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terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Santo Afonso Maria de Ligório - PARA O ÚLTIMO DIA DO ANO (II)

 
 
Jesus Cristo tem feito e padecido tudo por nosso amor.
 
Dilexit me, et tradidit semetipsum pro me — “Ele me amou, e se entregou a si mesmo por mim” (Gal. 2, 20).

I. Se é verdade, ó meu Jesus, que por meu amor abraçastes uma vida penosa e uma morte amargosa, posso dizer com razão, que a vossa morte é minha, que são minhas as vossas dores, meus os vossos merecimentos, que, em suma,Vós mesmo sois meu, já que por meu amor Vos entregastes a tão grandes padecimentos. Ah, meu Jesus! Nada me aflige tanto como o pensar que houve um tempo em que Vós éreis meu, e eu voluntariamente Vos tenho perdido repetidas vezes. Perdoai-me e estreitai-me ao vosso peito, nem permitais que eu ainda torne a ofender-Vos. Amo-Vos de toda a minha alma. Vós quereis ser todo meu, eu quero ser todo vosso.

O Filho de Deus, por ser Deus verdadeiro, é infinitamente feliz. Contudo, observa Santo Tomás, Ele tem feito e padecido tanto por amor do homem, como se sem este não pudesse ser feliz: quasi sine ipso beatus esse non posset. Se Jesus Cristo, durante a sua vida terrestre, tivera de merecer a eterna bem-aventurança para si mesmo, que é que mais pudera fazer do que carregar-se de todas as nossas fraquezas, tomar sobre si todas as nossas misérias, para depois terminar a vida com uma morte tão dura e ignominiosa? Mas Jesus era inocente, santo e bem-aventurado em si mesmo; tudo quanto tem feito e padecido, tem-no feito a fim de merecer para nós a graça divina e o paraíso perdido. — Desgraçado de quem não Vos ama, ó Jesus meu, e não vive abrasado no amor de tão grande bondade!


II. Se Jesus Cristo nos houvera permitido, que lhe pedíssemos as provas mais manifestas do seu amor, quem jamais se teria animado a pedir-lhe, se fizesse criança semelhante às outras crianças, abraçasse todas as nossas misérias, se fizesse entre os homens, o mais pobre, o mais desprezado, o mais mal tratado, até morrer à força de tormentos sobre um lenho infame, amaldiçoado e abandonado de todos, mesmo do seu próprio Pai? Mas o que não nos animaríamos nem sequer a imaginar, Jesus o excogitou e fez.


Ó meu amado Redentor, peço-Vos que me concedais a graça, que para mim merecestes com a vossa morte. Amo-Vos e pesa-me de Vos ter ofendido. Tomai posse da minha alma; não quero que ela continue em poder do demônio. Quero que ela seja toda vossa, já que Vós a comprastes com o vosso sangue. Vós me amais a mim e eu quero só amar a Vós. Preservai-me do castigo de viver sem o vosso amor, e pelo mais castigai-me como quiserdes. Maria, meu refúgio, a morte de Jesus e a vossa intercessão são a minha esperança. (II 320.)

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 104 - 105.)

Fonte: Blog São Pio V

Santo Afonso Maria de Ligório - PARA O ÚLTIMO DIA DO ANO


Devemos aproveitar bem o tempo.
Por Santo Afonso Maria de Ligório

Ecce breves anni transeunt, et semitam per quam non revertar ambulo — “Vê que passam os breves anos, e eu caminho por uma vereda pela qual não voltarei” (Iob. 16, 23)

Sumário. Com razão o Espírito Santo nos exorta a que conservemos o tempo, porquanto o tempo é não somente precioso, mas ainda de muito curta duração. Lembra-te de como se passaram depressa os doze meses desse ano que hoje termina. Dize-me, irmão meu, como é que até hoje tens empregado o tempo? Esforças-te, ao menos, em resgatar o tempo perdido, empregando-o melhor para o futuro? Quem sabe? Talvez o ano que finda, seja o último da tua vida!

I. O tempo, sobre ser a coisa mais preciosa, porque é um tesouro que só neste mundo se acha, é ainda de muito curta duração. Ecce breves anni transeunt. Lembra-te de como se passaram depressa os doze meses do ano que hoje finda! É, portanto, com razão que o Espírito Santo nos exorta a conservarmos o tempo, e não deixarmos perder-se um só momento sem o aproveitarmos bem. Mas, ai de nós! Quão diversamente vão as coisas! Ó tempo desprezado, tu serás a coisa que os mundanos mais desejarão na hora da morte, quando ouvirem dizer que para eles não haverá mais tempo: Tempus non erit amplius.

E tu, irmão meu, em que empregas o teu tempo? Deus te concedeu a graça de teres chegado até ao dia de hoje, com preferência a tantos milhares e milhões de pessoas, talvez da tua idade, ou mesmo mais novas, talvez fortes como tu ou ainda mais robustos, com a mesma compleição que tu, ou talvez mais sadia. Elas morreram e tu estás vivo! Elas estão reduzidas à podridão e cinzas no túmulo e tu estás aqui meditando! Elas na eternidade, e muitas infelizmente no inferno, e tu ainda no tempo! Mas como é que passas o tempo? Em que coisas o empregaste até hoje?

Faze aqui, aos pés de Jesus Cristo, um exame geral da tua vida. Pondera, por um lado, as inúmeras graças com que Deus te tem cumulado especialmente no correr deste ano; por outro, recorda as faltas, as imperfeições, quiçá os pecados, com que continuamente, desde o primeiro dia do ano até este último, tens ofendido o Senhor, retribuindo-Lhe a liberalidade infinita com ingratidão. Ah! Se não resgatares desde já o tempo inutilmente perdido, ou quiçá mal empregado, ele te causará remorsos amargosos, quando, no leito da morte, te achares próximo àquele grande momento do qual depende a eternidade!


II. Meu irmão, se, por desgraça, tiveres de reconhecer que passaste na tibieza o tempo do ano que terminou, procura passar no fervor ao menos este último dia. Agradece muitas vezes a Deus o ter-te conservado em vida até ao dia de hoje e pede-Lhe perdão das negligências passadas no Seu serviço. Visto que não sabes se viverás até ao dia de amanhã e se entrarás ainda no ano novo, põe hoje mesmo em ordem as coisas de tua consciência e purifica a tua alma por meio de uma confissão anual. Afinal, faze um propósito firme e eficaz de servires a Deus para o futuro com mais zelo, e de empregares melhor o ano vindouro. É assim que, no dizer do Apóstolo, andarás no caminho da Salvação com circunspeção, e recobrarás o tempo: Videte quomodo caute ambuletis... redimentes tempus (1) — “Vêde como andais prudentemente... remindo o tempo”.

“Ó Senhor, cuja misericórdia não tem limites, cuja bondade é um tesouro inesgotável, dou graças à Vossa Majestade piedosíssima por todos os benefícios que me tendes feito, e em particular, pelo tempo que me concedeis para chorar as minhas culpas, e reparar as minhas desordens. Quem sabe se o ano que hoje finda, não será talvez o último inteiro da minha vida? Não, não quero mais resistir aos vossos convites tão amorosos. Pesa-me, ó meu Bem supremo, de Vos ter ofendido e proponho fazer de hoje em diante contínuos atos de amor, a fim de compensar o tempo perdido”.

“Como, porém, os misteres da vida não me permitem dirigir os meus pensamentos sem interrupção para Vós, faço hoje o seguinte ajuste, que será válido durante todo o ano vindouro e todo o tempo da minha vida. Cada vez que levantar os olhos para contemplar o céu, tenho intenção de glorificar as vossas perfeições infinitas. Quantas vezes respirar, quero oferecer-Vos a Paixão e o Sangue de meu divino Redentor, bem como os merecimentos de todos os Santos, para a Salvação do mundo inteiro e em satisfação dos pecados que se cometerem. — Toda a vez que bater no peito, quero amaldiçoar e detestar cada um dos pecados cometidos desde o princípio do mundo, e quisera poder repará-los com o meu sangue. Finalmente, a cada movimento das mãos, ou dos pés, ou de qualquer outra parte do corpo, tenciono submeter-me à vossa santíssima vontade, desejando que de conformidade com esta, se façam todas as coisas. Para que este meu ajuste nunca mais seja violado, confirmo-o e selo-o com as cinco Chagas de Jesus Cristo, e deposito-o em Vossas mãos, ó Mãe da perseverança, Maria (2).
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1. Eph. 5, 15.
2. Esta fórmula de reta intenção foi composta por São Clemente Maria Hoffbauer, C.SS.R.


(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 101 - 104.)
Fonte: Blog São Pio V

Felicidade de quem nasceu depois da Redenção e na Igreja Católica - Santo Afonso Maria de Ligório

Por Santo Afonso Maria de Ligório

Ubi venit plenitudo temporis, misit Deus Filium suum, ut eos, qui sub lege erant, redimeret — “Quando chegou a plenitude do tempo, enviou Deus a seu Filho, para que remisse aqueles que estavam debaixo da lei” (Gal. 4, 4).

I. Que graças devemos dar a Deus por nos haver feito nascer depois de já realizada a grande obra da Redenção humana! É isso o que quer dizer a palavra plenitudo temporis — “plenitude do tempo” — , tempo venturoso pela plenitude da graça que Jesus Cristo nos mereceu pela sua vinda. Infelizes de nós, se, réus de tantos pecados como somos, tivéssemos vivido nesta terra antes da vinda de Jesus Cristo!

Antes da vinda do Messias, ah! Em que lamentável condição se achavam os homens! O verdadeiro Deus era apenas conhecido na Judéia; em todas as outras partes do mundo reinava a idolatria, de modo que os nossos antepassados adoravam a pedra, a madeira e os demônios.

Adoravam um sem-número de falsos deuses. Somente o verdadeiro Deus não era amado, nem mesmo conhecido. Ainda em nossos tempos, quantos países não há onde é reduzido o número de católicos e todos os demais são pagãos ou hereges, dos quais a maior parte com certeza se condenarão! Quanto mais nós devemos ser agradecidos a Deus, porque não somente nos fez nascer depois da vinda de Jesus Cristo, mas além disso em um país católico!

Senhor meu, graças Vos dou. Ai de mim, se, depois de cometer tantos pecados, vivesse no meio dos infiéis ou dos hereges! Reconheço, ó meu Deus, que me quereis salvo, e eu desgraçado tantas vezes quis perder-me perdendo a vossa graça. Redentor meu, tende piedade de minha alma que tanto Vos custou!

II. Misit Deus Filium suum, ut eos, qui sub lege erant, redimeret (1) — “Deus enviou seu Filho, para que remisse aqueles que estavam debaixo da lei”. Peca o escravo, e pecando entrega-se ao poder do demônio; e eis que vem seu Senhor mesmo para o resgatar com a sua morte! Ó amor imenso, ó amor infinito de Deus para com o homem!

Portanto, ó meu Redentor, se Vós não me tivésseis remido com a vossa morte, o que seria de mim? De mim, digo, que pelos meus pecados tantas vezes tenho merecido o inferno. Se Vós, ó Jesus meu, não tivésseis morrido por mim, já Vos teria perdido para sempre, nem haveria mais para mim esperança alguma de recuperar a vossa graça, nem de ver um dia no paraíso o vosso belo rosto. Meu caro Salvador, graças Vos dou, e espero ir ao céu para Vos agradecer eternamente. Pesa-me acima de todos os males, de Vos ter desprezado em outro tempo. Para o futuro proponho antes sofrer toda a pena, qualquer morte, do que ofender-Vos. Mas como em tempos passados Vos tenho traído, posso tornar a trair-Vos para o futuro. Ó meu Jesus, não queirais permití-lo. Ne permittas me separari a te (2) — “Não permitais que eu me aparte de Vós”. Amo-Vos, Bondade infinita, e quero amar-Vos sempre nesta vida e durante toda a eternidade. — Ó minha Rainha e Advogada, Maria, guardai-me sempre debaixo de vosso manto e livrai-me do pecado. (III 319.)
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1. Gal. 4, 4.
2. Or. “Anima Christi”.


(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 94 - 96.)

Santo Afonso Maria de Ligório - Festa dos Santos Inocentes


 Festa dos Santos Inocentes.
por Santo Afonso Maria de Ligório

Herodes... mittens occidit omnes pueros, qui erant in Bethlehem, et in omnibus finibus eius, a bimatu et infra — “Herodes... espalhando emissários, fez matar os meninos todos que havia em Belém, e em todo o seu termo, que tinham dois anos e daí para baixo” (Matth. 2, 16)

Sumário. Devemos considerar bem que o Senhor é a Sabedoria infinita, que sabe tirar o bem do mal. Por isso, o que nós chamamos um mal, é as mais das vezes uma graça singular. De tantas crianças que hoje veneramos sobre os altares e que formam a corte de Jesus, se não tivessem sido mortas por Herodes, quem sabe quantas no tempo da Paixão teriam gritado: Crucifige eum: Crucifica-o; quantas se teriam condenado!

I. Depois que os Magos ofereceram os seus presentes místicos ao Menino Jesus, foram avisados em sonho pelo anjo, que não voltassem a Herodes, como tinham prometido, mas que por outro caminho voltassem para sua pátria. Por isso o príncipe cruel, receoso de que Jesus lhe quisesse tirar o reino, e vendo que os Magos o haviam enganado, irritou-se fortemente e mandou fossem mortos todos os meninos que havia em Belém e em todo o seu termo, que tivessem dois anos e daí para baixo, segundo o tempo que havia colhido das informações dos Magos: Mittens occidit omnes pueros — “Enviando emissários mandou matar todos os meninos”.

Considera aqui os profundos juízos de Deus. Encarando a matança dos Inocentes com olhos humanos, não se sabe explicar como é que o Senhor, que é um Pai amoroso, pode ver tantas mães em desolação e uma cidade inteira com os seus contornos inundada de sangue inocente. — Devemos, porém, ponderar que Deus é a Sabedoria infinita, que sabe tirar o bem do mal. O que nós chamamos um mal, é as mais das vezes uma graça singular. Quantos dentre os Meninos inocentes teriam levado vida cheia de trabalhos e afinal talvez se tivessem condenado! Alguns talvez tivessem chegado ao extremo de tomar parte na Paixão do Redentor e gritado com os outros judeus: crucifige eum — “crucifica-o”. Em lugar disso, com a morte padecida por causa de Jesus Cristo, ficou-lhes segura a eterna salvação. Mais, são a corte nobre do Deus-Menino e com suas pequeninas palmas adornam o berço do Cordeirinho imaculado. Pelo que Santo Agostinho diz que “Herodes com os seus obséquios nunca pudera favorecer tanto as crianças bem-aventuradas, quanto as favoreceu com o seu ódio”.

Regozija-te com os Santos Inocentes, que glorificaram Jesus, derramando o seu sangue, e não podendo anunciar com a língua o nascimento do Filho de Deus, anunciaram-no com a sua morte. E tu, convence-te bem de que tudo o que te faz segura a eterna bem-aventurança, é uma grande graça, muito embora aos olhos humanos se te afigure miséria e prejuízo.


II. Quando na Judéia se executava o ímpio mando da matança dos Inocentes, Jesus-Menino já estava fora de perigo. Porque “apareceu um anjo do Senhor em sonhos a José e lhe disse: Levanta-te, e toma contigo o Menino e sua Mãe, e foge para o Egito e fica lá até que eu te avise; porque Herodes procurará o Menino para o matar. E, levantando-se José, tomou consigo, ainda de noite, o Menino e sua Mãe, e retirou-se para o Egito.” (1) Contempla como o divino Menino devia sentir a crudelidade de que Herodes usava para com os Inocentes mortos por sua causa. Toda a facada que traspassava as entranhas daquelas criancinhas, também lhe feria o coração.

Desde então ficou decretado o castigo do autor de tamanha barbaridade. Com efeito, por causa de tão horrível carnificina, Herodes tornou-se objeto de opróbrio e de execração do mundo inteiro, ao passo que fez mais conhecida a natividade do Messias, porque a morte de tantas crianças lhe foi o mais claro testemunho. Além disso Deus deixou Herodes morrer de uma doença asquerosa e nojenta. Nasceram-lhe no corpo um número incalculável de bichos, que o devoravam vivo e causavam um fedor insuportável, prelúdio daquele que em breve havia de atormentá-lo eternamente no inferno. Eis a que estado de desgraça foi reduzido Herodes por se ter deixado dominar pela ambição desregrada de reinar. — A fim de que não te colha semelhante desgraça, examina qual seja a tua paixão dominante, a soberba ou a inveja ou a ira... e faze o firme propósito de nunca tomares uma decisão qualquer enquanto teu coração estiver em agitação e as paixões excitadas. Para obteres a graça de o executar, roga ao Senhor pela intercessão dos Santos Inocentes.

“O Deus, cujos louvores os Inocentes Mártires confessaram hoje, não falando, senão morrendo, mortificai em nós todos os males dos vícios, para que nossa vida dê com santos costumes testemunho da fé, que a nossa língua confessa.” (2) Fazei-o pelo amor de Jesus Cristo, vosso divino Filho, e de Maria Santíssima, minha querida Mãe.
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1. Matth. 2, 13.
2. Or. festi.


(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 91 - 94.)

Santo Afonso, Meditação: Jesus amamentado

 por Santo Afonso Maria de Ligório
 
MEDITAÇÃO IV.

JESUS AMAMENTADO.

O Menino Jesus, depois de envolvido em paninhos, pedia e tomava o leite do seio de Maria. A Esposa dos Cânticos desejava ver seu irmãozinho sugando o leite de sua mãe; mas seu desejo não foi satisfeito. Nós, ao contrário, tivemos a felicidade de ver o Filho de Deus feito homem e tornado nosso irmão, tomar seu alimento do seio de Maria. Oh! que espetáculo para o céu ver o Verbo divino feito menino e sugando o leite duma jovem virgem, sua criatura!

Eis pois Aquele que alimenta todos os homens e todos os animais da terra, feito tão fraco e tão pobre, que necessita dum pouco de leite para sustentar a vida! A Irmã Paula, camaldulense, ao ver uma imagem de Jesus amamentado, sentiu-se logo abrasada de terno amor para com Deus. Jesus tomava pouco leite e só raramente; foi revelado à Irmã Maria-Ana, franciscana, que sua Santíssima Mãe lhe dava o seio só três vezes ao dia. Ó leite precioso para nós! convertido em sangue nas veias de nosso Redentor, tornou-se depois num banho de salvação para nossas almas manchadas. 

Consideremos ainda que Jesus tomava esse leite para sustentar o corpo que queria dar-nos em alimento na santa comunhão. — Assim, meu terno Salvador, sugando o leite de vossa Mãe, pensastes em mim: pensastes em mudar esse leite em sangue, para o derramar depois na vossa morte, em fazer dele o preço da minha redenção, e em nutrir minha alma no Santíssimo Sacramento, que é o leite salutar pelo qual conservais nossas almas na vida da graça: “O leite de vossas almas é Jesus Cristo”, dizia S. Agostinho. 

Ó Menino querido ao meu coração, ó meu Jesus, permiti exclame eu como a mulher do Evangelho: Felizes as entranhas que vos levaram, e os peitos que sugastes. — Sim, sois bem-aventurada ó Mãe de Deus, que amamentastes o Verbo encarnado! Ah! permiti que me una a vosso divino Filho para receber de vós o leite duma terna e afetuosa devoção ao Menino Jesus e a vós, minha queridíssima Mãe! 

Rendo-vos graças, ó divino Infante, que vos sujeitastes à necessidade do leite a fim de me testemunhar o vosso amor! — O Senhor deu a entender a S. Maria Madalena de Pazzi que se reduziu a essa necessidade precisamente para nos mostrar seu amor para com as almas por Ele resgatadas.

Afetos e Súplicas. 

Ó meu doce Jesus, amável Menino, sois o Pão do céu e o alimento dos anjos; vós nutris todas as criaturas; como estais reduzido a mendigar um pouco de leite duma virgem para sustentar vossa vida? — Ó amor divino, como pudestes tornar um Deus tão pobre ao ponto de necessitar dum nutrimento terrestre? Ah! compreendo-vos, meu Jesus, recebeis o leite de Maria no estábulo para o transformar em sangue precioso que quereis oferecer a Deus na cruz em sacrifício de expiação por nossos pecados! Dai, ó Maria, dai todo o leite que podeis dar a vosso divino Filho, pois cada gota desse leite deve servir para lavar minha alma de suas manchas, e nutri-la depois na santa comunhão! — Ó meu Redentor, como vos não amará aquele que crê no que fizestes e sofrestes para salvar-nos? E eu sabendo isso, como pude ser tão ingrato para convosco? Mas a vossa bondade é minha esperança e me assegura que, se eu quiser a vossa graça, ela me pertence. Ó Bem supremo, arrependo-me de vos haver ofendido, e amo-vos sobre todas as coisas, ou antes, não amo senão a vós, e só a vós quero amar, sois e sereis sempre meu único Bem e meu único Amor. Meu caro Redentor, dai-me, vo-lo peço, uma terna devoção à vossa santa infância, como o fizestes a tantas almas que, à recordação de vossa infância, parecem esquecer tudo e não mais poder pensar senão em vos amar. É verdade que elas são inocentes e eu pecador; mas vos fizestes pequeno para vos fazer amar também pelos pecadores. Sim, meu Deus, eu vos ofendi, mas agora amo-vos de todo o meu coração e só desejo o vosso amor. 

Ó Maria, dai-me um pouco da ternura com que nutríeis com vosso leite o Menino Jesus.

Fonte: Blog São Pio V

Oferecimento do coração a Jesus Menino - Santo Afonso Maria de Ligório


 
Oferecimento do coração a Jesus Menino
 
Santo Afonso Maria de Ligório

Dilectus meus mihi et ego illi, qui pascitur inter lilia. — “O meu amado é meu e eu sou dele, que se apascenta entre as açucenas” (Cant. 2, 16).

I. Alma devota, aviva a tua fé e a tua confiança. O mesmo Jesus que, por nosso amor, baixou do céu à terra e quis nascer numa gruta fria, está agora, abrasado no mesmo amor, escondido no Santíssimo Sacramento. Que é o que faz ali? Respiciens per cancellos (1) — “Olha por entre as grades”. Qual amante aflito pelo desejo de ver seu amor correspondido, Jesus de dentro da Hóstia consagrada, como que por entre uma grade estreita, olha-te sem ser visto, espreita os teus pensamentos, os teus afetos, os teus desejos, e convida-te suavemente achegar-te a si. Eia pois, dá contento ao Amante divino e aproxima-te d'Ele.

Lembra-te, porém, do que ordena: Non apparebis in conspectu meo vacuus (2) — “Não aparecerás em minha Presença com as mãos vazias”. Quem se chegar ao altar para me honrar, não se chegue sem me presentar alguma oferta. Na noite do Natal, os pastores que foram visitar o Menino Jesus na gruta de Belém, trouxeram-lhe os seus presentes. É pois mister que tu também Lhe ofereças o teu presente. Que poderás oferecer-lhe? O presente mais precioso, que possas trazer para o Menino Jesus, é um coração penitente e amante: Praebe, fili mi, cor tuum mihi (3) — “Meu Filho, dá-me o teu coração”.

Ó meu Senhor, eu não devia ter ânimo de me chegar a Vós, vendo-me tão manchado de pecados. Mas já que Vós, Jesus meu, me convidais com tamanha benevolência e me chamais com tamanho amor, não quero resistir. Não quero fazer-Vos esta nova afronta que, depois de Vos ter tantas vezes virado as costas, deixasse agora por desconfiança de aceder a vosso doce convite. Mas sabeis que sou pobre de tudo e que não tenho nada que oferecer-Vos. Não tenho senão o meu coração, e este Vô-lo dou. Verdade é que este meu coração durante algum tempo Vos tem ofendido, mas agora está arrependido, e contrito como se acha, eu Vô-lo ofereço. Sim, meu divino Menino, pesa-me de Vos ter dado desgosto. Confesso-o: tenho sido um traidor, um ingrato, um desumano fazendo-Vos sofrer tanto e derramar tantas lágrimas no presépio de Belém; mas as vossas lágrimas são a minha esperança. Sou um pecador e não mereço perdão, mas dirijo-me a Vós, que, sendo Deus, Vos fizestes criança para me perdoar. — Pai Eterno, se eu mereci o inferno, vêde as lágrimas desse vosso Filho inocente; são elas que Vos imploram o meu perdão. Vós não negaes nada às súplicas de Jesus Cristo. Atendei-O, visto que Vos pede que me perdoeis nestes dias santíssimos, que são dias de alegria, dias de salvação, dias de perdão.


II. Ó meu pequenino Jesus, espero que me perdoareis; mas só o perdão de meus pecados não basta. Neste santo tempo do Natal dispensais às almas graças grandes. Eu também quero uma graça bem grande, e deveis conceder-ma: é a graça de Vos amar. Agora que me chego aos vossos pés, abrasai-me todo em vosso amor e prendei-me a Vós, mas prendei-me de tal modo que eu nunca mais me afaste de Vós. Assim, ó meu Deus amabilissimo, espero que Vos amarei sempre e que Vós sempre me amareis: assim, ó meu amado Jesus, espero que serei sempre todo vosso e que Vós sempre sereis todo meu: Dilectus meus mihi et ego illi — “O meu amado é para mim e eu sou para ele.” Creio em Vos, ó Bondade infinita; espero em Vós, ó Bondade infinita; amo-Vos, ó Bondade infinita. Amo-Vos, ó meu Deus, feito Menino por meu amor, amo-Vos, e sempre o hei de repetir, amo-Vos, amo-Vos. † Jesus, meu Deus, amo-Vos sobre todas as coisas (4).

Mas, não Vos amo bastante; quero amar-Vos muito, e Vós deveis fazer que assim seja. Ofereço-Vos o meu coração, entrego-o todo inteiro, não o quero mais. Mudai-o e guardai-o para sempre. Não mo entregueis mais, pois, se o entregardes em minhas mãos, tenho medo que Vos tornará a trair.

Maria Santíssima, vós sois a Mãe desse grande Filho, sêde também minha Mãe; em vossas mãos deposito o meu coração, apresentai-o a Jesus; se Lho apresentardes, Jesus não o rejeitará. Apresentai-o, pois, e rogai que o queira aceitar. Amém. (*III 730.)
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1. Cant. 2, 9.
2. Exod. 23, 15.
3. Prov. 23, 26.
4. 50 dias de indulg. para quem rezar esta jaculatória ou a ensinar aos outros.


(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 89 - 91.)


Fonte Blog São Pio V

Santo Afonso Maria de Ligório - Festa de São João Evangelista

Festa de São João Evangelista.
Santo Afonso Maria de Ligório

Discipulus ille quem diligebat Iesus — “O discípulo a quem Jesus amava” (Io. 21, 7).

Sumário. Consideremos as provas de predileção especial que Jesus deu a seu discípulo João. Chamou-o um dos primeiros, ao apostolado; fê-lo seu confidente, na última ceia permitiu-lhe que reclinasse a cabeça sobre o seu peito; finalmente, no Calvário fê-lo herdeiro do que tinha de mais caro, dando-lhe como mãe a Maria. Nós também temos recebido de Deus muitas provas de pedileçâo; mas que diferença entre a nossa correspondência e a de São João!

I. Considera as provas de predilecção que Jesus deu a São João. Chamou-o um dos primeiros, ao apostolado; e ainda que fosse o mais jovem de todos, Jesus lhe comunicou os arcanos mais recônditos do seu coração, fê-lo seu confidente, de sorte que o Príncipe dos Apóstolos, não se animando a interrogar o Senhor na última ceia, rogou a João que o fizesse. Junto com São Tiago, seu irmão, e São Pedro, Jesus o fez testemunha do milagre da ressurreição da filha de Jairo, da sua gloriosa Transfiguração no Tabor e de sua agonia no horto. Também na última ceia, quando Jesus quis fazer os supremos esforços de seu amor, e deu a todos, pela instituição da santíssima Eucaristia, um penhor especial do seu afeto, deu todavia um penhor especialíssimo para o seu amado João. Fê-lo sentar-se a seu lado e permittiu-lhe reclinasse a cabeça sobre o seu peito. Desse contato, diz Santo Agostinho, João tirou os sublimes conhecimentos de mistérios incompreensiveis, que depois registrou no seu Evangelho e que lhe alcançaram o nome de teólogo divino por excelência, e de águia entre os evangelistas.

Mas a mostra mais patente de afeto deu Jesus Cristo a este seu Benjamin no Monte Calvário, quando, prestes a expirar, lhe deu Maria por mãe, instituiu-o herdeiro do que havia mais caro, e declarou-o primogênito entre os filhos adotivos da Mãe de Deus. — Detém-te aqui para te alegrar com o Santo; escolhe-o para teu protetor especial, e dá graças a Jesus Cristo por lhe haver concedido tantos favores singulares. Mas ao mesmo tempo dá-lhe graças pelos mesmos benefícios que te fez, chamando-te ao seu seguimento, vindo dentro de teu peito na santa Comunhão e dando-te Maria Santíssima por teu refúgio, tua advogada e tua mãe.


II. Se São João foi tão amado de Jesus Cristo, é forçoso dizermos que São João amou também muito a Jesus, porque Jesus assegura-nos que ama os que o amam — ego diligentes me diligo (1). Com efeito, toda a vida do Apóstolo foi um modelo luminoso de amor. Apenas chamado na margem do lago Genezaré, deixou as redes, seu pai e sua mãe e foi em seguimento do Redentor. Chegando a saber que a pureza virginal faz as delicias de Jesus, que é amigo das virgens e se apascenta entre as açucenas (2), resolveu guardá-la sempre em sua pessoa. — Durante a vida do divino Redentor, o amor fez com que São João continuamente contemplasse as amabilidades infinitas de Jesus, e se esmerasse em agradar-Lhe mais e mais, por meio de atos internos e externos das virtudes mais sublimes. — No tempo da Paixão o amor o fez avantajar-se aos outros apóstolos, impeliu-o a seguir o Senhor até ao Calvário, e a deixar-se ficar intrépido ao pé da Cruz, a fim de lhe trazer, se não defesa, ao menos alívio.

Finalmente, depois da Ascensão de Jesus, o amor estimulou São João a pregar a fé não só na Judéia e na Samaria, mas também em várias partes da Ásia. E como se não lhe bastasse a pregação de viva voz, quis ainda escrever o seu Evangelho, as suas Epistolas e o livro do Apocalipse, livros estes que respiram caridade e amor em todas as páginas. Ademais, quis expôr-se generosamente ao martírio, ainda que o Senhor o livrasse, guardando-o para coisas maiores. Pôde São João responder melhor à predileção da parte de Jesus Cristo?... Que confusão para ti! Depois de teres recebido tantas mostras de afeto especial do Senhor, em vez de amá-Lo, respondeste-Lhe com ingratidões e pecados. Roga a Deus, que te perdoe pela intercessão do santo Apóstolo.

“Ó Senhor, ilustrai benignamente a vossa Igreja para que, instruída com as doutrinas do Bem-aventurado João, vosso Apóstolo e Evangelista, alcance os dons sempiternos.” (3) Fazei-o pelo amor de Jesus Cristo e de Maria Santíssima.
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1. Prov. 8, 17.
2. Cant. 2, 16.
3. Or. festi.


(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 86 - 89.)



Fonte: Blog São Pio V

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Santo Afonso Maria de Ligório - Jesus envolto em panos

Maria Santíssima envolve o Divino Menino em panos
 
Santo Afonso Maria de Ligório
 
MEDITAÇÃO III.

JESUS ENVOLTO EM PANOS.
 
Representai-vos Maria que, tendo dado à luz seu divino Fi-lho, o toma respeitosamente em seus braços e, depois de adorá-lo como seu Deus, o envolve em panos. Assim atesta o Evangelho, e a Santa Igreja o repete em seus cânticos:
Membra pannis involuta
Virgo Mater alligat. 

Vede a Jesus Menino que, obediente, oferece suas mãozinhas, estende seus pézinhos e se deixa envolver. Considerai como cada vez que sua Mãe o apertava assim nos paninhos, o santo Menino pensava nas cordas com que seria ligado um dia no jardim das Oliveiras, depois atado a uma coluna, e nos cravos que deviam prendê-lo na cruz; e como, assim pensando, Ele sofria voluntariamente aqueles laços a fim de livrar nossas almas das cadeias do inferno.

Jesus, estreitamente apertado nos paninhos, dirige-se a nós e convida a nos unirmos estreitamente a Ele pelos doces vínculos do amor; e voltando-se a seu Pai eterno, diz-lhe: Meu Pai, os homens abusaram de sua liberdade e, revoltando-se contra vós, tornaram-se escravos do pecado; para expiar a sua desobediência consinto em ser ligado e apertado nestes panos. Nesse estado, faço-vos o sacrifício de minha liberdade, a fim de que o homem seja libertado da escravidão do demônio. Aceito estes panos; são-me caros, e tanto mais caros porque representam as cordas com as quais me ofereço a ser um dia atado e conduzido à morte para a salvação dos homens.
 
Os seus vínculos, os de Jesus, são ligadura salutar para curar as chagas de nossa alma. — Meu Jesus, quisestes pois ser ligado em paninhos por amor de mim. Ó divina caridade, direi com S. Lourenço Justiniano, só tu pudeste fazer meu Deus meu prisioneiro. — E eu, Senhor, recusaria ainda deixar-me unir a vós por vosso santo amor? teria ainda a triste coragem de romper vossas doces e amáveis cadeias, e isso, para tornar-me escravo do inferno? Meu Jesus, estais ligado no pre-sépio por meu amor; quero permanecer sempre preso a vós.
 
S. Maria Madalena de Pazzi dizia que esses panos significam para nós a firme resolução de nos unirmos a Deus pelos laços do amor e de nos desapegarmos de tudo que não é Deus. Para esse mesmo fim, como é evidente, e para ver as almas diletas enlaçadas pelos vínculos de seu amor, é que nosso amantíssimo Jesus quis ficar nos altares como ligado e preso sob as espécies do Santíssimo Sacramento.


Afetos e Súplicas.

Querido Menino, como poderia eu temer os vossos castigos quando vos vejo enfaixado, privado, por assim dizer, do poder de levantar a mão para punir-me? Com isso dais-me a entender que não tendes a intenção de castigar-me, se eu quiser sacudir o jugo de minhas paixões e prender-me a vós. Sim, meu Jesus, quero libertar-me dele. Arrependo-me profundamente de me haver separado de vós abusando da liberdade que me destes. Ofereceis-me uma outra liberdade, uma liberdade mais bela, e que me deve livrar das cadeias do demônio e colocar-me no número dos filhos de Deus. Deixastes-vos aprisionar nesses paninhos humildes por seu amor; quero ser prisioneiro do vosso grande amor. Ó felizes cadeias, belos laços de salvação, que prendeis as almas a Deus, vinculai também meu pobre coração; cingi-o tão fortemente que não possa mais separar-me do amor desse bem supremo. Meu Jesus, amo-vos, uno-me a vós, dou-vos todo o meu coração, toda a minha vontade. Meu amado Senhor, estou resolvido a nunca mais deixar-vos. Ah! meu doce Salvador, vós que, para apagar minhas dívidas, quisestes não só vos deixar enfaixar por vossa santa Mãe, mas também ser maltratado como um criminoso pelos algozes e nesse estado arrastar-vos pelas ruas de Jerusalém para serdes em fim conduzido à morte como um inocente cordeiro que se leva ao matadouro; vós que quisestes ser pregado na cruz e que não deixastes senão com a vossa mor-te, eu vos conjuro, não permitais tenha eu ainda a infelicidade de separar-me de vós e de me ver privado da vossa graça e do vosso amor.

Ó Maria, que outrora enfaixastes em paninhos o vosso Filho inocente, prendei também a mim pecador, prendei-me a Jesus, a fim que não mais me afaste de seus pés, que viva sempre preso a Ele e que morra unido a Ele, para ter a felicidade de entrar um dia na pátria bem-aventurada, onde estarei fora do perigo e do temor de separar-me ainda de seu santo amor.

Fonte: Blog São Pio V

Santo Afonso - Uma visita à Gruta de Belém.



Transeamus usque Bethlehem, et videamus hoc verbum, quod factum est — “Cheguemos até Belém, e vejamos o que é isto que sucedeu” (Luc. 2, 15).

I. Tende ânimo, Maria convida todos, os justos e os pecadores, a entrarem na Gruta para adorarem seu divino Filho e beijarem-Lhe os pés. Eia pois, ó almas devotas, entrai e vêde sobre a palha o Criador do céu e da terra, feito Menino pequenino, mas tão encantador, tão radiante que para toda a parte irradia torrentes de luz. Já que Jesus nasceu, a gruta não é mais horrorosa, senão foi feita um paraíso. Entremos e não temamos.

Jesus nasceu, e nasceu para todos. Ego flos campi, et lilium convallium: Eu, assim manda-nos avisar Jesus, eu sou a flor do campo, e a açucena dos vales (1). Jesus se chama açucena dos vales, para nos dar a entender que, assim como Ele nasceu tão humilde, assim somente os humildes o acharão. Por isso o anjo não foi anunciar o nascimento de Jesus Cristo a César nem a Herodes; mas sim a pobres e humildes pastores. Jesus chama-se também flor dos campos, porque, segundo a interpretação do cardeal Hugo, quer que todos o possam achar. As flores dos jardins estão reclusas e não se permite a todos procurá-las e tomá-las. Ao contrário, as flores dos campos estão expostas à vista de todos, e quem quiser as pode tirar: é assim que Jesus Cristo quer estar ao alcance de todo aquele que O desejar.

Entremos, pois a porta está aberta: Non est satelles, qui dicat: non est hora — “Não há guarda”, diz São Pedro Crisólogo, “para dizer que não são horas.” Os príncipes deixam-se ficar fechados nos seus palácios, cercados de soldados, e não é fácil obter-se audiência. Quem deseja falar com os reis, tem de afadigar-se muito, e bastante vezes será mandado embora com o conselho de voltar em outro tempo, por não ser dia de audiência. Não é assim com Jesus Cristo. Está na Gruta de Belém, como criancinha, para atrair a quem vier procurá-Lo. A gruta está aberta, sem guardas nem portas, de modo que cada um pode entrar à vontade, quando quiser, para achar o pequenino Rei, para falar com Ele e mesmo abraçá-Lo, e assim satisfazer a seu amor.

II. Almas devotas, contemplai naquela manjedoura, sobre aquela pobre palha o tenro Menino que está a chorar. Vêde como é formoso; mirai a luz que irradia, e o amor que respira; esses olhos atiram setas aos corações que O desejam, esses vagidos são chamas abrasadoras para os que O amam. No dizer de São Bernardo, a própria gruta e as próprias palhas clamam e vos dizem que ameis aquele que vos ama, que ameis um Deus que é digno de amor infinito, baixou do céu, se fez menino e menino pobre para manifestar o amor que vos tem e para cativar por seus sofrimentos o vosso amor.

Perguntai-Lhe: Ó formoso Menino pequenino, dize-me, de quem és filho? Responde-lhe: Minha mãe é esta linda e pura Virgem, que está a meu lado. E teu pai, quem é? Meu pai é Deus. Mas como? Tu és o Filho de Deus, e és tão pobre, tão humilde? Nesse estado quem te reconhecerá? Quem te respeitará? A santa fé, responde Jesus, me fará conhecer por quem sou, e me fará amar pelas almas que eu vim remir e inflamar em meu amor. Não vim para me fazer temido, senão para me fazer amado, e por isso, quis manifestar-me, a primeira vez que me vedes, como criança tão pobre e humilde, a fim de que assim me ameis com mais ternura, vendo a que estado me reduziu o amor que vos tenho.

Mas dize-me, meu Menino, porque volves os teus olhos para todos os lados? Que estás esperando? Ouço que suspiras, dize-me: para que são estes suspiros? Ó Deus, ouço que estás chorando, dize-me: porque choras?

Ah, responde Jesus, eu olho ao redor de mim, porque estou procurando alguma alma que me queira. Suspiro pelo desejo de ver junto de mim algum coração abrasado em meu amor, assim como estou abrasado em seu amor. Choro, sim, e choro porque não vejo corações, ou vejo-os nimiamente poucos, corações que me procurem e me queiram amar.

Ó Maria, Mãe do belo amor, fazei que o meu coração seja também do número daqueles que buscam e amam Jesus. (*III 729)
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1. Cant. 2, 1


(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 84 - 86.)


Fonte: Blog São Pio V

Este mundo é muito bom - Santo Atanásio

Este mundo é muito bom, tal como foi feito e tal como o vemos, porque Deus o quer assim: ninguém pode duvidar disso. Se a criação fosse desordenada, se o universo evoluísse ao acaso poder-se-ia pôr em causa esta afirmação. Mas como o mundo foi feito com sabedoria e ciência, de modo racional e lógico, posto que foi ornado de toda a beleza, é preciso que Aquele que a ele preside e que o organizou não seja senão a Palavra de Deus, o seu Verbo, o seu Logos.

Sendo a boa Palavra do Deus de bondade, foi esse Verbo que dispôs a ordem de todas as coisas, que reuniu os contrários com os contrários para com eles formar uma só harmonia. É Ele, «poder e sabedoria de Deus» (1Cor 1,24), que faz girar o céu, que tem a terra suspensa e que, sem que ela assente em nada, a mantém com a sua própria vontade (cf Heb 1,3). O sol ilumina a terra com a luz que recebe dele, e a lua recebe a sua medida da sua luz. Por Ele a água fica suspensa nas nuvens, as chuvas regam a terra, o mar mantém-se nos seus limites, a terra cobre-se de toda a espécie de plantas (cf Sl 103).

A razão de esta Palavra, Verbo de Deus, ter vindo até às criaturas é verdadeiramente admirável. […] A natureza dos seres criados é passageira, fraca, mortal; mas, sendo pela sua natureza bom e excelente, o Deus do universo ama os homens. […] Assim, vendo que, entregue a si própria, toda a natureza criada se esvai e se dissolve, para evitar que isso aconteça e para que o universo não regresse ao nada […], Deus não o abandona às flutuações da sua natureza. Na sua bondade, com o seu Verbo, Ele governa e mantém toda a criação, […] que não sofre, portanto, o destino que teria se o Verbo não cuidasse dela, isto é, a aniquilação. «Ele é a imagem do Deus invisível, o primogénito de toda a criatura; porque foi nele que todas as coisas foram criadas, no céu e na terra, as visíveis e as invisíveis, […] tudo nele subsiste. […] Ele é a cabeça do Corpo, que é a Igreja» (Col 1,15-18).
 
 
Fonte: Senza Pagare

Comentário ao Evangelho do dia (30/12) feito pelo Papa Francisco



«Falava do menino a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém»

«Deus prepara para eles uma cidade» (cf Heb 11,16): a fé e o bem comum. Ao apresentar a história dos patriarcas e dos justos do Antigo Testamento, a Carta aos Hebreus põe em relevo um aspecto essencial da sua fé; esta não se apresenta apenas como um caminho, mas também como edificação, preparação de um lugar onde os homens possam habitar uns com os outros […]. Se o homem de fé assenta sobre o Deus-Amen, o Deus fiel (cf Is 65,16), tornando-se assim ele mesmo firme, podemos acrescentar que a firmeza da fé se refere também à cidade que Deus está a preparar para o homem. A fé revela quão firmes podem ser os vínculos entre os homens, quando Deus Se torna presente no meio deles. Não evoca apenas uma solidez interior, uma convicção firme do crente; a fé também ilumina as relações entre os homens, porque nasce do amor e segue a dinâmica do amor de Deus. O Deus fiável dá aos homens uma cidade fiável.

Devido precisamente à sua ligação com o amor (cf Gal 5,6), a luz da fé coloca-se ao serviço concreto da justiça, do direito e da paz. A fé nasce do encontro com o amor gerador de Deus que mostra o sentido e a bondade da nossa vida; esta é iluminada na medida em que entra no dinamismo aberto por este amor, isto é, enquanto se torna caminho e exercício para a plenitude do amor. A luz da fé é capaz de valorizar a riqueza das relações humanas, a sua capacidade de perdurarem, serem fiáveis, enriquecerem a vida comum. A fé não afasta do mundo, nem é alheia ao esforço concreto dos nossos contemporâneos.

Sem um amor fiável, nada poderia manter verdadeiramente unidos os homens: a unidade entre eles seria concebível apenas enquanto fundada sobre a utilidade, a conjugação dos interesses, o medo, mas não sobre a beleza de viverem juntos, nem sobre a alegria que a simples presença do outro pode gerar. […] A fé é um bem para todos, um bem comum: a sua luz não ilumina apenas o âmbito da Igreja nem serve somente para construir uma cidade eterna no além, mas também ajuda a construir as nossas sociedades de modo que caminhem para um futuro cheio de esperança. 
 
Lumen Fidei
 
Créditos: Evangelho Quotidiano,

Comentário ao Evangelho do dia (29/12) feito pelo Papa Francisco

 
 
SAGRADA FAMÍLIA DE JESUS, MARIA E JOSÉ 
 
 O caminhar da família

No caminho de Abraão para a cidade futura, a Carta aos Hebreus alude à bênção que se transmite dos pais aos filhos (cf 11, 20-21). O primeiro âmbito da cidade dos homens iluminado pela fé é a família; penso, antes de mais nada, na união estável do homem e da mulher no matrimónio. Tal união nasce do seu amor, sinal e presença do amor de Deus, nasce do reconhecimento e aceitação do bem que é a diferença sexual, em virtude da qual os cônjuges se podem unir numa só carne (cf Gn 2, 24) e são capazes de gerar uma nova vida, manifestação da bondade do Criador, da sua sabedoria e do seu desígnio de amor. Fundados sobre este amor, homem e mulher podem prometer-se amor mútuo com um gesto que compromete a vida inteira e que lembra muitos traços da fé: prometer um amor que dure para sempre é possível quando se descobre um desígnio maior que os próprios projectos, que nos sustenta e permite doar o futuro inteiro à pessoa amada. Depois, a fé pode ajudar a individuar em toda a sua profundidade e riqueza a geração dos filhos, porque faz reconhecer nela o amor criador que nos dá e nos entrega o mistério de uma nova pessoa; foi assim que Sara, pela sua fé, se tornou mãe, apoiando-se na fidelidade de Deus à sua promessa (cf Heb 11, 11).

Em família, a fé acompanha todas as idades da vida, a começar pela infância: as crianças aprendem a confiar no amor de seus pais. Por isso, é importante que os pais cultivem práticas de fé comuns na família, que acompanhem o amadurecimento da fé dos filhos. Sobretudo os jovens, que atravessam uma idade da vida tão complexa, rica e importante para a fé, devem sentir a proximidade e a atenção da família e da comunidade eclesial no seu caminho de crescimento da fé. 
 

Créditos: Evangelho Quotidiano

Santo Afonso Maria de Ligório -- Festa de Santo Estevão, protomártir




Festa de Santo Estêvão, Protomártir.

Elegerunt Stephanum, virum plenum fide et Spiritu Sancto — “Elegeram Estêvão, homem cheio de fé e do Epírito Santo.” (Act. 6, 5).

Sumário. Eis aí o belo elogio com que a Sagrada Escritura presta homenagem às virtudes de Santo Estêvão: chama-o cheio de fé, cheio de graça, cheio de fortaleza, em uma palavra, cheio do Espirito Santo. Alegremo-nos com o santo Protomártir, e em seu nome demos graças a Deus. Volvendo depois os olhos a nós mesmos, vejamos se ainda, e em que grau, as mesmas belas virtudes se acham em nossa alma, visto que nos foram infusas pelo sacramento do Batismo.

I. Considera o belo elogio com que o Espírito Santo presta na Sagrada Escritura homenagem às virtudes do Protomártir Santo Estêvão. Chama-o em primeiro lugar cheio de fé: Elegeram Estêvão, homem cheio de fé — Elegerunt Stephanum virum plenum fide (1). Ser cheio de fé, segundo Santo Tomás (2), quer dizer, não somente ter uma firmeza eminente em crer todas as verdades reveladas, junto com um amor ardente à revelação e uma conformidade perfeita com a vontade de Deus que revela; mas quer dizer além disso, possuir o depósito inteiro da fé com o conhecimento explicito de todas as suas partes. Por esta razão São Jerônimo diz que Santo Estêvão era doutíssimo na lei. — O Espirito Santo chama Santo Estêvão em segundo lugar cheio de graça e de fortaleza: plenus gratia et fortitudine, porque advogava a causa de Jesus Cristo ao mesmo tempo com doçura e com zelo ardentíssimo. Temos a prova naquele sublime discurso que fez antes de morrer. Depois de pedir ao povo e aos anciãos que o escutassem em quanto lhes pregasse a salvação, Santo Estêvão expôs-lhes em seguida todos os favores que tinham recebido de Deus e a negra ingratidão com que lhe haviam pago. Vendo, porém, que com bons modos não conseguia abrandar-lhes o coração, começou a deitar-lhes à cara os seus defeitos, e com coragem heróica concluiu dizendo que eram homens duros de cerviz, e de corações e ouvidos incircuncisos, que sempre resistiam ao Espirito Santo (4).— Afinal a Sagrada Escriptura chama Santo Estêvão cheio de todos os carismas celestiais: Cum autem esset plenus Spiritu Santo (5). Por isso se diz que fazia grandes prodigios e milagres entre o povo (6); que não se podia resistir à sua sabedoria (7); que o seu rosto era refulgente como o de um anjo (8); e que pouco antes de expirar teve a ventura de ver os céus abertos, a glória de Deus, e Jesus à direita de Deus (9). — Alegra-te com o santo Diácono e dá graças a Deus por havê-lo enriquecido com tantas virtudes. Volvendo em seguida os olhos à tua própria alma, vê se em ti se acham as mesmas virtudes e o modo como as praticas, visto que te foram infusas no sacramento do Batismo.


II. Muito embora Santo Estêvão se avantajasse em todas as virtudes, distinguiu-se todavia particularmente pelo amor de Deus e do próximo. Deu prova de seu amor de Deus sofrendo, o primeiro entre os fiéis, um doloroso martírio pela pregação da fé. Porquanto os judeus, “ouvindo as suas repreensões e ameaças, se exasperaram em seus corações, e rangeram os dentes contra ele. E levantando um grande clamor, taparam os seus ouvidos, e todos juntos arremeteram contra ele, e expelindo-o para fora da cidade, o apedrejaram.” (10) 



Mostrou igualmente o seu amor para com o próximo. Desprezando a desmembração de seu próprio corpo e lamentando unicamente a obcecaçâo dos seus algozes, opôs benefícios a injúria, amor ao ódio, doçura à ira, bondade à mal querença. Com uma palavra, o Santo pôs em prática o ensino do divino Mestre:
Rogai pelos que vos perseguem (11); por isso, “pondo-se de joelhos, clamou em alta voz, dizendo: Senhor, não lhes imputeis este pecado. E tendo dito isto, dormiu no Senhor.” (12) Esta caridade heróica agradou de tal forma a Jesus Cristo, que, na opinião de Santo Agostinho, mereceu a conversão do Apóstolo São Paulo, que “dera consentimento à morte de Estêvão”.

Que lição para ti, se a souberes aproveitar! Examina o teu coração para ver se nutre sentimentos de aversão ou de antipatia contra o próximo, e roga ao Senhor, te dê força para perdoar de boa vontade todas as injúrias, ainda que imerecidas, para suportares os defeitos dos outros, assim como estes suportam os teus, e para te mostrares sempre amável para com todos, sem nenhuma exceção.

“Concedei-nos, Senhor, a graça de imitar o que veneramos neste dia, para que, celebrando o natalício daquele que soube rogar pelos seus perseguidores, aprendamos a amar os nossos inimigos.” (13) Fazei-o pelo amor do mesmo Jesus Cristo e da nossa amada Mãe Maria.
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1. Act. 6, 5.
2. S. theol.2 2, q. 6, a. 4.
3. Act. 6, 8.
4. Act. 7, 51.
5. Act. 7, 55.
6. Act. 6, 8.
7. Act. 6, 10.
8. Act. 6, 15.
9. Act. 7, 55.
10. Act. 7, 54-57.
11. Matth. 5, 44.
12. Act. 7, 59.
13. Or. festi curr.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 81 - 84.)
 
Fonte: Blog São Pio V

domingo, 29 de dezembro de 2013

Hugo de São Vitor - Sermão por ocasião do Natal do Senhor



SERMO LXIII

Sobre a Jornada de Gedeão
contra os Madianitas,
por ocasião do Natal do Senhor.


"Tu quebraste o pesado jugo que o oprimia,
e a vara que lhe rasgava as espáduas,
e o cetro de seu exator,
como o fizeste na jornada de Madian".

Isaías 9,4

Caríssimos, estas palavras proféticas se referem principalmente a Cristo. De onde que, um pouco mais adiante, o mesmo profeta, isto é, o profeta Isaías, de quem são estas palavras, no-las profetiza abertamente de Cristo, dizendo:

"Porquanto um menino nasceu para nós,
e um filho nos foi dado,
e foi posto o principado sobre o seu ombro;
e será chamado Admirável,
Conselheiro, Deus Forte,
Pai do século futuro, Príncipe da Paz.
O seu império se estenderá cada vez mais,
e a paz não terá fim;
sentar-se-á sobre o trono de Davi
e sobre o seu reino,
para o firmar e fortalecer
pelo direito e pela justiça,
desde agora e para sempre.
Fará isto o zelo do Senhor dos exércitos".

Is. 9, 6-7

"Tu quebraste o pesado jugo que o oprimia". Este jugo é a culpa. "A vara que lhe rasgava as espáduas". Esta vara é a pena em que incorremos pela culpa. "E o cetro de seu exator". Este cetro é a condenação eterna. Pelo jugo éramos oprimidos, pela vara feridos, pelo cetro condenados. O exator é o demônio, o vencedor é Cristo. Cristo, de fato, entrou no mundo assumindo nossa carne, conforme no-lo ensina o Evangelho:

"Quando um homem forte e armado
guarda a entrada de sua casa,
estão em segurança os bens que possui;
porém, sobrevindo outro mais forte do que ele,
há de vencê-lo e aprisioná-lo.
Só então poderá despojá-lo de seus bens".

Mt. 12,29; Lc. 11,22

O homem forte e armado é o demônio; a entrada de sua casa é o mundo; o outro homem mais forte é Cristo; seus bens são as almas; o despojo destes bens é a obra da Redenção; o aprisionamento do homem forte é o acorrentamento do demônio. Vencido, pois, o nosso exator e quebrado o seu jugo, a sua vara e o seu cetro, faremos uso daquela parábola profética que o mesmo profeta Isaías no-la preceitua, ao dizer, cinco capítulos mais adiante:

"E naquele tempo em que o Senhor
te tiver dado descanso,
depois de teu trabalho e de tua opressão,
e da dura servidão a que estiveste sujeito,
usarás desta parábola contra o rei de Babilônia,
e dirás:

Como terminou o exator,
e como se acabou o tributo?
O Senhor despedaçou o bastião dos ímpios,
a vara dos dominadores,
e o que na sua indignação
feria os povos com uma chaga incurável,
o que sujeitava as nações no seu furor,
o que cruelmente as perseguia.
Toda a terra está em descanso e em paz,
ela se encheu de prazer e de regozijo.
Até as faias e os cedros do Líbano
se alegraram com a tua perda.
Desde que tu morreste,
não subirá quem nos corte".

Is. 14, 3-8

Merecidamente, pois, devemos louvar o vencedor, pois nos foi retirado o jugo que prendia as nossas faces, destruída a vara que nos percutia, e quebrado o cetro de nosso exator. Vejamos, porém, como se realizou esta batalha espiritual, e como se alcançou esta vitória.

Foi, no-lo diz Isaías,

"como na jornada de Madian".

Is. 9, 4

Ora, lemos no livro de Juízes que, depois da morte de Débora, os filhos de Israel pecaram contra o Senhor, o qual os entregou na mão dos madianitas durante sete anos, pelos quais foram muito oprimidos. Depois disto, tendo-o ordenado o Senhor, lutou Gedeão contra os madianitas e, vencendo-os, libertou o povo de Israel (Jz.6-8). A história é conhecida, e sei estar-me dirigindo a quem também já conhece as Escrituras. Parece-me, pois, tratar-se de coisa longa e supérflua repetir todo o episódio. Omitiremos, portanto, a narrativa histórica, para que possamos dirigir toda a nossa atenção ao seu entendimento espiritual e nele vejamos de que modo Cristo, que luta por nós e nos salva, quebrou "o pesado jugo que nos oprimia, a vara que rasgava nossas espáduas e o cetro de nosso exator, como na jornada de Madian".

Madian, traduzido, significa iniqüidade. O povo de Madian é, portanto, a multidão dos demônios, que nunca tem a eqüidade por objeto de suas obras, mas a iniqüidade.

Os quatro príncipes de Madian, Oreb, Zeb, Zebee e Salmana, são figuras dos príncipes de todos os demônios, os quais podem ser designados por um número quaternário por nos perseguirem e nos moverem guerra pelas quatro partes do mundo; ou certamente porque nos conduzem aos quatro vícios que são significados pelas quatro partes do mundo. O Oriente, de fato, de onde se origina a luz, significa a astúcia, pois, conforme diz o Evangelho,

"os filhos deste século são mais hábeis
no trato com os seus semelhantes
do que os filhos da luz".

Luc. 16, 8

O Ocidente, por nele morrer o Sol, e nele também perder a luz a parte superior da terra, significa a ignorância. Deste modo também o Sul, por ser quente, significa a luxúria, e o Norte, por ser frio, significa a malícia. Os príncipes dos demônios são genericamente quatro, na medida em que nos dissipam por meio destes quatro vícios, como se se utilizassem dos quatro ventos principais para nos distrair e dispersar.

Julgo também que estes sejam os quatro anjos que lemos no Apocalipse terem sido proibidos de causar dano à terra, ao mar e às árvores, naquela passagem onde está escrito:

"E vi outro anjo que subia da parte do Oriente
tendo o selo do Deus vivo.
E clamou em alta voz aos quatro anjos,
a quem fora dado o poder
de fazer mal à terra e ao mar, dizendo:
`Não façais mal à terra,
nem ao mar, nem às árvores,
até que assinalemos sobre a sua fronte
os servos de nosso Deus'".

Apoc. 7, 2-3

A terra são aqueles que vivem estavel e firmemente na conversação de uma vida santa. O mar são aqueles que flutuam nas ações exteriores, movidos pela necessidade da vida presente. As árvores são aqueles que frutificam crescendo no alto da contemplação divina. A todos estes os príncipes dos espíritos malignos são proibidos de fazerem mal, na medida em que são impedidos, por uma oculta disposição divina, de lhes causarem dano. A estes mesmos, porém, infligem danos que nos movem à admiração e à comiseração quando, por causa de pecados cometidos, relaxa-se esta mesma disposição divina e é-lhes permitido prevalecer sobre os homens. De onde que corretamente se afirma no livro de Juízes que os filhos de Israel foram muito oprimidos pelos madianitas:

"Porque eles vinham
com todos os seus rebanhos e tendas e,
à maneira de gafanhotos,
esta multidão inumerável de homens e camelos
cobria todas as coisas,
destruindo tudo o que tocava".

Jz. 6, 5

Eles cobriam a terra dos Israelitas como gafanhotos, porque são leves e voam em círculos, oprimindo os sentidos carnais e os afetos com as suas maldades.

Conforme a mesma história nos conta, o acampamento dos madianitas estava situado num vale, ao norte de um alto outeiro. Este vale é a profundidade do desespero, o norte é a frieza da malícia, o alto outeiro a proximidade do orgulho. Sempre, efetivamente encontramos o orgulho unido aos demônios.

Os camelos em que os madianitas eram trazidos são os homens réprobos, curvados ao que é terreno, enormes e carregados pela corcova do pecado. Os quais camelos são inumeráveis como a areia do mar pois, conforme diz o Eclesiastes,

"o número dos insensatos",

estéreis em boas obras,

"é infinito".

Ec. 1, 15

"E os madianitas, com os seus camelos, talavam tudo quanto os filhos de Israel haviam semeado quando ainda estava em erva" (Jz. 6,3), porque os demônios, pelas perseguições promovidas pelos homens réprobos sobre aqueles que pareciam viver retamente, destróem-lhes as virtudes e as boas obras quando ainda são tenras. "Não deixavam aos israelitas nada do que é necessário à vida" (Jz. 6,4), na medida em que matam-lhes as principais virtudes; "nem ovelhas, nem bois, nem jumentos" (Jz. 6,4), porque roubam- lhes a continência, a inocência e a paciência. Assim os israelitas espirituais se viram obrigados a servir aos madianitas espirituais durante sete anos (Jz. 6,1), isto é, durante todo o tempo em que haviam abandonado a Deus, submetendo-se aos vícios, envolvidos no pecado, carecendo de virtudes, destituídos de boas obras. E, embora a história nos diga que os israelitas fizeram para si

"covas e cavernas nos montes,
e lugares muito fortes para resistirem",

Jz. 6, 2

nem assim podiam resistir aos inimigos e escapar de suas mãos, porque, conforme diz Jeremias, quando abandonamos a Deus e somos por Ele abandonados,

"Nossos inimigos se tornam mais velozes
do que as águias do céu,
perseguem-nos sobre os montes,
armam-nos ciladas no deserto".

Lam. 4, 19

É necessário, pois, que venha um homem valente que estava, como diz a Escritura,


"limpando o trigo no lagar",


Jz. 6, 11


e que era, na expressão do anjo,


"o mais valente dos homens".


Jz. 6, 12


Estamos nos referindo a Gedeão, aquele que havia destruído no mundo o altar da idolatria e o bosque da ignorância que o circundava (Jz. 6, 25), que ofereceu um touro, ou melhor, um novilho engordado, isto é, ele próprio, oferecido em sacrifício a Deus Pai (Jz. 6, 25), e que buscou um sinal não apenas no véu, nem no orvalho, mas naquilo que foi significado por ambos (Jz. 6, 36-40). Era necessário que este homem se manifestasse visivelmente, vencesse os inimigos, libertasse e salvasse o seu povo.

Como?

Pelo som das trombetas, pela quebra das ânforas, pelo acender das lâmpadas (Jz. 7,16).

Cristo também, assim como Gedeão, pregando o Evangelho, fêz soar a trombeta. Sustentando os sofrimentos de sua paixão, quebrou a ânfora. Realizando seus milagres, acendeu a lâmpada.

Cristo, de fato, tocou a trombeta ao louvar o Pai:


"Eu te louvo",


dizia Jesus,


"ó Pai, Senhor do céu e da terra,
porque escondeste estas coisas
aos sábios e aos prudentes,
e as revelastes aos pequeninos".



Mt. 11, 25


Pois, assim como existe a trombeta do ensino, existe também a trombeta do louvor. De fato, está escrito:


"Tocai a trombeta na neomênia,
no plenilúnio, nesse dia solene,
porque é um preceito para Israel,
e uma ordem do Deus de Jacó".


Salmo 80, 4-5


e também:


"Louvai o Senhor ao som da trombeta,
louvai-O com o saltério e a cítara".


Salmo 150, 3


Cristo também quebrou a sua ânfora, conforme o profeta o havia anunciado, ao dizer:


"Eis que o dominador,
o Senhor dos exércitos,
quebrará a ânfora no terror,
e os de estatura agigantada serão cortados".


Is. 10, 33


A ânfora é a carne humana, e o Senhor "quebrou a ânfora no terror" quando, por ocasião da morte de Cristo, estremeceram os homens e estremeceram os demônios. Diz, de fato, São Lucas:


"Estremeceram os homens,
e toda a multidão daqueles que assistiam
a este espetáculo,
vendo a terra tremer,
e as demais coisas que sucediam,
retiravam-se batendo no peito".


Luc. 23, 48


Os demônios também estremeceram, porque viram-se em seguida serem aprisionados, as portas do abismo serem abertas, as profundezas da morte serem invadidas e os eleitos serem libertos do cativeiro com poder. "E os de estatura agigantada foram cortados", porque os homens orgulhosos foram privados de seus antigos domínios.

Cristo também, à semelhança de Gedeão, acendeu a lâmpada, manifestando ao mundo uma multidão de boas obras. Ele mesmo disse aos judeus:


"Tenho-vos mostrado
muitas boas obras
por virtude de meu Pai".


Jo. 10, 32


Gedeão chamou para a batalha cerca de trinta mil homens, mas venceu a luta com apenas trezentos (Jz. 7,8). Assim também, no exército de Cristo,


"muitos são os chamados;
poucos, porém, os escolhidos".


Mt. 20, 16


Estes trezentos homens, de fato, significam todos os escolhidos que estão verdadeiramente armados pela fé na santa e indivisa Trindade, ou pelas três principais virtudes que são a fé, a esperança e a caridade. Estes são os que não dobraram os seus joelhos, nem beberam das águas da torrente submergindo nela as suas bocas (Jz. 7,6), pois das coisas que passam buscam apenas o necessário, nunca o supérfluo. Os réprobos, porém, dobrando os joelhos, para beberem a água submergem os lábios de suas bocas na torrente, assim como se submergem inteiramente nos prazeres das coisas temporais.

Gedeão venceu os seus inimigos não apenas aquém, mas também além do Jordão. Assim também Cristo derrotou o demônio não apenas na Judéia, mas também entre os gentios.

Como Gedeão, assim também Cristo lutou e venceu. E assim também nós, caríssimos irmãos, consideremos como lutamos, para que possamos alcançar a vitória:


"O que me virdes fazer",


disse Gedeão aos seus homens,

"fazei-o vós também.
E gritai todos a uma:
Ao Senhor, e a Gedeão".


Jz. 7, 17-18


É assim igualmente que Cristo quer que com Ele lutemos, gritemos e vençamos. Ele, efetivamente, nos deu o exemplo, e assim como Ele fêz, assim também nós o façamos. É isto que Ele parecia esperar de nós, quando dizia:


"Aquele que crê em mim,
fará também as obras que eu faço,
e fará outras ainda maiores".



Jo. 14, 12


Temos, porém, para lutar por nós e nos salvar não apenas a Cristo, mas também nossos prelados, que fazem as vezes de Cristo, os quais nos devem preceder na batalha e nos mostrar, pelo seu exemplo, como se luta. Sejam eles como Gedeão, não como Abimelec (Jz. 9,1-57).

Abimelec é o prelado réprobo e iníquo, que busca o que é seu, não o que é de Cristo. Abimelec trucidou os seus irmãos sobre uma pedra. O prelado iníquo destrói os seus irmãos pela sua dureza. Abimelec matou os homens de sua cidade e semeou-a com sal. O prelado iníquo mata, na Igreja, pela palavra e pelo exemplo, os súditos que lhe foram confiados, sem deixar nela, o tanto quanto lhe permitir a sua maldade, nem sábios nem sabedoria. Os homens de Siquém tinham a Abimelec; tomara nós que tenhamos a Gedeão.


"Foram as árvores para eleger sobre si um rei,
e disseram à oliveira, à figueira e à videira:

`Reina sobre nós'.

Todas, porém, se recusaram a reinar
e a serem superiores entre as árvores.
Disseram então as árvores ao espinheiro:

`Vem, e reina sobre nós'.

E ele respondeu-lhes:

`Se vós deveras me constituís vosso rei,
vinde, e repousai debaixo da minha sombra;
mas, se não o quereis,
saia fogo do espinheiro
e devore os cedros do Líbano'".


Jz. 9, 8-15


As árvores da floresta são, segundo a parábola de Joatão, os homens de Siquém, e o espinheiro é Abimelec. Segundo sua significação mística, porém, o que pode-se entender mais corretamente pelas árvores da floresta senão as nações ou qualquer multidão infrutuosa, os homens acostumados e envelhecidos no pecado, prontos para o incêndio eterno?

Pela oliveira podemos entender qualquer homem fiel, excelso pela virtude da misericórdia. Pela videira, devido a que Cristo, sendo a sabedoria de Deus, ter dito de si próprio:


"Eu sou a videira";


Jo. 15, 1


e devido também a estar escrito que


"o vinho,
moderadamente tomado,
aguça o engenho",


entendemos qualquer homem justo, exímio pela virtude da sabedoria. Pela figueira, finalmente, entendemos aqueles que se sobressaem pela graça de uma doçura interior. O fruto da figueira, de fato, prima pela sua doçura.

As árvores silvestres se dirigem à oliveira, à videira e à figueira para fazer delas seus reis quando quaisquer homens cujos pensamentos não produzem frutos pedem para si um prelado misericordioso, sábio, manso ou doce. Mas a oliveira, a videira e a figueira rejeitam semelhante reinado porque os eleitos, quando investidos do poder para reger os maus, temem verem-se privados de seus próprios frutos por causa da malícia dos seus súditos, além de com isto em nada poderem ser-lhes de proveito. As árvores, então, elegem o espinheiro para serem o seu rei todas as vezes que os homens iníquos escolhem outro iníquo, envolvido pelos espinhos do pecado, como seu governante. Ambos então são devorados por um fogo mútuo, na medida em que os súditos perversos e o seu perverso prelado são consumidos um pelo furor do outro. De tais homens, consumidos por tais chamas, o profeta assim se expressa:


"O vosso espírito
como fogo vos devorará".


Is. 33, 11


De fato, invejando-se mutuamente, mordem-se também mutuamente e mutuamente se consomem. Voltemos, porém, ao nosso assunto.

Cristo, conforme dizíamos, quebrou o pesado jugo que nos oprimia e o cetro de nosso exator, como na jornada de Madian, porque pela trombeta de sua pregação, pela paixão de sua morte e pela manifestação de suas boas obras venceu o demônio e nos libertou de seu domínio. Temos, porém, um outro Gedeão, isto é, alguém que nesta batalha faz as vezes de Cristo que luta e nos salva, que é o nosso prelado, o qual vence todos os dias, mediante o auxílio de Cristo, nossos inimigos. É necessário que ele ofereça, juntamente com Gedeão, pães ázimos pela simplicidade de sua doutrina, um cabrito pela penitência, cozido pelo amor, e que derrame incenso sobre eles pela compunção (Jz. 6,19-23). Ofereça também um touro (Jz. 6,24-27), isto é, a si próprio, pois ainda que não aconteça ter que por obra morrer pelo povo a si confiado, deve estar todavia sempre pronto a isto pela sua vontade.


"Entrarei",


diz Gedeão,


"por um lado do acampamento;
imitai, então, o que eu fizer".


Jz. 7, 17


É assim que todo prelado deve mostrar a forma de bem viver aos que lhes forem confiados, sem ser do número daqueles que "dizem mas não fazem" (Mt. 23,3), "colocando sobre os ombros dos homens cargas pesadas e impossíveis de levar, não querendo movê-las, porém, eles próprios, nem com um dedo" (Mt. 23,4). Entrem no acampamento inimigo não apenas providenciando ou dispondo as coisas úteis ou necessárias para evitar o mal ou exercitar o bem, mas principalmente colocando-as em prática por obras. Entrem por um lado do acampamento, exercendo o seu ministério. Entrem por um lado do acampamento, porque ninguém pode fazer tudo sozinho, pois são pesadas as mãos de Moisés, e necessitam de auxílio para se sustentarem (Ex. 17,12). Faça soar a sua trombeta ensinando e cantando, quebre a ânfora jejuando e vigiando, acenda a tocha exercitando as virtudes e as boas obras. E nós clamemos juntos ao Senhor e a Gedeão, imitando-o em todas as coisas.

Há, porém, alguns homens carnais, inclusive revestidos do hábito da religião, cujo som da trombeta é inteiramente carnal. Nunca falam das coisas de Deus, nem das coisas puras, pois, segundo a sentença do Apóstolo,


"Não gostam das coisas que são do espírito,
mas das que são da carne".


Rom. 8,5


Dormimos pouco, dizem eles, comemos pouco, vivemos pauperrimamente. Se não os contentarmos, não apenas murmuram, como se revoltam, e devemos dar-nos por satisfeitos se, feitas as suas vontades, conseguem permanecer em paz. Não os repreendemos, todavia, por falarem de coisas necessárias ao corpo; o que é admirável aos nossos olhos é que eles falam sempre do que é carnal, nunca do que é espiritual. Falar do que é necessário ao corpo, dentro da medida do conveniente, é coisa louvável, porque


"nunca ninguém odiou a sua própria carne;
antes, a nutre e cuida dela".


Ef. 5, 29


Falar, porém, das coisas que pertencem ao espírito é inteiramente necessário, pois o espírito humano é a parte principal do homem ou certamente, como diz certo filósofo, é o próprio homem. "A mente de cada um", diz ele, "é o próprio homem". Há outros que no refeitório abrem a sua boca com satisfação para comer e beber, enquanto que, no coro, para ler e cantar, o mais das vezes ou sempre a fecham. Outros ainda, não com menor culpa, mas com maior demência, confiantes em Deus, movem a cabeça, falsificam as vozes, efeminam o canto e, tomados pelo espírito de vanglória, mais gritam ou assobiam os louvores divinos do que os cantam. Pouco com o coração, muito com a boca.

Agora, portanto, caríssimos, corrijamo-nos e sejamos corrigidos de todas estas coisas, mutua e fraternalmente, para que nossa trombeta produza um bom som e afugentemos o acampamento inimigo. Com muita correção a palavra de Deus, ensinada ou cantada, que neste história nos foi figurada pela trombeta, nesta mesma história nos é também subentendida pelo pão e pela espada:


"Aproximando-se Gedeão do acampamento madianita,
um deles contava ao seu companheiro o seu sonho,
e deste modo lhe referia o que tinha visto:

`Tive um sonho, e parecia-me ver
como que um pão de cevada
cozido debaixo do rescaldo, que rolava,
e ia cair sobre o acampamento de Madian.
E, tendo-se chocado contra uma tenda,
a sacudiu com a pancada
e a lançou de todo por terra'.

O outro, a quem ele falava, respondeu:

`Isto não é outra coisa senão a espada de Gedeão,
filho de Joás, homem israelita;
porque o Senhor lhe entregou Madian em suas mãos,
e todo o seu acampamento'".


Jz. 7,13-14


A palavra de Deus, pois é trombeta, é pão e é espada. É trombeta porque soa aos ouvidos. É pão porque revigora a mente dos que têm fome de justiça. É espada porque penetra os segredos dos corações. Por isto diz o Apóstolo:


"A Palavra de Deus é viva e eficaz,
e mais penetrante do que a espada de dois gumes;
e chega até à separação da alma e do espírito,
das junturas e das medulas,
e discerne os pensamentos e intenções do coração,
e não há nenhuma criatura invisível na sua presença".


Heb. 4, 12-13


É necessário, pois, que não somente façamos soar a trombeta, conforme expusemos, ensinando e cantando, mas que também quebremos a ânfora, crucificando nossa carne com os seus vícios e concupiscências. Muitos há que professam a religião, mas aborrecem a sua salutar aspereza, desejando viver num confortável repouso, afirmando que Deus não exige que molestemos a carne. Nós, porém, caríssimos, quebremos esta ânfora na fome e na sede, no frio e na nudez, no trabalho e na tribulação, e em todas as demais coisas como estas. Acendamos nossas lâmpadas, para que exercitemos as virtudes e as boas obras. Com estas armas venceremos nossos inimigos, alcançaremos a vitória, possuiremos a palma. Refiro-me à palma dourada, como lemos de Gedeão, que pediu e recebeu de seu exército os brincos de ouro da presa dos inimigos. Assim também nós, caríssimos, se lutarmos corretamente, possuiremos esta palma dourada, que outra coisa não é senão a glória celeste.

E que a tanto se digne vir em nosso auxílio Cristo Jesus.

Amén.




Nota ao Sermo 63

Lemos no texto deste sermão que Hugo de S. Vitor, comentando o décimo primeiro de Mateus, afirma que


"assim como existe a trombeta do ensino,
existe também a do louvor".


Desta e de outras passagens de sua obra depreende-se que, segundo a doutrina de Hugo de São Vítor, o louvor e o ensino são dois aspectos de uma mesma atitude, e ambos procedem do dom do Espírito Santo de entendimento, conforme diz o Salmo:


"Publicarei todas as tuas obras
às portas da filha de Sião".


Salmo 72, 28


Pelas portas da filha de Sião deve-se entender, de fato, a incoação da contemplação que se dá pelo dom de entendimento, conforme diz o Salmo 86:


"O Senhor ama as portas de Sião,
mais do que todas as tendas de Jacó".


Salmo 86, 2


Louvar, de fato, é, na concepção dos vitorinos, aprovar com entusiasmo. Diz, por exemplo, neste sentido, Ricardo de S. Vitor:


"Laudare est ex admiratione approbare".


Benjamin Minor C. 11
PL 196, 8


Ora, para aprovar com entusiasmo é preciso primeiro entender cristalinamente, e isto é precisamente o efeito do dom de entendimento. O verdadeiro ensinar, assim, provém da mesma origem de onde procede o louvor. Por meio do dom de entendimento produz-se uma aprovação entusiástica proveniente de um entendimento límpido da obra divina a qual, não se contentando em manifestar-se apenas poeticamente, vê a necessidade de também evidenciar aos homens a extensão das maravilhas de Deus.

Comentando Ricardo de S. Vitor, Josef Pieper afirma que


"o louvor de Deus é a forma extrema
que existe de aprovação da realidade".


Hugo de São Vitor poderia muito bem acrescentar a esta reflexão que, do mesmo modo, ensinar é a forma extrema que existe do louvor.

Cabe dizer também que no primeiro sermão da série da qual o presente é o 63, Hugo de São Vitor afirma que na construção material de uma igreja os sinos representam aqueles que, no Corpo Místico de Cristo, têm a função de ensinar. Entendida neste contexto, esta afirmação tem também o sentido mais amplo segundo o qual os sinos não têm apenas a função de chamar o povo para as celebrações; sua majestosa sonoridade foi freqüentemente usada para exprimir o louvor a Deus. Assim também é o ensino; quando se realiza em sua forma mais autêntica, é ele a mais acabada expressão de louvor que o homem pode oferecer à obra de Deus.


Fonte: Cristianismo.org

sábado, 28 de dezembro de 2013

Comentário ao Evangelho do dia (28/12) feito por São Cipriano (festa dos Santos Inocentes)






São Cipriano (c. 200-258), bispo de Cartago e mártir
Carta 58

«O servo não é mais que o seu senhor»

O apóstolo João escreveu: «Quem diz que permanece em Deus também deve caminhar como Ele caminhou» (1Jo 2,6); e São Paulo: «Somos filhos de Deus. Ora, se somos filhos de Deus, somos também herdeiros: herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo, pressupondo que com Ele sofremos, para também com Ele sermos glorificados» (Rom 8,16ss). […] Irmãos caríssimos, imitemos Abel, o justo, que inaugurou o martírio sendo o primeiro a sofrer a morte pela justiça (Gn 4,8) […]; imitemos os três jovens, Ananias, Azarias e Misael, que venceram um rei pelo valor da sua fé (Dn 3). […] Os profetas a quem o Espírito Santo deu a conhecer o futuro e os apóstolos que o Senhor escolheu: não nos ensinam esses justos, deixando-se matar, a também nós morrermos pela justiça?

O nascimento de Cristo foi logo marcado pelo martírio de uma série de crianças de menos de dois anos, por causa do Seu nome; incapazes de combater, conseguiram conquistar a coroa, para que se torne bem claro que aqueles que foram mortos por Cristo são inocentes, crianças inocentes que foram mortas por causa do seu nome […]! O Filho de Deus sofreu para fazer de nós filhos de Deus e os filhos dos homens não querem sofrer para continuar a ser filhos de Deus […]? O Senhor do mundo lembra-nos: «Se o mundo vos odeia, reparai que, antes que a vós, Me odiou a Mim. Se viésseis do mundo, o mundo amaria o que é seu; mas, como não vindes do mundo, pois fui Eu que vos escolhi do meio do mundo […], lembrai-vos da palavra que vos disse: o servo não é mais que o seu senhor» (Jo 15,18-20). […]

Quando sustentamos o combate da fé, Deus olha para nós, os seus anjos olham para nós, Cristo olha para nós. Que glória, que sorte ter Deus como presidente da prova e Cristo como juiz, quando formos coroados! Armemo-nos, portanto, irmãos caríssimos, com todas as nossas forças, preparemo-nos para a luta com uma alma imaculada, uma fé plena, uma coragem generosa.

Créditos: Evangelho Quotidiano

Comentário ao Evangelho do dia (27/12) feito por Santo Agostinho (festa de São João Evangelista)



Comentário do dia
Santo Agostinho (354-430), bispo de Hipona (Norte de África), doutor da Igreja
Comentário sobre a primeira carta de João, 1,1

«Viu e começou a crer»

«O que existia desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplámos e as nossas mãos tocaram do Verbo da Vida – porque a Vida manifestou-Se» (1Jo 1,1). Haverá quem toque com suas mãos o Verbo da Vida, sem ser porque «o Verbo fez-Se homem e veio habitar connosco»? (Jo 1,14) Ora, este verbo que Se fez homem para ser tocado por nossas mãos começou por ser carne no seio da Virgem Maria. Mas não começou a ser o Verbo nesse momento, porque o era «desde o princípio», diz São João. Vede como a sua carta confirma o seu evangelho, onde ouvistes ler: «No princípio existia o Verbo; o Verbo estava em Deus; e o Verbo era Deus.»

Talvez alguns entendam o «Verbo da Vida» como uma qualquer fórmula para designar Cristo, e não precisamente o corpo de Cristo, que as mãos tocaram. Mas vede o seguimento: «A Vida manifestou-Se». Cristo era então o Verbo da Vida. E como Se manifestou esta vida? Porque, embora existisse desde o princípio, não Se manifestara aos homens: manifestara-Se aos anjos, que a viam e que dela se alimentavam como de pão. É o que diz a Escritura: «todos comeram o pão dos anjos» (Sl 77,25).

Portanto, a própria Vida manifestou-Se na carne: com a sua plena manifestação, uma realidade que apenas era visível pelo coração tornava-se visível também aos olhos, para assim sarar os corações. Porque só o coração vê o Verbo, a carne não O vê. Nós éramos capazes de ver a carne, mas não o Verbo. O Verbo fez-Se homem […] para sarar em nós o que nos torna capazes de ver o Verbo […]. «Dela damos testemunho e anunciamos-vos a Vida eterna que estava junto do Pai e que Se manifestou a nós» (1Jo 1,2). 
Créditos: Evangelho Quotidiano

Santo Afonso Maria de Ligório - Jesus nasce Menino.



Invenietis infantem pannis involutum, et positum in praesepio — “Achareis um menino envolto em panos e colocado numa manjedoura” (Luc. 2, 12).

Sumário. A pequenez das crianças é um grande atrativo de amor, por causa da inocência. Mas atrativo muito mais poderoso nos deve ser a pequenez do Menino Jesus, que, sendo Deus imenso, se fez pequeno para atrair com mais força os nossos corações. Ah! Como será possível contemplar com fé um Deus feito Menino, chorando e gemendo numa gruta, sobre um pouco de palha, e não amá-Lo e não convidar todos a seu amor, como fazia São Francisco de Assis? Amemus puerum de Bethlehem — “Amemos o Menino de Belém”.

I. Considera que o primeiro sinal que o Anjo deu aos pastores para reconhecerem o Messias nascido foi este: que o haviam de achar como menino: invenietis infantem — “achareis um menino”. A pequenez das crianças é um forte atrativo do amor; mas atrativo muito mais forte deve ser para nós a pequenez de Jesus Menino, que, sendo Deus imenso, se fez pequeno para atrair com mais violência os nossos corações. Sic nasci voluit, qui voluit amari. Jesus não veio ao mundo para ser temido, mas para ser amado, e por isso quis mostrar-se na sua primeira vinda como menino tenro e pobre.

Magnus Dominus et laudabilis nimis, dizia São Bernardo — O meu Senhor é grande e por isso digno de todo o louvor, pela sua majestade divina. Mas, contemplando-o depois o Santo, feito pequenino na gruta de Belém, acrescentou com ternura: Parvulus Dominus et amabilis valde. — O meu grande e supremo Deus se fez pequenino por meu amor, e por isso é extremamente amável. — Oh! Quem poderá contemplar com fé um Deus feito menino, chorando e gemendo numa gruta, sobre um pouco de palha, e não O amar, e não convidar todos a seu amor, como os convidava São Francisco de Assis, dizendo: Amemus puerum de Bethlehem — “Amemos o menino de Belém”! Ele é pequenino, não fala, apenas geme: mas, ó Deus, aqueles vagidos são outras tantas vozes pelas quais nos convida a seu amor e nos pede os nossos corações.

Considera que as crianças atraem o afeto pela sua inocência. Todas as crianças, porém, nascem manchadas pelo pecado. Jesus nasce pequenino, mas nasce santo: sanctus, innocens, impollutus (1) — “santo, inocente, impoluto”. “O meu amado”, assim dizia a Esposa dos Cânticos, “é todo rubicundo pelo amor, e todo cândido pela sua inocência, sem mancha de qualquer culpa” — Dilectus meus candidus et rubicundus, electus ex millibus (2). Consolemo-nos, nós pobres pecadores, porque este divino Menino veio do céu para nos comunicar pela sua Paixão a sua inocência. Os seus méritos, contanto que os aproveitemos, podem mudar-nos de pecadores em santos; ponhamos, pois, neles toda a nossa confiança; peçamos por eles todas as graças ao Eterno Pai, e tudo alcançaremos.


II. Ó Pai Eterno, miserável pecador como sou e digno do inferno, nada tenho para Vos oferecer em expiação dos meus pecados. Ofereço-Vos as lágrimas, as penas, o sangue, a morte deste Menino, que é vosso Filho, e Vos peço misericórdia por seus merecimentos. Se não tivesse este divino Menino para Vos oferecer, perdido estaria, não haveria mais esperança para mim. Mas Vós m´o haveis dado, a fim de que, oferecendo-Vos seus merecimentos, possa esperar minha salvação. Senhor, tem sido muito grande minha ingratidão; maior é, porém, a vossa misericórdia. E que maior misericórdia podia esperar de Vós do que me dardes vosso próprio Filho para redentor e vítima de expiação por meus pecados?

Pelo amor, pois, de Jesus Cristo, perdoai-me todas as ofensas que Vos fiz e das quais me arrependo de todo o coração, por Vos ter desagradado a Vós, bondade infinita. Pelo amor de Jesus Cristo Vos peço a santa perseverança. Ah! Deus meu, se Vos ofendesse ainda depois de me haverdes esperado com tanta paciência, esclarecido com tantas luzes e perdoado com tanto amor, não mereceria um inferno feito de propósito só para mim? Ah, meu Pai, não me abandoneis. Tremo ao pensar nas minhas traições. Quantas vezes tenho prometido amar-Vos, e cada vez Vos virei as costas!

Ah! Meu Criador, não permitais que tenha de chorar a desgraça de me ver novamente privado da vossa amizade: Nem permitas me separar-Te — “Não permitais me aparte mais de Vós!” Repito-o e quero repeti-lo até o meu último suspiro, e peço-Vos a graça de repeti-lo sempre: Não permitais me aparte mais de Vós! Meu Jesus, ó doce Menino, prendei-me a Vós pelos laços do amor. Amo-Vos e quero sempre amar-Vos. Não permitais me separe mais do vosso amor. — Amo-Vos também, ó minha Mãe Maria; dignai-vos igualmente amar-me. Se me amais, eis aí a graça que me deveis alcançar: a de nunca deixar de amar a meu Deus. (II 365).
----------
1. Hebr. 7, 26.
2. Cant. 5, 10.


(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 490-493.)


Fonte: Blog São Pio V
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