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sexta-feira, 26 de abril de 2013

Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem - Capítulo Sétimo



MARAVILHOSOS EFEITOS DESTA
DEVOÇÃO EM UMA ALMA QUE LHE É FIEL


Meu querido irmão, convence-te de que, se fores fiel
às práticas interiores e exteriores desta Devoção, que te indicarei
adiante, participarás dos frutos maravilhosos que ela
produz na alma fiel. Ei-los:

Artigo Primeiro

Conhecimento e desprezo de si mesmo

213. Conhecerás, pela luz que o Espírito Santo te dará por
intermédio de Maria, sua querida esposa, o teu fundo mau, a tua
corrupção e incapacidade para todo bem. E em conseqüência
desse conhecimento, desprezar-te-ás e sentirás horror ao pensar
em ti. Considerar-te-ás como um caracol, que tudo estraga com
a sua baba, ou como um sapo, que tudo envenena com a sua
peçonha, ou como uma serpente maliciosa, que só procura enganar.
Finalmente, a humilde Maria te comunicará a sua profunda
humildade e fará com que te desprezes a ti mesmo, mas não
aos outros, e gostes de ser desprezado (Imitação de Cristo, L. I,
cap. 2).

Artigo Segundo

Participação da Fé de Maria

214. A Santíssima Virgem far-te-á participar da sua fé, que
foi a maior que já houve na Terra, maior até que a dos Patriarcas,
Profetas, Apóstolos e todos os Santos. Agora que reina
nos céus, já não tem essa fé, pois vê claramente todas as coi-
sas em Deus, pela luz da glória (1 Cor 13, 8-13). No entanto,
por permissão do Altíssimo, não perdeu a sua fé ao entrar na
glória: guardou-a a fim de conservá-la na Igreja militante para
os Seus mais fiéis servos e servas.
Por isso, quanto mais benevolência granjeares desta
augusta princesa e Virgem Fiel, mais pura fé terás em todo o teu
proceder:

- Uma fé pura, que fará com que não te preocupes mais
com o que é sensível e extraordinário;
- Uma fé viva e animada de caridade, que te levará a
fazer tudo unicamente movido por Puro Amor;
- Uma fé firme e inquebrantável como um rochedo, que te
fará permanecer constante e firme no meio das tempestades e tormentas;
- Uma fé ativa e penetrante que, como uma chave misteriosa
ou gazua, te dará entrada em todos os mistérios de
Jesus Cristo, nos novíssimos do homem, e no Coração do próprio
Deus;
- Uma fé corajosa que, sem hesitações, te fará empreender
e levar a cabo grandes coisas pela causa de Deus e salvação
das almas;
- Uma fé reluzente, enfim, que será o teu archote luminoso,
a tua vida divina, o teu tesouro escondido da divina
Sabedoria, a tua arma onipotente de que te servirás para iluminar
os que estão nas trevas e sombras da morte, para abrasar
os que são tíbios e precisam do ouro ardente da caridade,
para dar vida aos que morreram pelo pecado, para tocar e
prostrar, com as tuas palavras doces e poderosas, os corações
de mármore e os cedros do Líbano e, finalmente, para resistir
ao demônio e a todos os inimigos da salvação.
Artigo Terceiro
A Graça do Puro Amor
215. Esta Mãe do Amor Formoso (Eclo 24, 24) tirará do teu
coração todo escrúpulo e temor servil. Abri-lo-á e dilatá-lo-á
para que corra pelo caminho dos mandamentos de seu Filho (Sl
118, 32), com a santa liberdade dos filhos de Deus, e para infundir
nele o Puro Amor, do qual Ela é a tesoureira (n. 169). E
assim, no teu comportamento para com Deus, que é Caridade,
já não procederás com receio e temor, como até agora tendes
feito, mas sim por Puro Amor. Olhá-lo-ás como teu Pai bondoso,
a quem procurarás agradar incessantemente, a quem falarás
confiadamente como um filho fala a seu bom pai. Se, por infelicidade,
vieres a ofendê-lo, humilhar-te-ás imediatamente na sua
presença, pedir-lhe-ás humildemente perdão, estender-lhe-ás a
mão com toda a simplicidade, levantar-te-ás amorosamente, sem
perturbação nem inquietação, e continuarás a caminhar para Ele
sem desânimo.

Artigo Quarto
Grande Confiança em Deus e em Maria
216. A Santíssima Virgem encher-te-á duma grande confiança
em Deus e n'Ela própria:
1º. Porque já não te aproximarás de Jesus por ti mesmo,
mas sempre por esta boa Mãe;
2º. Porque, tendo-lhe dado todos os teus méritos, graças
e satisfações, para que deles disponha à sua vontade, Ela
te comunicará as suas virtudes e te revestirá de Seus méritos.
Deste modo poderás dizer confiadamente a Deus: “Eis Maria,
a Vossa escrava, faça-se em mim segundo a Vossa palavra”
(Lc 1, 38);
3º. Porque te deste inteiramente a Ela, de corpo e alma,
Ela que é liberal com os liberais, e ainda mais do que eles,
retribuirá entregando-se a ti de maneira maravilhosa, sim, mas
verdadeiramente real. E depois disso poderás dizer-lhe com
santa ousadia: “Eu sou Vosso, Virgem Santíssima, salvai-me”
(Sl 118, 94); ou então, com o discípulo amado, como já disse
antes (n. 179): “Eu Vos recebi, ó Santa Mãe, como todo o meu
bem”. Poderás dizer ainda, com São Boaventura: “Minha
querida Senhora e salvadora agirei com confiança e sem temor,
porque Vós sois a minha força e o meu louvor no Senhor!”
(Is 12, 2). E noutra passagem: “Eu sou todo Vosso, e
tudo o que tenho Vos pertence, ó gloriosa Virgem, bendita
acima de todas as coisas criadas. Colocar-Vos-ei como um
selo sobre o meu coração, porque o Vosso Amor é forte como
a morte” (Ex 15). Poderás dizer a Deus, com os sentimentos
do profeta: “Senhor, nem o meu coração , nem os meus olhos
têm motivo algum para se elevar e orgulhar, nem para buscar
coisas grandes e maravilhosas. Mas nem por isso sou
humilde: levantei e animei a minha alma pela confiança. Sou
como um menino desmamado e encostado ao seio de sua mãe,
e é nesse seio que sou cumulado de bens”.
4º. O que aumentará ainda mais a tua confiança n'Ela é
que a fizeste depositária de tudo o que tinhas de bom, para to
guardar ou para o dar aos outros. Terás menos confiança em ti
e muito mais n'Ela, que é o teu tesouro. Oh! Que confiança e
que consolação para uma alma poder dizer que o tesouro de
Deus, onde Ele guardou o que tem de precioso, é também o
seu tesouro! Como diz um santo: “Ela é o tesouro do Senhor.”

Artigo Quinto
Comunicação da Alma e do Espírito de Maria
217. A alma da Santíssima Virgem comunicar-se-á a ti para
glorificar o Senhor, o seu espírito ocupará o lugar do teu para se
regozijar no Senhor, seu Salvador, contanto que te tornes fiel às
práticas desta Devoção. É o que exclamava Santo Ambrósio:
“Que a alma de Maria esteja em cada um para glorificar o
Senhor; que o espírito de Maria esteja em cada um para se
alegrar em Deus” (Lc 1, 46-55). Ah! Quando virá esse feliz
tempo - diz um santo homem dos nossos dias, todo perdido
em Maria - Ah! Quando chegará esse feliz tempo em que Maria
Santíssima será constituída Senhora e Soberana dos corações,
para os submeter plenamente ao Império do seu Grande
e Único Amor, Jesus?! Quando é que as almas respirarão
Maria como os corpos respiram o ar?! Acontecerão então coisas
maravilhosas neste pobre mundo. Porque o Espírito Santo,
encontrando a sua amada Esposa reproduzida nas almas,
descerá abundantemente sobre elas, plenificando-as de Seus
dons, particularmente do dom da sabedoria, para nelas operar
maravilhas de graça. Meu querido irmão, quando virá esse
tempo feliz, esse século de Maria, em que muitas almas escolhidas
e obtidas do Altíssimo por Maria, perdendo-se a si mesmas
no abismo do interior d'Ela, se tornarão cópias vivas de
Maria, para amar e glorificar a Jesus Cristo? Esse tempo só
virá quando a Devoção que ensino for conhecida e praticada:
“Para que venha o Vosso Reino, ó Jesus, venha o Reino de
Maria!”

Artigo Sexto
Transformação das almas
em Maria à imagem de Jesus Cristo

218. Se a árvore da vida, que é Maria, for bem cultivada na
nossa alma, pela fidelidade às práticas desta Devoção, dará
fruto a seu tempo, e o seu fruto não é outro senão Jesus Cristo.
Vejo tantas almas piedosas que buscam Jesus Cristo, umas
por uma via e uma prática, outras por outra. E, freqüentemente,
depois de terem trabalhado muito durante a noite, podem dizer:
“Embora tenhamos trabalhado durante toda a noite, não
apanhamos nada” (Lc 5, 5). E nós poderíamos dizer-lhes:
Trabalhastes muito e lucrastes pouco: Jesus Cristo é ainda
muito fraco em vós! Mas, no caminho imaculado de Maria e
nesta divina prática que ensino, trabalha-se de dia, trabalhase
num lugar santo e trabalha-se pouco. Em Maria não há
noite, porque Ela não teve nem a menor sombra do pecado.
Maria é um Lugar Santo, o Santo dos Santos, onde os santos
são formados e moldados.
219. Peço-te que notes o que disse: os santos são moldados
em Maria. Há grande diferença em fazer uma figura em relevo
a golpes de martelo e de cinzel, e fazer uma figura lançando-
a numa fôrma. Os escultores e estatuários trabalham muito
para fazer imagens do primeiro modo, e precisam de muito
tempo. Mas, a fazer imagens da segunda maneira, trabalha-se
pouco e fazem-se rapidamente. Santo Agostinho chama a
Santíssima Virgem “Fôrma de Deus”, Fôrma própria para
formar e moldar deuses: “Sois digna de ser chamada Fôrma
de Deus”. Aquele que é lançado nesta Fôrma Divina depressa
é formado e moldado em Jesus Cristo e Jesus Cristo nele.
Facilmente e em pouco tempo será transformado em Deus,
divinizado, pois é lançado no próprio molde que formou um
Deus.
220. Parece-me que posso muito bem comparar os diretores
espirituais e as pessoas devotas, que querem formar Jesus
Cristo em si ou nos outros por meio de práticas diferentes
desta Devoção, a escultores, que confiando no seu engenho,
diligência e arte dão uma infinidade de golpes de martelo e
cinzel na pedra dura ou num pedaço de madeira mal polida,
para dela fazerem uma imagem de Jesus Cristo. E às vezes
não conseguem representar Jesus Cristo ao vivo, quer por falta
de conhecimento e experiência da pessoa de Jesus, quer
por causa de um golpe mal dado, que estragou a obra. Mas,
quanto aos que abraçam este segredo de graça que lhes apresento,
comparo-os, com razão, a fundidores e moldadores que
acharam a Fôrma tão bela de Maria, na qual Jesus Cristo foi
natural e divinamente formado. Não confiando na sua própria
habilidade, mas unicamente na excelência da Fôrma, lançamse
e perdem-se em Maria, para se tornarem o retrato vivo de
Jesus Cristo.
221. Ó bela e verdadeira comparação! Mas quem a compreenderá?
Desejo que sejas tu, meu querido irmão. Mas lembra-
te que só se lança na fôrma o que está fundido e líquido.
Isto quer dizer que deves destruir e fundir em ti o velho Adão,
para que em Maria te transformes no novo.

Artigo Sétimo
A Maior Glória de Jesus Cristo
222. Por esta prática, fielmente observada, darás mais glória
a Jesus Cristo em um só mês, do que por qualquer outra,
embora mais difícil, em muitos anos. Eis aqui as razões do
que afirmo:
1º. Porque fazendo as tuas ações pela Santíssima Virgem
Maria, como esta prática ensina, renuncias às tuas próprias
intenções e operações, embora boas e conhecidas, para,
por assim dizer, te perderes nas intenções e operações da
Santíssima Virgem Maria, muito embora te sejam desconhecidas.
Deste modo entras na participação da sublimidade das
suas intenções. A pureza destas foi tanta que Ela glorificou
mais Deus pela mínima das suas obras (por exemplo: fiar na
sua roca ou dar alguns pontos de costura com agulha), do que
São Lourenço pelo cruel martírio que sofreu na grelha, e mesmo
do que todos os santos pelas suas mais heróicas ações. E
assim, durante a sua permanência na Terra, Maria adquiriu
uma plenitude indizível de graças e méritos. Seria mais fácil
contar as estrelas do Céu, as gotas de água do mar e os grãos
de areia das praias do que os Seus méritos e graças. Ela deu
mais glória a Deus do que todos os anjos e santos lhe deram
ou jamais darão. Oh! Que prodígio sois, Maria! Só Vós podeis
realizar os prodígios de graça nas almas que querem docilmente
abismar-se em Vós.
223. 2º. Porque esta prática faz com que uma alma considere
tudo aquilo que pensa ou faz por si mesma como sendo um
nada. Apóia-se e compraz-se apenas nas disposições de Maria,
para se aproximar de Jesus e até para lhe falar. Assim mostra
muito mais humildade do que as almas que agem por si mesmas
e se apóiam e deleitam, imperceptivelmente, nas suas próprias
disposições. Conseqüentemente, essa alma dá muito mais glória
a Deus, que só é glorificado perfeitamente pelos humildes e
pequenos de coração.
224. 3º. Porque a Santíssima Virgem digna-se receber, por
grande caridade, a oferta das nossas ações em suas mãos virginais,
e dá-lhes assim uma beleza e um brilho admiráveis. É
Ela própria que as oferece a Jesus Cristo, e não há dúvida de
que Nosso Senhor é assim mais glorificado do que se lhas
oferecêssemos nós mesmos com as nossas mãos criminosas.
225. 4º. Finalmente, porque nunca pensas em Maria sem
que Maria, em teu lugar, pense em Deus; e nunca louvas Maria
sem que Ela contigo louve e honre a Deus. Maria só a
Deus se refere, e bem lhe poderíamos chamar de a relação de
Deus, que só existe em referência a Ele, ou o eco de Deus,
porque Ela só diz e repete: “Deus”. Quando dizes Maria, Ela
diz Deus. Santa Isabel louvou-a e proclamou-a bem-aventurada
porque tinha acreditado; Maria, o eco fiel de Deus, cantou:
“A minha alma glorifica o Senhor” (Lc 1, 46). O que
Maria fez nessa ocasião, renova-o todos os dias. Quando a
louvamos, amamos e honramos, ou lhe damos alguma coisa,
é a Deus que louvamos, amamos e honramos, é a Deus que
damos por Maria e em Maria.


São Luís Maria Grignion de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem

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