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quinta-feira, 4 de abril de 2013

Santa Teresa D'Ávila, Caminho de Perfeição - CAPÍTULO 2. Trata como se hão-de descuidar das necessidades corporais, e do bem que há na pobreza.



1. Não penseis, minhas irmãs, que, por não andar a contentar os do mundo, vos há-de faltar de comer; isto vos asseguro. Jamais, por artifícios humanos, pretendais sustentar-vos, porque morrereis de fome, e com razão. Ponde os olhos em vosso Esposo; Ele vos há-de sustentar. Contente Ele, ainda que o não queiram, dar-vos-ão de comer os vossos menos devotos, como tendes visto por experiência. Se, fazendo vós isto, morrerdes de fome, bem-aventuradas as freiras de S. José. Não vos esqueçais disto, por amor do Senhor. Já que deixais as rendas, deixai os cuidados da comida; se não, tudo vai perdido. Aqueles que o Senhor quer que a tenham, em boa hora tenham esses cuidados, que é de muita razão, pois é a sua vocação; mas em nós, Irmãs, é disparate.

2. Cuidado de rendas alheias, me parece seria estar pensando no que os outros gozam. Sim; porque, com o vosso cuidado, não muda ninguém o seu pensamento, nem lhe vem o desejo de dar esmola. Deixai este cuidado a Quem os pode mover a todos, que Ele é o Senhor das rendas e dos rendeiros. À Sua chamada viemos aqui; as Suas palavras são verdadeiras; não podem faltar; antes faltarão os céus e a terra. Não Lhe faltemos nós, e não haja medo de que Ele falte. Se alguma vez vos faltar, será para maior bem, tal como faltava a vida aos Santos quando os matavam pelo Senhor, e era para lhes aumentar a glória pelo martírio. Boa troca seria acabar depressa com tudo e ir gozar da fartura imperdurável!

3. Olhai, irmãs, que isto importa muito depois da minha morte; e, por isso, aqui vo-lo deixo escrito. Enquanto eu viver, eu vo-lo recordarei, pois vejo, por experiência, o grande lucro que há nisto. Quando menos há, mais descuidada estou, e o Senhor sabe que, segundo me parece, dá-me mais pena quando sobra muito do que quando falta. Não sei se o faz como já tenho visto; o Senhor logo no-lo dá. Outra coisa seria enganar o mundo, fazendo-nos pobres não o sendo de espírito, mas somente no exterior. Isto seria, para mim, um caso de consciência, a modo de dizer, e parecer-me-ia serem ricas a pedir esmola. Praza a Deus que não seja assim; pois onde há estes cuidados excessivos para que dêem, uma vez ou outra irão pelo costume, ou poderiam ir e pedir aquilo de que não precisam a quem talvez tenha mais necessidade. Esses, nada podem perder com isso, senão ganhar; mas nós, sim perderíamos. Não o queira Deus, minhas filhas; se isto houvesse de suceder, mais quisera eu que tivésseis renda.

4. De nenhum modo se ocupe nisto o vosso pensamento, eu vo-lo peço como esmola, por amor de Deus. E quando a mais pequena de entre vós, alguma vez verificasse isto nesta casa, clame a Sua Majestade e lembre-o à Maior. Diga-lhe com humildade que vai errada e tanto, que, pouco a pouco, se vai perdendo a verdadeira pobreza. Eu espero no Senhor que não será assim e que Ele não abandonará as Suas servas. Para isso, ainda que para mais não seja, sirva-vos isto que me mandastes escrever como um despertador.

5. E creiam, minhas filhas, que, para vosso bem, deu-me o Senhor a entender um poucochinho dos bens que há na santa pobreza e, as que o experimentarem, entendê-lo-ão; talvez não tanto como eu, porque não só eu não tinha sido pobre de espírito, ainda que o tivesse professado, mas sim louca de espírito, porque experimentei o contrário. É este um bem que encerra em si todos os bens do mundo. É grande senhorio. Digo que é um assenhorear-se de novo de todos os bens da terra para quem deles não faz caso. Que me importam os reis e senhores, se não quero as suas rendas, nem os pretendo mesmo contentar, se para isso se me atravessa por diante um tudo-nada que seja o ter de descontentar nalguma coisa a Deus? Ou, que se me dá das suas honras, se tenho entendido que, para um pobre, a maior honra está em ser verdadeiramente pobre?

6. Tenho para mim, que honras e dinheiro quase sempre andam juntos e, quem quer honras, não aborrece o dinheiro e, quem o aborrece, pouco se lhe dá de honras. Entenda-se bem isto, pois me parece que isto de honras sempre traz consigo algum interesse de rendas ou dinheiro. É que, só por maravilha, é digno de honra no mundo o que é pobre; antes, pelo contrário, ainda que de si a mereça, é tido em pouco. A verdadeira pobreza traz consigo uma tal honra, que não há quem lhe resista. Digo a pobreza que é abraçada só por Deus, pois que não precisa de contentar senão a Ele. E é coisa muito certa, em não havendo necessidade de ninguém, ter muitos amigos. Eu bem o tenho visto por experiência.

7. Porque há tanto escrito sobre esta virtude, não sei porque falo dela, pois nem o saberei entender, quanto mais dizer; assim, para não lhe fazer agravo, louvando-a eu, nada mais digo. Só tenho dito o que sei por experiência, e confesso ter estado tão embebida nisto, que nem me dei conta,até agora, do que escrevi. Mas, porque está dito, por amor do Senhor vos peço: já que as nossas armas são a santa pobreza, e o que no princípio da fundação da nossa Ordem era tão estimada e guardada pelos nossos Santos Padres (que me disse quem o sabe que dum dia para o outro não guardavam nada), ainda que no exterior não se guarde agora com tanta perfeição, procuremos tê-la no interior. Duas horas temos de vida e grandíssimo é o prémio; e mesmo que não houvesse nenhum, a não ser o de cumprir o que nos aconselhou o Senhor, seria já grande paga imitar em alguma coisa a Sua Majestade.

8. Estas armas hão-de ter nossas bandeiras, que, de todas as maneiras, queiramos guardar: na casa, no vestido, nas palavras e muito mais no pensamento. E, quando isto fizerem, não tenham medo que decaia a religião desta casa com o favor de Deus; pois, como dizia Santa Clara, grandes muros são os da pobreza. Destes, dizia ela, e da humildade, queria cercar os seus conventos; e, certo é que, se isto se guarda de verdade, a honestidade e tudo o mais estará muito melhor fortalecido do que em sumptuosos edifícios. Destes, guardem-se, por amor de Deus; eu vo-lo peço pelo Seu sangue; e, se em consciência o posso dizer, digo: que, no dia em que tal fizerem, voltem a cair.

9. Muito mal parece, filhas minhas, que da fazenda dos pobrezinhos se façam grandes casas. Não o permita Deus, mas pobres em tudo e pequenas. Pareçamo-nos em alguma coisa ao nosso Rei, que não teve casa, a não ser o presépio de Belém, onde nasceu, e a cruz onde morreu. Casas eram estas em que se podia ter pouca recreação. Os que as fazem grandes, lá se avenham; têm outras intenções santas. Mas, a treze pobrezitas, qualquer canto lhes basta. Se tiverem campo, porque é necessário pelo muito encerramento (e até ajuda à oração e devoção), com algumas ermidas para se apartarem a orar, tanto melhor. Mas, edifícios e casa grande e curiosa, nada! Deus nos livre! Lembrai-vos sempre que há-de cair tudo no dia do juízo; e E sabemos se será em breve?

10. Que faça muito ruído ao desmoronar-se a casa de treze pobrezitas, não é bem, pois os verdadeiros pobres não hão-de fazer ruído; gente sem ruído hão-de ser, para que deles tenham pena. E, como se alegrarão, se virem alguém, pela esmola que lhes tiver feito, livrar-se do inferno; tudo é possível, porque estais muito obrigadas a rogar muito continuamente por suas almas, pois vos dão de comer.' E o Senhor também quer, embora venha da Sua parte, que agradeçamos às pessoas, por cujo meio Ele no-lo dá. Nisto não haja descuido.

11. Não sei o que tinha começado a dizer, pois me distraí. Creio que o Senhor assim quis, porque nunca pensei escrever o que disse Sua Majestade nos tenha sempre de Sua mão para não decairmos disto, amen.

Fonte: Caminho de Perfeição

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