice amargo, este cálice outrora tão desejado ardentemente, (1ª carta aos Missionários)

 9. O que mais faz sofrer a Jesus, parece-me ainda que é o esquecimento. (8ª carta à Celina)

10. Às vezes quando a aridez de meu espírito é tão grande, que
nem um bom pensamento Lhe posso exprimir, recito
pausadamente um Pai Nosso ou uma Ave Maria; estas orações têm a virtude de me elevar, alimentam divinamente a minha alma e são quanto me basta. (História de uma Alma, c. X)

11. Felizmente que o Reino dos Céus é composto de muitas
moradas! Porque se não houvesse essas, cuja descrição e o
caminho me parecem incompreensíveis, eu lá não poderia entrar. (6°'carta aos Missionários)

12. Tudo que puderem dizer agora de mim deixa-me
indiferente, porque eu compreendi a pouca solidez dos juízos humanos. (Conselhos e Lembranças)

13. Quanto mais avançardes, menos combates tereis, ou melhor,
vencereis com mais facilidade, porque vereis o lado bom das coisas. (Conselhos e Lembranças)

14. Oh! Eu sinto, a minha alma nunca procurou senão a
verdade... sim, eu compreendi a humildade de coração. (História de uma Alma, c. XII)

15. 0 bom Deus me fez compreender que as macerações dos santos não foram feitas para mim, e nem para as almazinhas que andarão pela mesma via da Infância. (História de uma Alma, c. XII)

16. Não há nenhum apoio a se procurar fora de Jesus. Só Ele é
imutável. Que felicidade pensar-se que Ele não pode mudar! (5ª carta à Madre Inês de Jesus)

17. Eu vos peço, ó Jesus, que o óleo dos louvores, tão doce a
natureza, não amoleça jamais minha cabeça, isto é. meu
espírito, fazendo-me crer que eu possuo virtudes que apenas pratiquei Uma ou outra vez. (Conselhos e Lembranças)

18. É verdade, nem sempre sou fiel, mas nem por isso perco a
coragem. Abandono-me nos braços de Jesus. Como uma gotinha
de orvalho, penetro bem no íntimo do cálice da divina
Campos" e ali acho de novo tudo o que perdi e muito mais ainda. (Carta à Celina, 18 ,de julho de 1893)

19. Sim, eu quero que Jesus se apodere de tal modo de mintas
faculdades, de maneira que eu já não faça mais ações humanas e pessoais, mas tão somente ações divinas, inspiradas e dirigidas pelo Espírito de Amor. (Conselhos e Lembranças)

20. Cometeis um grande erro em pensar no que vos poderá
suceder no futuro de doloroso, isto é como que se pôr a criar! Nós,
que corremos na via do amor, não nos devemos perturbar por
nada. (História de uma Alma, c. XII)

21. Se eu não sofresse minuto por minuto, ser-me-ia impossível
guardar a paciência; mas eu só vejo o momento presente, esqueço
o passado e evito olhar para o futuro. (História de uma Alma. c. XII)

22. Se muitos perdem a coragem e se desesperam, é porque pensam muito no passado e no futuro. (História de uma Alma, c. XII)

23. Para subir a escada da perfeição, não imagineis que possais
subir mesmo o primeiro degrau! Não! Mas Deus não pede de vós
senão a boa vontade. Do alto desta escada Ele vos olha com amor
e fogo; vencido por vossos esforços inúteis, Ele descerá e,
tomando-vos nos braços, vos levará para sempre no Seu Reino, onde não O deixareis jamais. (Conselhos e Lembranças)

24. Na minha pequena via não há senão coisas muito
ordinárias; é preciso que tudo que eu faça, as almazinhas possam imitar. (História de uma Alma, c. XII)

25. 0 que me arrebata para a pátria celeste é o chamado de Nosso Senhor, é a esperança de amá-Lo enfim como Ele desejou tanto, e o pensamento de que eu poderei fazê-Lo amado por uma multidão de almas que o terão de bendizer eternamente. (8ª carta aos Missionários)

26. Confesso que se no Céu não pudesse mais trabalhar para glória do bom Deus, preferiria antes o exílio que a Pátria. (4" carta aos Missionários)

27. Não há nada mais doce do que pensar bem em nosso próximo. (Conselhos e Lembranças)

28. Eu sinto que quando sou caridosa é Jesus só que age em
mim; quanto mais eu me uno a Ele, mais também eu amo as minhas irmãs. (História de uma Alma, c. IX)

29. 0 bom Deus fará todas as minhas vontades no Céu, porque nunca fiz a minha sobre a terra. (Conselhos e Lembranças)

30. Provo uma grande alegria, não somente quando me acham imperfeita, mas principalmente quando eu sinto que o sou. Os elogios, ao contrário, só me causam desgosto. (Conselhos e Lembranças)


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quinta-feira, 4 de abril de 2013

Santa Teresa D'Ávila, Caminho de Perfeição - CAPÍTULO 3. Prossegue no assunto que começou a tratar e persuade as irmãs a que se ocupem sempre em suplicar a Deus que favoreça os que trabalham pela Igreja. Termina com uma exclamação.


CAPÍTULO 3. Prossegue no assunto que começou a tratar e persuade as irmãs a que se ocupem sempre em suplicar a Deus que favoreça os que trabalham pela Igreja. Termina com uma exclamação.

1. Voltando ao fim principal para que o Senhor nos juntou nesta casa, e pelo que muito desejo sejamos alguma coisa para contentarmos a Sua Majestade, digo que, vendo tão grandes males, que forças humanas não bastam para atalhar o fogo destes hereges, embora se tenha pretendido reunir gente, pôr remédio, se possível, à força de armas, a tão grande mal e não vá tão por diante, pareceu-me necessário fazer, como quando os inimigos, em tempo de guerra, invadem e percorrem toda a terra. Vendo-se perseguido o senhor dela, acolhe-se a uma cidade bem fortificada, è dali acontece muitas vezes dar nos contrários, e serem tais os que estão na cidade como é gente escolhida poderem eles a sós mais do que poderiam com muitos soldados se estes fossem cobardes, e desta maneira, ganha-se muitas vezes a vitória; pelo menos, ainda que não se ganhe, não são vencidos; porque, como não há traidores, a não ser pela fome, não lhes podem ganhar. Aqui, esta fome, que baste a que se rendam, não a pode haver; a morrer sim, mas não a ficar vencidos.

2. Mas, para que disse eu isto? Para que entendais, minhas irmãs, que o que temos de pedir a Deus é que deste castelinho onde temos já bons cristãos, não nos fuja nenhum para os adversários, e os capitães deste castelo ou cidade, que são os pregadores e teólogos, sejam muito avantajados no caminho do Senhor. E, como os mais de entre eles estão nas Religiões (ou seja, em congregações religiosas, nota de Christian), que vão muito adiante na sua própria perfeição e vocação, pois é muito necessário; porque, como já tenho dito, agora nos há-de valer o braço eclesiástico, e não o secular. E, pois nem para um nem para outro valemos nada para ajudar ao nosso Rei, procuremos ser tais que valham as nossas orações para ajudar estes servos de Deus que, com tanto trabalho, se têm fortalecido com letras e vida boa, e esforçam para agora ajudar o Senhor.

3. Poderá ser que digais: para que recomendo eu tanto isto e digo que temos de ajudar os que são melhores que nós? Eu vo-lo direi, porque creio não entendeis ainda bem o muito que deveis ao Senhor por vos ter trazido aonde tão afastadas estais de negócios, ocasiões e tratos; é grandíssima esta mercê. Não o estão os que eu digo, nem é bom que estejam e, nestes tempos, menos do que em outros; porque têm de ser eles os que encorajem a gente fraca e dêem ânimo aos pequenos. Bons ficariam os soldados sem capitães!... Têm de viver entre os homens e tratar com eles e estar nos palácios e até afazer-se algumas vezes com eles exteriormente. Pensais, filhas minhas, que é preciso pouco para tratar com o mundo e viver no mundo e tratar negócios do mundo, e afazer-se, como já disse, à conversação do mundo, e ser interiormente estranhos ao mundo e inimigos do mundo e estar como quem está em desterro, e, enfim, não serem homens senão anjos?
Porque, a não ser assim, nem merecem o nome de capitães, nem permita o Senhor que saíam de suas celas, pois farão mais dano do que proveito. Não é agora tempo de ver imperfeições nos que hão-de ensinar.

4. E, se no interior não estão fortalecidos em entender o muito que exige ter tudo debaixo dos pés e estar desapegados das coisas que se acabam e atidos às eternas, por mais que o queiram encobrir, disso darão sinal. Pois, com quem tratam eles senão com os do mundo? Não tenham medo que lhes perdoem, nem que deixem de notar alguma imperfeição. Coisas boas, muitas hão-de-lhes passar por alto, e até, porventura, não as terão por tais; mas, má ou imperfeita, não tenhaís medo. Agora eu me espanto de quem é que lhes ensina, a perfeição, não para a guardar (que disso parece-lhes não ter nenhuma obrigação, muito fazem, a seu parecer, se guardam razoavelmente os mandamentos), mas para tudo condenar e até, por vezes, parecer-lhes-á regalo o que é virtude.
Assim, não penseis que é preciso pouco favor de Deus para esta grande batalha em que se metem, mas grandíssimo.

5. Para estas duas coisas vos peço que procureis ser tais, que mereçamos alcançá-las de Deus: a primeira, que haja muitos, dos muito muito letrados e dos religiosos que tenham as qualidades precisas para isto, como tenho dito;- e aos que não estão muito dispostos, livres de negócios, os disponha o Senhor, que mais fará um perfeito do que muitos que o não são. A outra, que, depois de metidos nesta peleja a qual - como digo - não é pequena, o Senhor os tenha de Sua mão para que se possam livrar de tantos perigos como há no mundo e tapar os ouvidos ao canto das sereias neste perigoso mar. Se nisto podemos alguma coisa com Deus, estando encerradas, pelejemos por Ele, e eu darei por muito bem empregados os trabalhos que passei para fazer este recanto, onde também pretendi que se guardasse esta Regra de Nossa Senhora e lmperadora com a perfeição com que se começou.

6. Não vos pareça inútil ser contínua esta petição, porque há algumas pessoas a quem lhes parece dura coisa não rezar muito por sua própria alma, que melhor oração do que esta? Se tendes pena porque não se vos desconta a pena do purgatório, também se vos há-de descontar com esta oração, e o mais que faltar, que falte. Que se me dá a mim em que eu esteja até ao dia do juízo no purgatório, se com a minha oração se salvasse uma só alma? Quanto mais o proveito de muitas e a honra do Senhor! De penas que se acabam não façais caso, quando interferir um maior serviço a prestar a Quem tantas passou por nós. Informai-vos sempre do que é mais perfeito.
Assim peço-vos, por amor do Senhor: pedi a Sua Majestade que nos ouça nisto. Eu, ainda que miserável, peço-o a Sua Majestade, pois é para glória Sua e bem da Sua Igreja; nisto vão os meus desejos.

7. Parece atrevimento pensar que eu hei-de ser parte para alcançar isto. Eu confio, Senhor meu, nestas Vossas servas que aqui estão, e sei que não querem outra coisa nem a pretendem, mas só contentar-Vos. Por Vós deixaram o pouco que tinham e quereriam ter mais para com isso Vos servir. Pois, Criador meu, Vós não sois desagradecido para que eu pense que deixareis de fazer o que Vos suplicam. Nem aborrecestes, Senhor, as mulheres, quando andáveis no mundo, antes as favorecestes sempre com muita piedade. Quando Vos pedirmos honras, não nos ouçais, ou rendas ou dinheiro ou coisa que saiba a mundo; mas, para honra de Vosso Filho, porque não haveis de ouvir, Pai Eterno, a quem perderia mil honras e mil vidas por Vós? Não por nós, Senhor, que não o merecemos, mas pelo Sangue de Vosso Filho e pelos Seus merecimentos.

8. Ó Pai Eterno! Olhai que não são para esquecer tantos açoites e injúrias e tão gravíssimos tormentos. Como, pois, Criador meu, podem sofrer umas entranhas tão amorosas como as Vossas, que aquilo que fez vosso Filho com tão ardente amor e para mais Vos contentar (pois Lhe mandaste que nos amasse), seja tido em tão pouco como hoje em dia têm esses hereges o Santíssimo Sacramento, que Lhe tiram as Suas moradas, destruindo as Igrejas? Se alguma coisa Lhe ficasse por fazer para Vos contentar! Mas tudo fez com perfeição. Não bastava, Pai Eterno, que não tivesse onde reclinar a cabeça enquanto viveu e sempre em tantos trabalhos, senão que agora, essas moradas que tem para convidar Seus amigos (por nos ver fracos e saber que é preciso que os que hão-de trabalhar se sustentem com tal manjar) lhas tirem? Não tinha Ele já pago suficientemente pelo pecado de Adão? Sempre que tornamos a pecar, há-de pagá-lo este amantíssimo Cordeiro? Não o permitais, Imperador meu. Aplaque-se já Vossa Majestade. Não olheis aos nossos pecados, mas sim a que nos redimiu o Vosso Sacratíssimo Filho, e aos Seus merecimentos e aos da Sua gloriosa Mãe e de tantos santos e mártires que morreram por Vós!

9. Ai de mim, Senhor, e quem se atreveu a fazer esta petição em nome de todas! Que má intercessora, filhas minhas, para serdes ouvidas e para que fizesse por vós a petição! Mais se há-de indignar este soberano Juiz ao ver-me tão atrevida, e com razão e justiça! Mas vede, Senhor, já que sois Deus de misericórdia, tende-a desta pecadorazita, pequeno verme que assim se atreve diante de Vós! Vede, Deus meu, os meus desejos e as lágrimas com que isto Vos suplico e olvidai as minhas obras, por quem sois e tende lástima de tantas almas que se perdem e favorecei a Vossa Igreja! Não permitais já, Senhor, mais danos na Cristandade. Dai luz a estas trevas!

10. Eu vos peço, minhas irmãs, por amor do Senhor, que encomendeis a Sua Majestade esta pobrezita e Lhe supliqueis lhe dê humildade, como coisa de que tendes obrigação. Não vos recomendo particularmente os reis e prelados da Igreja, em especial o nosso Bispo;"' vejo as de agora tão cuidadosas disto, que me parece não ser assim preciso mais. Vejam, as que vierem, que, tendo uni prelado santo, sê-lo-ão as súbditas e, como coisa tão importante, ponde isto sempre diante do Senhor. Quando as vossas orações e desejos e disciplinas e jejuns não se empregarem nisto que digo, pensai que não fazeis nem cumpris o fim para que vos juntou aqui o Senhor.


Santa Teresa D'Ávila, Caminho de Perfeição

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Jesus Cristo é uma Ponte - Santa Catarina de Siena


Deus Pai a Sta Catarina de Sena

Para ajudar-vos a deixar o mundo e chegar à vida eterna, foi preciso que eu reconstruísse a estrada interrompida. Com material puramente humano, era impossível fazer uma ponte de envergadura tal, que atravessasse o rio do pecado e atingisse a vida eterna. Vossa natureza humana era incapaz de satisfazer pela culpa e de cancelar a mancha do pecado de Adão, mancha que estragara a humanidade e lhe dera o mau cheiro da culpa. Ocorreu que o humano se unisse à Deidade eterna; somente assim foi possível dar satisfação por todos os homens. A natureza humana iria padecer e a divina aceitaria o sacrifício em meu Filho, sacrifício oferecido na intenção de retirar-vos da morte e restituir-vos a vida. Desse modo, o Altíssimo humilhou-se ao plano do humano e das duas naturezas construiu a ponte, desobstruindo a estrada. Para quê? A fim de que vós pudésseis ser felizes com os anjos. Todavia, de nada adiantaria terdes meu Filho como ponte, se não a atravessásseis.
Descrição da Ponte
(...) Quero descrever-te a ponte. Já disse que ela se estende do céu à terra, graças à união (hipostática) que realizei com o homem formado do limo da terra. Essa ponte é meu Filho e possui três degraus; dois deles foram construídos no madeiro da cruz e o terceiro, quando ele na amargura bebeu fel e vinagre. Em tais degraus reconhecerás três estados da alma, como abaixo explicarei. O primeiro degrau é formado pelos pés; significam o amor, pois como os pés transportam o corpo, assim o (duplo) amor faz caminhar a alma. Os pés cravados na cruz servem-te de degrau para atingir a chaga do peito, que te revela o segredo do coração. Após subir até aos pés pelo amor, o homem fixa o pensamento no coração aberto de Cristo e saboreia sua caridade inefável e consumada. Disse caridade "consumada", porque Cristo vos ama sem interesse pessoal; em nada sois de utilidade para ele, que forma uma só coisa comigo. Vendo-se amada, a pessoa se enche de caridade. Enfim, após atingir o segundo degrau, chega-se ao terceiro, que é a boca de Cristo. Nela o homem encontra a paz, depois (de vencer) a grande guerra contra as próprias culpas. No primeiro degrau o cristão se afasta da afeição terrena, despoja-se dos vícios; no segundo, adquire as virtudes; no terceiro, goza a paz. São três, portanto, os degraus da ponte: passa-se do primeiro ao segundo, para atingir o último. A ponte é alta; quando se passa por ela, a água do pecado não atinge a alma. Em Jesus não houve pecado.
Cristo atrai a si todas as coisas
Essa ponte acha-se no alto, mas não separada dos homens. Sabes quando se ergueu? No momento em que Cristo foi elevado no lenho da cruz. Então, a natureza divina continuava unida à vossa pequenez; meu Filho amalgamara-se com a natureza humana. Antes de ser erguida, ninguém passava por tal ponte. Jesus mesmo disse: "Quando eu for elevado, atrairei a mim todas as coisas" (Jo 12,32). Julguei que não havia outra maneira de vos atrair; enviei, pois, meu Filho para ser cravado na cruz, bigorna em que seria fabricado o filho do homem, livrando-o da morte e restituindo-o à vida. Ao manifestar sua imensa caridade, meu Filho atraiu a si todas as coisas. É sempre o amor que atrai o coração humano. Dando sua vida por vós, ele revelou o amor maior (Jo 15,13). Quando não existe no homem a oposição maldosa, a força do amor atrai sempre.
Portanto, segundo quanto afirmou, meu Filho atrairia a si todas as coisas ao ser elevado na cruz. Essa verdade pode ser entendida de duas maneiras. Primeiro, no sentido explicado. Porque o coração humano, ao ser atraído pelo amor, leva consigo todas as faculdades da alma: a memória, a inteligência, a vontade. Quando são harmonizadas e reunidas tais faculdades, todas as ações humanas - corporais ou espirituais - ficam-me agradáveis, pois unem-se a mim na caridade. Foi exatamente para isso que meu Filho se elevou na cruz, trilhando os caminhos do amor cruciante. Ao dizer, "quando eu for elevado, atrairei a mim todas as coisas", ele queria significar: quando o coração humano e as faculdades forem atraídas, todas as demais faculdades e suas ações também o serão. Em segundo lugar, há um outro significado: que todos os seres foram criados para o homem. Os demais seres devem servir ao homem, não ao contrário. Só a mim ele há de servir, com todo o afeto do seu coração. Compreendes, então? Se a humanidade for atraída, todos os demais seres a seguirão, pois para o homem foram criados.
Tal é a finalidade por que a ponte, Cristo, foi colocada no alto, e por que possui três degraus: para ser mais facilmente percorrida.
O material da ponte
O pavimento desta ponte é feito de pedras, a fim de que a chuva (da justiça divina) não retenha o caminhante. "Pedras" são as virtudes verdadeiras e reais. Antes da paixão de meu Filho, elas ainda não tinham sido assentadas, motivo pelo qual os antigos não atingiam o céu, mesmo que vivessem piedosamente. O Paraíso ainda não fora aberto com a chave do Sangue, e a chuva da justiça divina impedia a caminhada. Quando aquelas pedras foram assentadas no corpo do meu Filho - por mim comparado a uma ponte - foram embebidas, amalgamadas e assentadas com sangue. Em outras palavras: o sangue (humano) foi misturado com a cal da divindade e fortemente queimado no calor da caridade. Tais pedras foram postas em Cristo por mim, mas é nele que toda virtude é comprovada e vivificada. Fora de Jesus ninguém possui a vida da graça. Ocorre estar nele, trilhar suas estradas, viver sua mensagem. Somente ele faz crescer as virtudes, somente ele as constrói como pedras vivas, cimentando-as com o próprio sangue. Nele, todos os fiéis caminham na liberdade, sem o medo da justiça divina, pois vão cobertos pela misericórdia, descida do céu no dia da encarnação. Foi a chave do sangue de Cristo que abriu o céu.
Portanto, esta ponte é ladrilhada, seu telhado é a misericórdia. Possui também uma despensa, constituída pela hierarquia da santa Igreja, que conserva e distribui o Pão da vida e o Sangue. Assim, minhas criaturas, viandantes e peregrinas, não fraquejam de cansaço na viagem. Para isto ordenei que vos fosse dado o Corpo e o Sangue do meu Filho, Homem-Deus.
Os dois caminhos
Para atravessar a ponte, chega-se a uma porta, que é o próprio Cristo; por ela todos os homens devem passar. Disse Jesus: "Eu sou o caminho, a verdade, e a vida; quem vai por mim não caminha nas trevas, mas na luz" (Jo 8,12); e em outra passagem afirma que ninguém oide chegar a mim a não ser por meio dele (Jo 14,6). Se ainda bem recordas, foi o que te disse uma vez e fiz ver. Se Jesus diz que ele é o caminho, profere uma verdade. Eu o mostrei a ti na figura de uma ponte; sua afirmação é verdadeira; ele está unido a mim, suma Verdade. Quem o segue caminha na Verdade. Ele é também a Vida; seus seguidores possuem a vida da graça, não padecem fome; ele é o alimento. Nem vivem na escuridão; Jesus é a Luz. Em Cristo não existe mentira. Pela verdade ele confundiu e destruiu a mentira do demônio, enganador de Eva. Aquela mentira destruíra a estrada (do céu); Jesus a reconstruiu no seu sangue. Quem vai por tal caminho é filho da Verdade, atravessa a ponte e chega até mim, Verdade eterna, oceano de paz.
Quem não trilha esse caminho, vai pela estrada inferior, no rio do pecado. É uma estrada sem pedras, feita somente de água, inconsistente; por sobre ela ninguém vai sem se afundar. É o caminho dos prazeres e das altas posições, daqueles cujo amor não repousa em mim e nas virtudes, mas no apego desordenado ao que é humano e passageiro. Tais pessoas são como a água, sempre a escorrer. À semelhança daquelas realidades, vão passando. Eles acham que são as coisas criadas, objeto de seu amor, que se vão; na realidade, também eles caminham continuamente em direção à morte. Bem que gostariam de deter-se, reter na vida, segurar as coisas que amam. Seriam felizes se as coisas não passassem. Perdem-nas todavia, seja por causa da morte, seja pelos acontecimentos com que faço escapar-lhes das mãos os bens deste mundo. Tais pessoas vão pela mentira, por suas estradas; são filhos do demônio, pai da mentira. Entram por essa porta e vão para a condenação eterna.
Mostrei-te, assim, o meu caminho, o da Verdade, e o caminho do demônio, que é o da mentira. São duas estradas. Ambas exigem fadiga. Vê como é enorme a maldade, a cegueira humana. Sendo-lhe preparada a ponte, o homem prefere ir pela correnteza.
A estrada da ponte é muito agradável aos caminhantes. Toda amargura se torna doce; todo peso, leve. Embora na obscuridade dos sentidos, vão na luz; embora mortais, já possuem a vida sem fim. Pelo amor e pela fé, saboreiam meu Filho, Verdade eterna, que prometeu o prêmio para os que por mim se afadigam. Sou grato, reconhecido e justo; pagarei com eqüidade, segundo o merecimento. Toda ação boa será remunerada, assim como toda culpa será punida. Tua linguagem é insuficiente a descrever o gozo concedido a quem segue este caminho; nem teus ouvidos seriam aptos a escutar e os olhos a ver. Experimentam-se neste caminho coisas reservadas para a outra vida!
Como é louco aquele que despreza tão grandes bens, indo pelo rio, embaixo; prefere alimentar-se, já nesta vida, com aperitivos do inferno. Segue por entre muitos sofrimentos, sem satisfações, na carência de todo bem. Tudo isso, porque se privou de mim, sumo e eterno Bem, pelo pecado. Tens razão em lamentar-te! Quero que outros servidores sintam contínua tristeza porque sou ofendido; que sintam compaixão diante da maldade e ruína dos pecadores.
Tens desse modo a descrição da ponte. Disse todas essas coisas, para revelar-te que meu Filho unigênito é uma ponte, conforme afirmara antes. Agora sabes como de fato ele une as alturas com a pequenez!
Diálogos de Sta Catarina de Sena, Doutora da Igreja

Fonte: GRAA

terça-feira, 26 de março de 2013

Santa Hildegard von Bibgen e os pecados dos filhos da Igreja

Santa Hildegarda von Bingen

Eis a visão da “profetisa do Reno”, Santa Hildegarda de Bingen (1098 — 1179), lida pelo Papa Bento XVI em 20 de dezembro de 2010:

“No ano de 1170 depois do nascimento de Cristo, estive durante longo tempo doente na cama. Então, física e mentalmente acordada, vi uma mulher de uma beleza tal que a mente humana não é capaz de compreender.

“A sua figura erguia-se da terra até ao céu. O seu rosto brilhava com um esplendor sublime. O seu olhar estava voltado para o céu.

“Trajava um vestido luminoso e fulgurante de seda branca e uma manto guarnecido de pedras preciosas. Nos pés, calçava sapatos de ónix.

“Mas o seu rosto estava salpicado de pó, o seu vestido estava rasgado do lado direito. Também o manto perdera a sua beleza singular e os seus sapatos estavam sujos por cima.

“Com voz alta e pesarosa, a mulher gritou para o céu: ‘Escuta, ó céu: o meu rosto está manchado! Aflige-te, ó terra: o meu vestido está rasgado! Treme, ó abismo: os meus sapatos estão sujos!’

“E continuou: ‘Estava escondida no coração do Pai, até que o Filho do Homem, concebido e dado à luz na virgindade, derramou o seu sangue. Com este sangue por seu dote, tomou-me como sua esposa.
  
“Os estigmas do meu esposo mantêm-se em chaga fresca e aberta, enquanto se abrirem as feridas dos pecados dos homens.

“Este facto de permanecerem abertas as feridas de Cristo é precisamente por culpa dos sacerdotes.

“Estes rasgam o meu vestido, porque são transgressores da Lei, do Evangelho e do seu dever sacerdotal.

“Tiram o esplendor ao meu manto, porque descuidam totalmente os preceitos que lhes são impostos.

“Sujam os meus sapatos, porque não caminham por estradas direitas, isto é, pelas estradas duras e severas da justiça, nem dão bom exemplo aos seus súbditos.

“Em alguns deles, porém, encontro o esplendor da verdade”.

“E ouvi uma voz do céu que dizia:

‘Esta imagem representa a Igreja. Por isso, ó ser humano que vês tudo isto e ouves as palavras de lamentação, anuncia-o aos sacerdotes que estão destinados à guia e à instrução do povo de Deus, tendo-lhes sido dito, como aos apóstolos: ‘Ide por todo o mundo e proclamai o Evangelho a toda a criatura’ (Mc 16, 15)’”.

(Fonte: Carta a Werner von Kirchheim e à sua comunidade sacerdotal: PL 197, 269ss, apud Discurso do Papa Bento XVI por ocasião da troca de votos natalícios com a Cúria Romana, segunda-feira, 20 de dezembro de 2010).



Fonte: Blog Aparições de La Salette e suas profecias(com adaptações)

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Santa Edith Stein, O Mistério do Natal- (Parte III) : O Corpo Místico de Cristo



 
3.1 - SER UM COM DEUS
Para onde o Menino-Deus nos conduzirá nesta
terra, isto não sabemos e não deveríamos perguntar
antes do tempo. Só sabemos que para aqueles que
amam o Senhor, todas as coisas servem para o bem. Os
caminhos pelos quais o Senhor nos conduz, levam-nos
para além desta terra.
Ó troca maravilhosa! O criador do gênero humano
encarnando-se, concede-nos a sua divindade. Por
causa desta obra maravilhosa o Redentor veio ao mundo.
Deus se tornou Filho do homem, para que os homens
se tornassem filhos de Deus. Um de nós rompeu
o laço da filiação divina, e um de nós devia reatar o
laço, pagando pelo pecado. Nenhum da antiga e enferma
raça podia fazê-lo. Devia ser um rebento novo, sadio
e nobre. Tornou-se um de nós e, mais do que isto:
unido conosco. O maravilhoso no gênero humano é
que todos somos um. Se fosse diferente, estaríamos
lado a lado, como indivíduos autônomos e separados, e
a queda de um não poderia ter se tornado a queda de
todos. Podia ter sido pago e atribuído a nós o preço da
expiação, mas não teria passado a sua justiça para os
pecadores, e não teria sido possível nenhuma justificação.
Mas Ele veio, para tornar-se conosco um corpo
místico. Ele, nossa cabeça, nós, os seus membros. Po-nhamos nossas mãos nas mãos do Menino-Deus, pronunciando
o nosso “Sim” ao seu “Siga-me”. Então, nos
tornamos Seus, e o caminho está livre, para que a sua
vida divina possa passar para a nossa.
Isto é o começo da vida eterna em nós. Não é
ainda a visão beatífica de Deus na luz da glória, é ainda
escuridão da fé, mas não é mais deste mundo, já é
estar no Reino de Deus. Quando a bem-aventurada
Virgem pronunciou o seu “Fiat”, aí começou o Reino
de Deus na terra e ela se tornou a sua primeira serva.
E todos, que antes e depois do nascimento da criança,
por palavras e obras, se declararam a seu favor: São
José, Santa Isabel com seu filho e todos os que estavam
ao redor do presépio, entraram no Reino de
Deus.
Tornou-se diferente do que se pensou, conforme
os salmos e profetas o reinado do divino rei. Os romanos
continuaram os dominadores da terra, os sumo sacerdotes
e os doutores da lei continuaram a subjugar o
povo pobre.
De forma invisível, cada um, que pertencia ao
Senhor, trazia o Reino de Deus em si. O seu fardo terreno
não lhe foi tirado, e sim outros fardos acrescentados;
mas, o que ele trazia dentro de si, era uma força
animadora, fazendo o fardo suave e a carga leve. Assim
acontece ainda hoje com os filhos de Deus. A vida divina,
acesa em sua alma, é a luz que veio nas trevas, o
milagre da noite santa. Quem traz esta luz dentro de
si, compreende quando se fala dela. Para os outros, porém,
tudo o que se pode dizer a respeito, é um balbuciar
incompreensível. Todo o evangelho de São João é
um canto à luz eterna, que é amor e vida. Deus está
em nós e nós nele, esta é a nossa parte no reino de
Deus, para a qual a Encarnação colocou o alicerce.


3.2 - SER UM EM DEUS
Ser um com Deus: este é o primeiro passo. Mas,
o segundo é a conseqüência do primeiro. Cristo sendo
a cabeça e nós membros do corpo místico, estamos
unidos elo a elo, todos somos um em Deus, uma única
vida divina. Se Deus é Amor e está em nós, então não
pode ser diferente o nosso amor para com os irmãos.
Por isto o amor humano é a medida do nosso amor a
Deus. Mas, é algo mais do que o simples amor humano.
O amor natural se dirige a um outro, ligado pelos
laços do sangue ou por afinidades de caráter ou por interesses
comuns. Os outros são “estranhos”, que “não
nos importam”, talvez até por seu jeito antipático, de
forma que mantemos a devida distância. Para o cristão
não existe “gente estranha”. Próximo é aquele que encontramos
em nosso caminho e que mais necessita de
nós; indiferentemente, se é parente ou não, se a gente
gosta dele ou não, se ele é “moralmente digno” da
nossa ajuda ou não. O amor de Cristo não tem limites,
ele nunca termina, ele não recua diante da feiura ou
sujeira. Ele veio por causa dos pecadores e não por
causa dos justos. E se o amor de Cristo mora em nós,
então, façamos como Ele, indo ao encontro das ovelhas
perdidas.
O amor natural visa a ter a pessoa amada para
si, possuindo-a de forma mais exclusiva. Cristo
veio, para devolver ao Pai a humanidade perdida;
e quem ama com seu amor, este quer os homens
para Deus e não para si. Este é, ao mesmo
tempo, o caminho mais seguro para possuí-las
para sempre; pois, se amamos uma pessoa em
Deus, então somos com ela um em Deus, enquanto que o vício da conquista muitas vezes -
mais cedo ou mais tarde - sempre resulta em
perda.
Há um princípio válido para todas as almas e
para os bens exteriores: quem, ambiciosamente,
se ocupa em ganhar e apropriar, perde; porém,
aquele que tudo oferece a Deus, ganha para
sempre.

 Fonte: Santa Edith Stein, O Místério do Natal, Editora da Universidade doSagrado Coração 

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