sábado, 23 de fevereiro de 2013

Santa Teresa D'Ávila - Caminho de Perfeição, Capítulo 1: Da causa que me moveu a fazer este convento com tanta estreiteza.



CAPÍTULO 1. Da causa que me moveu a fazer este convento com tanta estreiteza.

1. No princípio da fundação deste mosteiro (pelos motivos referidos no livro que escrevi e onde referi algumas grandezas do Senhor, em que Ele deu a entender o muito que seria servido nesta casa), não era minha intenção que houvesse tanto rigor no exterior, nem que fosse sem renda; antes quisera que houvesse possibilidades para que nada nos faltasse. Enfim, agia como fraca e ruim, ainda que alguns bons intentos tivesse em vista mais que meu regalo.

2. Neste tempo, chegaram-me notícias dos danos e prejuízos causados em França por estes luteranos e quanto ia em crescimento esta desventurada seita. Deu-me grande pesar e, como se eu pudesse ou fosse alguma coisa, chorava com o Senhor e suplicava-Lhe pusesse remédio a tanto mal. Parecia-me que mil vidas daria para remédio de uma alma, das muitas que ali se perdiam. E, como me vi mulher, ruim e impossibilitada de trabalhar como eu quisera no serviço do Senhor, toda a minha ânsia era, e ainda é, pois Ele tem tantos inimigos e tão poucos amigos, que estes fossem bons. Determinei-me, pois, fazer este pouquito que está em minha mão: seguir os conselhos evangélicos com toda a perfeição que eu pudesse e procurar que estas poucas que aqui estão fizessem o mesmo. Punha a minha confiança na grande bondade de Deus que nunca falta em ajudar a quem por Ele se determina a deixar tudo; e que, sendo elas tais quais eu as imaginava em meus desejos, entre as suas virtudes não teriam força as minhas faltas, e poderia assim contentar nalguma coisa o Senhor, e que todas, ocupadas em oração pelos defensores da Igreja e pregadores e letrados que a defendem, ajudássemos, no que pudéssemos, a este Senhor meu, que tão atribulado O trazem; aqueles a quem fez tanto bem. Dir-se-ia que estes traidores O querem agora de novo pregar na cruz, e que não tivesse onde reclinar a cabeça.

3.Ó Redentor meu! o meu coração não pode chegar aqui sem se afligir muito! Que é isto agora nos cristãos? Hão-de ser sempre os que mais Vos devem os que Vos aflijam? Aqueles a quem melhores obras fazeis, aos que escolheis para Vossos amigos, entre quem andais e Vos comunicais pelos Sacramentos? Não estão ainda fartos dos tormentos que por eles passastes?

4. Por certo, Senhor meu, nada faz quem agora se isola do mundo. Pois Vos têm tão pouco amor, que esperamos nós? Porventura merecemos mais que no-lo tenham? Porventura fizemos-lhes melhores obras para que nos tenham amizade? Que é isto? Que esperamos ainda os que, por bondade do Senhor, estamos sem aquela astúcia pestilencial? Esses são já do demónio? Bom castigo têm ganho com suas próprias mãos e bem granjeado têm com seus deleites o fogo eterno. Lá se avenham, ainda que não deixa de se me partir o coração o ver como se perdem tantas almas. Mas, para que o mal não seja tanto, quisera não ver perder mais cada dia.

5. Ó irmãs minhas em Cristo! Ajudai-me a suplicar isto ao Senhor, que para isto vos juntou Ele aqui. Esta é a vossa vocação; estes hão-de ser os vossos negócios; estes hão-de ser os vossos desejos; aqui as vossas lágrimas; estas as vossas petições; não, minhas irmãs, por negócios do mundo, de que eu me rio e até me aflijo, nem pelas coisas que aqui nos vêm encarregar de suplicar a Deus, de pedir a Sua Majestade rendas e dinheiros, e isto algumas pessoas que, antes, quereria suplicassem a Deus graça para calcarem aos pés tudo isso. Boa intenção têm e, por fim, faz-se-lhes a vontade por ver a sua devoção, ainda que eu tenha para mim, que nestas coisas, nunca sou ouvida. O mundo está ardendo, querem tornar a condenar Cristo, como dizem, pois Lhe levantam mil falsos testemunhos; querem deitar por terra a Sua Igreja, e havemos de gastar tempo em coisas que, se Deus lhas desse, teríamos porventura uma alma a menos no Céu? Não, minhas irmãs; não é tempo de tratar com Deus negócios de pouca importância.

6. Por certo que, se não olhasse à fraqueza humana, que se consola de ser ajudada em tudo (e bom seria valêssemos alguma coisa), regozijar-me-ia que se entendesse que não são estas as coisas que se hão-de suplicar a Deus com tanto cuidado.

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