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sábado, 5 de abril de 2014
Conselho de Santa Catarina de Sena sobre a Santa Paciência
"Deveremos afirmar, então, que nenhum sofrimento é grande? De modo algum. E se a sensualidade se revoltar, lembremos-lhe: 'Atenção, pois o fruto da impaciência é o castigo eterno, que receberás no dia do juízo. É melhor para ti querer o que Deus quer, amar o que Ele ama, ao invés de querer o que preferes e amar o que agrada à sensualidade. Quero que suportes virilmente a dor, já que os sofrimentos desta vida não têm comparação com a glória futura, preparada por Deus aos que o temem (Rom. VIII, 18; ICor. II, 9) e cumprem sua vontade".
Santa Catarina de Sena. Carta 5. Para Francisco de Montalcino.
Fonte: Blog São Pio V
segunda-feira, 31 de março de 2014
São Tomás de Aquino - Os efeitos da Eucaristia
S. Tomás de Aquino
OS EFEITOS DA EUCARISTIA
- Summa Theologiae IIIa. Pars Qs. 79-80 -
- Sermão sobre o Corpo do Senhor -
01.
No Sacramento da Eucaristia, em virtude das palavras da instituição, as espécies simbólicas se mudam em corpo e sangue; seus acidentes subsistem no sujeito; e nele, pela consagração, sem violação das leis da natureza, o Cristo único e inteiro existe Ele próprio em diversos lugares, assim como uma voz é ouvida e existe em vários lugares, continuando inalterado e permanecendo inviolável quando dividido, sem sofrer diminuição alguma. Cristo, de fato, está inteira e perfeitamente em cada e em todo fragmento de hóstia, assim como as aparências visíveis que se multiplicam em centenas de espelhos.
02.
O efeito deste Sacramento deve ser considerado, portanto, primeira e principalmente em função daquilo que nele está contido, que é o Cristo.
Ele, vindo ao mundo em forma visível, trouxe ao mundo a vida da graça, segundo nos diz o Evangelho de João:
"A graça e a verdade, porém,
vieram por meio de Jesus Cristo".
Assim, da mesma forma, vindo Cristo ao mundo em forma sacramental, opera a vida da graça, segundo ainda outra passagem do mesmo Evangelho:
"Quem me come,
viverá por mim",
03.
O efeito deste Sacramento deve, ademais, ser considerado também pelo que ele representa, que é a Paixão de Cristo. Por isto, o efeito que a Paixão de Cristo realizou no mundo, este Sacramento também realiza no homem.
04.
O efeito deste Sacramento também deve ser considerado pelo modo através do qual ele é trazido aos homens, que é por modo de comida e bebida. E por isto todo efeito que a bebida e a comida material realizam quanto à vida corporal, isto é, sustentar, crescer, reparar e deleitar, tudo isto realiza este Sacramento quanto à vida espiritual. E é por isto que se diz:
"Este é o pão da vida eterna,
pelo qual se sustenta
a substância de nossa alma".
De onde que o próprio Senhor diz, no Evangelho de São João:
"Minha carne é verdadeiramente comida,
e meu sangue é verdadeiramente bebida".
05.
Finalmente, o efeito do Sacramento da Eucaristia deve ser considerado pelas espécies em que este Sacramento nos é oferecido. Foi por causa disto que escreveu Santo Agostinho:
"O Senhor confiou-nos
o Seu Corpo e o Seu Sangue
em coisas tais que são reduzidas à unidade
a partir de muitas outras,
porque o pão é um,
embora conste de muitos grãos,
e o vinho é feito
a partir de muitas uvas".
E por isso ele também escreveu em outro lugar:
"Ó Sacramento da piedade,
ó sinal da unidade,
ó vínculo da caridade!".
06.
E porque Cristo e sua Paixão são causa da graça, e uma refeição espiritual e a caridade não podem existir sem a graça, por todas estas coisas é manifesto que este Sacramento confere a graça.
07.
Mas, conforme diz São Gregório na homilia de Pentecostes,
"o amor de Deus não é ocioso;
opera grandes coisas,
se de fato existe".
Por isto, por meio deste Sacramento, o quanto pertence a seu efeito próprio, não somente é conferido o hábito da graça e da virtude, mas também esta é conduzida ao ato, segundo o que está escrito na Segunda Epístola aos Coríntios:
"O amor de Cristo
nos impele".
Daqui é que provém que pela virtude do Sacramento da Eucaristia a alma faz uma refeição espiritual por deleitar-se e inebriar-se pela doçura da bondade divina, segundo o que diz o Cântico dos Cânticos:
"Comei, amigos, e bebei;
e inebriai-vos, caríssimos".
08.
Este Sacramento também tem virtude para a remissão dos pecados veniais, o que pode ser visto pelo fato de que ele é tomado sob a espécie de alimento nutritivo. A nutrição proveniente do alimento é necessária ao corpo para restaurar aquilo que em cada dia é desperdiçado pelo calor natural. Espiritualmente, porém, em nós também é desperdiçado a cada dia algo pelo calor da concupiscência pelos pecados veniais que diminuem o fervor da caridade. E por isto compete a este Sacramento a remissão dos pecados veniais. De onde que Santo Ambrósio diz, no livro Dos Sacramentos, que este pão de cada dia é tomado
"como remédio
da enfermidade de cada dia".
09.
Ademais, a coisa deste Sacramento é a caridade, não somente quanto ao hábito, mas também quanto ao ato, ao qual é conduzida neste Sacramento, pelo qual os pecados veniais se dissolvem. De onde que é manifesto que pela virtude deste Sacramento ocorre a remissão dos pecados veniais. Os pecados veniais, ao contrário dos mortais, não contrariam a caridade quanto ao hábito, mas contrariam a caridade quanto ao fervor do ato, ao qual é conduzida por este Sacramento. É por esta razão que os pecados veniais são perdoados pelo Sacramento da Eucaristia.
10.
O Sacramento da Eucaristia pode também perdoar toda a pena devida ao pecado. Este efeito pode ocorrer tanto por ele ser sacrifício, como por ser sacramento. A Eucaristia possui razão de sacrifício na medida em que é oferecido; possui razão de sacramento na medida em que é tomado.
11.
Como Sacramento, a Eucaristia possui diretamente aquele efeito para o qual foi instituído. Não foi, porém, como Sacramento, instituído para satisfazer, mas para alimentar espiritualmente pela união a Cristo e aos seus membros, assim como o alimento se une ao alimentado. Mas porque esta união se realiza pela caridade, por cujo fervor alguém pode conseguir a remissão não apenas da culpa, mas também da pena, daqui ocorre que por conseqüência, por uma certa concomitância ao efeito principal, o homem alcança a remissão também para a pena. Não, porém, de toda a pena, mas de acordo como o modo de sua devoção e fervor.
12.
Mas, na medida em que é Sacrifício, a Eucaristia possui virtude satisfatória. Entretanto, também na satisfação mais deve se considerar o afeto do oferente do que a quantidade da oblação, de onde que o Senhor disse, no Evangelho de São Lucas, da viúva que ofereceu apenas duas moedas, que
"ofereceu mais do que todos".
Embora, portanto, a oblação eucarística pela sua própria quantidade seja suficiente para a satisfação de toda a pena, todavia torna-se satisfatória para aqueles pelos quais é oferecida, ou também para os próprios oferentes, de acordo com a quantidade de sua devoção, e não por toda a pena.
13.
A Eucaristia também preserva o homem dos pecados futuros, pelo mesmo modo em que o corpo é preservado da morte futura. O pecado é uma certa morte espiritual da alma. Ora, a natureza corporal do homem é preservada da morte pela comida e pelo remédio na medida em que a natureza humana é interiormente fortificada contra o que pode corrompê-la interiormente. É deste modo que este Sacramento preserva o homem do pecado, porque através dele, unindo-se a Cristo pela graça, é fortalecida a vida espiritual do homem, ao modo de uma comida espiritual e um remédio espiritual. É assim que diz o Salmo 103:
"O pão confirma
o coração do homem".
14.
A Eucaristia preserva o homem dos pecados futuros também defendendo-o contra as impugnações exteriores. Pois é sinal da Paixão de Cristo, pela qual foram vencidos os demônios, de modo que este Sacramento repele toda a impugnação dos demônios.
15.
Ainda que este Sacramento não diretamente se ordene à diminuição do incitamento do pecado, diminui, porém, este incitamento por uma certa conseqüência, na medida em que aumenta a caridade, porque, segundo diz Agostinho no Livro das 83 Questões,
"O aumento da caridade
é a diminuição da cobiça".
Diretamente, porém, a Eucaristia confirma o homem no bem, pelo que também é preservado o homem do pecado.
16.
Este Sacramento, ademais, é de proveito para muitos outros além dos que o recebem porque, conforme foi dito, este Sacramento não é apenas sacramento, mas é também sacrifício. Na medida em que neste Sacramento é representada a Paixão de Cristo, pela qual Cristo se ofereceu a Si mesmo como hóstia a Deus, possui razão de sacrifício. Na medida, porém, em que neste Sacramento é trazida invisivelmente a graça sob uma espécie visível, possui razão de sacramento.
17.
Assim, pois, este Sacramento é, para os que o recebem, de proveito não só por modo de sacramento, como também por modo de sacrifício, porque é oferecido por todos os que o recebem.
18.
Mas também é de proveito para os que não o recebem, embora apenas por modo de sacrifício, na medida em que é oferecido pela salvação deles. É por isso que no cânon da Missa se diz:
"Lembrai-vos, Senhor,
dos vossos servos e servas,
pelos quais nós Vos oferecemos,
e eles Vos oferecem também,
este Sacrifício de louvor,
por si e por todos os seus,
pela redenção de suas almas,
pela esperança de sua salvação
e sua segurança".
19.
O próprio Senhor, ademais, expressou que a Eucaristia seria de proveito para outros além dos que a recebem, quando disse, na última Ceia:
"Este cálice é o meu sangue,
que por vós",
isto é, os que o recebem,
"e por muitos"
outros,
"será derramado
para o perdão dos pecados".
20.
Pode-se, porém, argumentar que sendo o efeito deste Sacramento a obtenção da graça e da glória e a remissão da culpa, pelo menos da venial, se este Sacramento realmente tivesse efeito em outros além dos que o recebem poderia acontecer que alguém alcançasse a glória, a graça e a remissão das culpas sem ação nem paixão própria, por algum outro ter oferecido ou recebido este Sacramento.
Responde-se a isto dizendo que assim como a Paixão de Cristo é de proveito para todos para a remissão da culpa, e a obtenção da graça e da glória, mas não produz efeito senão naqueles que se unem à Paixão de Cristo pela fé e pela caridade, assim também este sacrifício que é a Eucaristia, memorial da Paixão do Senhor, não produz efeito senão naqueles que se unem a este Sacramento pela fé e pela caridade. De onde que no Cânon da Missa não se ora por aqueles que estão fora da Igreja. Aos que nela estão, porém, o Sacrifício Eucarístico é de proveito maior ou menor de acordo com o modo de sua devoção.
21.
Mas, assim como deve-se dizer que o Sacramento da Eucaristia obtém a remissão dos pecados veniais, assim devemos também dizer que os pecados veniais impedem o efeito deste Sacramento. Pois diz São João Damasceno:
"O fogo do seu desejo que há em nós,
acendendo-se mediante
aquele fogo que há no carvão",
isto é, neste Sacramento,
"queimará nossos pecados
e iluminará nossos corações
para que ardamos e nos deifiquemos
pela participação do fogo divino".
Mas o fogo do nosso desejo ou do nosso amor é impedido pelos pecados veniais, que impedem o fervor da caridade. Portanto, os pecados veniais impedem o efeito deste Sacramento.
22.
Os pecados veniais podem ser considerados de dois modos. De um primeiro modo, na medida em que são passados. De um segundo modo, na medida em que estão sendo exercidos em ato.
Segundo o primeiro modo, os pecados veniais de nenhum modo impedem o efeito deste Sacramento. De fato, pode acontecer que alguém, depois de ter cometido muitos pecados veniais, se aproxime devotamente a este Sacramento e alcance plenamente o seu efeito.
Porém, de acordo com o segundo modo, os pecados veniais não impedem totalmente o efeito deste Sacramento, mas apenas em parte. De fato, foi dito que o efeito deste Sacramento não é apenas a obtenção da graça habitual ou da caridade habitual, mas também uma certa refeição atual de espiritual doçura. A qual, na verdade, é impedida se alguém se aproximar a este Sacramento com a mente distraída pelos pecados veniais. O aumento da graça habitual ou da caridade habitual, porém, não é tirado.
23.
Aquele que com o ato do pecado venial se aproxima deste Sacramento come espiritualmente segundo o hábito, mas não segundo o ato. E por isto recebe o efeito deste Sacramento segundo o hábito, não segundo o ato.
24.
Nisto o Sacramento da Eucaristia difere do Batismo, porque o Batismo não se ordena a um efeito atual, isto é, ao fervor da caridade, do modo como ocorre com o Sacramento da Eucaristia. O Batismo é uma regeneração espiritual, pelo qual se adquire uma primeira perfeição, que é um hábito ou forma; mas a Eucaristia é uma refeição espiritual que possui uma deleitação atual.
25.
Quem está em pecado mortal comete sacrilégio ao receber a Eucaristia, porque há duas coisas sacramentais na Eucaristia. A primeira, significada e contida, é o próprio Cristo; a segunda, significada mas não contida, é o Corpo Místico de Cristo, isto é, a sociedade dos santos. Quem quer que, pois, receba este Sacramento, só por isto significa estar unido a Cristo e aos seus membros. Ora, isto se realiza pela fé formada pela caridade, que ninguém pode possuir juntamente com o pecado mortal. E por isto é manifesto que quem quer que receba este Sacramento em pecado mortal comete nele falsidade. Incorre, por este motivo, em sacrilégio, como violador do Sacramento. Peca, por causa disto, mortalmente.
26.
Os pecadores, porém, que tocavam o Corpo de Cristo não sob a espécie sacramental, mas em sua substância própria, não pecavam. Às vezes até alcançavam o perdão dos pecados, como se lê no Evangelho de São Lucas a respeito da mulher pecadora. Isto acontecia porque o Cristo, aparecendo sob a sua espécie própria, não se exibia para ser tocado pelos homens em sinal de união espiritual com Ele, como é o caso quando se oferece para ser recebido neste Sacramento. Foi por isso que os pecadores que o tocavam em sua própria espécie não incorriam no crime de falsidade contra a divindade, como o fazem os pecadores que recebem este Sacramento.
27.
O pecador que recebe o Corpo de Cristo pode ser comparado, quanto à semelhança do crime, a Judas que beijou Cristo, porque ambos ofendem a Cristo sob um sinal de caridade.
Esta semelhança compete a todos os pecadores em geral, porque por todos os pecados mortais age-se contra a caridade de Cristo, de que é sinal este Sacramento, e tanto mais quanto os pecados são mais graves.
Mas sob um aspecto especial os pecados contra o sexto mandamento tornam o homem mais inepto para o recebimento deste Sacramento, na medida em que, a saber, por este pecado o espírito é maximamente submetido à carne, e desta maneira é impedido o fervor do amor que é requerido neste Sacramento.
28.
Que ninguém, pois, se aproxime desta Mesa sem reverente devoção e fervente amor, sem verdadeiro arrependimento, ou sem lembrar-se de sua Redenção.
Maravilhoso é este Sacramento em que uma inefável eficácia inflama os afetos com o fogo da caridade. Que revigorante maná é aqui oferecido para o viajante! Ele restaura o vigor dos fracos, a saúde para os doentes, confere o aumento da virtude, faz a graça superabundar, purga os vícios, refresca a alma, renova a vida dos aflitos, vincula uns aos outros todos os fiéis na união da caridade. Este Sacramento da fé também inspira a esperança e aumenta a caridade. É o pilar central da Igreja, a consolação dos que falecem, e o acabamento do Corpo Místico de Cristo. A fé amadurece, e a devoção e a caridade fraterna são aqui saboreadas. Que estupenda provisão para o caminho é esta, que conduz o viajante até à montanha das virtudes! Este é o pão verdadeiro que é comido e não consumido, que dá força sem perdê-la. É a nascente da vida e a fonte da graça. Perdoa o pecado e enfraquece a concupiscência. Os fiéis encontram aqui a sua refeição, e as almas um alimento que ilumina a inteligência, inflama os afetos, purga os defeitos, eleva os desejos. Ó cálice de doçura para as almas devotas, este sublime Sacramento, ó Senhor Jesus, declara para os que crêem Tuas maravilhosas obras.
Fonte: Cristianismo.org.br
quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
Chesterton - "Que queres como recompensa, Tomás?"
Quando Tomás se encontrava na tranquilidade da igreja de São Domingos, em Nápoles, ouviu-se uma voz que saía de uma imagem de Jesus Cristo crucificado; esta voz disse ao frade ajoelhado que ele tinha escrito bem, e propôs-lhe a escolha de uma recompensa dentre todas as coisas do mundo.
Creio que nem todos têm apreciado o significado desta história particular aplicada a este santo particular. É fato muito conhecido e frequente, se o consideramos simplesmente um oferecimento feito a um devoto da solidão ou da simplicidade, para escolher entre todas as coisas boas da vida. O eremita, verdadeiro ou fingido, o faquir, o fanático ou o cínico, o estilista em cima da sua coluna ou Diógenes na sua cuba podem representar-se tentados pelos poderes da terra, do ar ou dos céus, com a oferta do que há de melhor dentre todas as coisas, e a responder que de nada precisam. No cínico ou estóico grego realmente significava uma simples negação positiva, ou seja, que queriam o nada, que o nada era de fato o que queriam. Por vezes, expressava uma nobre independência e as virtudes gêmeas da Antiguidade: o amor da liberdade e o ódio do luxo. Outras vezes expressava só uma auto-suficiência, que é o verdadeiro oposto da santidade.
Mas as histórias e os santos desta espécie não abarcam o caso de Santo Tomás. Ele não era pessoa que não precisasse de nada, pois se interessava enormemente por tudo. A sua resposta não é tão inevitável ou simples como alguns possam supor. Comparado com muitos outros filósofos, tinha grande avidez na aceitação das coisas, fome e sede das coisas. Tinha como norma filosófica que há realmente coisas e não somente uma coisa, que a pluralidade existe tão realmente quanto a unidade. Não quero dizer coisas de comer, de beber ou de vestir, conquanto ele nunca negasse a estas o seu lugar na nobre hierarquia do ser, mas sim coisas para pensar, e especialmente coisas para provar, experimentar e conhecer.
Ninguém supõe que Tomás de Aquino, quando Deus lhe deu a escolher dentre todos os seus dons, fosse pedir um milhar de libras, a coroa da Sicília ou um vinho raro da Grécia. Mas podia pedir coisas que efetivamente desejava, pois que era homem que podia ter aspirações como, por exemplo, a do manuscrito perdido de São João Crisóstomo. Podia pedir a solução de qualquer dificuldade antiga, ou o segredo de uma ciência nova, ou uma chispa do inconcebível espírito intuitivo dos anjos, ou uma das mil coisas que teria satisfeito realmente o seu vasto apetite viril, tão vasto como a própria vastidão e variedade do universo.
A questão é que, para ele, quando a voz falou entre os braços abertos de Jesus Crucificado, estas braços estavam em verdade amplamente abertos e abrindo gloriosissimamente as portas de todos os mundos. Eram braços que apontavam para o oriente e o ocidente, para os extremos da terra, e para os próprios extremos da existência. Estavam em verdade abertos num gesto de onipotente generosidade: o próprio Criador a oferecer a própria criação, com todo o infinito mistério dos seres diversos e do coro triunfal das criaturas. É este o fundo esplendoroso da multiplicidade do ser, que dá força particular, e até uma espécie de surpresa, à resposta de Santo Tomás, quando levantou a cabeça finalmente e disse, com esta audácia quase blasfema que forma uma só coisa com a humildade da sua religião:
- Quero-Te a Ti.
G.K. Chesterton. Santo Tomás de Aquino. São Paulo: LTr, 2003. p. 117-118.
Fonte: GRAA
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
Oração para pedir a Sabedoria - S.Tomás de Aquino

Concede-me, Deus misericordioso, que deseje com ardor o que Tu aprovas, que o procure com prudência, que o reconheça em verdade, que o cumpra na perfeição, para louvor e glória do Teu nome.
Põe ordem na minha vida, ó meu Deus, e permite-me que conheça o que Tu queres que eu faça, e que o cumpra como é necessário e útil para a minha alma. Que eu chegue a Ti, Senhor, por um caminho seguro e recto; caminho que não se desvie nem na prosperidade nem na adversidade, de tal forma que Te dê graças nas horas prósperas e nas adversas conserve a paciência, não me deixando exaltar pelas primeiras nem abater pelas segundas.
Que nada me alegre ou entristeça, excepto o que me conduza a Ti ou de Ti me separe. Que eu não deseje agradar nem receie desagradar senão a Ti. Tudo o que passa se torne desprezível a meus olhos por Tua causa, Senhor, e tudo o que Te diz respeito me seja caro, mas Tu, meu Deus, mais do que o resto. Que eu nada deseje fora de Ti.
Concede-me, Senhor meu Deus, uma inteligência que Te conheça, uma vontade que Te busque, uma sabedoria que Te encontre, uma vida que Te agrade, uma perseverança que Te espere com confiança e uma confiança que te possua enfim. Concede-me ser atormentado com as Tuas dores pela penitência, recorrer no caminho aos Teus benefícios pela graça, gozar das Tuas alegrias sobretudo na pátria pela glória. Tu que vives e reinas pelos séculos dos séculos.
Fonte: Senza Pagare
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
Santa Catarina de Siena, Carta 23: sobre a parábola do Evangelhode São Mateus
Belíssimo comentário de Santa Catarina sobre a parábola do Evangelho de São Mateus (Mt 25)
Carta 23
à sobrinha Nanna
Saudação e objetivo
Em nome de
Jesus Cristo crucificado e da amável Maria, caríssima filha no doce
Cristo Jesus, eu, Catarina, serva e escrava dos servos de Jesus Cristo,
escrevo-te no seu precioso sangue, desejosa de ver-te verdadeira esposa
de Cristo crucificado, a evitar tudo o que te impeça de ter Jesus como
bondoso e sublime esposo.
Nosso coração é como uma lâmpada
Pois tal
coisa não conseguiras, se não fores como aquelas virgens prudentes (Mt
25), consagradas a Cristo, que possuíam lâmpadas, óleo e luz. Presta
atenção. Para ser esposa de Cristo, e preciso ter uma lâmpada, o óleo e a
luz. Sabes, minha filha, o significado dessas coisas?
A lâmpada
significa o coração, o qual tem a forma de uma lâmpada. Bem sabes que a
lâmpada é larga no alto e estreita embaixo. Também nosso coração é
assim, para indicar que devemos possuí-lo espaçoso, em cima, para os
bons pensamentos, as santas imaginações e a oração contínua, retendo na
memória, continuamente, os favores divinos, sobretudo os benefícios do
sangue com que fomos remidos. Minha filha! O bondoso Jesus não nos
resgatou a preço de ouro, prata, pérolas e demais pedras preciosas, mas
com seu sangue. Tal favor nunca deve ser esquecido, sempre terá de estar
diante do nosso olhar com santa e terna gratidão, pois e incomensurável
o amor de Deus por nós. Deus Pai não recusou entregar seu Filho único a
uma cruel morte na cruz para nos dar a vida da graça.
Eu disse que
a lâmpada é estreita embaixo. Também nosso coração deve sê-lo em
relação às realidades terrenas. O coração não pode desejar tais bens
desordenadamente, nem desejá-los ou procurá-los mais do que for do
agrado divino. Vendo que Deus nos prove com amor, nada nos deixando
faltar, o coração sempre lhe será grato. Agindo assim, nosso coração
realmente será como uma lâmpada.
O óleo é a humildade
Recorda-te
porém, minha filha, de que tudo isso não basta se faltar o óleo na
lâmpada. Com a palavra "óleo" entende-se uma delicada e oculta virtude, a
grande humildade. Pois a esposa de Cristo tem de ser humilde, mansa e
paciente. Tão humilde quanto paciente, tão paciente quanto humilde. Mas
nunca alcançaremos a humildade sem o autoconhecimento.
E necessário
que reconheçamos a nossa miséria e fraqueza, convencidos de que por nós
mesmos somos incapazes de praticar qualquer ato virtuoso e superar
lutas internas e inquietações. Não somos capazes de afastar de nós as
doenças corporais, as dores, as dificuldades íntimas. Se fossemos
capazes, fa-lo-íamos imediatamente. De nós mesmos somos apenas vergonha,
miséria, mau cheiro, fraqueza e pecado. Importa-nos ficar sempre
embaixo, humildes.
Mas não é
bom permanecer apenas em tal conhecimento de si. A pessoa cairia no
desânimo e na perturbação, chegando até ao desespero. A isso procura
levar-nos o demônio. E necessário conhecer também a presença de Deus em
nós, refletindo que Ele nos fez à sua imagem e semelhança, nos recriou
pela graça no sangue do Verbo, seu Filho unigênito, e a bondade divina
age continuamente em nosso favor. Todavia, quem se reduzisse somente a
esse conhecimento de Deus em si, cairia na presunção e na soberba.
Ocorre
mesclar esses dois conhecimentos: não somente pensar em Deus, nem
somente em nós. Assim fazendo, seremos humildes, pacientes, mansos.
Possuiremos o óleo na lâmpada.
A luz é a fé
Devemos ter
também a luz, a luz da fé. Mas os Santos dizem que a fé sem as obras é
morta. Ocorre, pois, agir sempre virtuosamente, abandonar a
infantilidade das vaidades, não viver como jovem fútil, mas como esposa
fiel, consagrada a Cristo crucificado. Desse modo, teremos a lâmpada, o
óleo e a luz.
Deus é ciumento de suas esposas
Diz o
Evangelho (Mt 25,2) que as virgens prudentes eram cinco. Pois bem,
afirmo-te que cada um de nós há de "ser cinco", sob pena de ficar
excluído das núpcias eternas. A palavra "cinco" significa nossa
obrigação de dominar e mortificar os cinco sentidos corporais, jamais
ofendendo a Deus com eles, na procura de afeições ou prazeres
desordenados com todos ou alguns deles. Seremos "cinco" dominando os
cinco sentidos do corpo.
Mas
recorda-te: o esposo Jesus Cristo é ciumento de suas esposas; eu nem
saberia dizer-te quanto! Se ele nota que tu amas outras pessoas mais que
a Ele, ficará indignado contigo. E se não mudares (teu comportamento),
para ti não será aberta a porta do lugar onde o Cordeiro imaculado
celebra as núpcias com todas as suas esposas. Quais adúlteras, seremos
rechaçadas a semelhança daquelas cinco virgens imprudentes. Elas se
gloriavam única e tolamente da sua integridade e virgindade corporal;
por isso perderam a virgindade da alma, pela corrupção dos cinco
sentidos do corpo. Faltava-lhes o óleo da humildade e suas lâmpadas se
apagavam. Então foi-lhes dito: "Ide comprar o óleo" (Mt 25,9). Nessa
passagem o "óleo" indica os atrativos e engodos mundanos, vendidos pelos
aduladores e lisonjeadores do mundo. Como se o esposo dissesse: "Não
quisestes comprar a vida eterna pela virgindade e boas obras;
preferistes os galanteios humanos e por eles vivestes. Ide comprá-los.
Aqui não entrareis".
Catarina aconselha a vida consagrada
Minha filha,
toma cuidado com os elogios dos homens. Nunca procures ser elogiada por
alguma boa ação que praticares. Aporta da eternidade não te seria
aberta. E porque eu considero ótima aquela estrada (da vida consagrada),
disse antes que desejava ver-te fiel esposa de Cristo crucificado. Peço
e suplico que te esforces para o ser.
Conclusão
Nada mais acrescento. Permanecei no santo e doce amor de Deus. Jesus doce, Jesus amor!
__________
As Cartas, Santa Catarina de Sena - Tradução Frei João Alves Basílio, O.P. Editora Paulus
Santa Catarina de Siena, Carta 9: Compaixão e conforto
Para uma senhora anônima
Saudação e objetivo
Em nome de Jesus Cristo crucificado e da amável Maria, caríssima irmã no bondoso Cristo Jesus, eu Catarina, serva e escrava dos servos de Jesus Cristo, vos escrevo no seu precioso sangue, desejosa de vos ver iluminada pela verdade de Deus.
Vós precisais da iluminação Divina
Sem tal iluminação não podeis participar da vida da graça neste mundo, vivereis em contínua amargura e, no fim, tereis a condenação eterna. Sem a luz de Deus, será má a vossa atitude diante do mistério (divino), ao interpretar como um ato de ódio os acontecimentos que Deus vos envia por amor, como algo mortífero, o que Deus vos concede para a vida.
Que verdade devemos conhecer, caríssima irmã? Devemos compreender que Deus nos ama intensamente. Por amor, Ele nos criou à sua imagem e semelhança, para que gozemos de sua eterna visão. E quem nos revela tal verdade, tal amor? O sangue do humilde e puro Cordeiro. Com o pecado de Adão, fôramos privados da visão de Deus e excluídos da vida eterna. O bom e amoroso Verbo de Deus foi mandado (ao mundo) para morrer, dando por nós sua vida e lavando nossas culpas em seu precioso sangue. Enamorado (dos homens), Jesus obedeceu a Deus Pai, correu ao encontro de uma muito vergonhosa morte e nos salvou. Tudo isso não é uma verdade oculta e o sangue (de Jesus) o manifesta. Se Deus não nos tivesse criado para o céu, se Ele não nos amasse também não enviaria (ao mundo) o Redentor.
Tal iluminação nos dá paciência e paz
Quando uma pessoa iluminada (por Deus), logo recebe em sua mente a luz da fé e começa a considerar bom tudo o que Deus lhe manda ou permite durante esta vida. Tudo o que Deus faz é por amor, para que sua verdade se cumpra em nós. A pessoa se torna paciente, nada a pertuba. Alegra-se com o que Deus permite que lhe aconteça. Com paciência verdadeira e santa, suporta enfermidades, perda de bens (materiais), de posições sociais, de parentes, de amigos. E o suporta não apenas com paciência, mas com respeito, como que diante de algo amorosamente enviado por Deus para santificá-la. De fato, ninguém é tão louco ou tolo, a ponto de pertubar-se quando recebe coisas boas para si; só mesmo quem nada compreende sobre a verdade e o próprio bem.
Deus é o médico de nossos males
Querida irmã, desejo que vosso entendimento se abra, extirpando toda raiz de egoísmo e de delicadezas egocêntricas. Se fizerdes assim, entendereis essa verdade, comprendereis que Deus é o supremo médico de nossos males. Com paciência calma, santa e reta aceitareis o medicamento que Deus vos mandou num ato especial de amor pela vossa pessoa. Bondosa irmã! convido-vos a tal atitude. Não deixeis de aproveitar o fruto de vossas fadigas, pela impaciência. Permanecei calma e tranquila, aceitando a vontade divina. Não vos pertubeis, a não ser por causa das ofensas cometidas contra Deus e pela condenação das almas. Desse modo, mostrareis que estais iluminada por Deus e no último dia recebereis a paga de vossos sofrimentos.
Conclusão
Senti compaixão pelo que vos aconteceu. Mas se vos vir conformada com a vontade divina, alegrar-me-ei convosco. Nada mais acrescento. Permanecei no santo e doce amor de Deus. Jesus doce, Jesus amor.
Fonte: Servo dos Servos de Deus
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quarta-feira, 4 de setembro de 2013
Santa Catarina de Siena, carta 13: Como adquirir a paciência

Santa Catarina de Sena
Para Marcos Bindi
Saudação e objetivo
Caríssimo irmão no doce Cristo Jesus, eu Catarina, serva e escrava dos servos de Deus, vos escrevo no seu precioso sangue, desejosa de vos ver alicerçado na verdadeira e santa paciência, pois de outro modo não agradaremos a Deus e perderemos o prêmio de nossas fadigas.
A paciência é possível a todos
De fato, todos precisamos desta bela virtude. Se me disserdes:”Vivo em grandes dificuldades, não tenho forças para ser paciente e nem sei como chega-lo a sê-lo”, eu vos respondo: Quem segue a luz da sua razão (iluminada pela fé) consegue atingir a paciência. Concordo que somos fracos em nossa sensualidade. Sobretudo se a pessoa se apega desordenadamente a si mesmo, às pessoas e aos bens materiais. Quem é assim, sofre muito quando perde algo. Mas para quem usa retamente sua razão Deus lhe fortalece sua vontade e aquela fraqueza é vencida. Deus jamais despreza os esforços feitos para superar queixas exageradas. Ele aceita os bons desejos e concede a paciência na dificuldade.
Como vedes, todos podem chegar a ter paciência se usarem a reta razão e não ficarem unicamente ruminando a própria fraqueza. A nós dotados de razão, seria muito inconveniente fixarmo-nos numa atitude irracional. Não somos como os animais. Ao nos impacientar escandalizamo-nos por acontecimentos permitidos por Deus e o ofendemos.
Quatro coisas necessárias para ser paciente.
Que devemos fazer para sermos pacientes, já que podemos e devemos adquirir esta atitude para não ofender a Deus? Quatro coisas!
Primeiro devemos ter fé
Digo que a primeira coisa é possuir a iluminação da fé. Com a luz desta virtude conseguiremos todas as outras; sem ela andaremos no escuro como um cego, para quem o dia torna-se noite. Para pessoa sem fé, tudo o que Deus faz por amor na claridade da luz, torna-se escuridão, trevas de ódio, pois a pessoa pensa que é por ódio que Deus permite os sofrimentos e as dificuldades. Vede como precisamos da luz da fé!
Segundo, devemos pensar que tudo vem de Deus por amor
A segunda coisa é crer firmemente que Deus existe e que tudo vem Dele menos o pecado. Não vem de Deus a má vontade do pecador. O restante – quer provenha do fogo, da água, da morte ou de qualquer outra coisa – vem de Deus. Diz Jesus no evangelho que sem a providência Divina não cai uma folha das árvores e diz ainda que os cabelos da nossa cabeça estão todos contados, e que nenhum deles cai sem que Deus o saiba (Mt 10,29). Ora, se Jesus fala assim a respeito das coisas materiais com maior razão cuida de nós criaturas racionais. Em tudo o que nos manda o permite, Deus usa da sua providência. Tudo é feito por Deus com mistério e amor. Jamais por ódio!
Terceiro, devemos crer que até na dor Deus nos quer felizes
Terceiro ponto; ocorre entender na fé que Deus é bondade suprema e eterna, que ele somente quer nosso bem. Desejo de Deus é que nos santifiquemos. Tudo o que Ele nos manda ou permite tem esta finalidade. Se duvidarmos disto, erramos. Basta pensar no sangue do humilde e imaculado cordeiro, transpassado pela lança, sofrido, atormentado. Entenderemos que o Pai eterno nos ama. Por causa do pecado, nos tínhamos tornado inimigos de Deus. Amorosamente, o Pai nos deu o Verbo, seu filho Unigênito. Este último entregou por nós sua vida, correndo para uma vergonhosa morte na cruz. Por qual razão? Por amor a nossa salvação. Como vedes o sangue de Jesus dissipa toda a dúvida em nós, de que o Pai queira outra coisa além da nossa santificação. Aliás, como poderia Deus querer algo fora do bem? Impossível! Como poderia o supremo Bem descuidar-se de nós? Ele que nos amou antes de existirmos, Ele que por amor nos criou à sua imagem e semelhança, não poderia deixar de nos amar de prover às necessidades de nossa alma e do nosso corpo.
O criador sempre nos ama como criaturas suas. Somente o pecado Deus detesta em nós. Durante esta vida, na medida das nossas necessidades, Ele permite dificuldades quanto aos bens materiais. Como sábio médico nos ministra o remédio de que precisa nossa enfermidade. Deus age assim para eliminar nossos defeitos aqui na terra de maneira que tenhamos que sofrer menos na vida futura; ou para pôr à prova nossa paciência. Querendo experimentar Jó o senhor retirou-lhe os filhos e filhas; quanto ao corpo, mandou-lhe uma verminose e usou sua mulher para prová-lo no sofrimento, pois ela o atormentava com maldosas ofensas. Após provar a paciência de Jó Deus restitui-lhe o dobro em tudo e Jó não reclamou. Pelo contrário, dizia: “O Senhor me deu, o Senhor me tirou. Bendito seja o seu nome” (Jó 1,21).
Deus permite algumas vezes tais coisas, para que nos conheçamos melhor em nossa instabilidade. E também conheçamos a instabilidade deste mundo. Tudo o que temos – vida, saúde, esposa, filhos, riquezas, posições sociais, prazeres – tudo nos é dado por Deus como empréstimo para nosso uso. Não como propriedade. É assim que devemos tratar tais coisas. Tanto é verdade, que não podemos impedir que tais coisas nos sejam retiradas. Quanto à graça divina é diferente. Nem os demônios nem outras criaturas nem as perseguições conseguem retirar de nós, se não dermos nosso consentimento.
Quando uma pessoa entende qual é a perfeição da graça e qual é a imperfeição do mundo e do nosso corpo, ela deixa de valorizar os prazeres mundanos e a própria fragilidade, pois tais realidades muitas vezes ocasionam a perda da graça por causa do amor sensível. E em sentido oposto começa a valorizar as virtudes que são os meios para conservarmos a graça. Pois bem, tudo isso nos vem de Deus por amor, afim de que viril e santamente preocupados nos afastemos do mundo e busquemos os bens eternos; deixemos de lado a terra com suas mazelas e procuremos ganhar o céu.
Sim não fomos criados para nos alimentar de terra. Somos peregrinos por aqui passam praticando a virtude em busca do Fim. Durante a caminhada não nos devemos deter por causa de algum prazer oferecido pelo mundo. Virilmente temos de nos apressar olhando as coisas da vida não com desordenada alegria ou com impaciência, mas na paciência e no Santo Temor.
O sofrimento que padeceis é de grande utilidade para vós. Deus vos oferece o modo de romper muitas amarras e de aperfeiçoar vossa consciência. Deus vos libertou e vos indicou a estrada, se é que a desejais segui-la. A eles (ou:elas) Deus deu a vida eterna e vos convida a alcançá-la também por meio do sofrimento, afim de que conheçais a bondade divina e vossos defeitos, durante o restante da vossa vida.
Quarto, devemos meditar sobre os próprios pecados
A quarta coisa necessária para se tornar paciente é esta: Refletir sobre os próprios pecados e defeitos, sobre quanto já ofendemos a Deus. Ele é o Bem infinito. Destes pecados e defeitos, grandes ou pequenos que sejam, resultaria para nós um castigo infinito. Infelizes que somos! Ofendemos nosso Criador e merecemos mil infernos. E quem é este Criador ofendido! É a bondade sem limites. E nós quê somos? Nada! O ser que temos e qualquer outro beneficio a ele acrescentado, tudo veio de Deus. Por nós mesmos, nada somos. Em tal situação e merecendo um castigo eterno, Deus nos purifica aqui na terra. Mas ainda se aceitamos o sofrimento purificador alcançamos méritos. Isso não se cede na purificação da vida futura; no purgatório a alma se purifica mas nada merece. Como nos convém, pois tolerar com paciência estas pequenas dores agora.
Pequenas dores repito, por causa da brevidade desta existência. Aqui na terra a dimensão da dor tem a dimensão do tempo. E qual é a extensão do tempo? Assemelha-se à ponta de uma agulha. Assim sendo a dor é pequena. O sofrimento que passou ficou para trás, não o sinto mais; o sofrimento futuro ainda não padeço, e nem tenho certeza de continuar vivo. Posso morrer e não sei quando. Somente o presente existe nada mais. Soframos, então, com alegria. Toda ação boa é remunerada. Toda culpa é punida. São Paulo afirma: “Os sofrimentos desta vida não se comparam com a glória que receberá a alma paciente.” (cf. Rm 8,18).
Últimos conselhos. Conclusão
Eis a maneira como podereis adquirir a virtude da perfeita paciência. Tal virtude adquirida com amor na fé vos fará tirar proveito de todo sofrimento. Em caso contrário, perdereis os bens terrenos e os celestes. Não existe outra solução. Por tal motivo disse eu acima que desejava vos ver alicerçado na perfeita paciência. Rogo-vos agir assim. Lembrai-vos do sangue de Jesus Cristo crucificado. Toda tristeza se mudará em alegria, todo peso se tornará leve. Não fiqueis a escolher tempos e lugares; contentai-vos com aquilo que Deus vos dá. Senti compaixão pelo que aconteceu. Ao que parece foi muito doloroso mas tudo aconteceu por providência divina e para vossa salvação. Peço-vos sejais forte e não relaxeis na suave disciplina da religião.
Nada mais acrescento, a não ser que aproveiteis o tempo em quanto o temos. Permaneceis no santo e doce amor de Deus. Jesus doce, Jesus amor.
Fonte: Servo dos Servos de Deus
segunda-feira, 1 de abril de 2013
Jesus Cristo é uma Ponte - Santa Catarina de Siena
Deus Pai a Sta Catarina de Sena
Para ajudar-vos a deixar o mundo e chegar à vida eterna, foi preciso que
eu reconstruísse a estrada interrompida. Com material puramente humano,
era impossível fazer uma ponte de envergadura tal, que atravessasse o
rio do pecado e atingisse a vida eterna. Vossa natureza humana era
incapaz de satisfazer pela culpa e de cancelar a mancha do pecado de
Adão, mancha que estragara a humanidade e lhe dera o mau cheiro da
culpa. Ocorreu que o humano se unisse à Deidade eterna; somente assim
foi possível dar satisfação por todos os homens. A natureza humana iria
padecer e a divina aceitaria o sacrifício em meu Filho, sacrifício
oferecido na intenção de retirar-vos da morte e restituir-vos a vida.
Desse modo, o Altíssimo humilhou-se ao plano do humano e das duas
naturezas construiu a ponte, desobstruindo a estrada. Para quê? A fim de
que vós pudésseis ser felizes com os anjos. Todavia, de nada adiantaria
terdes meu Filho como ponte, se não a atravessásseis.
Descrição da Ponte
(...) Quero descrever-te a ponte. Já disse que ela se estende do céu à
terra, graças à união (hipostática) que realizei com o homem formado do
limo da terra. Essa ponte é meu Filho e possui três degraus; dois deles
foram construídos no madeiro da cruz e o terceiro, quando ele na
amargura bebeu fel e vinagre. Em tais degraus reconhecerás três estados
da alma, como abaixo explicarei. O primeiro degrau é formado pelos pés;
significam o amor, pois como os pés transportam o corpo, assim o (duplo)
amor faz caminhar a alma. Os pés cravados na cruz servem-te de degrau
para atingir a chaga do peito, que te revela o segredo do coração. Após
subir até aos pés pelo amor, o homem fixa o pensamento no coração aberto
de Cristo e saboreia sua caridade inefável e consumada. Disse caridade
"consumada", porque Cristo vos ama sem interesse pessoal; em nada sois
de utilidade para ele, que forma uma só coisa comigo. Vendo-se amada, a
pessoa se enche de caridade. Enfim, após atingir o segundo degrau,
chega-se ao terceiro, que é a boca de Cristo. Nela o homem encontra a
paz, depois (de vencer) a grande guerra contra as próprias culpas. No
primeiro degrau o cristão se afasta da afeição terrena, despoja-se dos
vícios; no segundo, adquire as virtudes; no terceiro, goza a paz. São
três, portanto, os degraus da ponte: passa-se do primeiro ao segundo,
para atingir o último. A ponte é alta; quando se passa por ela, a água
do pecado não atinge a alma. Em Jesus não houve pecado.
Cristo atrai a si todas as coisas
Essa ponte acha-se no alto, mas não separada dos homens. Sabes quando se
ergueu? No momento em que Cristo foi elevado no lenho da cruz. Então, a
natureza divina continuava unida à vossa pequenez; meu Filho
amalgamara-se com a natureza humana. Antes de ser erguida, ninguém
passava por tal ponte. Jesus mesmo disse: "Quando eu for elevado,
atrairei a mim todas as coisas" (Jo 12,32). Julguei que não havia outra
maneira de vos atrair; enviei, pois, meu Filho para ser cravado na cruz,
bigorna em que seria fabricado o filho do homem, livrando-o da morte e
restituindo-o à vida. Ao manifestar sua imensa caridade, meu Filho
atraiu a si todas as coisas. É sempre o amor que atrai o coração humano.
Dando sua vida por vós, ele revelou o amor maior (Jo 15,13). Quando não
existe no homem a oposição maldosa, a força do amor atrai sempre.
Portanto, segundo quanto afirmou, meu Filho atrairia a si todas as
coisas ao ser elevado na cruz. Essa verdade pode ser entendida de duas
maneiras. Primeiro, no sentido explicado. Porque o coração humano, ao
ser atraído pelo amor, leva consigo todas as faculdades da alma: a
memória, a inteligência, a vontade. Quando são harmonizadas e reunidas
tais faculdades, todas as ações humanas - corporais ou espirituais -
ficam-me agradáveis, pois unem-se a mim na caridade. Foi exatamente para
isso que meu Filho se elevou na cruz, trilhando os caminhos do amor
cruciante. Ao dizer, "quando eu for elevado, atrairei a mim todas as
coisas", ele queria significar: quando o coração humano e as faculdades
forem atraídas, todas as demais faculdades e suas ações também o serão.
Em segundo lugar, há um outro significado: que todos os seres foram
criados para o homem. Os demais seres devem servir ao homem, não ao
contrário. Só a mim ele há de servir, com todo o afeto do seu coração.
Compreendes, então? Se a humanidade for atraída, todos os demais seres a
seguirão, pois para o homem foram criados.
Tal é a finalidade por que a ponte, Cristo, foi colocada no alto, e por
que possui três degraus: para ser mais facilmente percorrida.
O material da ponte
O pavimento desta ponte é feito de pedras, a fim de que a chuva (da
justiça divina) não retenha o caminhante. "Pedras" são as virtudes
verdadeiras e reais. Antes da paixão de meu Filho, elas ainda não tinham
sido assentadas, motivo pelo qual os antigos não atingiam o céu, mesmo
que vivessem piedosamente. O Paraíso ainda não fora aberto com a chave
do Sangue, e a chuva da justiça divina impedia a caminhada. Quando
aquelas pedras foram assentadas no corpo do meu Filho - por mim
comparado a uma ponte - foram embebidas, amalgamadas e assentadas com
sangue. Em outras palavras: o sangue (humano) foi misturado com a cal da
divindade e fortemente queimado no calor da caridade. Tais pedras foram
postas em Cristo por mim, mas é nele que toda virtude é comprovada e
vivificada. Fora de Jesus ninguém possui a vida da graça. Ocorre estar
nele, trilhar suas estradas, viver sua mensagem. Somente ele faz crescer
as virtudes, somente ele as constrói como pedras vivas, cimentando-as
com o próprio sangue. Nele, todos os fiéis caminham na liberdade, sem o
medo da justiça divina, pois vão cobertos pela misericórdia, descida do
céu no dia da encarnação. Foi a chave do sangue de Cristo que abriu o
céu.
Portanto, esta ponte é ladrilhada, seu telhado é a misericórdia. Possui
também uma despensa, constituída pela hierarquia da santa Igreja, que
conserva e distribui o Pão da vida e o Sangue. Assim, minhas criaturas,
viandantes e peregrinas, não fraquejam de cansaço na viagem. Para isto
ordenei que vos fosse dado o Corpo e o Sangue do meu Filho, Homem-Deus.
Os dois caminhos
Para atravessar a ponte, chega-se a uma porta, que é o próprio Cristo;
por ela todos os homens devem passar. Disse Jesus: "Eu sou o caminho, a
verdade, e a vida; quem vai por mim não caminha nas trevas, mas na luz"
(Jo 8,12); e em outra passagem afirma que ninguém oide chegar a mim a
não ser por meio dele (Jo 14,6). Se ainda bem recordas, foi o que te
disse uma vez e fiz ver. Se Jesus diz que ele é o caminho, profere uma
verdade. Eu o mostrei a ti na figura de uma ponte; sua afirmação é
verdadeira; ele está unido a mim, suma Verdade. Quem o segue caminha na
Verdade. Ele é também a Vida; seus seguidores possuem a vida da graça,
não padecem fome; ele é o alimento. Nem vivem na escuridão; Jesus é a
Luz. Em Cristo não existe mentira. Pela verdade ele confundiu e destruiu
a mentira do demônio, enganador de Eva. Aquela mentira destruíra a
estrada (do céu); Jesus a reconstruiu no seu sangue. Quem vai por tal
caminho é filho da Verdade, atravessa a ponte e chega até mim, Verdade
eterna, oceano de paz.
Quem não trilha esse caminho, vai pela estrada inferior, no rio do
pecado. É uma estrada sem pedras, feita somente de água, inconsistente;
por sobre ela ninguém vai sem se afundar. É o caminho dos prazeres e das
altas posições, daqueles cujo amor não repousa em mim e nas virtudes,
mas no apego desordenado ao que é humano e passageiro. Tais pessoas são
como a água, sempre a escorrer. À semelhança daquelas realidades, vão
passando. Eles acham que são as coisas criadas, objeto de seu amor, que
se vão; na realidade, também eles caminham continuamente em direção à
morte. Bem que gostariam de deter-se, reter na vida, segurar as coisas
que amam. Seriam felizes se as coisas não passassem. Perdem-nas todavia,
seja por causa da morte, seja pelos acontecimentos com que faço
escapar-lhes das mãos os bens deste mundo. Tais pessoas vão pela
mentira, por suas estradas; são filhos do demônio, pai da mentira.
Entram por essa porta e vão para a condenação eterna.
Mostrei-te, assim, o meu caminho, o da Verdade, e o caminho do demônio,
que é o da mentira. São duas estradas. Ambas exigem fadiga. Vê como é
enorme a maldade, a cegueira humana. Sendo-lhe preparada a ponte, o
homem prefere ir pela correnteza.
A estrada da ponte é muito agradável aos caminhantes. Toda amargura se
torna doce; todo peso, leve. Embora na obscuridade dos sentidos, vão na
luz; embora mortais, já possuem a vida sem fim. Pelo amor e pela fé,
saboreiam meu Filho, Verdade eterna, que prometeu o prêmio para os que
por mim se afadigam. Sou grato, reconhecido e justo; pagarei com
eqüidade, segundo o merecimento. Toda ação boa será remunerada, assim
como toda culpa será punida. Tua linguagem é insuficiente a descrever o
gozo concedido a quem segue este caminho; nem teus ouvidos seriam aptos a
escutar e os olhos a ver. Experimentam-se neste caminho coisas
reservadas para a outra vida!
Como é louco aquele que despreza tão grandes bens, indo pelo rio,
embaixo; prefere alimentar-se, já nesta vida, com aperitivos do inferno.
Segue por entre muitos sofrimentos, sem satisfações, na carência de
todo bem. Tudo isso, porque se privou de mim, sumo e eterno Bem, pelo
pecado. Tens razão em lamentar-te! Quero que outros servidores sintam
contínua tristeza porque sou ofendido; que sintam compaixão diante da
maldade e ruína dos pecadores.
Tens desse modo a descrição da ponte. Disse todas essas coisas, para
revelar-te que meu Filho unigênito é uma ponte, conforme afirmara antes.
Agora sabes como de fato ele une as alturas com a pequenez!
Diálogos de Sta Catarina de Sena, Doutora da Igreja
Fonte: GRAA
Fonte: GRAA
sábado, 10 de novembro de 2012
Carta de Santa Catarina de Siena a um judeu (Carta 15)
(carta 15) CONVITE À CONVERSÃO
Saudação e objetivo
Louvado seja Jesus Cristo crucificado, filho da gloriosa virgem Maria. A ti, caríssimo irmão, (1) resgatado como eu pelo precioso sangue do Filho de Deus, eu Catarina indigna escrevo, obrigada pelo Cristo crucificado e pela sua amável mãe Maria, a fim de pedir a recordar com insistência que abandoneis a infidelidade, vos convertais e recebais a graça do santo batismo, pois sem ele não podeis receber a graça de Deus e o dom divino.
Apelo à conversão
Quem não é batizado não participa dos benefícios da santa Igreja, mas como um membro apodrecido e separado da comunidade dos fiéis cristãos, passa da morte temporal para a morte eterna, e com razão recebe o castigo e as trevas, porque não quis lavar-se na água do santo batismo e desprezou o sangue do Filho de Deus, que o derramou com tanto amor.
Caríssimo irmão em Jesus Cristo!Abre o olhar da inteligência e contempla a infinita Bondade, que age no teu coração e mediante os seus servidores (2) te pede e convida, que deseja fazer a paz contigo; sem olhar a longa guerra que lhe fizeste por tua infidelidade.
Nosso Deus é tão bondoso e benigno, que depois que nos veio a lei do amor e que o Filho de Deus nasceu da virgem Maria, derramou seu sangue no madeiro da cruz e podemos acolher em abundância a misericórdia divina. A lei de Moisés baseava-se na justiça, na punição. A nova lei, dada por Cristo crucificado, fundamenta-se no amor e na misericórdia. Deus é bondoso e benigno: acolhe quem a Ele retorna com humildade, fidelidade e fé na vida eterna. Parece nem se recordar das ofensas que lhe fazemos, não quer condenar-nos eternamente. Deus só deseja ser misericordioso.
Portanto, meu irmão, levante-te desejoso de unir-te a Cristo. não durmas na cegueira. Deus não quer, nem eu, que a morte te encontre na cegueira. A minha quer ver-te batizado, como um servo sedento da água viva (sl 41,2). Não resistas ao Espírito Santo, que te chama; não desprezes o amor de Maria por ti; não recuses as orações que são feitas a teu favor. Em tudo isso seria grave o julgamento divino.
Exortação. Conclusão
Permanece na santo e doce amor de Deus. Pessoalmente peço à Verdade suprema que nos ilumine, nos encha de sua santissima graça e realize o meu desejo em ti, Consílio. É o que Jesus Cristo mandou dizer-te Consílio. Louvado seja Jesus Crucificado e sua amável mãe, a gloriosa virgem Maria. Jesus doce, Jesus amor
(1) Consílio era um judeu nascido em Pádua, que se estabelecera em Sena como banqueiro de empréstimos, junto com seu irmão Dattaro. Eram riquíssimos. Obtida da República a licença para tal trabalho, não incorriam em penas eclesiásticas. Catarina convida Consílio a se batizar. Talvez ela pensasse também no irmão, pois a certa altura fala em vós.
(2) Com a palavra sevidores o texto quer indicar os discípulos de Catarina, muito numerosos em Sena, os quais certamente falaram a ela sobre o banqueiro
Fonte: Cartas Completas
Servos dos Servos de Deus
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