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terça-feira, 19 de março de 2013

Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem - Capítulo Terceiro



ESCOLHA DA VERDADEIRA
DEVOÇÃO À SANTÍSSIMA VIRGEM MARIA


90. Postas estas cinco verdades, impõe-se, mais do que
nunca, fazer uma boa escolha da Verdadeira Devoção à
Santíssima Virgem, porque há cada vez mais falsas devoções
a Nossa Senhora, e é fácil tomá-las por verdadeiras. O demônio,
como falso moedeiro e enganador fino e experimentado,
já enganou e levou à condenação tantas almas, por meio duma
falsa devoção a Nossa Senhora, que todos os dias se serve da
sua experiência diabólica para perder muitas outras. Deleitaas
e adormece-as no pecado sob pretexto de algumas orações
mal rezadas e dumas quantas práticas exteriores que lhes inspira.
Assim como um falso moedeiro não falsifica ordinariamente
senão ouro e prata, e muito raramente outros metais,
por estes não lhe valerem tal trabalho, também o espírito maligno
não falsifica tanto as outras devoções, como as que se
referem a Jesus e a Maria: a devoção à Sagrada Comunhão e
a Nossa Senhora. Estas são, entre as demais devoções, o que
são o ouro e a prata entre os metais.
91. Em razão disso é muito importante conhecer:
Primeiro as falsas devoções à Santíssima Virgem para
as evitar, e a verdadeira, para abraçá-la.
Depois, importa distinguir entre tantas práticas diferentes
desta última, qual a mais perfeita, a mais agradável à
Santíssima Virgem Maria, aquela que dá mais glória a Deus e
que é mais santificante para nós, para a Ela nos apegarmos.

Artigo Primeiro
Sinais da falsa devoção e da
Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria
I. Falsos devotos e falsas devoções
à Santíssima Virgem Maria
92. Conheço sete espécies de falsos devotos e falsas devoções,
a saber:
1. Os devotos críticos;
2. Os devotos escrupulosos;
3. Os devotos exteriores;
4. Os devotos presunçosos;
5. Os devotos inconstantes;
6. Os devotos hipócritas;
7. Os devotos interesseiros.
1. Os devotos críticos
93. Os devotos críticos são, ordinariamente, sábios orgulhosos,
espíritos fortes e que se bastam a si mesmos. No fundo
têm alguma devoção à Santíssima Virgem Maria, mas criticam
quase todas as práticas de devoção que as almas simples
tributam singela e santamente a esta boa Mãe, porque
não condizem com a sua fantasia. Põem em dúvida todos os
milagres e narrações referidas por autores dignos de crédito
ou tiradas das crônicas de ordens religiosas, e que testemunham
as misericórdias e o poder da Santíssima Virgem. Vêem
com desgosto pessoas simples e humildes ajoelhadas diante
dum altar ou imagem da Virgem, talvez no recanto duma rua,
para aí rezar a Deus. Acusam-nas até mesmo de idolatria, como
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se estivessem a adorar madeira ou pedra. Dizem que, quanto
a si, não gostam dessas devoções exteriores, e que não são
tão fracos de espírito que vão acreditar em tantos contos e
historietas que correm a respeito da Santíssima Virgem. Quando
lhes referem os louvores admiráveis que os Santos Padres
tecem a Nossa Senhora, ou respondem que isso é exagero, ou
explicam erradamente as suas palavras. Esta espécie de falsos
devotos e de gente orgulhosa e mundana é muito para
temer, e causam imenso mal à Devoção a Nossa Senhora, afastando
eficazmente dela o povo, sob o pretexto de destruir abusos.
2. Os devotos escrupulosos
94. Os devotos escrupulosos são pessoas que temem desonrar
o Filho honrando a Mãe, rebaixar um ao elevar a outra.
Não podem suportar que se prestem à Santíssima Virgem louvores
muito justos, tais como os Santos Padres lhe dirigiram.
Não toleram, senão contrariados, que haja mais pessoas de
joelhos diante dum altar de Maria que diante do Santíssimo
Sacramento. Como se uma coisa fosse contrária à outra, como
se aqueles que rezam a Nossa Senhora não rezassem a Jesus
Cristo por meio d'Ela! Não querem que se fale tantas vezes da
Santíssima Virgem, nem que a Ela nos dirijamos tão
freqüentemente. Eis algumas frases que lhes são habituais:
Para que servem tantos terços, tantas confrarias e devoções
externas à Santíssima Virgem? Há muita ignorância nisto tudo!
Faz-se da religião uma palhaçada. Falem-me dos que têm
Devoção a Jesus Cristo (freqüentemente pronunciam este
Santo Nome sem a devida reverência, sem descobrir a cabeça,
digo-o entre parêntesis). É preciso pregar Jesus Cristo: eis
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a doutrina sólida!
Isto que dizem é verdadeiro num certo sentido; mas
quanto à aplicação que disso fazem, para impedir a Devoção
à Virgem Santíssima, é muito perigoso. Trata-se duma cilada
do inimigo sob pretexto dum bem maior. Pois nunca se honra
mais a Jesus Cristo do que quando se honra muito à Santíssima
Virgem. A razão é simples: só honramos a Virgem no intuito
de honrar mais perfeitamente a Jesus Cristo, indo a Ela apenas
como ao caminho que leva ao fim almejado, que é Jesus.
95. A Santa Igreja, com o Espírito Santo, bendiz em primeiro
lugar a Virgem e só depois Jesus Cristo: “Bendita sois
Vós entre as mulheres e bendito é o fruto do Vosso ventre,
Jesus” (Lc 1, 42). Não é que Maria seja mais que Jesus, ou
igual a Ele: dizê-lo seria uma heresia intolerável. Mas, para
mais perfeitamente bendizer Jesus Cristo, é preciso louvar
antes a Virgem Maria. Digamos, pois, com todos os verdadeiros
devotos da Santíssima Virgem, e contra esses falsos devotos
escrupulosos: Ó Maria, bendita sois Vós entre as mulheres
e bendito é o fruto do Vosso ventre, Jesus!
3. Os devotos exteriores
96. Os devotos exteriores são pessoas que fazem consistir
toda a Devoção à Santíssima Virgem em práticas externas.
Ficam apenas na exterioridade desta Devoção, por lhes faltar
espírito interior. Rezarão muitos terços às pressas; ouvirão
muitas Missas sem atenção; irão sem devoção às procissões;
entrarão em todas as confrarias de Nossa Senhora sem mudar
de vida, sem fazer violência às suas paixões, nem imitar as
virtudes desta Virgem Perfeitíssima. Só apreciam o que há de
sensível na Devoção, sem atender ao que tem de sólido. Se
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não experimentam prazer sensível nas suas práticas, julgam
que já não fazem nada, desorientam-se, abandonam tudo, ou
fazem as coisas precipitadamente. O mundo está cheio desta
espécie de devotos exteriores, e não há ninguém como eles
para criticar as almas de oração. Estas aplicam-se ao interior,
por ser o essencial, sem todavia desprezar a modéstia exterior
que acompanha sempre a Verdadeira Devoção.
4. Os devotos presunçosos
97. Os devotos presunçosos são pecadores entregues às
suas más paixões, ou amigos do mundo. Sob o belo nome de
cristãos e devotos da Santíssima Virgem escondem ou o orgulho,
ou a avareza, ou a impureza, ou a embriaguez, ou a
cólera, ou a blasfêmia, ou a maledicência, ou a injustiça etc.
Dormem em paz nos seus maus hábitos, sem se esforçar muito
para os corrigir, sob o pretexto de que são devotos de Nossa
Senhora. Dizem para consigo mesmos que Deus lhes perdoará,
que não hão de morrer sem confissão e não serão condenados
porque rezam o Terço, porque jejuam aos sábados e
pertencem à confraria do Santo Rosário ou do escapulário, ou
às suas congregações, ou porque trazem o hábito ou a cadeia
da Santíssima Virgem etc.
Se alguém lhes diz que a sua devoção não passa de
ilusão do demônio e de perniciosa presunção capaz de os condenar,
não querem acreditar. Dizem que Deus é bom e misericordioso,
que não nos criou para a condenação, que todos
pecam, que não morrerão impenitentes, que um bom “Pequei”
(2 Sm 12, 13; Sl 50) à hora da morte será suficiente. E, para
mais, são devotos de Nossa Senhora, usam o escapulário, rezam
diariamente, sem falha e sem vaidade, sete Pai-Nossos e
sete Ave-Marias em sua honra. E, às vezes, até rezam o Terço
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e o ofício da Santíssima Virgem, e até jejuam! Para confirmar
o que dizem e para ainda mais se cegarem, citam algumas
histórias que ouviram ou leram em algum livro, histórias verdadeiras
ou falsas (isso pouco importa). Nestas se conta como
pessoas mortas em pecado mortal sem confissão, foram ressuscitadas
para se confessarem, porque durante a vida tinham
recitado orações ou praticado alguns atos de devoção à
Santíssima Virgem. Ou ainda como a alma ficou
miraculosamente no corpo até a confissão, ou obteve de Deus
contrição e perdão dos seus pecados no momento da morte
pela misericórdia da Virgem, sendo assim salva. E estes falsos
devotos esperam o mesmo.
98. Nada é tão prejudicial no Cristianismo como esta presunção
diabólica. Pois poder-se-á dizer, com verdade, que se
ama e honra a Santíssima Virgem, quando se fere, traspassa,
crucifica e ultraja impiedosamente Jesus Cristo, seu Filho,
com o pecado?! Se Maria se comprometesse a salvar, por
misericórdia, esta espécie de pessoas, autorizaria o crime, ajudaria
a crucificar e ofender seu Filho! Quem ousará sequer
pensar coisa semelhante?!
99. A Devoção à Santíssima Virgem é, depois da Devoção
a Nosso Senhor no Santíssimo Sacramento, a mais santa e a
mais sólida. Por isso afirmo: abusar assim dela é cometer um
horrível sacrilégio que, depois do sacrilégio da Comunhão
indigna, é o menos perdoável de todos. Concordo que, para
ser verdadeiro devoto da Santíssima Virgem, não é absolutamente
necessário ser tão santo que se evite todo pecado, embora
isso fosse de desejar, mas, pelo menos, é preciso (e notese
bem o que vou dizer):
1º. Ter uma sincera resolução de evitar, ao menos, todo
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pecado mortal, que ultraja tanto a Mãe como o Filho.
2º. Fazer violência contra si mesmo para evitar o pecado.
3º. Entrar em confrarias, rezar o Terço, o Santo Rosário
ou outras orações, jejuar aos sábados etc.
100. Isto é duma utilidade maravilhosa para a conversão dum
pecador, mesmo endurecido. Se o meu leitor está nesse caso,
aconselho-o a que o faça, ainda mesmo que já tenha um pé no
abismo. Faça estas boas obras unicamente com o fim de obter
de Deus, por intercessão da Santíssima Virgem, a graça da
contrição e do perdão dos seus pecados, e a graça de vencer
os seus maus hábitos. Não as faça, porém, pensando que poder-
se-á demorar tranqüilamente no estado de pecado, indo
contra o remorso da sua consciência,o exemplo de Jesus Cristo
e dos santos, e as máximas do Santo Evangelho.
5. Os devotos inconstantes
101. Os devotos inconstantes são aqueles que praticam alguma
devoção à Santíssima Virgem a intervalos e por capricho:
ora são fervorosos, ora tíbios; ora parecem dispostos a
fazer tudo para servir Nossa Senhora, ora, e pouco depois, já
não parecem os mesmos. A princípio abraçarão todas as devoções
à Santíssima Virgem, entrarão em suas confrarias, mas
logo depois já não praticarão as regras com fidelidade. Mudam
como a Lua (Eclo 27, 12), e Maria esmaga-os sob os
Seus pés como ao crescente (Ap 12, 1), porque são volúveis e
indignos de serem contados entre os servos desta Virgem Fiel.
Estes têm a fidelidade e a constância por herança. Mais vale
não se sobrecarregar com tantas orações e práticas de devoção,
e fazer pouco com amor e fidelidade, a despeito do mundo,
do demônio e da carne.
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6. Os devotos hipócritas
102. Há ainda outros falsos devotos da Santíssima Virgem,
que são os devotos hipócritas. Cobrem os seus pecados e maus
hábitos com a capa desta Virgem Fiel, a fim de passar pelo
que não são aos olhos dos homens.
7. Os devotos interesseiros
103. Os devotos interesseiros só recorrem à Santíssima Virgem
para ganhar algum processo, para evitar algum perigo,
para obter a cura de alguma doença, ou para qualquer outra
necessidade deste gênero, sem o que a esqueceriam. Uns e
outros são falsos devotos, e não têm aceitação diante de Deus
nem de sua Santa Mãe.
Guardemo-nos das falsas devoções
104. Evitemos, portanto, pertencer ao número dos devotos
críticos, que não acreditam em nada e criticam tudo; dos devotos
escrupulosos, que temem ser demasiado devotos da
Santíssima Virgem, por respeito para com Jesus Cristo; dos
devotos exteriores, que fazem consistir toda a sua devoção
em práticas externas; dos devotos presunçosos, que, ao abrigo
da sua falsa devoção à Santíssima Virgem, apodrecem nos
seus pecados; dos devotos inconstantes que, por leviandade,
variam as suas práticas de devoção, ou as deixam completamente
à menor tentação; dos devotos hipócritas, que entram
em confrarias e usam as insígnias da Virgem a fim de se passar
por bons, e finalmente, dos devotos interesseiros, que só
recorrem à Santíssima Virgem para ser livres dos males do
corpo, ou obter bens temporais.
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II. A Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem
105. Depois de termos posto a descoberto e condenado as
falsas devoções à Santíssima Virgem, é necessário estabelecer
em poucas palavras a verdadeira, que é:
1. Interior;
2. Terna;
3. Santa;
4. Constante;
5. Desinteressada.
1. A Verdadeira Devoção é Interior
106. A Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem é, em primeiro
lugar, interior, quer dizer, parte do espírito e do coração;
provém da estima que se tem à Santíssima Virgem, da
alta idéia que se forma das suas grandezas e do amor que se
lhe consagra.
2. A Verdadeira Devoção é Terna
107. Em segundo lugar, é terna, isto é, cheia de confiança
na Virgem Santíssima, como é a dum filho na sua boa mãe.
Faz com que uma alma recorra a Maria em todas as necessidades
do corpo e do espírito, com muita simplicidade, confiança
e ternura. A alma implora o auxílio desta terna Mãe em
todo o tempo, lugar e circunstância: nas dúvidas, para ser
esclarecida; nos desvios, para ser reencaminhada; nas tentações,
para ser sustentada; nas fraquezas, para ser fortificada;
nas quedas, para ser reerguida; nos desânimos, para ser encorajada;
nos escrúpulos, para ser livre deles; nas cruzes, traba-
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lhos e revezes da vida, para ser consolada. Numa palavra, em
todos os males físicos ou espirituais, Maria é o seu socorro
habitual, não receando ela importunar esta boa Mãe, nem
desagradar a Jesus Cristo.
3. A Verdadeira Devoção é Santa
108. A Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem é Santa,
isto é, leva a alma a evitar o pecado e a imitar as virtudes de
Maria, particularmente a sua profunda humildade, a sua fé
viva, a sua obediência cega, a sua contínua oração, a sua
mortificação universal, a sua pureza divina, a sua ardente
caridade, a sua paciência heróica, a sua doçura angélica e a
sua sabedoria divina. Estas são as dez principais virtudes da
Santíssima Virgem.
4. A Verdadeira Devoção é Constante
109. Em quarto lugar, a Devoção Verdadeira é constante.
Fortalece a alma no bem, levando-a a não abandonar com
facilidade os seus exercícios de devoção. Torna-a corajosa
em opor-se ao mundo com as suas modas e máximas; à carne
com seus aborrecimentos e paixões; e ao demônio com suas
tentações. De modo que uma pessoa verdadeiramente devota
da Santíssima Virgem não é volúvel, melancólica, escrupulosa
nem receosa. Não quer isto dizer que não caia, ou que não
mude algumas vezes na sensibilidade da sua devoção. Mas se
cai, estende a mão à sua boa Mãe e levanta-se. Se perde o
gosto e a devoção sensível, não se perturba, porque o justo e
fiel servo de Maria vive da fé em Jesus e Maria, e não dos
sentimentos do corpo (Hb 10, 38).
5. A Verdadeira Devoção é Desinteressada
110. Finalmente, a Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem
é desinteressada, pois inspira à alma que não se busque
a si mesma, mas só a Deus em sua Santa Mãe. O verdadeiro
devoto de Maria não serve esta augusta Rainha por espírito
de lucro ou de interesse, mas unicamente porque Ela merece
ser servida, e Deus n'Ela. Não ama Maria propriamente porque
recebe ou espera d'Ela algum bem, mas sim porque Ela é
amável. É por isso que a ama e serve tão fielmente nos desgostos
e securas como nas doçuras e no fervor sensível. Amaa
tanto no Calvário como nas bodas de Caná. Oh! Como é
agradável e preciosa aos olhos de Deus e de sua Santa Mãe
uma tal alma, que não se busca a si mesma nos serviços que
lhe presta! Mas como é raro encontrá-la presentemente! Foi
com o intuito de que não seja tão rara que peguei na pena e
escrevi o que tenho ensinado com fruto, em público e em particular,
nas minhas missões, durante muitos anos.
Desígnios, Esperanças e Anúncios Proféticos
111. Muito já disse acerca da Santíssima Virgem, mas muito
mais me resta dizer, e infinitamente mais será o que hei de
omitir por ignorância, insuficiência, ou falta de tempo, no
desígnio que tenho de formar um verdadeiro devoto de Maria
e um verdadeiro discípulo de Jesus Cristo.
112. Oh! Como seria bem empregado o meu trabalho, se
este pequeno escrito caísse nas mãos duma alma bem nascida,
nascida de Deus e de Maria, não do sangue ou da vontade
da carne, nem da vontade do homem (Jo 1, 13), e se este livri87
-
nho lhe revelasse e inspirasse, pela graça do Espírito Santo, a
excelência e o valor da verdadeira e sólida Devoção à
Santíssima Virgem, que vou descrever! Se eu soubesse que o
meu sangue criminoso podia servir para fazer entrar no coração
as verdades que escrevo em honra da minha querida Mãe
e soberana Rainha, de quem sou o último dos filhos e dos
escravos, servir-me-ia dele em vez de tinta, para escrever as
letras. Tenho esperança de encontrar almas boas que, pela sua
fidelidade à prática que ensino, compensarão à minha querida
Mãe e Senhora pelas perdas que a minha ingratidão e infidelidade
lhe têm causado.
113. Sinto-me, mais do que nunca, animado a crer e a esperar
em tudo aquilo que trago profundamente gravado no coração,
e já há muitos anos peço a Deus: que mais cedo ou mais
tarde a Santíssima Virgem terá um número nunca igualado de
filhos, servos e escravos de amor, e que, por este meio, Jesus
Cristo, meu Mestre muito amado, reinará nos corações como
nunca.
114. Prevejo que muitos animais frementes virão em fúria
para rasgar com seus dentes diabólicos este pequeno escrito e
aquele de quem o Espírito Santo se serviu para o compor. Ou
pelo menos procurarão envolver este livrinho nas trevas e no
silêncio duma arca, a fim de que não apareça. Atacarão mesmo
e perseguirão aqueles que o lerem e puserem em prática.
Mas, que importa? Tanto melhor! Esta visão anima-me e fazme
esperar um grande êxito, isto é, um grande esquadrão de
bravos e valorosos soldados de Jesus e Maria, de ambos os
sexos, que combaterão o mundo, o demônio e a natureza corrompida,
nos tempos perigosos que mais do que nunca se aproximam!
(Mt 24, 15). “Aquele que lê, entenda! Quem puder
compreender, compreenda!” (Mt 19, 12).
 -
Artigo Segundo
As Práticas da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem
I. As Práticas Comuns
115. São muitas as práticas interiores da Verdadeira Devoção
à Santíssima Virgem. Eis, em resumo, as principais:
1ª. Honrá-la, como digna Mãe de Deus, com o culto
de hiperdulia, ou seja, estimá-la acima de todos os outros santos,
como sendo obra-prima da graça, e a primeira depois de
Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem;
2ª. Meditar suas virtudes, privilégios e ações;
3ª. Contemplar as suas grandezas;
4ª. Dirigir-lhe atos de amor, de louvor e de reconhecimento;
5ª. Invocá-la com todo o coração;
6ª. Oferecer-se e unir-se a Ela;
7ª. Fazer as suas ações com o fim de lhe agradar;
8ª. Começar, continuar e terminar todas as ações por
Ela, n'Ela, com Ela e para Ela, a fim de as fazer por Jesus
Cristo, em Jesus Cristo, com e para Jesus Cristo, nosso último
fim. Mais adiante explicaremos esta última prática.
116. A Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem tem igualmente
várias práticas exteriores, sendo as principais:
1ª. Inscrever-se nas suas confrarias e entrar nas suas
congregações;
2ª. Ingressar nas ordens religiosas instituídas em sua
honra;
3ª. Publicar os Seus louvores;
4ª. Dar esmolas, jejuar e fazer mortificações espiritu-
90
ais ou corporais em sua honra;
5ª. Trazer as suas insígnias como o Santo Rosário, o
Terço, o escapulário, a medalha milagrosa ou a cadeiazinha;
6ª. Rezar com modéstia, atenção e devoção o Santo
Rosário composto de quinze dezenas de Ave-Marias, em honra
dos quinze principais mistérios de Jesus Cristo, ou o Terço de
cinco dezenas, que é a terça parte do Rosário e honra os cinco
mistérios gozosos, dolorosos ou gloriosos. (Os mistérios
gozosos são: a Anunciação, a Visitação, o Nascimento de Jesus
Cristo, a Purificação e o encontro de Jesus no Templo. Os
mistérios dolorosos são: a Agonia de Jesus no Jardim das
Oliveiras, a sua Flagelação, a Coroação de espinhos, o Carregamento
da Cruz e a Crucificação. E os mistérios gloriosos
são: a Ressurreição de Jesus, a sua Ascensão, a Descida do
Espírito Santo ou Pentecostes, a Assunção da Santíssima Virgem
ao Céu, em corpo e alma, e a sua Coroação pelas três
Pessoas da Santíssima Trindade). Também se pode rezar um
Terço de seis ou sete dezenas, em honra dos anos que se supõe
ter vivido a Santíssima Virgem na Terra. Ou ainda a
coroinha de Nossa Senhora, composta de três Pai-Nossos e
doze Ave-Marias, em honra da sua coroa de doze estrelas ou
privilégios. Igualmente se pode rezar o ofício da Santíssima
Virgem, tão universalmente aceito e recitado na Igreja. Ou o
pequeno saltério de Nossa Senhora, composto por São
Boaventura em sua honra e que é tão terno e devoto que não
se pode rezar sem comoção. Ou quatorze Pai-Nossos e Ave-
Marias em honra das suas catorze alegrias. Enfim, podem rezar-
se quaisquer outras orações, hinos e cânticos da Igreja,
tais como: o “Salve Rainha”, o “Alma redemptoris mater”, o
“Ave Regina Coelorum”, ou o “Regina Caeli” - segundo os
diferentes tempos -, o “Ave Maris Stella”, o “O Gloriosa
Domina”, o “Magnificat” ou outras fórmulas de devoção de
91 -
que os livros estão cheios;
7ª. Cantar e fazer com que se cante em sua honra
cânticos espirituais;
8ª. Dirigir-lhe um certo número de genuflexões ou inclinações,
dizendo-lhe, por exemplo, sessenta ou cem vezes
cada manhã: “Ave, Maria, Virgem Fiel!”, a fim de obter de
Deus por meio d'Ela a fidelidade às graças de Deus durante o
dia. Da mesma maneira pode-se dizer à noite: “Ave, Maria,
Mãe de misericórdia!”, para pedir por Ela perdão a Deus dos
pecados cometidos nesse dia;
9ª. Cuidar das suas confrarias, enfeitar os Seus altares,
coroar e embelezar as suas imagens;
10ª. Levar e fazer com que sejam levadas em procissão
as suas imagens, e trazer uma consigo, como arma poderosa
contra o espírito maligno;
11ª. Mandar fazer e colocar imagens suas, ou o seu
Nome, nas igrejas, nas casas, nas portas e entradas das cidades,
igrejas e habitações;
12ª. Consagrar-se a Ela duma maneira especial e solene.
117. Há ainda outras numerosas práticas da Verdadeira Devoção
à Santíssima Virgem que o Espírito Divino inspirou às
almas santas, e que são muito santificadoras. Podem ser lidas
por extenso em “Paraíso aberto a Filágia”, composto pelo
Reverendíssimo Padre Paul Barry, da Companhia de Jesus.
Nesse livro o autor recolheu grande número de devoções praticadas
pelos santos em honra da Santíssima Virgem. Estas
devoções são duma eficácia maravilhosa para santificar as
almas, desde que sejam feitas:
- Com a boa e reta intenção de só agradar a Deus, e de
se unir a Jesus Cristo como a seu fim último, e de edificar o
próximo;
- Com atenção, sem distrações voluntárias;
- Com devoção, sem precipitação nem negligência;
- Com modéstia e compostura respeitosa e edificante do
corpo.
II. A Prática Perfeita
118. Tenho lido quase todos os livros que tratam da Devoção
à Santíssima Virgem, e tenho conversado familiarmente
com os mais santos e sábios personagens destes últimos tempos.
No entanto declaro bem alto que não conheci nem aprendi
prática de devoção semelhante à que vou expor. Esta exige
duma alma mais sacrifícios por Deus e a esvazia mais de si
mesma e do seu amor próprio. Conserva-a ainda mais fielmente
na graça e a graça nela. Une-a também mais perfeitamente
a Jesus Cristo, e, finalmente, é mais gloriosa para Deus,
mais santificante para a alma e mais útil ao próximo.
119. Como o essencial desta Devoção consiste no interior,
que ela deve formar, não será igualmente compreendida por
todos. Uns ficarão no que é exterior e não passarão além; e
estes serão a maioria. Outros, e serão em pequeno número,
penetrarão no interior da Devoção, mas subirão um degrau.
Quem subirá ao segundo? Quem chegará ao terceiro? E quem
aí se estabelecerá duma maneira permanente? Só aquele a
quem o Espírito de Jesus Cristo revelar este segredo. Será Ele
próprio quem conduzirá a alma fidelíssima para lá, para avançar
de virtude em virtude, de graça em graça, de luz em luz
até que chegue à transformação de si mesmo em Jesus Cristo,
à plenitude da sua idade na Terra e da sua glória no Céu.


São Luís Maria Grignion de Montfort - Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem

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