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terça-feira, 28 de março de 2017

A oração de um carmelita para a Quaresma


Precisamos “mergulhar”, “descer sempre mais”, “fazer uma viagem” ao interior de nossa alma, porque, se estamos em estado de graça, é aí que mora o Senhor.

É uma especialidade da Ordem do Carmo fazer-nos entrar em contato com Deus no mais íntimo de nosso ser — experiência que é, na verdade, fundamental para a fé cristã, e que foi condensada por Santo Agostinho na famosa frase de suas Confissões: "Eis que estavas dentro, e eu fora" (X, 27, 38). Santa Teresa d'Ávila comparava a alma do justo, por exemplo, a um jardim onde Deus encontra as suas delícias; Santa Teresinha do Menino Jesus, por sua vez, cantava a alegria de ter encontrado "o Céu na terra" — nada menos que Deus morando em seu coração; e Santa Elisabete da Trindadenão tomou este nome senão para honrar a inabitação trinitária em si.

A Quaresma, tempo de profunda interiorização, nada mais é que um resgate sempre necessário, portanto, do que precisamos fazer por toda a nossa vida: "mergulhar", "descer sempre mais", "fazer uma viagem" para dentro de nossa alma, até encontrarmos Aquele que é mais íntimo que o que há de mais íntimo de nós, para usar outra expressão agostiniana (cf. Confissões, III, 6, 11).

Um outro carmelita que compreendeu, viveu e transmitiu essa verdade foi o Beato Francisco Palau, sacerdote espanhol do século XIX e beatificado em 1988. São de sua pena, a propósito, as expressões "mergulhar" e "descer sempre mais", colhidas da seguinte oração para a Quaresma, a qual compartilhamos com todos os nossos visitantes:
Senhor, 
nesta Quaresma, 
tempo de mergulhar no meu interior, 
de revisão e de conversão, 
ensina-me a descer sempre mais 
até onde Tu te encontras: o meu coração. 

Como "descer" até aí? 
Pelo silêncio, encontrando tempo para rezar, 
pela leitura da Tua Palavra que tanto me quer dizer, 
pelos Sacramentos, 
especialmente a Confissão e a Santa Missa. 

Também pela aceitação das contrariedades, 
o peso das circunstâncias e da monotonia da vida… 
com os olhos postos em Ti. 

Senhor, Tu que estás no meu íntimo, 
ajuda-me nesta Quaresma, 
a fazer uma viagem ao meu interior, 
para aí me encontrar conTigo!

Que possamos, pela intercessão do bem-aventurado Francisco Palau, transformar essa brevíssima prece em um verdadeiro "projeto de vida": procurando a Deus, de fato, pelo silêncio, pela leitura da Palavra de Deus, pelos Sacramentos e pela aceitação das contrariedades, seguramente estaremos no caminho da perfeição.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Fonte: padrepauloricardo.org

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Comentário do dia (09/02) por Guiges, o Cartuxo


Comentário do dia
Guigues o Cartuxo (1083-1136), prior da Grande Cartuxa
Carta sobre a vida contemplativa, 6-7

«Ela veio prostrar-se a seus pés»

«Senhor, Tu que só os corações puros podem ver (Mt 5,8), eu procuro, na leitura e na meditação, encontrar a verdadeira pureza do coração e a forma de a obter para poder, graças a ela, conhecer-Te, por pouco que seja. Procurei o teu rosto, Senhor, procurei o teu rosto (Sl 26,8). Meditei muito dentro do meu coração, e um fogo se iluminou na minha meditação: o desejo de Te conhecer melhor. Quando partes para mim o pão da Sagrada Escritura, eu reconheço-Te nessa fração de pão (Lc 24,30-35). E quanto melhor Te conheço, mais desejo conhecer-Te, não só no sentido do texto, mas no sabor da experiência. 

Não o peço, Senhor, pelos meus méritos, mas por causa da tua misericórdia. Devo confessar que sou, realmente, pecador e indigno, mas "também é verdade que os cachorrinhos comem debaixo da mesa as migalhas das crianças". Dá-me portanto, Senhor, em fiança pela herança futura, ao menos uma gota da chuva celeste para refrescar a minha sede, pois estou sequioso de amor. [...]» 

É através deste tipo de discursos que a alma chama pelo seu Esposo. E o Senhor, que olha pelos justos e que não ouve apenas as suas preces mas está presente nessa oração, não espera pelo final. Ele interrompe o discurso a meio, aparece de repente, vem rapidamente ao encontro da alma que O deseja, fluindo no doce orvalho do céu como o perfume mais precioso. Ele recria a alma fatigada, alimenta a que tem fome, fortifica a sua fragilidade, reaviva-a mortificando-a através de um admirável esquecimento de si própria, torna-a sóbria ao inebriá-la.

Créditos: Evangelho Quotidiano

domingo, 31 de maio de 2015

São Luís Maria de Montfort ensina como rezar o Santo Rosário


O Santo Rosário, na forma como é rezado presentemente, foi inspirado à Igreja, e dado pela Santíssima Virgem a São Domingos, no ano de 1214, para converter os albigenses e os pecadores, conforme relatou o Beato Alano de la Roche.

São Domingos, inspirado pelo Espírito Santo, instruído pela Santíssima Virgem e por sua própria experiência, pregou o Rosário todo o resto de sua vida.

Desde o estabelecimento do Rosário por São Domingos, até 1460, quando o Beato Alano o restabeleceu por ordem do Céu, ele foi chamado de Saltério de Jesus e da Virgem, porque contém 150 Ave-Marias — o mesmo número dos Salmos de Davi.

AS ORAÇÕES VOCAIS DO ROSÁRIO

1. Credo, ou Símbolo dos Apóstolos, é rezado na Cruz do Rosário.
Contém ele um resumo das verdades cristãs e é uma oração de grande mérito, porque a fé é o fundamento e o princípio de todas as virtudes cristãs e de todas as orações que agradam a Deus. “Creio em Deus” contém os atos das três virtudes teologais, a fé, a esperança e a caridade, e têm uma eficácia maravilhosa para santificar a alma e aterrorizar o demônio.

2. O Pai Nosso, ou Oração Dominical (de Dominus, Senhor), tira sua primeira excelência de seu Autor, Jesus Cristo, o próprio Rei dos Anjos e dos homens.

“Era necessário, diz São Cipriano, que Aquele que nos veio dar a vida da graça como Salvador, nos ensinasse como Mestre a maneira de rezar”.

O Pai-Nosso contém todos os deveres que nós temos em relação a Deus; contém ademais os atos de todas as virtudes e os pedidos para todas as nossas necessidades espirituais e corporais.

Ele é o resumo do Evangelho, como diz Tertuliano. Ele ultrapassa, diz Tomás de Kempis, todos os desejos dos Santos; compreendia todas as doces sentenças dos salmos e dos cânticos; pede tudo o que nos é necessário; louva a Deus de modo excelente; e eleva a alma da terra ao céu, unindo-a estreitamente a Deus.

Devemos recitar a Oração Dominial na certeza de que o Pai Eterno a atenderá, pois é a oração de seu Filho, que Ele sempre atende.

Santo Agostinho assegura que o Pai-Nosso bem rezado apaga os pecados veniais.

Dizendo: “Pai nosso, que estais no Céu”, formulamos atos de fé, de adoração e de humildade. Desejando que seu Nome seja santificado e glorificado, manifestamos zelo por sua glória.
Pedindo-Lhe que venha a nós o seu Reino, fazemos um ato de esperança. Desejando que sua vontade seja feita na terra como no céu, fazemos um ato de perfeita obediência.
Pedindo-Lhe o pão nosso de cada dia, praticamos a pobreza de espírito e o desapego dos bens terrenos.
Pedindo que nos perdoe as nossas ofensas, realizamos um ato de arrependimento; e perdoando aqueles que nos ofendem, exercitamos a misericórdia na sua mais alta perfeição.
Pedindo seu socorro para não cairmos em tentação, fazemos atos de humildade, de prudência e de fortaleza. Esperando que Ele nos livre do mal, praticamos a paciência.
Enfim, pedindo todas essas coisas, não somente para nós, mas também para o nosso próximo e para todos os membros da Igreja, cumprimos o dever de verdadeiros filhos de Deus, pois O imitamos na sua caridade, que abarca todos os homens, e cumprimos o mandamento do amor ao próximo.

c) A Ave Maria. A Ave Maria, também conhecida como “Saudação Angélica”, é tão sublime e elevada, que o Beato Alano de la Roche julgou que nenhuma criatura pode compreendê-la e que somente Jesus Cristo, nascido da Virgem Maria, pode explicá-la.

Ela tira principalmente sua excelência da Santíssima Virgem à qual foi dirigida; da finalidade da Encarnação do Verbo para a qual foi trazida do céu; e do Arcanjo São Gabriel, que a pronunciou pela primeira vez. A Saudação Angélica resume toda a teologia cristã sobre Maria Santíssima.

A Santíssima Trindade revelou a primeira parte da Ave Maria; Santa Isabel, iluminada pelo Espírito Santo, acrescentou a segunda; e a Igreja, no I Concílio de Éfeso (ano 430), pôs a conclusão, após ter definido que Nossa Senhora é verdadeiramente Mãe de Deus. Esse Concílio ordenou que Ela fosse invocada com as seguintes palavras: “Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte”.

Deus Pai é glorificado quando honramos a mais perfeita de suas criaturas. Deus Filho é glorificado porque louvamos sua puríssima Mãe. O Espírito Santo é glorificado porque admiramos as graças com as quais Ele cumulou sua Esposa.

Assim como a Virgem, em seu belo cântico Magnificat, remeteu a Deus os louvores e as bençãos que Lhe dirigiu Santa Isabel, assim também Ela remete prontamente a Deus os elogios e as bençãos que Lhe damos pela Saudação Angélica.

No momento em que Santa Isabel ouviu a saudação que lhe deu a Mãe de Deus, ela foi comulada pelo Espírito Santo, e a criança que levava no seio estremeceu de alegria.

Maria é a nossa Mãe e nossa amiga. Ela é a Imperatriz do universo, e nos ama mais do que todas as mães e rainhas juntas amaram um homem mortal. Pois, diz Santo Agostinho, a caridade da Virgem Maria excede todo o amor natural de todos os homens e de todos os Anjos.

Tenhamos sempre a Ave Maria no coração e nos lábios para honrar a Santíssima Trindade, para honrar a Jesus Cristo, nosso Salvador, e sua santa Mãe.

Ademais, no fim de cada dezena acrescentemos:
“Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Assim como era no princípio, agora e sempre, por todos os séculos dos séculos. Amém”.

A ORAÇÃO MENTAL (meditação) — OS QUINZE MISTÉRIOS DO ROSÁRIO
Mistério é uma coisa sagrada e difícil de compreender. As obras de Jesus Cristo são todas sagradas e divinas, porque Ele é Deus e Homem ao mesmo tempo. As da Santíssima Virgem são santíssimas, porque Ela é a mais perfeita de todas as puras criaturas.
Chamam-se mistérios as obras de Jesus Cristo e de sua santa Mãe, porque são repletas de maravilhas, perfeições e instruções profundas e sublimes, que o Espírito Santo revela aos humildes e às almas simples que Os honram.

São Domingos dividiu a vida de Jesus Cristo e da Santíssima Virgem em quinze mistérios que nos representam suas virtudes e suas principais ações, como quinze quadros, cujas cenas devem nos servir de regra e de exemplo para conduzirmos nossa vida.

Nossa Senhora ensinou a São Domingos esse excelente método de oração e lhe ordenou que o pregasse, a fim de reacender a piedade dos cristãos e de fazer reviver em seus corações o amor de Jesus Cristo.

O Rosário sem a meditação dos mistérios sagrados de nossa salvação não seria senão um corpo sem alma, uma excelente matéria sem a forma que é a meditação.

A primeira parte do Rosário contém cinco mistérios, o primeiro dos quais é a anunciação do Arcanjo São Gabriel à Santíssima Virgem; o segundo, a visitação da Virgem a Santa Isabel; o terceiro, o nascimento de Jesus Cristo; o quarto, a apresentação do Menino Jesus no Templo e a purificação da Virgem; o quinto, o encontro de Jesus no
Templo, entre os doutores. Chamam-se esses mistérios gozosos por causa da alegria que deram a todo o universo.

A segunda parte do Rosário se compõe também de cinco mistérios, que se chamam dolorosos, porque nos representam Jesus Cristo acabrunhado de tristeza, coberto de chagas, sobrecarregado de opróbrios, de dores e de tormentos.
O primeiro desses mistérios é a oração de Jesus e sua agonia no Horto das Oliveiras; o segundo, sua flagelação; o terceiro, sua coroação de espinhos; o quarto, o carregamento da Cruz; e o quinto, sua crucifixão e morte sobre o Calvário.

A terceira parte do Rosário contém cinco outros mistérios, que se chamam gloriosos, porque neles contemplamos a Jesus e Maria no triunfo e na glória.
O primeiro é a ressurreição de Jesus Cristo; o segundo, sua ascensão ao céu; o terceiro, a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos; o quarto, a assunção da gloriosa Virgem; e o quinto, sua coroação.

Essas são as quinze flores perfumadas do Rosário místico, sobre as quais as almas piedosas pousam como sábias abelhas, para colher o néctar admirável e dele compor o mel de uma sólida devoção.

Nossa vida é uma guerra e uma tentação contínuas, na qual não temos que combater inimigos de carne e de sangue, mas as próprias potências do inferno.

Armai-vos, pois, com a arma de Deus que é o santo Rosário. Esmagareis assim a cabeça do demônio e permanecereis inabaláveis diante de todas as suas tentações.

Santo Agostinho assegura que não há exercício mais frutuoso e mais útil para a salvação do que pensar frequentemente nos sofrimentos de Nosso Senhor.

Santo Alberto Magno, mestre de Santo Tomás de Aquino, soube por revelação que a simples lembrança ou meditação da paixão de Jesus Cristo é mais meritória ao cristão do que jejuar a pão e água todas as sextas-feiras de um ano inteiro, ou recitar todos os dias os cento e cinquenta Salmos.

Ah! qual não será, em consequência, o mérito do Rosário que rememora toda a vida e paixão de Nosso Senhor?

COMO SE DEVE REZAR O ROSÁRIO
Não é o prolongamento de uma oração que agrada a Deus e lhe conquista o coração, mas o seu fervor. Uma só Ave-Maria bem rezada tem mais mérito do que cento e cinquenta mal rezadas.

Em primeiro lugar, é preciso que a pessoa que reza o Rosário esteja em estado de graça, ou pelo menos na resolução de sair do seu pecado, porque a Teologia nos ensina que as boas obras e as orações feitas em pecado mortal são obras mortas, que não agradam a Deus nem podem merecer a vida eterna.

Deus ouve antes à voz do coração que à da boca. Rezar a Deus com distrações voluntárias seria uma grande falta de respeito, que tornaria os nossos Rosários infrutíferos.

Para isso, colocai-vos na presença de Deus, pensando que Ele e sua santa Mãe têm os olhos postos sobre vós.

Pensai que vosso Anjo da Guarda está à vossa direita, colhendo as Ave-Marias que rezais, quando elas são bem rezadas, como se fossem rosas, para com elas tecer uma coroa para Jesus e Maria; e que, pelo contrário, o demônio está à vossa esquerda e ronda em torno de vós para devorar vossas Ave-Marias e as anotar no seu livro da morte, se elas são rezadas sem atenção, devoção e modéstia.

Sobretudo, não deixeis de fazer os oferecimentos das dezenas em honra dos mistérios, e de vos representar na imaginação a Nosso Senhor e à sua Santíssima Mãe no mistério que estais honrando.

Se for preciso combater, durante o Rosário, contra as distrações, combatei valentemente de armas na mão, ou seja, prosseguindo o Rosário, ainda que sem nenhum gosto nem consolação sensível.

É um combate terrível, mas é salutar à alma fiel.

“Quem é fiel nas pequenas coisas também o será nas grandes” (Lc 16,10)

Coragem pois, bom e fiel servidor de Jesus Cristo e da Santíssima Virgem, que tomastes a resolução de rezar o Rosário todos os dias! Que a multidão das moscas (chamo assim as distrações que vos fazem guerra enquanto rezais) não vos faça deixar covardemente a companhia de Jesus e de Maria, na qual estais quando dizeis vosso Rosário. A partir daqui indicarei os meios para diminuir as distrações.

Invocai inicialmente o Espírito Santo para bem rezar o vosso Rosário, e colocai-vos em seguida um momento na presença de Deus.

Antes de começar cada dezena, parai um pouco para considerar o mistério que estais celebrando, e pedi sempre, pela intercessão de María Santíssima, uma das virtudes que mais ressaltam naquele mistério ou da qual tendes mais necessidade.

Tende, pois, sempre em vista, ao rezar o Rosário, alguma graça a pedir, alguma virtude a a imitar ou algum pecado a evitar.

É importante rezar o Rosário com atenção e devoção.

Deve-se rezar o Rosário com modéstia, tanto quanto possível de joelhos e com as mãos postas, tendo o Rosário nas mãos.

Pode-se rezá-lo na cama, se está doente; se em viagem, pode-se rezá-lo caminhando.

Pode-se até mesmo rezar o Rosário trabalhando, quando não se pode deixar o trabalho por causa dos deveres profissionais; pois o trabalho manual nem sempre é contrário à oração vocal.

Se não tendes tempo para rezar o terço do Rosário de uma só vez, rezai uma dezena aqui, uma dezena acolá, de tal forma que, apesar das vossas ocupações e negócios, tenhais o Rosário inteiro rezado antes de vos deitardes à noite.

De todas as maneiras de rezar o Rosario, a mais gloriosa a Deus, mais salutar á alma e mais terrível ao demônio, é salmodiá-lo ou rezá-lo publicamente em dois coros.

O Rosário cotidiano tem tantos inimigos, que eu considero um dos mais assinalados favores de Deus a graça de perseverar nele até à morte.

Perseverai nele e terei a coroa admirável que está preparada nos ceus para a vossa fidelidade: “Permanece fiel até à morte e te darei a coroa” (AP 2,10).

***

Fonte: MONTFORT, Luís Maria Grignion de. A eficácia maravilhosa do Santo Rosário. São Paulo: Artpress, 2000
Créditos: O Camponês

domingo, 18 de janeiro de 2015

Cinco conselhos de um santo para 2015


Dicas valiosas de São Josemaría Escrivá para a tarefa mais importante de nossa existência: a salvação da nossa alma.

Todo começo de ano, as pessoas têm o costume de "fazer promessas". Examinam a própria consciência – coisas que fizeram de modo errado ou de que se arrependeram mais tarde –, elegem suas testemunhas – Deus, a própria consciência, a família ou os amigos mais próximos – e fazem sua lista: "Neste ano, vou fazer isto e isto; e deixar isto, isto e aquilo...". Ainda que a pessoa se esqueça do que prometeu nos primeiros dias de janeiro (o que não é nada incomum), os "propósitos de ano novo" são uma boa iniciativa: ilustram o anseio do homem pelo bem e pela perfeição, e ajudam-no a não se conformar com uma vida medíocre, levada "de qualquer modo".

Esta noção de seriedade diante da vida é profundamente cristã. Na famosa parábola dos talentos, Nosso Senhor compara o Reino dos céus a um homem que, tendo viajado para o estrangeiro, deixou seus bens a três servos. Enquanto os dois primeiros trabalharam para multiplicar o que tinham recebido, e foram elogiados por seu senhor, o terceiro, que enterrou na terra o que recebeu, foi repreendido com o apodo de "servo mau e preguiçoso" e jogado nas trevas, onde "haverá choro e ranger de dentes" (cf. Mt 25, 14-30). Deus dá a cada ser humano a oportunidade única de viver - não haverá outra "encarnação", como supõem os espíritas - e espera amorosamente que ele trabalhe e desenvolva os talentos que Ele lhe concedeu. "Trabalhai na vossa salvação com temor e tremor" (Fl 2, 12), diz também São Paulo.

Que tal ser aconselhado por um santo para fazer sua lista de propósitos para o ano que se iniciou? Abaixo, seguem algumas pérolas de São Josemaría Escrivá, o santo do quotidiano, com recomendações valiosas para o trabalho mais importante de nossa existência: a salvação da nossa alma.

I. Lutar contra os pecados veniais
"Já sei que evitas os pecados mortais. - Queres salvar-te! - Mas não te preocupa esse contínuo cair deliberadamente em pecados veniais, ainda que sintas o chamado de Deus para te venceres em cada caso. - É a tibieza que torna a tua vontade tão fraca." ( Caminho, 327)

"Quem é fiel nas pequenas coisas será fiel também nas grandes, e quem é injusto nas pequenas será injusto também nas grandes" ( Lc 16, 10). Quem quer seguir Nosso Senhor, deve deixar de lado a "mentalidade do salário mínimo" e começar a servi-Lo com maior generosidade. Não nos basta seguir os Dez Mandamentos, o chamado de Cristo é que sejamos santos – ou seja, que O amemos de verdade, por completo.

Quantas vezes Nosso Senhor "incomoda" a nossa consciência, alertando-nos para certas palavras ou atitudes que não correspondem à Sua vontade, mas que muitas vezes tratamos como se não fossem nada ou – pior – dizemos serem "somente" pecados veniais. Santo Anselmo pergunta: "Quem terá a ousadia de dizer: isto é só um pecado venial, e, portanto, não é um grande mal? Se Deus é ofendido, como se poderá afirmar que isso é um pequeno mal?"

Por isso, abandonemos de vez os pecados veniais, " vulpes parvulas, quae demoliuntur vineas - as pequenas raposas que destroem a vinha" (Ct 2, 15).

II. Acordar na hora certa
"Vence-te em cada dia desde o primeiro momento, levantando-te pontualmente a uma hora fixa, sem conceder um só minuto à preguiça. Se, com a ajuda de Deus, te venceres, muito terás adiantado para o resto do dia. Desmoraliza tanto sentir-se vencido na primeira escaramuça!" ( Caminho, 191)

"O minuto heróico. - É a hora exata de te levantares. Sem hesitar: um pensamento sobrenatural e... fora! - O minuto heróico: aí tens uma mortificação que fortalece a tua vontade e não debilita a tua natureza." ( Caminho, 206)

Muitas pessoas têm problemas para dormir; tantas outras, porém, têm o problema oposto: não conseguem levantar-se da cama no outro dia. Às vezes até dormem mais cedo, colocam o despertador para determinado horário, mas, simplesmente não acordam – ou pior, não querem levantar-se! Depois que ativam a "função soneca" do celular, elas cochilam indefinidamente, chegando a perder o horário e deixando de cumprir os seus deveres em casa, na escola ou no trabalho.

É certo: às vezes, a rotina do dia a dia esgota-nos sobremaneira. Todavia, é preciso reconhecer que as perdas de tempo na cama, de manhã, normalmente se devem muito mais à nossa preguiça que ao nosso cansaço físico. Afinal, se aquela hora específica é o momento que tínhamos fixado para acordar, por que adiar para mais tarde?

Em 2015, este pode ser um ótimo propósito para nós: o " minuto heroico", levantar na hora certa, sem negociatas com o celular, "sem hesitar". Além de adiantar muito para o resto do dia, tal prática pode ser feita como verdadeiro exercício de mortificação. E a mortificação - não se pode esquecer -é uma escada imprescindível para subir ao Céu.

III. Fazer alguns minutos diários de meditação
"Meditação. - Tempo certo e a hora certa. - Senão, acabará adaptando-se à nossa comodidade: isso é falta de mortificação. E a oração sem mortificação é pouco eficaz." ( Sulco, 446)

"Um tempo de meditação diária - união de amizade com Deus - é coisa própria de pessoas que sabem aproveitar retamente a sua vida; de cristãos conscientes, que agem com coerência." ( Sulco, 665)

Em um mundo tomado por uma agitação contínua, na qual as pessoas agem quase que "a toque de caixa", falar de rezar chega a parecer conversa de outro mundo – ou da Idade Média. Com tanta coisa para fazer, parece não sobrar tempo para Deus e para o cuidado de nossa vida interior. Levado pelo ritmo frenético do dia a dia, então, quem é ateu vai simplesmente passando a sua curta existência neste mundo, e quem é cristão vai pouco a pouco se tornando materialista, uma espécie de "ateu prático".

O conselho de São Josemaría é um desafio para o homem moderno: "um tempo de meditação diária", com "tempo certo" e "hora certa". Um momento reservado, escolhido, específico, para Deus. É claro que é possível rezar enquanto se trabalha. São Paulo mesmo pede aos cristãos que rezem sem cessar (cf. 1 Ts 5, 17). Isso, no entanto, não pode ser desculpa para deixar de escolher um horário determinado e especial para tratar com Deus. O Cristianismo é a religião do amor. Quando alguém ama, quer estar com a pessoa amada, conversar com ela, desfrutar da sua presença. Ora, como podemos amar a Deus, se não queremos passar alguns poucos minutos diários diante d'Ele?

Em suma, na religião cristã, não se pode descuidar da oração, que é realmente a porta da santidade.

IV. Não esquecer o exame de consciência
"Se lutas de verdade, precisas fazer exame de consciência. - Cuida do exame diário: vê se sentes dor de Amor, porque não tratas Nosso Senhor como deverias." ( Sulco, 142)

"Há um inimigo da vida interior, pequeno, bobo; mas muito eficaz, infelizmente: o pouco empenho no exame de consciência." ( Forja, 109)

"Que o sol não se ponha sobre o vosso ressentimento" ( Ef 4, 26), diz o Apóstolo. Trata-se de um conselho importantíssimo para qualquer convivência sadia entre as pessoas. Ora, se é preciso cuidar do relacionamento com os outros, muito mais da nossa intimidade com Deus!

Por isso, um belo propósito para este ano é não deixar que o dia termine sem fazer um diligente exame de consciência. Quem ama, procura sempre melhorar, corrigindo os próprios erros, a fim de agradar a pessoa amada. Um exame bem feito, todos os dias, ao final da noite, além de fortalecer a união com o Senhor, torna mais concreto e responsável o nosso amor a Ele, eliminando as ofensas e imperfeições que atingem o Seu coração. Não se pode, portanto, negligenciar a importância do exame de consciência para a nossa vida espiritual.

V. Perseverar no trabalho
"Deves sentir cada dia a obrigação de ser santo. - Santo!, que não é fazer coisas esquisitas: é lutar na vida interior e no cumprimento heróico, acabado, do dever." (Forja, 60)

"Obstáculos?... Às vezes, existem. - Mas, em algumas ocasiões, és tu que os inventas por comodismo ou por covardia. - Com que habilidade formula o diabo a aparência desses pretextos para que não trabalhes...!, porque sabe muito bem que a preguiça é a mãe de todos os vícios." ( Sulco, 505)

"'Passou-me o entusiasmo', escreveste-me. - Tu não deves trabalhar por entusiasmo, mas por Amor; com consciência do dever, que é abnegação." (Caminho, 994)

Não é verdade que o trabalho seja um castigo decorrente do pecado original. "O trabalho não é um castigo - ensina o Catecismo da Igreja Católica -, mas a colaboração do homem e da mulher com Deus no aperfeiçoamento da criação visível" (§ 378). Por isso, antes mesmo que o primeiro homem pecasse, Deus o pôs no jardim do Éden "a fim de o cultivar e guardar" (Gn 2, 15). Se a queda desfigurou o trabalho humano – o ser humano passou a comer o pão "com trabalhos penosos" e "com o suor do seu rosto" (cf. Gn 3, 17-19) –, Nosso Senhor,que passou a Sua vida oculta no serviço simples e escondido da carpintaria de Nazaré, devolveu-lhe a beleza e o significado originais. O homem não trabalha simplesmente para cumprir uma pena. Trabalha para ser santo. Para lutar "na vida interior e no cumprimento heroico, acabado, do dever".

O segredo de todos esses conselhos, todavia, está no amor. " Tu não deves trabalhar por entusiasmo, mas por Amor", diz o santo do quotidiano. Qualquer propósito para 2015 será em vão se não tiver como motor principal a caridade. Os sentimentos, o "entusiasmo", os arrepios dos primeiros anos de conversão, todas essas coisas passam. Ao contrário, o amor, fundado na vontade firme, na "determinada determinación" de agradar a Deus, permanece. Dia após dia, renovemos as nossas "promessas" de entrega e fidelidade a Ele. E teremos, sem dúvidas, um ano muito melhor do que este que passou.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

quinta-feira, 17 de julho de 2014

10 medidas práticas para a Santidade - Beato Francisco Xavier Seelos

10 medidas práticas para a Santidade - Beato Francisco Xavier Seelos

1. Ir à Missa com grande devoção.

2. Reflectir durante meia-hora nos pecados em que se cai mais frequentemente; fazer propósitos para o evitar.

3. Fazer leitura espiritual durante 15 minutos, se for impossível fazer meia-hora.

4. Rezar o Terço todos os dias.

5. Se possível visitar o Santíssimo Sacramento todos os dias; e ao entardecer meditar na Paixão de Cristo durante meia-hora.

6. Acabar o dia com o exame de conciência, de todas as faltas e pecados do dia.

7. Todos os meses, fazer uma revisão do mês na confissão (direcção espiritual).

8. Escolher um padroeiro em cada mês, e imitá-lo numa virtude em especial.

9. Fazer uma novena antes de cada grande festa litúrgica.

10. Tentar começar e acabar cada actividade diária com uma Avé-Maria.
 
 
Fonte: Senza Pagare

sábado, 15 de março de 2014

São Pedro de São José Betancur - Avisos ascético-espirituais




São Pedro de São José Betancur

AVISOS ASCÉTICO-ESPIRITUAIS


Recordações de alguns conselhos espirituais

do irmão Dom Gregório para aproveitá-los

no transcurso da vida humana.


"São os escritos, parábolas, sentenças e reflexões,

com que o irmão Pedro costumava dirigir-se

aos seus irmãos e às pessoas em geral,

para animá-los no caminho espiritual

e advertí-los sobre os perigos do mundo".


1.Conselhos diversos.

Quando sofremos alguma aflição, temos que entender que isto é parte da cruz de Cristo e que, por meio do sofrimento, podemos beijar esta cruz.

Quando fizermos alguma coisa, temos que refletir sobre ela, para que possamos compreender o motivo pela qual a fazemos, se é para agradar a Deus ou para estar bem com os demais, porque o demônio costuma servir-se da vaidade. Assim, pois, sempre devemos examinar a razão de nossa conduta, considerar a boa intenção, e fazê-lo tudo para a honra a e glória de Deus.

Cada qual deve perguntar-se a si mesmo: com que finalidade faço isto? Para honra e glória de Deis ou para adquirir com isso a fama que o mundo aprecia? Porque se o fazes com outra finalidade que não seja a glória de Deus, estás perdido.

Consideremos sempre a boa intenção, porque a cada momento caímos no erro de não nos fixarmos na boa intenção do que fazemos ou dizemos. Portanto, abramos os sentidos, estejamos alertas, porque no Dia do Juízo se verão as intenções e o dano que a vanglória nos terá causado.

Se presumes ser servo de Deus e desejas padecer por Cristo, mas quando te dizem coisas duras e ofensivas te irritas e incomodas, e interiormente te sentes de tal forma que pareces ter uma legião de demônios, adverte pois que esta é a escola de Deus onde os humildes aprendem.

Mesmo que te digam o que quiserem, nunca te queixes a ninguém, senão a Deus.

Quando pensas que és algo, tem por certo que não és nada; e quando pensas que não és nada, tem por certo que és algo.

Na oração mental é um atrevimentro meditar de imediato na Santíssima Trindade, em vez de prostarmo-nos aos pés de Cristo e suas sacratíssimas chagas, porque elas nos ensinarão como e de que maneira é este tão grande mistério, e nos farão meditar sempre com humildade nas chagas de Cristo.

Examina sempre se te motiva algum amor própio, porque o amor deve-se por somente em Jesus Cristo e não em coisas terrenas e que hão de perecer.

Que se faça em tudo a vontade de Deus, mesmo que nos coloquem onde quiserem, porque mesmo que nos tirem a nossa vontade, não nos podem tirar a Deus.

Tenhamos sempre a devoção de encomendar a Deus aqueles que nos ofendem por palavra ou por obra. Quem isto fizer, cumpre com o Evangelho de Deus.

Se por acaso nos sentirmos tristes, examinemo-nos e vejamos de onde procede a tristeza; porque o demônio costuma dar peso muito grande com coisa muito leve.

Devem-se ter muito presente os mandamentos da Lei de Deus, para examinar se O ofendemos, e se assim for, deve-se recorrer logo à confissão. Se não houver nada em que tenhamos ofendido a Deus, atiremos todas as demais preocupações a um fogo, e isto à face do demônio, e dediquemo-nos a servir a Deus com alegria.

Procuremos sempre o mais baixo lugar e assento, e humilhemo-nos em tudo por Deus.

Eis aqui um argumento contra o demônio. Quando o demônio nos disser que não façamos esforços para servir a Deus, digamos-lhe que assim como ele, com grande esforço, quis ser soberbo e o foi, e conseguiu colocar-se em lugar tão alto, assim também, com grande esforço o servo de Deus deve procurar abater-se entre todos, e que o tenham em nada, por amor de Deus.

Muitas vezes inspira Deus a seus servos para que façam em público algumas devoções, e as fazem porque sabem a quem servem; porém são objeto de murmurações por parte de pessoas que não conhecem ao Senhor, e que não tem espírito de Deus. Observa, servo de Deus, se sentes que não há vaidade, que não te importem as murmurações: dá bom exemplo e serve ao Senhor, pois serves a bom Senhor.

Alegra-te sempre com a cruz de Cristo; todo o desejo do servo de Deus deve ser seguir a Cristo; este é o verdadeiro desejo do servo de Deus.

Duas coisas deve ter o servo de Deus, e se não as tem, deve trabalhar muito para alcançá-las, e elas são: não obedecer em nada à própria vontade; ao contrário, fazer antes a vontade do outro que a sua; não ter cobiça de nada, nem mesmo em coisas muito pequenas, porque do pequeno se passa sempre ao maior. No fim, em tudo se começa por pouco, e o demônio é sutil.

Todas as honras e favores que nos podem dar e fazer nesta vida têm tão pouco valor, que não merecem estar nem sequer debaixo dos pés. Pelo contrário, todas as afrontas, opróbios e desprezos que soframos por Cristo, ainda que os tratemos como às meninas dos olhos, não têm o lugar que merecem.

O servo de Deus deve exercitar-se em considerar as dores que padeceu Cristo naquelas carnas sacrossantas; as penas interiores que padeceu Cristo em sua allma; as afrontas que padeceu em sua honrfa. A maneira de exercitar estas coisas consiste em dizer, quando padeçamos dores no corpo: quero padecer estas dores em satisfação de meus pecados. Se são penas interiores digamos: penas de Cristo, vos ofereço as minhas. Se são ofensas que ferem nossa honra, dizer: afrontas de Cristo, por vós as padeço.

Persuade-te, homem, que não há mais do que duas coisas boas, que são: Deus e a alma, e se o quiseres ver bem, pensa e traze à memória todo o criado, e examina cada coisa em si mesma, e verás como tudo é nada. Fixa-te cuidadosamente na terra, no mar, na prata, no ouro, em toda criatura na terra e no mar, e verás, segundo te disse, como tudo é nada. E assim, posto que tudo é nada, há que estimar-se tudo como nada, e buscar a Deus, que o é tudo, e assim acertarás. Vá a alma a Deus, e venha Deus à alma, pois Ele a criou capaz de fruí-lo.

2. Proveitos para os que assistem Missa.

Vejamos o que dizem os doutores cujos escritos foram achados no Sagrado Convento de Ara Coeli em Roma.

Afirma São Bernardo que se o homem andasse peregrinando por todo o mundo por amor de Deus e desse todo o seu dinheiro em esmola, não ganharia tanto bem para a sua alma como pela missa ouvida devotamente, isto é, estando em graça.

Assevera São Jerônimo que, enquanto a missa se celebra, aquelas almas pelas quais se oficia, se estiverem no Purgatório, não são atormentadas durante o tempo em que dura a celebração.

Diz Santo Ambrosio que qualquer coisa que o homem comesse depois de ouvir missa, lhe aproveitará para sustento de sua vida mais que se a comesse antes de ouvir missa.

Afirma Santo Agostinho que o homem, enquanto ouve missa, não envelhece nem enfraquece, assim como Adão não haveria adoecido, nem a vida se lhe terminaria, se não tivesse comido do fruto da árvore da vida.

Acrescenta o mesmo santo que o pecador que devotamente está na missa, se aquele dia morresse tendo-se arrependido sinceramente de seus pecados, mesmo que não recebesse os demais sacramentos da Igreja, a missa lhe valeria por todos eles.

Também segundo Santo Agostinho, todos os passos que o homem dá quando vai ouvir missa, os conta e os escreve o Anjo da Guarda para que o Senhor lhe dê um grande prêmio. Diz o mesmo doutor que durante aquela hora que se emprega em visitar e adorar o Sagrado Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo, o demônio sai do corpo.

3. A moradia cristã.

Deve seguir os exemplos de Marta e de Maria, que são exemplos de vida ativa e contemplativa. O que for como Marta, isto é, tão ativo, que não se lembrar de Maria, isto é, do contemplativo, vai perdido; e o que for tão Maria, isto é, tão contemplativo que não se lembrar de Marta, vive enganado.

4. O caminho do céu. Meios proveitosos para o caminho do céu.

A mortificação interior e exterior.


Não está a mortificação no exterior, mas no operar com boa intenção. Vejam, meus irmãozinhos, é preciso cuidar muito da intenção com que realizamos alguns atos de caridade. Porque pode haver muito mal no que a todos parece bom. Como digo, tendo boa intenção, nenhum erro se pode cometer.

5. Sobre o Natal.

Irmãos, quando chegar [o Natal], percam o juízo pelo Menino Jesus. Sejam humildes e não desejem mandar.

6. Sobre a humildade.

A. Devemos ser a vassoura do povo, porque temos que andar sentindo-nos debaixo de todos, sem vaidade ou orgulho. Ao ver um índio que leva sua carga, se esta for demasiada, devemos ajudá-lo a levá-la.

Alternando-se por semanas, dois irmãos devem ir às obras para ajudar a terminar sua tarefa aos trabalhadores que trabalham forçados e não por sua livre vontade.

E para ensinar a nos desprender das coisas deste mundo e a aborrecer as culpas passadas, para que não se nos agarre o pó da mundanidade que busca entrar em nós, temos que estar como no ar, como um pássaro que, desde a altura, olha para baixo.

B. Ser humildes por Cristo é caminho seguro de salvação, a tal ponto que eu me sentiria satisfeito e agradecido de que em público me dessem duzentos açoites.

C. Sejam humildes por Cristo, o que é seguro. Me alegraria e fariam um grande favor se me dessem açoites pelas ruas desta cidade.

7. Negação de si mesmo.

Alguns começam a servir a Deus com grandes ânsias, e para isto abandonam pais, amigos, casas, dinheiro e demais comodidades; porém, por sua miséria espiritual e sua fraqueza, apesar de terem deixado tudo isto, são estorvados por algumas coisinhas e aflições que os impedem do verdadeiro aproveitamento e perfeição. É como alguém que sai com grande determinação para fazer uma grande viagem, e depois de muitos dias passa outra pessoa por ali e o encontra no princípio do caminho, detido porque uma corda do sapato se enrolou em um raminho, e está tão cego que não se dá conta daquele impedimento. Ou, se o vê, não tem força ou determinação para desamarrar a corda ou cortar o ramo. Então, impedido de findar a jornada, fica assim, e mesmo depois de ter desatado a corda, volta a enredar-se com coisas muito pequenas, que para si parecem montanhas de dificuldades.

E assim, se queremos chegar à perfeição, temos que romper com tudo, cortando os laços que nos unem com o mundo, ainda que nos doa muito, e isto se faz melhor se nos aconselhamos uns aos outros.

Se eu encontrasse em meus irmãos de comunidade esta disposição de ânimo, lhes diria que ganharam muitos méritos e coroas; porém me preocupo quando ouço que alguém perdeu o domínio de si mesmo; que se nega totalmente quando tratam de ajudá-lo; que, ao buscá-lo, o encontram fechado na cela de sua própria vontade, não somente sentado, mas deitado, e mais ainda, envolto em suas próprias paixões, sendo que eu esperava encontrá-lo livre, fora já da prisão de seu egoísmo.

8. Andar na presença de Deus.

Procuremos fabricar no interior de nossa alma uma ermida ou capela espiritual, onde sempre estejamos com recolhimento. Um lugar que nos sirva de refúgio, assim como quando, estando na rua, se alguém vê que um touro o persegue, se mete em sua casa e fecha as portas, e assim escapa do perigo e fica seguro. Graças a este gênero de recolhimento, estaremos alertas para conhecer as tentações quando se lançam sobre nós, e logo, como em um porto seguro, entraremos na capela da alma para pedir socorro a Deus, fechando as portas ao entrar. Estas, e as demais partes da capela espiritual, devem ser fabricadas por meio daquelas virtudes que permitem resistir aos ataques da tentação. Esta capela serve para comungar espiritualmente, e para ver, graças à meditação, os santos apóstolos e a Virgem Santíssima, todos com velas acesas nas mãos.

9. Guarda dos sentidos.

A alma é como uma jovem muito bela, filha de um homem pobre, que a mantinha em uma casa com muitas portas, porque não havia quem dela cuidasse, a não ser ele mesmo. Pois bem, a filha é a alma, a casa é o corpo, e os sentidos são as portas. Para vigiar e conservar bem a esta filha temos que ter presentes os dez mandamentos, mas também os sete pecados mortais e todas as demais coisas que podem ser instrumento ou causa de pecado. Assim pois, o homem deve estar muito vigilante, e utilizar os remédios para guardar a alma em meio a tantos riscos, recorrendo à oração como principal guarda das portas da alma. Mesmo assim, é necessário examinar todas as nossas ações e ver que virtudes nos são necessárias para guardar estas portas.

10. Sobre a paciência.

Não acreditemos no demônio quando nos move a nos ressentirmos por isto ou aquilo, e perder a paciência. Antes, devemos resistir-lhe, porque muitos se perdem por não exercitarem a virtude da paciência.

11. Sobre a oração.

Feliz é a alma que acompanha sua oração com estas quatro virtudes: confiança, humildade, perseverança e mortificação de seus apetites, porque sempre alcançará do Senhor o que lhe pedir e o encontrará todas as vezes que o busque.

12. Sobre a mortificação.

Vale mais uma pequena cruz, uma dorzinha, uma pena, angústia ou enfermidade enviada por Deus, que os jejuns, disciplinas, cilícios, penitências e mortificações que nós fazemos, se estas penas forem levadas por Deus. Porque aquilo que nós fazemos ou decidimos por nossa única vontade, está envolvido nosso próprio querer, por mais que procuremos afastá-lo da escória no crisol da vontade do pai espiritual que nos aconselha. Porém naquilo que Deus nos envia, se o aceitamos como vindo de sua mão, com resignação e humildade, não querendo outra coisa que o que Deus quer, aí está a vontade de Deus, e em nossa conformidade com ela está nosso êxito e nosso lucro, como em uma riquíssima feira em que recebemos ouro de muitos quilates dando em troca nossas bugigangas e bagatelas. E se nossa pobre mercadoria traz a traça do amor próprio, Deus, que conhece e penetra tudo, em sua misericórdia saberá dar a cada coisa o seu justo valor.

13. Bênçãos.

A. Com toda a humildade de que sou capaz, em nome da Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, eu, ainda que indigno pecador, te abençoo. Que Deus te torne humilde.

B. Em nome da Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, ainda que indigno pecador, vos abençoo, meus irmãos, no que possa, e que Deus vos torne humildes.


Fonte: Cristianismo.org.br

segunda-feira, 10 de março de 2014

São Pedro de Alcântara - Avisos para o Exercício da Meditação



São Pedro de Alcântara
AVISOS PARA O EXERCÍCIO DA MEDITAÇÃO
 

1. Introdução

Tudo o que até aqui dissemos serviu para oferecer matéria de consideração para os que aprendem a meditar, o que é uma das principais partes deste tema. De fato, poucas pessoas possuem suficiente material para reflexão na meditação e, deste modo, por falta dele, não são poucos os que não conseguem dar-se a esta prática.

Agora, porém, resta declarar abreviadamente a maneira e a forma pelas quais pode-se meditar. E. mesmo que nesta matéria o principal Mestre seja o Espírito Santo, todavia a experiência nos mostrou que são necessários alguns avisos, porque o caminho para ir a Deus é árduo e necessita de guia, sem o que muitos andam muito tempo perdidos e desencaminhados.

2. Primeiro Aviso

Seja, pois, este o primeiro aviso: que quando nos pomos a considerar algumas das coisas que já mencionamos como matéria de meditação em seus devidos tempos e exercícios, não devemos estar tão presos a estas matérias que consideremos como serviço mal feito deixarmos uma para tomarmos outra, quando nisto encontrarmos maior gosto ou maior proveito, porque, como a finalidade de tudo é a devoção, o que mais servir para este fim, será isto que se deve considerar como sendo o melhor. Porém isto não se deve fazer por motivos levianos, mas com vantagem conhecida. Sendo assim, se em alguma passagem de sua oração sentirmos maior gosto ou devoção do que em outro, detenhamo-nos nele por todo o espaço de tempo em que dure este afeto, mesmo que todo o tempo do recolhimento se gaste nisto. Porque, como o fim de tudo isto é a devoção, conforme já o explicamos, seria um erro buscar em outra parte, com esperança duvidosa, o que já temos como certo em nossas mãos.

 3. Segundo Aviso

Seja o segundo aviso que trabalhe o homem para desculpar neste exercício a demasiada especulação do entendimento, e procure deixar este negócio mais com afetos e sentimentos da vontade que com discursos e especulações do entendimento.

Porque sem dúvida não acertam este caminho aqueles que de tal maneira se põe na oração a meditar os Mistérios Divinos como se os estivessem estudando para pregar, o que seria mais derramar o espírito do que recolhê-lo e seria mais andar fora de si do que dentro de si. De onde nasce que, acabada a sua oração, ficam secos e sem suco de devoção, e tão fáceis e prontos para qualquer leviandade como o estavam antes. Porque a verdade é que tais pessoas de fato não oraram, mas falaram e estudaram, o que é coisa bem diversa da oração. Estes tais deveriam considerar que no exercício da oração mais nos aproximamos para escutar do que para falar. Para acertar, portanto, neste negócio, aproxime-se o homem com o coração de uma velhinha ignorante e humilde, e mais com a vontade disposta e aparelhada para sentir e afeiçoar-se às coisas de Deus do que com o entendimento esperto e atento para esquadrinhá-las, pois isto é próprio dos que estudam para saber, e não dos que oram e pensam em Deus para chorar.

4. Terceiro Aviso

O aviso anterior nos ensina como devemos sossegar o entendimento e entregar todo este negócio à vontade; mas o presente põe também sua taxa e medida à própria vontade, para que não seja excessiva nem veemente em seu exercício, para o qual deve-se saber que a devoção que pretendemos alcanças não é coisa que se há de alcançar à força de braços, como alguns pensam, os quais, com demasiado afinco e tristezas forçadas e como que por encantamentos procuram alcançar lágrimas e compaixão quando pensam na Paixão do Salvador, porque isto costuma mais secar o coração e torná-lo mais inábil para a visitação do Senhor, conforme ensina Cassiano. E ademais estas coisas costumam causar dano à saúde corporal, e às vezes deixam a alma tão atemorizada com o sensabor que ali alcançou, que teme retomar outra vez ao exercício como a algo que experimentou ter-lhe dado muita pena. Contente-se, pois, o homem com fazer de boa vontade o que é de sua parte, que é encontrar-se presente ao que o Senhor padeceu, admirando com olhar simples e sossegado e com um coração terno e compassivo e aparelhado para qualquer sentimento que o Senhor lhe quiser conceder pelo que Ele padeceu, mais disposto para receber o efeito que sua misericórdia lhe conceder do que para expressá-lo à força de braços. E, feito isso, não se aflija pelo restante, quando não lhe for dado.

 5. Quarto Aviso

De tudo quanto foi dito podemos concluir qual é o modo da atenção que devemos ter na oração, porque aqui principalmente convém ter o coração não caído nem frouxo, mas vivo, atento e erguido para o alto. Mas assim como é necessário estar aqui com esta atenção regrada e moderada, para que não seja danosa à saúde nem impeça a devoção, porque há alguns que fatigam a cabeça com a demasiada força que empregam para estarem atentos ao que pensam, conforme já dissemos, assim também há outros que, para fugirem deste inconveniente, estão ali muito frouxos e remissos e muito fáceis de serem levados por todos os ventos. Para fugir destes extremos convém conduzir um meio termo que nem com a demasiada atenção fatiguemos a cabeça, nem com o muito descuido e frouxidão fiquemos vagando com o pensamento por onde ele bem entenda. De modo que, assim como costumamos dizer ao homem que caminha sobre uma besta maliciosa que mantenha as rédeas firmes, isto é, nem muito apertada nem muito frouxa, para que nem volte para trás, nem caminhe com perigo, assim devemos procurar que nossa atenção siga com moderação e não forçada, com cuidado mas não com fadiga e aflição.

Mas particularmente convém avisar que no princípio da meditação não fatiguemos a atenção com demasiada atenção, porque quando isto se faz, mais adiante costumam faltar as forças, como faltam ao caminhante quando no princípio da jornada se entrega a uma demasiada pressa para caminhar.

 6. Quinto Aviso

Mas entre todos estes avisos o principal é que não desanime aquele que ora, nem desista de seu exercício quando não sente imediatamente aquela suavidade da devoção que ele deseja. É necessário que com longanimidade e perseverança esperar a vinda do Senhor, porque à glória de Sua Majestade e à baixeza de nossa condição e à grandeza do negócio que tratamos pertence que estejamos muitas vezes esperando e aguardando às portas de seu palácio sagrado.

Pois quando desta maneira tenhas aguardado um pouco de tempo, se o Senhor vier, dá-lhe graças por sua vinda e, se te parecer que não vem, humilha-te diante dEle, e conhece que não mereces o que não te deram, e contenta-te com ter feito ali o sacrifício de ti mesmo e negado a tua própria vontade e crucificado o teu apetite e lutado com o demônio e contigo mesmo, e feito pelo menos o que era de tua parte. E se não adoraste o Senhor com a adoração sensível que desejavas, basta que o tenhas adorado em espírito e em verdade, como Ele quer ser adorado (Jo. 4, 23). E creia-me, com certeza, que este é o caso mais perigoso desta navegação e o lugar onde se provam os verdadeiros devotos, e que se dele te saires bem, em tudo o demais seguirás prosperamente.

Finalmente, se mesmo assim te perecesse que fosse tempo perdido perseverar na oração e fatigar a cabeça sem proveito, neste caso não teria por inconveniente que, depois de ter feito o que está em ti, tomasses algum livro devoto e trocasses então a oração pela lição, contanto que a leitura não fosse corrida nem apressada mas pausada e com muito sentimento quanto ao que estivesses lendo, misturando muitas vezes em seus lugares a oração com a leitura, o qual é coisa muito proveitosa e muito fácil de fazer para todo gênero de pessoas, mesmo que sejam muito rudes e principalmente neste caminho.

7. Sexto Aviso

Não é documento diverso do anterior, nem menos necessário avisar que o servo de Deus não se contente com qualquer gostozinho que encontre em sua oração (como fazem alguns que derramando uma lagrimazinha ou sentindo alguma ternura de coração, pensam que já cumpriram com o seu exercício). Isto não basta para o que aqui pretendemos. Porque assim como um pequeno filete de água não basta para que a terra frutifique, que não faz mais do que tirar a poeira e molhar a terra por fora, mas é necessária tanta água que desça até o íntimo da terra e a deixe encharcada de água para que possa frutificar, assim também aqui é necessária a abundância deste rio e desta água celestial para que possa dar fruto de boas obras. É por isto que com muita razão se aconselha que tomemos para este santo exercício o maior espaço de tempo que pudermos. E melhor seria um tempo longo do que dois tempos curtos, porque se o espaço é breve, todo ele será gasto em sossegar a imaginação e aquietar o coração, e depois de já quieto nos levantaremos do exercício quando o teríamos de começar.

E descendo a maiores detalhes no que diz respeito a delimitar este tempo, parece-me que tudo o que for menos de uma hora e meia ou duas horas é um tempo muito curto para a oração, porque muitas vezes se passa mais do que meia hora em moderar o caminho e acalmar a imaginação e todo o restante do tempo é necessário para gozar do fruto da oração. É verdade que quando este exercício é feito depois de alguns outros santos exercícios, como depois do ofício das matinas ou depois de ter assistido ou celebrado missa ou depois de alguma leitura devota ou oração vocal, o coração se encontra mais disposto para este negócio e, assim como ocorre com a lenha seca, mais rapidamente se acende este fogo celestial. Também o tempo da madrugada costuma ser mais curto porque é o mais aparelhado que existe de todos quantos há para este ofício. Mas o que for pobre de tempo por causa de suas muitas ocupações, não deixe de oferecer seu quinhãozinho com a pobre viúva do Templo (Lc. 21, 2), porque se isto não ocorre por sua negligência, Aquele que provê a todas as suas criaturas conforme a sua necessidade e natureza, prove-lo-á também segundo a sua.

8. Sétimo Aviso

Conforme a este documento se dá outro semelhante a ele, e é que quando a alma for visitada na oração, ou fora dela, com alguma visita particular do Senhor, que não a deixe passar em vão, mas que se aproveite daquela ocasião que se lhe oferece, porque é certo que com este vento navegarão homem mais em uma hora que sem Ele durante muitos dias. Assim se diz que o fazia São Francisco, de quem escreve São Boaventura em sua vida que era tão especial o cuidado que tinha nisto que se ao andar pelo caminho nosso Senhor o visitava com algum favor especial, fazia ir adiante todos os companheiros e permanecia quieto até acabar de ruminar e digerir aquele bocado que lhe vinha do céu. Os que assim não o fazem costumam comumente ser castigados com esta pena, a de que não encontram a Deus quando o buscarem, porque quando Ele os buscava não os encontrou.

 9. Oitavo Aviso

O último e mais principal aviso seja que procuremos neste santo exercício juntar em uma só coisa a meditação com a contemplação, fazendo da primeira a escada para subir até a segunda, para o que deve-se saber que o ofício da meditação consiste em considerar com estudo e atenção as coisas divinas discorrendo de umas para as outras para mover nosso coração a algum efeito e sentimento das mesmas, que é como quem fere uma pedra para arrancar dela alguma centelha. Mas a contemplação consiste em já ter arrancado esta centelha, quero dizer, já ter encontrado este efeito e sentimento que se buscava, e estar em repouso e silêncio em seu gozo, não com muitos discursos e especulações do entendimento, e sim com uma simples vista da verdade, por causa do que diz um santo doutor que a meditação discursa com trabalho e com fruto, mas a contemplação o faz sem trabalho e com fruto; a primeira busca, enquanto que a segunda encontra; a primeira rumina a comida, enquanto que a segunda a degusta; a primeira discorre e tece considerações, enquanto que a segunda se contenta com uma simples vista das coisas, porque já possui o amor e o gosto das mesmas; finalmente, a primeiro é como um meio, enquanto que a segundo é como um fim; a primeira é como caminho e movimento, enquanto que a segunda é como o término deste caminho e movimento.

Daqui se conclui uma coisa muito comum, que é ensinada por todos os mestres da vida espiritual, ainda que pouco entendida por parte dos que a lêem, a saber, que assim como ao se alcançar um fim cessam os meios, assim como chegando ao porto cessa a navegação, assim também quando o homem, mediante o trabalho da meditação, chegar ao repouso e ao gosto da contemplação, deve então cessar daquela piedosa e trabalhosa investigação. E contente com uma simples vista e memória de Deus, como se o tivesse presente, tomar posse daquele afeto que se lhe é dado, seja ora de amor, ora de admiração ou de alegria ou coisa semelhante. A razão pela qual isto se aconselha está em que, como o fim de todo este negócio consiste mais no amor e nos afetos da vontade do que na especulação do entendimento, quando a vontade já está presa e tomada deste afeto, devemos dispensar todos os discursos e especulações do entendimento, na medida em que nos seja possível, para que nossa alma com todas as suas forças se empregue nisto sem derramar-se pelos atos de outra potência. E por isso aconselha um doutor que assim que o homem sentir-se inflamado do amor de Deus, deve logo deixar todos estes discursos e pensamentos, por mais altos que possam parecer, não porque sejam maus, mas porque neste caso se tornam impedimentos de outro bem maior, o que não é outra coisa mais do que cessar o movimento quando se chega ao seu término e deixar a meditação por amor da contemplação. Pode-se assinalar que isto pode ser feito no fim de todo o exercício, depois de se pedir o amor de Deus, de que antes já havíamos tratado, pelos seguintes dois motivos. Primeiro, porque pressupõe-se que neste momento o trabalho já feito no exercício terá dado à luz a algum efeito e sentimento de Deus, e, como diz o Sábio, mais vale o fim da oração do que o seu princípio (Eccles. 7,7). Segundo, porque depois do trabalho da meditação e da oração é razoável que o homem dê um pouco de folga ao entendimento e o deixe descansar nos braços da contemplação. Neste tempo, portanto, abandone o homem todas as imaginações que se lhe oferecerem, cale o entendimento, aquiete a memória e fixe-a em Nosso Senhor, considerando que está diante de sua presença e não especulando em particularidades das coisas divinas. Contente-se com o conhecimento que ele possui de Deus pela fé e aplique a sua vontade e amor, pois somente este o abraça e nele está o fruto de toda a meditação, pois o entendimento quase nada alcança do que se pode conhecer de Deus ao passo que a vontade pode amá-Lo muito. Encerre-se dentro de si mesmo no centro de sua alma onde está a imagem de Deus, e ali esteja atento a Ele, como quem escuta ao que fala a partir de alguma elevada torrem ou como quem o tivesse dentro de seu coração, e como se em toda a criação não houvesse mais nada senão somente ela ou somente ele. E mesmo de si mesma e do que faz deveria esquecer-se, porque, como dizia um daqueles Padres, a perfeita oração é aquela onde o que está orando não se recorda que está orando. E não somente no fim do exercício, como também no meio e em qualquer outra parte em que nos tomar este sonho espiritual, quando o entendimento está como que adormecido da vontade, devemos fazer esta pausa, gozar deste benefício e retornar ao nosso trabalho ao acabar de digerir e degustar aquele bocado. É assim que faz o jardineiro quando rega a sua terra a qual, depois de tê-la enchido de água, suspendo o jorro da corrente e deixa empapar e difundir-se pelas entranhas da terra seca o que esta recebeu e, uma vez feito isto, volta a soltar o jorro da fonte, para que receba mais e mais e fique melhor regada. Mas o que então a alma sente, o que goza da luz, da fartura, da caridade e da paz que recebe, não se pode explicar com palavras, pois aqui está a paz que excede todo o sentido e a felicidade que nesta vida se pode alcançar.

Há alguns tão tomados pelo amor de Deus que tão logo tenham começado a pensar nEle a memória de seu doce nome lhes derrete as entranhas. Estes têm tão pouca necessidade de discursos e considerações para amá-Lo como a mãe ou a esposa para regalar-se com a memória de seu filho ou esposo quando lhe falam dele. Há outros também que não somente no exercício da oração, como também fora dele, andam tão abosortos e tão empapados de Deus, que de todas as coisas e de si mesmos se esquecem por causa dEle pois, se isto o pode muitas vezes o amor furioso de um perdido, quanto mais não o poderá o amor daquela infinita beleza, se não é menos poderosa a graça do que a natureza e do que a culpa? Pois quando a alma o sentir, em qualquer parte da oração em que o sinta, de nenhuma maneira o deve menosprezar, mesmo que todo o tempo do exercício se gastar nisso, sem rezar ou meditar nas outras coisas que lhe estavam determinadas, a não ser que estas lhes fossem obrigatórias, porque assim como diz Santo Agostinho que deve-se deixar a oração vocal quando esta em alguma circunstância fosse impedimento da devoção, assim também deve-se deixar a meditação quando fosse impedimento da contemplação.

De onde que também deve-se muito notar que assim como nos convém deixar a meditação pelo afeto para subir do menos ao mais, assim também, pelo contrário, às vezes convirá deixar o afeto pela meditação, quando o afeto fosse tão veemente que se temesse perigo para a saúde perseverando nela, como muitas vezes acontece aos que, sem este aviso, se entregam a estes exercícios e os tomam sem discrição, atraídos pela força da divina suavidade. E em um caso como este, diz um doutor, é bom remédio entregar-se a algum afeto de compaixão, meditando um pouco na Paixão de Cristo, ou nos pecados e nas misérias do mundo, para aliviar e desafogar o coração.


Fonte: Cristianismo.org.br

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Carta da Irmã Lúcia, vidente de Fátima, explicando a Devoção Reparadora ao Imaculado Coração de Maria à sua madrinha


 Tuy, 1-11-1927

Minha querida Madrinha

Venho hoje agradecer a sua amável cartinha, à qual já devia ter respondido há muito, mas espero que me perdoará o meu prolongado silêncio.

Gostei muito de saber que tinha feito a viagem a Lourdes sem novidade e que aos pés da nossa querida Mãe do Céu não esqueceu essa pobre alma. EU nas minhas pobres orações também não esqueci ainda a minha boa Madrinha.

Não sei se já tem conhecimento da devoção reparadora dos 5 sábados ao Imaculado Coração de Maria, mas como ainda é nova, lembrou-me de lha inculcar por ser uma pedida por a nossa querida Mãe do Céu, e por Jesus ter manifestado desejo que seja abraçada. Pareceu-me por isso que a Madrinha estimará muito não só de ter o conhecimento dela, para dar a Jesus a consolação de a praticar, mas também a de a fazer conhecer e abraçar por muitas outras pessoas.

Consta no seguinte: Durante 5 meses, no 1º sábado, receber Jesus Sacramentado, rezar um Terço, fazer 15 minutos de companhia a Nossa Senhora, meditando nos mistérios do Rosário, e fazer uma confissão. Esta pode ser antes alguns dias e, se nesta confissão anterior nos esquecemos de formar a intenção, podemos oferecer a confissão seguinte, contanto que no 1º sábado se receba a Sagrada Comunhão em estado de graça com o fim de reparar as ofensas que se proferem contra a S.S. Virgem,, e que têm amargurado o seu Imaculado Coração.

Parece-me, minha boa Madrinha, que somos felizes por poder dar à nossa querida Mãe do Céus esta prova de amor, que sabermos deseja que se Lhe ofereça. Quanto a mim, confesso (que) nunca me sinto tão feliz como quando chega o 1º sábado. E não é verdade que a nossa maior felicidade está em sermos todas de Jesus e Maria; e amá-l'Os a Eles só, sem reserva? Vemos isto tão claro na vida dos santos ... Eles eram felizes porque amavam, e nós, minha boa Madrinha, havemos de procurar amar como eles, não só para gozar de Jesus, que é o menos, - se O não gozarmos cá, gozá-l'O-hemos lá - , mas para darmos a Jesus e Maria a consolação de serem amados. E se o pudéssemos fazer de modo que Eles Se vissem amados, sem saber de quem, e que assim, em troca deste amor, salvassem muitas almas, então me parece que seria de todo feliz. Mas já que isto não podemos, ao menos amemo-l'Os para Eles serem amados.

Adeus, minha boa Madrinha, abraço-a nos Corações S.S. de Jesus e Maria.

Maria Lúcia de Jesus

Carta da Irmã Lúcia à sua madrinha.
Fátima e o Coração de Maria, Pe. António Maria Martins, S.J.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

A meditação da prepração para a Consagração à Nossa Senhora

Consagração a Nossa Senhora
Segundo o método de São Luís de Montfort


1. Esquema geral da meditação

a) Por-se na presença de Deus, através de Nosso Senhor Jesus Cristo contemplado juntamente com Nossa Senhora (durante o tempo da incarnação, no presépio, em Nazaré, no Templo, na via-crúcis, no Calvário, etc.);
b) Suplicar a Nosso Senhor, através de Maria Santíssima, a graça própria do período: desprezo do mundo, conhecimento próprio, de Nossa Senhora ou de Nosso Senhor;
c) Oferecer por essa intenção uma das orações determinadas por São Luís de Montfort;
d) Meditar (ato da inteligênciaè o que eu devo saber?) sobre as verdades propostas [escolhendo entre os textos dispostos no cronograma; pode ser muito útil escolher os textos com antecedência, normalmente no dia anterior, preparando a meditação].
e) Que deve conduzir à produção e explicitação de afetos (atos da vontadeè o que eu devo querer);
f) Formular resoluções práticas, precisas (determinadas na matéria, no tempo, no espaço, nas circunstâncias, etc.) e em pequeno número, oferecendo-as a Nosso Senhor pelas mãos de Maria e suplicando força para cumpri-las;
g) Oferecer nesta intenção alguma(s) outra(s) das orações determinadas por São Luís (os exercícios remanescentes podem ser feitos em outro momento do dia).

2. Doze dias preliminares: Desapego do mundo

a) Texto introdutório do tema


(Estes textos podem servir de fio geral para as meditações, ou ser lido a cada dia, como uma espécie de leitura espiritual).

Carta circular aos amigos da cruz (I, B).

“Não estareis vós, sem perceber, no caminho largo do mundo, que é o caminho da perdição?”.
Vós sabeis, mesmo, que há uma via que parece reta e segura ao homem e que conduz à morte?
Vós distinguis, de fato, entre a voz de Deus e da graça e a do mundo e da natureza?
Vós escutais realmente a voz de Deus, nosso bom Pai, que, depois de ter dado sua tríplice maldição a todos os que seguem a concupiscência do mundo: “vae, vae, vae habitantibus in terra”, vos grita amorosamente, estendendo-vos os braços: “Separamini, popule meus: separai-vos, meu povo escolhido, caros amigos da cruz de meu filho; separai-vos dos mundanos malditos por minha Majestade, excomungados por meu filho e condenados por meu Santo Espírito”.
Tomai cuidado de não vos sentar em sua cátedra empestada (cf. Sl. 1, 1 ss.); não permaneçais nas suas assembléias, nem mesmo pareis nos seus caminhos.
Fugi do meio da grande e infame Babilônia; não escuteis mais que a voz, não sigais senão as pegadas de meu filho bem-amado, que vos dei para ser vosso caminho, vossa verdade, vossa vida e vosso modelo, “ipsum audite”.
Ouvireis vós esse amável Jesus que vos clama, carregando sua cruz: “Venite post me, vinde após mim; aquele que me segue não anda em trevas; confidite, ego vici mundum, tende confiança, eu venci o mundo?”.
Eis (...) os dois partidos que se defrontam todos os dias: o de Jesus Cristo e o do mundo.
O de nosso amável Salvador está à direita, subindo, num caminho estreito e apertado, mais do que nunca, devido à corrupção do mundo.
Esse bom Mestre vai à frente, caminhando com os pés descalços, a cabeça coroada de espinhos, o corpo todo ensangüentado e carregando uma pesada cruz; Ele não tem mais que um punhado de seguidores, mas dos mais valentes, porque sua voz – tão suave – não se escuta no meio do tumulto do mundo ou não se tem coragem de segui-Lo em sua pobreza, em suas dores, suas humilhações e suas outras cruzes, que é preciso necessariamente carregar, no seu serviço, todos os dias da vida.
À esquerda está o partido do mundo ou do demônio, o qual é o mais numeroso, o mais magnífico e o mais brilhante, pelo menos em aparência. Todas as pessoas importantes correm para ele, e todos se acotovelam, embora os caminhos sejam largos e mais alargados do que nunca pela multidão que passa por eles, como em torrentes; eles são forrados de flores, cercadas de prazeres e de jogos, cobertos de ouro e de prata.

b) Cronograma

Dia
Semana
Tema da meditação
Outros exercícios

16
Sex
DESAPEGO
DO MUNDO
1. Fugir do pecado
Mt, 5, 23; Mt 11, 12.
· Veni Creator
· Ave Maris Stella

17
Sab
2. Cumprir os mandamentos
Lc, 9, 23; Jo 14, 15-24; Mt 7, 21.

18
Dom
3. Temor de Deus
Mt 25, 13; Lc 12, 4-5; Mt 7, 13-14; Mt 18, 9.

19
Seg
4. Fidelidade
Mt 6, 24; Lc 9, 62; Lc 16, 10; Mt 7, 24.

20
Ter
5. Importância da oração
Mc, 11, 24-25; Lc, 11; Lc 18, 1; Mt 26, 41; Mt 6, 5.

21
Qua
6. Conhecimento da Verdade
Lc 5, 8-17.

22
Qui
7. Humildade e mansidão
Mt 20, 26-27; Mt 5, 44; Mt 20, 16; Mt 5, 39-40; Lc 14, 11; Mt 18, 3; Mt 11, 29.

23
Sex
8. Paciência e caridade para com o próximo
Mt 9 e 7, 1-2; Mt 18, 10; At 20, 35; Mt 5, 23-24.

24
Sab
9. Mortificação, Penitência e Sofrimento
Lc, 9, 23; Mt, 6, 16; Lc, 15, 7.

25
Dom
10.Perseguição e incompreensão
Mt 6, 5-10; Lc 6, 22-23; Jo 15, 18-19.

26
Seg
11. Desapego de tudo
Mt 6, 19-20; Mc 10, 23; Lc 10, 18-25; Lc 6, 24; Lc 14, 26; Mt 19, 29; Mt 19, 21.

27
Ter
12. Confiança na Providência
Mt 22, 11-28, Jo 6, 51-52, Lc 21, 17-18; Lc 10 e 12, 7; Jo 3, 17; Lc 12, 22-30.


3. Primeira semana: Conhecimento próprio

a) Texto introdutório do tema


(Estes textos podem servir de fio geral para as meditações, ou ser lido a cada dia, como uma espécie de leitura espiritual).

São Luís de Montfort - TVD 228
Durante a primeira semana eles empregarão todas as suas orações e ações de piedade para pedir o conhecimento de si mesmos e a contrição de seus pecados; e eles farão tudo em espírito de humildade.

São Luís de Montfort - TVD 78
Para esvaziar-nos de nós mesmos é preciso, primeiramente, conhecer bem, pela luz do Espírito Santo.
a) Nosso fundo mau;
b) Nossa incapacidade para todo o bem útil para a salvação;
c) Nossa fraqueza em todas as coisas;
d) Nossa inconstância em todo tempo;
e) Nossa indignidade de toda graça e
f) Nossa iniquidade em todo lugar.
O pecado de nosso primeiro pai nos estragou, amargou, inchou e corrompeu quase inteiramente, como o fermento amarga, incha e corrompe a massa onde é posto.
Os pecados atuais que nós cometemos, sejam mortais, sejam veniais, ainda que perdoados, aumentaram nossa concupiscência, nossa fraqueza, nossa inconstância e nossa corrupção e deixaram maus restos em nossas almas.
(...) Nós somos naturalmente mais orgulhosos que os pavões, mais agarrados à terra que os sapos, mais sujos que os bodes, mais invejosos que as serpentes, mais gulosos que os porcos, mais iracundos que os tigres e mais preguiçosos que as tartarugas, mais fracos que juncos e mais inconstantes que os cata-ventos.


b) Santo Inácio de Loyola - Exercícios espirituais


Segundo exercício – Meditação dos pecados

(...) Trarei à memória todos os pecados da vida, considerando ano por ano, ou período por período. (((Para isso será útil recordar três coisas: 1º) ver o lugar e a casa onde vivi; 2º) as relações que tive com outras pessoas; 3º) a profissão que exerci.
(...) Ponderarei os pecados, considerando a fealdade e malícia que cada pecado mortal cometido tem em si, ainda que não fosse proibido.
((...) Olharei bem quem sou eu, diminuindo-me por meio de comparações: 1º) Quem sou em comparação com todos os homens? (2º) Quem são os homens em comparação com todos os anjos e santos do paraíso? (3º) Que são todas as criaturas em comparação com Deus? E eu só, que posso ser? (4º) Considerarei toda a minha corrupção e miséria do meu corpo. (5º) Ver-me-ei como uma chaga e tumor de onde saíram tantos pecados e tantas maldades e veneno tão hediondo.
(...) Considerarei quem é Deus contra quem pequei, segundo os seus atributos, comparando-os com os seus contrários em mim: a sua Sabedoria e a minha ignorância; a sua Onipotência, a minha fraqueza; a sua Justiça, a minha iniquidade; a sua Bondade, a minha maldade.
(...) Terminarei com um colóquio de sua misericórdia, ponderando vem e dando graças a Deus Nosso Senhor, porque me deu vida até agora, e proporei emenda para o futuro com a sua graça.

c) Cronograma

O propósito destas meditações é que conheçamos nossas más tendências não apenas de modo geral, como comuns a todos os homens, mas de modo particular, naquilo que em que elas têm de próprio em nós, para que conhecendo melhor, as odiemos e combatamos melhor, mas, sobretudo, para vejamos como somos impotentes por nós mesmos para vencê-las.
Analisando com cuidado o conjunto de nossos pecados, podemos descobrir também a paixão dominante, ou seja, o vício principal e mais profundo que determina a maior de nossos pecados particulares.
Como, no entanto, o homem só se move em vista de um bem, determinando essa tendência mais profunda da alma, podemos procurar ver como essa “sede”, que ilusoriamente procura satisfazer com as criaturas pode ser plenamente satisfeita em Deus, único bem a que devemos buscar.
Nem para vencer esse mal, nem para buscar com segurança e constância esse bem, temos luz na inteligência nem força na vontade, sem a graça de Deus, que se obtém segura e facilmente por meio de Maria.



28
Qua
CONHECIMENTO PRÓPRIO
Pecados: 1ª Infância
· Jaculatórias: “Domine, ut videam”, “Noverim me”.

· Ladainha do Espírito Santo

· Ave Maris Stella

· Ladainha de Nossa Senhora

29
Qui
Pecados: Infância

30
Sex
Pecados: Adolescência

31
Sab
Pecados: Idade adulta

01
Dom
Paixão dominante

02
Seg
Transposição da paixão dominante para o amor a Deus


4. Segunda semana: Conhecimento de Nossa Senhora


a) Textos introdutórios do tema

São Luís de Montfort - TVD 258
(...) Como uma alma é feliz quando (...) está inteiramente possuída e governada pelo espírito de Maria, que é um espírito.
Doce e forte
Zeloso e prudente
Humilde e corajoso
Puro e fecundo

Maria Fons

Olhando todos os adjetivos que São Luís dá, facilmente se chega à idéia de curso de água, de regato, de fonte, porque:

Ø A água que corre é suave (nunca fere, sempre é agradável).
Ø Mas forte, e é difícil resistir ao seu ímpeto e não ser arrastado; não há praticamente obstáculo que o ímpeto das águas não possa vencer, de imediato ou com o tempo;
Ø É humilde porque sempre procura o mais baixo,
Ø Mas é corajosa, porque se lança sem medo ao desconhecido, vai sempre além, sem se deter e não descansa enquanto não encontra o Mar, mesmo se, às vezes, é preciso lançar-se em abismos, fazendo uma linda cachoeira (a cachoeira é o heroísmo do rio);
Ø A água é também zelosa, porque procura diligentemente a passagem, porque “molha” tudo o que toca, porque sempre se difunde (no sentido próprio de difusão, vai pegando por “osmose”; assim como o fogo que pega em tudo o que toca, a água também; é verdade que algumas coisas são impermeáveis, molham por fora, mas não molham por dentro, como outras são incombustíveis, mas a água sempre tenta... e sempre faz algum efeito);
Ø E a água é também prudente: sempre procura o caminho fácil, o mais adequado, só vai pelo difícil quando não há jeito; sempre exerce a prudência, que é buscar o meio adequado para chegar ao seu fim.
Ø A água é também pura, não apenas é pura em si mesma (sem cor, sem gosto, sem cheiro, sem sabor è nada para os sentidos) como também purifica tudo, lava tudo, faz tudo ficar puro;
Ø E como é fecunda. Toda semente nasce, cresce e frutifica por causa da água; ela é o elemento fecundante e fecundo por excelência;

Não é sem razão, portanto, que Nossa Senhora é chamada de fonte: “Maria fons”.

b) Textos próprios para as meditações

1) Doçura

“Vita, dulcedo et spes nostra, salve...”.

São Luís de Montfort - TVD 85
(...) ele é boa, ela é terna; não há nela nada de austero nem de rebarbativo, nada de sublime demais ou brilhante demais; vendo-a, vemos nossa pura natureza. Ela não é o sol que, pela vivacidade de seus raios, poderia cegar-nos por causa de nossa fraqueza, mas ela é bela e doce como a lua, que recebe sua luz do sol e a tempera pra torná-la conforme a nossa debilidade.

Santo Afonso de Ligório – Glórias de Maria – O dulcis
Mas eu não falo aqui dessa doçura sensível, porque essa não se concede comumente a todos. Falo dessa salutar doçura de conforto, de amor, de alegria, de confiança e de fortaleza que esse nome de Maria ordinariamente dá àqueles que o pronunciam com devoção.
[...] Abrasado em amor, assim falava ternamente S. Bernardo a sua bondosa Mãe: Ó excelsa, ó bondosa e veneranda Maria, como é o vosso nome tão cheio de doçura e de amabilidade. Ninguém o pode proferir sem que se veja abrasado de amor para com Deus e para convosco.

2) Força

“Turris Davidica, Turris eburnea...”.

P. Justin de Mieckow – As litanias da Santíssima Virgem – Torre de Davi
Uma torre é um edifício elevado, dominando todos as construções ao redor e construída solidamente, na qual, à aproximação do inimigo, os habitantes do campo e das cidades se refugiam, normalmente. [...] assim a Bem-aventurada Virgem Maria é uma torre na Igreja, porque ela domina todos os que nasceram antes dela, aqueles que nasceram na santidade e foram criados na justiça. Todos os culpados, todos os tristes, todos os afligidos se refugiam nela, e por sua proteção são livres de toda espécie de inimigos.
A bem-aventurada Virgem é chamada torre por causa de sua elevação e por causa de sua força.
A elevação de Maria consiste em quatro virtudes:
· Na contemplação das coisas eternas,
· No acúmulo de méritos,
· Na força da qualidade interiores e
· No desprezo das coisas terrestres.
[...] A bem-aventurada Virgem é comparada a uma torre por causa de sua solidez. As torres são edifícios sólidos, destinados à defesa de um campo, de uma região, de uma praça, de uma cidade, nas quais, quando de um cerco, de um perigo, os soldados e todo o povo se refugiam para aí ficar em segurança. De lá eles montam guarda e vigiam para todos os lados para impedir que o inimigo entre no campo ou na cidade.
Que torre mais forte, mas sólida, mais bela que a santíssima Virgem? Deus a fortificou de tal modo pela graça que nunca ele a se afastou dele, nem por falavas, nem por ações, nem por pensamentos. Oh, que torre fortíssima foi essa alma abençoada que o demônio não pode forçar por nenhuma fraude, nenhuma sugestão. Ele não pode nunca ocupar uma só ameia dessa torre inexpugnável (...). É uma torre sólida, fundada sobre a pedra firme de que fala São Paulo: “A pedra, era Jesus Cristo...”.
É uma torre imóvel, já que “Deus no meio dela não será movido”.
A bem-aventurada Virgem uma torre forte porque, tomando nossa defesa contra os inimigos inferiores, ela desarma suas armadilhas, descobre seus estratagemas, enfraquece o seu poder, quebra a sua força, os põe em fuga e impede-os de nos suplantar e nos vencer.
[...] Numa torre, os soldados montam guarda e velam de todos os lados a fim de que o inimigo não se apodere da cidade ou da fortaleza. Velam na bem-aventurada Virgem, como numa torre muito alta, os que estudam sua vida por uma freqüente meditação e seguem seus exemplos com uma piedade assídua. Munidos assim, eles evitam todas as armadilhas, todos os estratagemas do inimigo e defendem energicamente a cidade de suas almas contra o ataque do inimigo.

3) Zelo

“E naqueles dias, levantando-se, Maria foi com pressa às montanhas, a uma cidade de Judá, e entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel...”.

Santo Afonso de Ligório – As virtudes de Maria
O amor a Deus e ao próximo nos é imposto pelo mesmo preceito. A razão e, diz Santo Tomás, que quem ama a Deus ama a tudo que por Deus é amado. Santa Catarina de Gênova dia a Deus certo dia: Senhor, quereis que ame o meu próximo, e não posso amar senão a Vós. Deus lhe respondeu: Quem me ama, ama tudo quanto me é caro.
Ora, como nunca houve nem haverá jamais criatura mais abrasada que Maria, no amor a Deus, também não houve nem haverá jamais criatura mais devotada que Ela a seu próximo.
Cornélio a Lapide, explicando um texto dos Cânticos, diz que o Verbo encarnado no seio de Maria encheu de caridade a sua Mãe, para que Ela auxiliasse a quem se Lhe dirigisse.
Maria estava tão cheia de caridade quando vivia na terra, que socorria todos quantos necessitavam de seu auxílio, mesmo sem Lho pedirem/ citemos como prova as bodas de Caná, onde pediu ao filho o milagre do vinho, expondo-lhe a situação aflitiva da família. Oh! Qual não era a sua solicitude quando se tratava de socorrer o próximo, por exemplo, quando foi à casa de Isabel para desempenhar um encargo de caridade.
Não nos podia dar melhor prova dessa grande caridade do que oferecendo seu Filho à morte por nossa salvação.
E essa caridade de Maria para conosco, dis São Boaventura, não diminuiu no céu; pelo contrário, aumentou muito.

4) Prudência

“Virgo Prudentissima...”.

“Maria, no entanto, guardava todas estas coisas, meditando-as em seu coração”.

“Como se fará isso?”.

São Bernardo, Sermão sobre o “Missus est”, 9.
“Ela, ao ouvir isso, turbou-se [Maria] e pensava que saudação seria aquela”. [...].Turbou-se, mas não se perturbou. Turbei-me, diz o profeta, e não falei, mas meditei os dias antigos e tive em minha mente os anos eternos. Assim também Maria turbou-se e não falou, mas pensava que saudação seria aquela.
O ter-se turbado, foi pudor virginal; o não se ter perturbado, foi fortaleza; o haver calado e pensado foi prudência. Pensava que saudação seria aquela.
Sabia essa Virgem prudente que muitas vezes Satanás se disfarça em anjo de luz; e, sendo humilde e modesta, não esperava tal coisa de um anjo santo; por isso pensava entre si que saudação seria aquela.

5) Humildade

“Eis aqui a escrava do Senhor”

São João Eudes – O Magnificat

Quia respexit humilitatem ancillae suae
Lançou os olhos sobre a humildade da sua serva: qual é essa humildade de que fala a Bem-aventurada Virgem? A esse respeito não são unânimes os pensamentos dos santos Doutores. Dizem alguns que, entre todas as virtudes, a humildade é a única que não se contempla e não se conhece a si mesma; pois o que se julga humilde é soberbo. Razão pela qual, ao dizer a Bem-aventurada Virgem que Deus olhou a sua humildade, não se refere à virtude da humildade, mas à sua baixeza e abjeção.
“Há duas espécies de humildade, diz São Bernardo. A primeira é a filha de verdade, é fria e sem calor. A segunda é filha da caridade, e nos abrasa. A primeira consiste no conhecimento, e a segunda na afeição. Pela primeira, conhecemos que nada somos, e esse conhecimento, tomamo-lo de nós mesmo e de nossa própria miséria e enfermidade. Pela segunda, calcamos aos pés a glória do mundo, e aprendemo-la dAquele que se aniquilou a Si mesmo, e que fugiu quando O procuraram para elevá-lO à glória de realeza; e que, em vez de fugir, ofereceu-Se voluntariamente quando O procuram para crucificá-lO e mergulhá-lO em um abismo de opróbrios e ignomínias”.
Se perguntardes porque Deus considerou antes a humildade da Santíssima Virgem que a sua pureza e suas outras virtudes, se todas nEla se achavam em grau elevadíssimo, responder-vos-á S. Alberto Magno, com Santo Agostinho, que considerou antes a sua humildade, porque Lhe era mais agradável que sua pureza.
“A virgindade é muito louvável, diz São Bernardo, mas a humildade é necessária. Aquela é de conselho, esta de mandamento. Podeis ser salvo sem a virgindade, mas sem a humildade não há salvação. Sem a humildade de Maria, ouso dizer que não teria sido agradável a Deus a sua virgindade. Se Maria não fosse humilde, o Espírito Santo não teria decido a Ela; e se não houvesse descido a Ela, Ela não seria Mãe de Deus. Ela agradou a Deus pela virgindade, mas concebeu o Filho de deus pela humildade. Donde é necessário concluir que foi a humildade que tornou sua virgindade agradável à divina Majestade”.

6) Coragem

“Regina martirum...”.

P. Justin de Mieckow – As litanias da Santíssima Virgem – Rainha dos Mártires
Há dois tipos de coragem. A primeira consiste em desprezar, por amor de Deus, as coisas que contrariam o corpo. A segunda em empreender com uma grande coragem as coisas mais difíceis, segundo a definição de Santo Ambrósio. A Santa Virgem, aos pés da cruz não desprezou todas as dores e não se imolou a si mesma ao Pai ao mesmo tempo que seu Filho? Não cooperou ela com a nossa redenção? Quem a viu abatida pela adversidade? Quem a viu alquebrada pelas dores? Quem a viu alegrar-se desmesuradamente pela prosperidade?
A coragem da Virgem brilhou com o mais alto brilho: vendo seu Filho único, não um filho qualquer, mas Deus e homem ao mesmo tempo, suspenso na cruz pelos pecados do mundo inteiro, ele suportou essa dor essa dor tão viva com tanta força de alma que não fez nada de contrário a sua dignidade ou a sua razão, nada que não indicasse a maior moderação ou a maior constância. Assim, nunca ele sofreu qualquer desfalecimento (...).
Salomão nos Provérbios procurava com cuidado uma mulher magnânima, invencível, heróica, pois as mulheres são, por natureza, fracas e covardes. “Quem encontrará, diz ele, uma mulher forte?” Maria foi essa mulher verdadeiramente magnânima e forte que, vendo seu Filho único Tão caro e inocente, amarrado diante dela, flagelado, suspenso na cruz, maltratado, vendo-os os maus porem sua carne em pedaços, não se deixou de nenhum modo perturbar pela adversidade, ansiedade, cor nem foi agitada por nenhum movimento de impaciência. “Maria, diz o santo evangelista, Mão de Jesus, se mantinha de pé junto da cruz de seu filho”.
[...] Quem exprimirá dignamente essa força de alma da Virgem? Quem não ficará estupefacto vendo tanta coragem? A experiência mostra que homens ilustres, ainda que dotados de uma grande força de alma, como César, Pompeu, Heitor, Aquiles, fraquejaram às vezes na adversidade. Não foi assim com a Virgem. Ela permaneceu inabalável no meio das tropas cruéis dos algozes, no meio dos soldados romanos e dos inimigos judeus; seu sexo, seu pudor virginal, nada a reteve em casa; a coorte de soldados não a amedrontou; a amargura da dor não a fez desmaiar; o horrível espetáculo de seu filho na cruz não a perturbou; tantas injúrias feitas a seu filho crucificado não a apavoraram e não a fizeram fugir. “Ela se manteve de pé junto à cruz de Jesus”. Oh, que coragem notável da virgem! Oh, magnanimidade mais do que heróica.


São Bernardo, 2º Sermão sobre Nossa Senhora, 5 ss.
E quem [a não ser Maria], buscava Salomão quando dizia: “A mulher forte, quem a encontrará?” Ele bem conhecia, aquele homem sábio, a fraqueza desse sexo, seu corpo frágil, seu espírito inconstante.
Contudo, ele tinha lido que Deus prometera que aquele que vencera pela mulher seria, por sua vez, vencido pela mulher, e ele via que isso era uma coisa muito conveniente. Assim, repleto de uma veemente admiração, ele exclamava; “A mulher forte, quem a encontrará?”, o que queria dizer: se da mão de uma mulher depende a salvação de todos nós, a restauração da inocência e a vitória sobre o inimigo, é preciso, absolutamente, prevê-la forte, a que será capaz de uma tão grande obra.
Mas “essa mulher forte, quem a encontrará?” E, para mostrar bem que não procurava sem esperança, acrescenta como profeta: “Seu preço nos vem de longe, das extremidades da terra”, o que quer dizer?
O valor dessa mulher não é qualquer coisa de vil, de insignificante ou de medíocre, ele não vem da terra, mas do céu, nem sequer do céu próximo da terra, mas “seu ponto de partida é o mais alto dos céus”.

7) Pureza

“Virgo virginum, Mater castissima”.

São Bernardo, Sermão sobre o “Missus est”, 7.
(...) Oh virgem prudente! Oh virgem devota! Quem te ensinou que agradava a Deus a virgindade?
Que lei, que rito, que página do Velho Testamento manda, ou aconselha, ou exorta, a viver na carne castamente e a viver vida de anjo na terra?
E onde tinhas lido, Virgem devota, que a sabedoria da carne é morte (NT) e não queirais contentar vossa sensualidade, satisfazendo a seus apetites?
E onde tinhas lido das virgens que cantam um novo cântico que ninguém mais pode cantar, e que seguem o cordeiro onde quer que ele vá (Apocalipse)?
E onde tinhas lido que são louvados os que se fizeram continentes por amor do reino de Deus? (Evangelho)
E onde tinhas lido “embora vivamos na carne nossa conduta não é carnal (São Paulo)? O que casa sua filha faz bem, mas o que não casa faz melhor (São Paulo)? Onde tinhas ouvido? Quisera que todos vós permanecêsseis como eu; é bom para o homem, se assim permanece como eu lhe aconselho (São Paulo)? Quanto às virgens, não recebi preceito do Senhor, mas dou conselho (São Paulo)”.
Mas tu, Maria, não digo preceito, mas nem conselho, nem exemplo tinhas, mas a moção interior de Deus te ensinava tudo, e seu Verbo vivo e eficaz, fazendo-se primeiro teu mestre que teu filho, instruiu tua mente antes de vestir tua carne. Fazes voto, pois, de apresentar-te a Cristo virgem, sem saber que está reservado para ti o ser mãe. Escolhes ser desprezada em Israel e incorrer na maldição da esterilidade, para agradar àquele Senhor a cujos olhos fazes o mais perfeito, e olha como a maldição se transforma em bênção e a esterilidade é premiada com a fecundidade.

8) Fecundidade

“Mater Christi...”.

São Bernardo, 1º Sermão sobre Nossa Senhora, 7 ss.
Há, porém, alguma coisa de ainda maior a admirar em Maria: a fecundidade junta à virgindade. Nunca se ouvir dizer que alguma mulher fosse ao mesmo tempo mãe e virgem.
Mas se tu prestas atenção à de quem ela é mãe, até onde ira tua admiração por sua excelência extraordinária? Não é de constatar que tu não podes admirar suficientemente?
A teu julgamento, ou antes, ao julgamento da Verdade, aquela que teve Deus por filho não deverá ser “exaltada mais alto que todos os coros de anjos?“.
Deus, o Senhor dos anjos, não ousou Maria chamá-lo seu filho quando disse “Meu filho por que nos fizeste isso?”.
Qual dos anjos o teria ousado? Basta-lhes, e eles consideram como grande, sendo espíritos por natureza, servirem e serem chamados, por graça, de mensageiros, segundo o testemunho de Davi: “ele fez dos espíritos seus mensageiros”.
Maria, por seu lado, que sabe que é sua mãe, dá com confiança esse nome de filho à Majestade que os anjos servem com respeito. E deus não desdenha ser chamado daquilo que se dignou ser. Um pouco além, com efeito, o evangelista ajunta: “E ele lhes era submisso”. Quem, e a quem? Deus a homens. Sim, Deus a quem os anjos estão submetidos, a quem obedecem aos Principados e as Potestades, Deus era submisso a Maria. E não apenas a Maria, mas também a José por causa de Maria. Admira uma e outra coisa, e escolhe a que é mais admirável: ou o dulcíssimo abaixamento do filho, ou a sobreeminente dignidade da mãe. Dos dois lados, é estupefaciente, dos dois lados maravilhoso: que Deus obedeça a uma mulher, eis uma humildade sem exemplo; que uma mulher comande a Deus, eis uma sublimidade sem igual. Canta-se, em honra das virgens, que ela “seguem o Cordeiro onde quer que Ele vá”. De que glória se julgará digna, então, aquela que caminha diante dEle?

Santo Agostinho – Comentário ao Salmo 84

A verdade nasceu da terra
“A verdade nasceu da terra e a Justiça inclinou-se do céu” (Sl 84, 12).
Cristo nasceu da mulher. “A verdade nasceu da terra”. O Filho de Deus procedeu da carne.
E o que é a Verdade? - O Filho de Deus!
E o que é a terra? - A carne!
Procura de onde nasceu Cristo e verás que a Verdade nasceu da terra. Mas a verdade que nasceu da terra existia antes da terra e por ela forma feitos o céu e a terra.
Mas para que a Justiça olhasse do céu, isto é, para que os homens se justificassem pela graça divina, a Verdade nasceu da Virgem Maria. Tudo a fim que pudesse oferecer o sacrifício em favor daqueles que haviam de ser justificados: o sacrifício da paixão, o sacrifício da cruz.

c) Cronograma

03
Ter
CONHECIMENTO DE N. SRA.
Doce e forte
· Ladainha do Espírito Santo

· Ave Maris Stella

· Um rosário ou, pelo menos, um terço.

04
Qua
Zeloso e prudente

05
Qui
Humilde

06
Sex
Corajoso

07
Sab
Puro

08
Dom
Fecundo


5. Terceira semana: Conhecimento de Nosso Senhor

a) Texto introdutório do tema


São Luís de Montfort, ASE 154.
Ente todas as razões que nos podem excitar a amar Jesus Cristo, a Sabedoria incarnada, a mais poderosa, em minha opinião, é a [quantidade de] dores que ele quis sofre para nos testemunhar seu amor.
“Há, diz São Bernardo, um motivo que ultrapassa a todos, que me toca mais sensivelmente e me incita a mar Jesus Cristo: é, oh bom Jesus, o cálice de amargura que bebestes por nós, e a obra da nossa redenção, que vos torna amável a nossos corações, pois esse soberano benefício e esse testemunho incomparável de vosso amor adquire facilmente o nosso: ele nos atrai mais docemente, ele nos pede mais justamente, ele nos incita mais fortemente e ele nos toca mais poderosamente: Hoc est quod nostram devotionem et blandius allicit et justius exigit, et arctius stringet et afficit vehementius”.E a razão que ele dá em poucas palavras: “porque este caro Salvador trabalhou muito e muito sofreu para conseguir resgatar-nos. Oh! quantas penas e angústias ele suportou!”.
Mas o que nos fará ver claramente esse amor infinito da Sabedoria por nós, são as circunstâncias que se encontram em seu sofrimento...

(No cronograma parecem enumeradas as circunstâncias que São Luís menciona em seu texto. Para as meditações podem se usar os textos dos próprios Evangelhos e também as profecias referentes à paixão – fáceis de encontrar na Liturgia da Semana Santa, no Missal.).

b) Cronograma

09
Seg
CONHECIMENTO DE N.SR.
A excelência daquele que sofre
· Ladainha do Espírito Santo

· Ave Maris Stella

· Ladainha do Santo Nome de Jesus

10
Ter
A qualidade das pessoas por quem ele sofre (os homens, eu).

11
Qua
Quantidade e qualidade dos sofrimentos (no corpo, na alma – solidão, traição, desonra, piedade, etc - de amigos, de inimigos, de gente baixa, de autoridades, de sua Mãe – por vê-la sofrer – de Seu Pai).

12
Qui

13
Sex

14
Sab
Amor aos homens manifestado durante o sofrimento

15
Dom
Dia da Consagração



No dia da Consagração a Nossa Senhora é fortemente recomendável que se esteja em estado de graça e, sendo possível, que se comungue, recitando a consagração durante a ação de graças. São Luís sugere também que se ofereça a Nossa Senhora um presente.
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