quinta-feira, 23 de novembro de 2017

"Deus, único Mestre da oração" - São João Clímaco



A oração é, quanto à sua natureza, a conversa e a união da alma com Deus; quanto à sua eficácia, é a conservação do mundo e a sua reconciliação com Deus, um ponto elevado acima das tentações, uma muralha contra as tribulações, a extinção das guerras, a alegria futura, a atividade que não cessa, a fonte das graças, a dadora dos carismas, um progresso invisível, o alimento da alma, a iluminação do espírito, o machado que corta o desespero, a expulsão da tristeza, a redução da ira, o espelho do progresso, a manifestação da nossa medida, o teste ao estado da nossa alma, a revelação das coisas futuras, o anúncio seguro da glória. 

Tem coragem e terás o próprio Deus como mestre de oração. É impossível aprender a ver por meio de palavras, porque ver é um efeito da natureza. Assim também é impossível aprender a beleza da oração através dos ensinamentos de outros. A oração só se aprende na oração e o seu mestre é Deus, que ensina ao homem a ciência [...], que concede o dom da oração àquele que ora, que abençoa os anos dos justos.

São João Clímaco (c. 575-c. 650), monge do Monte Sinai
«A Escada Santa»
Fonte: Evangelho Quotidiano

"Juntemos tesouros eternos" - Por São João Maria Vianney


O mundo passa e nós passamos com ele. Os reis, os imperadores, tudo desaparece, engolfado na eternidade, de onde não se regressa. A única coisa que realmente interessa é salvar a nossa pobre alma. Os santos não estavam presos aos bens da terra; só lhes interessavam os bens do céu. As pessoas mundanas, pelo contrário, só se interessam pelo tempo presente. 

Temos de fazer como os reis, que, quando estão em vias de ser depostos, mandam guardar os seus tesouros noutro local, onde os têm depois à sua espera. Assim também um bom cristão manda as suas boas obras para a porta do céu. [...] 

A terra é uma ponte para atravessar um rio: serve apenas para nos permitir caminhar. [...] Estamos neste mundo, mas não somos deste mundo. Todos os dias dizemos: «Pai nosso, que estás nos céus...»; temos, pois, de esperar a nossa recompensa quando estivermos «em casa», na casa do Pai.


São João-Maria Vianney (1786-1859), presbítero, Cura de Ars
«Pensées choisies du Saint curé d'Ars»

sábado, 11 de novembro de 2017

«Nenhum servo pode servir a dois senhores» - Comentário ao Evangelho (11/11) por São Gregório Magno


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«Nenhum servo pode servir a dois senhores»

Querer pôr a esperança e a confiança em bens passageiros é querer fazer fundações em água corrente. Tudo passa; Deus permanece. Agarrarmo-nos ao que é transitório é desligarmo-nos do que é permanente. Quem é o homem que, levado no turbilhão agitado de um rápido, consegue manter-se firme no seu lugar, no meio dessa torrente fragorosa? Se não quisermos ser levados pela corrente, temos de nos afastar de tudo o que corre; senão, o objeto do nosso amor constranger-nos-á a chegar ao que precisamente queremos evitar. Aquele que se agarra aos bens transitórios será certamente arrastado até onde vão ter essas coisas a que se apega.

A primeira coisa a fazer é pois abstermo-nos de amar os bens materiais; a segunda, não pormos total confiança naqueles bens que nos são confiados para serem usados e não para serem desfrutados. A alma que se prende aos bens perecíveis cedo perde a sua estabilidade. O turbilhão da vida atual arrasta quem nele se deixa ir, e é uma tonta ilusão aquele que é levado nesta corrente querer manter-se de pé.

Créditos: Evangelho Quotidiano

“A permissividade moral não torna os homens felizes” - São João Paulo II

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“O ser humano só se realiza”, lembra-nos o Papa São João Paulo II, “na medida em que sabe aceitar as exigências que provêm da sua dignidade de ser criado à imagem e semelhança de Deus.”

O pequeno texto que disponibilizamos a seguir faz parte de um discurso do Papa São João Paulo II a jovens holandeses, durante sua visita de 1985 aos Países Baixos. Nele, Sua Santidade lança à juventude católica do mundo inteiro o desafio do amor.

Por que destacar esta pregação agora? Porque ela contém o mesmo ensinamento que o Padre Paulo Ricardo tem reforçado em suas pregações de cunho moral: os Mandamentos, o chamado da Igreja à perfeição, não são um “moralismo”, mas um convite à entrega, generosa e abnegada, de quem se sabe amado por Deus e deseja retribuir-lhe o amor.

No site da Santa Sé, esse discurso se encontra somente nas línguas italiana e holandesa. Servimo-nos em grande parte da tradução oferecida pelo site português “Senza Pagare” — ao qual agradecemos — e acrescentamos ao fim, também, uma outra parte do discurso que achamos conveniente traduzir.
Equipe Christo Nihil Praeponere

***
Queridos jovens, fizestes-me saber que muitas vezes considerais a Igreja como uma instituição que apenas promulga regulamentos e leis. E concluís que há um profundo hiato entre a alegria que emana da palavra de Cristo e o sentimento de opressão que suscita em vós a rigidez da Igreja.

Mas o Evangelho apresenta-nos um Cristo muito exigente, que convida a uma conversão radical do coração, ao abandono dos bens da Terra, ao perdão das ofensas, ao amor para com o inimigo, à paciente aceitação das perseguições e mesmo ao sacrifício da própria vida por amor ao próximo.

No que diz respeito ao domínio particular da sexualidade, é conhecida a posição firme que Jesus tomou em defesa da indissolubilidade do matrimônio e a condenação que pronunciou até a propósito do simples adultério cometido no coração. Poderá alguém não ficar impressionado diante do preceito de arrancar um olho ou de cortar uma mão se esses órgãos forem ocasião de escândalo?

A permissividade moral não torna os homens felizes. Tal como a sociedade de consumo não traz alegria ao coração. O ser humano só se realiza na medida em que sabe aceitar as exigências que provêm da sua dignidade de ser criado “à imagem e semelhança de Deus” (Gn 1, 27). Por isso, se hoje a Igreja diz coisas que não agradam, é porque se sente obrigada a fazê-lo. Ela o faz por dever de lealdade.

Mas então não é verdade que a mensagem evangélica é uma mensagem de alegria? Pelo contrário, é absolutamente verdade! E como é isso possível? A resposta encontra-se numa palavra, numa só palavra, numa palavra curta mas com um conteúdo vasto como o mar. Essa palavra é: amor. O rigor do preceito e a alegria do coração podem perfeitamente conciliar-se. Quem ama não receia o sacrifício. Antes procura no sacrifício a prova mais convincente da autenticidade do seu amor.

Não é esta porventura a experiência que vós mesmos fazeis em relação à pessoa que amais? Por mais exigentes que sejam as demandas que ela vos propõe, vós não experimentais fadiga em cumpri-las, e o próprio sacrifício que tal cumprimento vos custa se converte para vós em fonte mesma de alegria.

Eis o segredo, caríssimos jovens, de uma vida cristã ao mesmo tempo coerente e alegre: o segredo está em um amor sincero, pessoal e profundo a Cristo. O meu desejo é que cada um de vós descubra um amor semelhante, porque assim os valores que se encontram na base da norma ser-vos-ão revelados em sua própria verdade e as dificuldades que encontrais em praticá-la tornar-se-ão mais leves. Diz Agostinho: Nam in eo, quod amatur, aut non laboratur, aut et labor amatur, isto é, “Naquilo que se ama, ou não se cansa, ou se ama o próprio cansaço” (De Bono Viduitatis, 21, 26).
Jovens, esta é, portanto, a minha resposta: amai a Cristo e aceitai as exigências que a Igreja em seu nome vos coloca, porque são as exigências que provêm de Deus, Criador e Redentor do homem. Aceitai estas exigências na vossa vida e descobri-lhes o valor. Para tanto, faz-se necessário que escuteis sempre a palavra de Deus e que encontreis com frequência o Ressuscitado na Eucaristia. Aconselho-vos ainda a não subestimar, nesse sentido, o valor do sacramento da Confissão. Deste modo podereis viver com força as exigências que haveis assumindo recebendo a Crisma.


Referências

Retirado do “Discurso durante encontro com os jovens holandeses em Amersfoort”, de 14 de maio de 1985.

Fonte: Site Padre Paulo Ricardo

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

"Os três tipos de humildade" Por Santo Inácio de Loyola




Os três tipos de humildade: o primeiro tipo de humildade é necessário à salvação eterna. E consiste em me rebaixar e me humilhar tanto quanto me for possível, para obedecer em tudo à Lei de Deus Nosso Senhor. De tal modo que, mesmo que me tornassem senhor de todas as coisas criadas deste mundo ou que estivesse em risco a minha própria vida temporal, nunca pensaria em transgredir um mandamento, fosse ele divino ou humano. [...] 

O segundo tipo de humildade é uma humildade mais perfeita que a primeira. E consiste nisto: encontro-me num ponto em que não desejo nem tendo a preferir a riqueza à pobreza, a honra à desonra, uma vida longa a uma vida curta, quando as alternativas não afetam o serviço de Deus Nosso Senhor e a salvação da minha alma. [...] 

O terceiro tipo de humildade é a humildade mais perfeita: é quando, incluindo a primeira e a segunda, sendo iguais o louvor e a glória de sua divina majestade, para imitar Cristo Nosso Senhor e me assemelhar a Ele mais eficazmente, desejo e escolho a pobreza com Cristo pobre em vez da riqueza, o opróbrio com Cristo coberto de opróbrios em lugar de honrarias; e desejo mais ser tido por insensato e louco para Cristo, que antes de todos foi tido como tal, do que por «sábio e prudente» neste mundo (Mt 11,25).

Exercícios espirituais, 2.ª semana, 12.º dia
Fonte: Evangelho Quotidiano

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

«Tende cuidado com a maneira como ouvis» Comentário ao Evangelho do dia (25/09) Sermão atribuído a Santo Agostinho

Sermão atribuído a Santo Agostinho (354-430), bispo de Hipona (norte de África), doutor da Igreja 
Cf. Discurso sobre o salmo 139,15; Sermões sobre S. João, n.º 57


«Tende cuidado com a maneira como ouvis»


«Que cada um esteja sempre pronto para escutar, mas seja lento para falar» (Tim 1,19). Sim, irmãos, digo-vos francamente [...], eu que muitas vezes vos falo a vosso pedido: a minha alegria é sem mancha quando me sento entre os ouvintes; a minha alegria é sem mancha quando escuto e não quando falo. É então que saboreio a palavra com toda a segurança, pois a minha satisfação não é ameaçada pela vanglória. Quem pode recear o precipício do orgulho se estiver sentado sobre a pedra sólida da verdade? «Escutarei e encher-me-ás de alegria e de júbilo», diz o salmista (Sl 50,10). É quando escuto que me sinto mais alegre; é o papel de ouvintes que nos mantém numa atitude de humildade. 

Pelo contrário, quando tomamos a palavra, [...] precisamos de uma certa contenção; pois, mesmo que não ceda ao orgulho, tenho receio de o fazer. Mas, se escuto, ninguém me pode roubar a alegria (Jo 16,22), porque ninguém é testemunha dela. É verdadeiramente a alegria do amigo do esposo de quem S. João diz que «fica de pé e escuta» (Jo 3,29). Fica de pé porque escuta. Também o primeiro homem escutava Deus de pé; quando escutou a serpente, caiu. O amigo de esposo fica, pois, «transbordante de alegria à voz do Esposo»; o que faz a sua alegria não é a sua voz de pregador ou de profeta, mas a voz do próprio Esposo.

Fonte: Evangelho Quotidiano

sábado, 23 de setembro de 2017

«Quem tem ouvidos para ouvir, ouça» Comentário ao Evangelho do dia (23/09) por São João Crisóstomo


(c. 345-407), presbítero de Antioquia, bispo de Constantinopla, doutor da Igreja 
Sermão n° 44 sobre S. Mateus; PG 57, 467


«Quem tem ouvidos para ouvir, oiça»


Se a semente seca, não é devido ao calor. Jesus não disse que a semente secou por causa do calor, mas sim por não ter raiz. Se a Palavra é asfixiada, não será por causa dos espinhos, mas de quem os deixou crescer em liberdade. Ora, se quiseres, podes impedir que eles cresçam, fazendo bom uso das riquezas. É por isso que o Salvador não fala do mundo, mas dos cuidados do mundo, não fala das riquezas, mas dos cuidados com as riquezas. Por conseguinte, não acusemos as coisas em si mesmas, mas a corrupção da nossa consciência. [...] 

Não é o agricultor, como vês, não é a semente, mas a terra onde ela é recebida que explica tudo, ou seja, as disposições do nosso coração. Também aí a bondade de Deus para com o homem é imensa, dado que, longe de exigir a todos a mesma medida de virtude, acolhe os primeiros, não repudia os segundos e dá lugar aos terceiros. [...] 

É necessário, pois, começar por ouvir atentamente a Palavra, depois guardá-la fielmente na memória, em seguida encher-se de coragem, desprezar as riquezas e libertar-se do amor aos bens do mundo. Se Jesus coloca em primeiro lugar a atenção à Palavra, se a coloca antes de todas as outras condições, é porque ela é a condição fundamental. «E como hão de acreditar naquele de quem não ouviram falar?» (Rom, 10,14). Também nós, se não dermos atenção ao que nos é dito, ficaremos sem conhecer os deveres que temos de cumprir. Só depois vem a coragem e o desprezo pelos bens deste mundo. Para pôr a render estas lições, fortifiquemo-nos de todas as maneiras: estejamos atentos à Palavra, façamos crescer profundamente as nossas raízes e libertemo-nos das preocupações do mundo.

Fonte: Evangelho Quotidiano
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