sexta-feira, 4 de março de 2016

Poema de Santo Afonso Maria de Ligório



Adeus, criaturas, contente vos deixo,
A vós não pertenço, nem meu quero ser;
Liberto de tudo, Deus, hei de morrer;
Sim, todo sou teu, meu caro Jesus,
Só teu quero ser, ó fonte de luz.

Amável Senhor, de mim toma posse,
Teu bom coração, ardente de amor;
Reina e governa minh’alma, Senhor;
Rebelde te fui, outrora enganado;
De mim toma posse, Jesus, meu amado.

Ó fogo sagrado, que tornas felizes
As almas que acendes com chamas d’amor,
Vem logo a meu peito, e com teu ardor
Abrasa minh’alma no incêndio sagrado
Do teu puro amor, Senhor adorado.
Créditos: Excertos e Fragmentos

quarta-feira, 2 de março de 2016

Graus de Perfeição - São João da Cruz



1. Por nada deste mundo cometer pecado, nem mesmo venial com plena advertência, nem imperfeição conhecida.
2. Procurar andar sempre na presença de Deus, real, imaginária ou unitiva, segundo se coadune com as obras que está fazendo.
3. Nada fazer nem dizer coisa de importância, que Cristo não pudesse fazer ou dizer se estivesse no estado em que me encontro e tivesse a idade e a saúde que eu tenho.
4. Procure em todas as coisas a maior honra e glória de Deus.
5. Por nenhuma ocupação deixar a oração mental que é o sustento da alma.

6. Não omitir o exame de consciência, sob pretexto de ocupações, e, por cada falta cometida, fazer alguma penitência.
7. Ter grande arrependimento por qualquer tempo não aproveitado ou que se lhe escapa sem amar a Deus.
8. Em todas as coisas, altas e baixas, tenha a Deus por fim, pois de outro modo não crescerá em perfeição e mérito.
9. Nunca falte à oração e quando experimentar aridez e dificuldade, por isso mesmo persevere nela, por que Deus quer muitas vezes ver o que há na sua alma e isso não se prova na facilidade e no gosto.
10. Do céu e da terra sempre o mais baixo e o lugar e o ofício mais ínfimo.

11. Nunca se intrometa naquilo de que não te encarregaram, nem discuta sobre alguma coisa, ainda que esteja com a razão. E, no que lhe for ordenado, se lhe derem a unha (como se costuma dizer) não queira tomar também a mão, pois alguns, nisto se enganam, imaginando que têm obrigação de fazer aquilo que, bem examinado, nada os obriga.
12. Das coisas alheias não se ocupe, sejam elas boas ou más, porque além do perigo que há de pecar, essa ocupação é causa de distrações e amesquinha o espírito.
13. Procure sempre confessar-se com profundo conhecimento de sua miséria e com sinceridade cristalina.
14. Ainda que as coisas de sua obrigação e ofício se lhe tornem dificultosas e enfadonhas, nem por isso desanime, porque não há de ser sempre assim, e Deus, que experimenta a alma simulando trabalho no preceito (Cf. Sl 93,20), daí a pouco lhe fará sentir o bem e o lucro.
15. Lembre-se sempre de que tudo quanto passar por si, seja próspero ou adverso, vem de Deus, para que assim nem num se ensoberbeça nem no outro desanime.
16. Recorde-se sempre de que não veio senão para ser santo e assim não consinta que reine em sua alma algo que não leve à santidade.
17. Seja sempre mais amigo de dar prazer aos outros do que a si mesmo e, assim, com relação ao próximo, não terá inveja nem predomínio. Entenda-se, porém, que isso se refere ao que for segundo a perfeição, porque Deus muito se aborrece com os que não antepõem o que lhe agrada ao beneplático dos homens.

S. João da Cruz, Pequenos Tratados Espirituais

Créditos: GRAA

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Catequese sobre a Presença Real – São João Vianney



Nosso Senhor está ali escondido, esperando que o visitemos e que lhe dirijamos nossos pedidos. Vede quão bom ele é! Ele se conforma à nossa fraqueza. No Céu, onde nós seremos gloriosos e triunfantes, nós o veremos em toda a sua glória. Se ele tivesse se apresentado a nós nessa glória, não ousaríamos nos aproximar dele; mas ele se esconde (…). Ele está lá no Sacramento de seu amor, suspirando e intercedendo incessantemente diante do Pai pelos pecadores. A que ultrajes ele não se expõe para ficar no meio de nós?

Ele está ali para nos consolar; logo, devemos visitá-lo com frequência. Quão agradável a ele são meros quinze minutos que alguém tira de suas ocupações, de coisas inúteis, para vir e rezar, para o visitar, para o consolar de todos os ultrajes que ele recebe! (…)

Que alegria não sentimos na presença de Deus, quando nos encontramos a sós a seus pés, diante do santo tabernáculo? (…) Ah! Se tivéssemos olhos de anjos com os quais víssemos nosso Senhor Jesus Cristo, que está presente neste altar, e que está a nos olhar, como o amaríamos! Nunca mais quereríamos nos separar dele. Quereríamos permanecer para sempre a seus pés; seria uma antecipação do Céu: todo o resto ficaria sem gosto para nós. (…) Somos pobres cegos; temos um nevoeiro diante de nossos olhos. Somente a fé pode dissipar este nevoeiro. (…)

Nosso Senhor está lá como uma Vítima; e uma oração que é muito agradável a Deus é pedir à Virgem Santíssima que ofereça ao Eterno Pai seu Divino Filho, todo ensanguentado, espezinhado, pela conversão dos pecadores; é a melhor oração que podemos fazer, visto que, de fato, todas as orações são feitas em nome e através dos méritos de Jesus Cristo. Devemos também agradecer a Deus por todas as indulgências que nos purificam… mas não damos atenção a elas. (…)

Quando estamos diante do Santíssimo Sacramento, ao invés de procurarmos algo, fechemos os olhos e a boca; abramos o coração: nosso bom Deus abrirá o dele; iremos a ele, ele virá a nós, um para pedir, o outro para receber; será como a respiração de um para o outro. Que doçura não encontramos esquecendo de nós mesmos a fim de procurar a Deus? Os santos se perdiam a si mesmos para não verem nada além de Deus, e trabalharem por ele somente; eles esqueceram todas as coisas criadas a fim de encontrar a ele somente. Este é o caminho para se alcançar o Céu.

Extraído de de The Blessed Curé of Ars in his catechetical instructions, Chapter 11 – Catechism on the Real Presence.

Fonte: ARS/ Site da Administração Apostólica São João Maria Vianney

Catequese sobre a Sagrada Comunhão – São João Vianney

Para sustentar a alma na peregrinação da vida, Deus olhou para toda a criação e não encontrou nada que fosse digno disso. Ele então se voltou para si mesmo, e decidiu dar-se a si mesmo. Ó minh’alma, como tu és grande, visto que nada além de Deus te pode satisfazer!

O alimento da alma é o Corpo e o Sangue de Deus! Ó, alimento admirável! Se considerássemos isso, faria com que nos perdêssemos por toda a eternidade neste abismo de amor!

Quão felizes são as almas puras que tem a alegria de se unirem a Nosso Senhor pela Comunhão! Elas brilharão como belos diamantes no Céu, pois Deus será visto nelas.

Nosso Senhor disse “o que pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo dará”. Nós nunca pensaríamos em pedir a Deus seu próprio Filho. Mas Deus fez o que o homem não poderia ter imaginado. O que o homem não pôde expressar, nem conceber, e o que ele não se atreveria a desejar, Deus em seu amor disse, concebeu e executou. Ousaríamos pedir a Deus que entregasse seu Filho à morte por nós, e que desse sua Carne para comer e seu Sangue para beber? (…)

Sem a Sagrada Eucaristia não haveria felicidade neste mundo; a vida seria insuportável. Quando recebemos a Sagrada Comunhão, recebemos nossa alegria e felicidade. O bom Deus, desejando dar-se a nós no Sacramento do seu amor, deu-nos um vasto e grande desejo, que só ele pode satisfazer.

Na presença deste belo Sacramento, somos como uma pessoa morrendo de sede à margem de um rio – bastar-lhe-ia curvar a cabeça; como uma pessoa pobre, próxima a um grande tesouro – bastar-lhe-ia estender a mão. Aquele que comunga perde-se em Deus como uma gota d’água no oceano. Eles não podem mais se separar.

No Dia do Julgamento nós veremos a Carne de Nosso Senhor brilhar através dos corpos glorificados daqueles que o receberam dignamente na terra, como vemos ouro brilhar no cobre, ou prata no chumbo. Se nos perguntassem logo após comungarmos “O que estás levando para casa?” Deveríamos responder: “Estou levando o Céu”. Um santo disse que somos portadores de Cristo. E é uma grande verdade; mas não temos fé suficiente. Nós não compreendemos nossa dignidade. Quando deixamos o Sagrado Banquete, somos tão felizes quanto os Sábios, se tivessem podido levar o Menino Jesus. (…)

Se guardasses bem Nosso Senhor e de modo recolhido, após a Comunhão, sentirias longamente aquele fogo devorador que inspiraria teu coração com a inclinação para o bem e a repugnância ao mal. Quando temos o bom Deus no nosso coração, há de ser algo muito abrasador. O coração dos discípulos de Emaús ardia dentro deles simplesmente por ouvirem a sua voz.

Trechos de The Blessed Curé of Ars in his catechetical instructions, Chapter 12 – Catechism on the Communion.

Fonte: ARS/ Site da Administração Apostólica São João Maria Vianney

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Da humilde submissão - Por Tomás de Kempis



Não te preocupes muito se alguém é por ti ou contra ti, mas procede e ocupa-te de modo a que Deus esteja contigo em tudo quanto faças. Consegue uma consciência pura, que Deus te defenderá bem. [...]

Se souberes calar-te e sofrer, verás sem dúvida o auxílio do Senhor. Ele conhece o tempo e o modo de te libertar, e por isso a Ele te deves submeter. É próprio de Deus ajudar e libertar de toda a confusão.

Muitas vezes, é mais útil para a conservação da nossa humildade que os outros conheçam os nossos defeitos e os censurem. Quando um homem se humilha por causa dos seus defeitos, acalma os outros facilmente e satisfaz sem custo os que com ele se iravam.

Deus protege e liberta o humilde, ama-o e consola-o. Inclina-Se para ele e dá-lhe grande graça; e, depois do seu abatimento, eleva-o à glória. Revela os seus segredos ao humilde, arrasta-o e convida-o docemente para Si. E ele, mesmo na confusão, vive em paz, porque se firma em Deus e não no mundo. Não julgues ter adiantado em qualquer coisa se não te sentires inferior a todos.



Imitação de Cristo, tratado espiritual do século XV, Livraria Moraes, 1959 , II, 2


Créditos: Evangelho Quotidiano

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

O Tempo Oportuno - Apelos de Conversão (Por São Josemaria Escrivá)

 
 
Exhortamur ne in vacuum gratiam Dei recipiatis. nós vos exortamos a não receber em vão a graça de Deus. Porque a graça divina pode penetrar em nossas almas nesta Quaresma, se não fecharmos as portas do coração. Precisamos cultivar as boas disposições, o desejo de nos transformarmos a sério, de não brincar coma graça do Senhor. Não me agrada falar de temor, porque o que move o cristão é a Caridade de Deus, que nos foi manifestada em Cristo, e que nos ensina a amar todos os homens e a criação inteira. Mas devemos sem dúvida falar de responsabilidade, de seriedade: Não queirais enganar-vos a vós mesmos; de Deus não se zomba, adverte-nos o mesmo Apóstolo.

É preciso decidir-se. Não é lícito viver mantendo acesas, como diz o povo, uma vela a São Miguel e outra ao diabo. É preciso apagar a vela do diabo. Temos de consumir a nossa vida fazendo-a arder por completo ao serviço do Senhor. Se o nosso propósito de santidade for sincero, se tivermos a docilidade de nos abandonarmos nas mãos de Deus, tudo correrá bem. Porque Ele está sempre disposto a dar-nos a sua graça e, especialmente neste tempo, a graça para uma nova conversão, para uma melhora na nossa vida de cristãos.

Não podemos considerar esta Quaresma como uma época mais, como uma simples repetição cíclica do tempo litúrgico. Este momento é único; é uma ajuda divina que temos de aproveitar. Jesus passa ao nosso lado e espera de nós - hoje, agora - uma grande mudança.

Ecce nunc tempus acceptabile, ecce nunc dies salutis; este é o tempo oportuno, este pode ser o dia da salvação. Ouvem-se novamente os silvos do Bom Pastor, a sua chamada carinhosa: Ego vocavi te nomine tuo. Chama-nos a cada um pelo nosso nome, pelo nome familiar com que nos chamam as pessoas que nos amam. A ternura de Jesus por nós não se pode traduzir em palavras.

Considerai comigo esta maravilha do amor de Deus: o Senhor vem ao nosso encontro, espera por nós, coloca-se à beira do caminho, para que não tenhamos outra saída senão vê-lo. E chama-nos pessoalmente, falando-nos das nossas coisas, que são também as suas, movendo a nossa consciência à compunção, abrindo-a à generosidade, imprimindo em nossas almas o anelo de sermos fiéis, de nos podermos chamar seus discípulos. Basta percebermos essas íntimas palavras da graça - que muitas vezes são como uma censura afetuosa - para nos darmos conta de que Ele não nos esqueceu durante todo o tempo em que por nossa culpa, não o vimos. Cristo ama-nos com o carinho inesgotável que se encerra no seu Coração de Deus.

Reparemos como insiste: Eu te ouvi no tempo oportuno, eu te ajudei no dia da salvação. Já que Ele te promete e te oferece oportunamente a glória - o seu amor - , como corresponderei eu também, a esse amor de Jesus que passa?

Ecce nunc dies salutis
, aqui está diante de nós o dia da salvação. A chamada do Bom Pastor chega até nós: Ego vocavi te nomine tuo, eu te chamei pelo teu nome. É preciso responder - amor com amor se paga - dizendo: Ecce ego quia vocasti me, chamaste-me e aqui estou. Estou decidido a não permitir que este tempo de Quaresma passe como passa a água sobre as pedras, sem deixar rasto. Deixar-me-ei empapar, transformar; converter-me-ei, dirigir-me-ei de novo ao Senhor, amando-o como Ele deseja ser amado.

Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, e com toda a tua alma, e com toda a tua mente. Que resta do teu coração - comenta Santo Agostinho, para que possas amar-te a ti mesmo? Que resta da tua alma, que resta da tua mente? "Ex toto", afirma Ele. "Totum exigit te, quia fecit te". Quem te fez exige tudo de ti.

Depois deste protesto de amor, temos de comportar-nos como amadores de Deus. In Omnibus exhibeamus nosmetipsos sicut Dei ministros, comportemo-nos em todas as coisas como servidores de Deus. Se te deres como Ele quer, a ação da graça manifestar-se-á na tua conduta profissional, no teu trabalho, no empenho por fazer à maneira divina as coisas humanas, grandes ou pequenas, porque, pelo Amor, todas elas adquirem uma nova dimensão.

Mas nesta Quaresma não podemos esquecer que querer ser servidor de Deus não é fácil. E para recordarmos as dificuldades, continuemos com o texto de São Paulo: Como servidores de Deus, com muita paciência nas tribulações, nas necessidades, nas angústias, nos açoites, nas prisões, nas sedições, nos trabalhos, nas vigílias, nos jejuns; com pureza, com doutrina, com longanimidade, com mansidão, com o Espírito Santo, com caridade sincera, com palavras de verdade, com fortaleza de Deus. Nos momentos mais díspares da vida, em todas as situações, temos de comportar-nos como servidores de Deus, sabendo que o Senhor está conosco, que somos seus filhos. Temos de ser conscientes dessa raiz divina, que está enxertada em nossa vida, e agir em consequência.

Essas palavras do Apóstolos devem encher-nos de alegria, porque são como que uma canonização da nossa vida de simples cristãos, que vivem no meio do mundo, partilhando anseios, trabalhos e alegrias com os demais homens, seus iguais. tudo isso é caminho divino. O que o Senhor nos pede é que a todo o momento nos comportemos como seus filhos e servidores.

Mas essas circunstâncias ordinárias da vida só serão caminho divino se verdadeiramente nos convertermos, se nos entregarmos. Porque São Paulo emprega uma linguagem dura. Promete ao cristão uma vida difícil, arriscada, em perpétua tensão. Como se desfigurou o cristianismo quando se pretendeu fazer dele um caminho cômodo! Mas também é desfigurar a verdade pensar que essa vida profunda e séria, que conhece vivamente todos os obstáculos da existência humana, é uma vida de angústia, de opressão ou de temor.

O cristão é realista, de um realismo sobrenatural e humano, sensível a todos os matizes da vida: à dor e à alegria, ao sofrimento próprio e alheio, à certeza e à perplexidade, à generosidade e à tendência para o egoísmo. O cristão conhece tudo e tudo enfrenta, cheio de inteireza humana e da fortaleza que recebe de Deus.


S. Josemaria Escrivá, É Cristo que Passa.
Fonte: Blog GRAA

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Homilia de Santo Efrém sobre o Natal



Hoje, Maria, ao levar a divindade, se tornou para nós céu; e Cristo, sem deixar a glória paterna, se encerrou nos apertados limites do ventre materno, para exalçar os homens à dignidade mais elevada. Escolheu só esta Virgem, dentre todas as virgens, para instrumento de nossa salvação.

Nela se realizaram todos os vaticínios de todos os justos e profetas. Dela própria saiu aquele esplendidíssimo astro sob cuja guia o povo que andava em trevas viu grande luz. (Is 9,2)

De diversos nomes pode ser Maria acertadamente designada. E, com efeito, é ela o templo do filho de Deus que dela saiu de modo diverso do que entrou, pois no ventre entrara sem corpo e dele saíra revestido de nossa humanidade.

É ela o místico novo céu (Ap 21,1) em quem habitou, como em sua sede, o Rei dos reis, e donde baixou à terra, levando diante de si forma e semelhança terrenas. É ela a videira de frutificação de suave odor (Ecle 24,23), cujo fruto, embora diferente da natureza da árvore, dela devia ter tomado algo semelhante.

É ela a fonte que brota (Joel 3,18) da casa do Senhor da qual jorraram para os sedentos águas vivas que matarão a sede para sempre (Jo 4,13) de todo aquele que apenas com os lábios as tiver provado.

Erra, portanto, caríssimos, quem julga poder comparar-se o dia de hoje de reparação ao da criação! E, de fato, no princípio, a terra foi criada; hoje, foi renovada. No início, dado o crime de Adão, foi maldita por causa da obra dele (Gn 3,17); hoje, porém, a paz e a segurança lhe foi restituída. No início, pelo delito dos primeiros pais, a morte passou a todos os homens (Rm 5,12); hoje, no entanto, por Maria, passamos da morte à vida (1Jo 3,14) No início, a serpente penetrou nos ouvidos de Eva, donde o veneno infeccionou todo o corpo: hoje, Maria deu ouvidos à afirmação da felicidade perpétua. O que, portanto, fora de morte passou a ser, ao mesmo tempo, instrumento de vida.

Aquele cujo trono assenta sobre os querubins (Sl 98,1) ei-lo sentado nos braços de uma mulher; aquele que o mundo todo não encerra, só Maria o abraça; aquele que os tronos e as dominações reverenciam, a donzela acaricia; aquele cuja sede se acha nos séculos dos séculos (Sl 44,7), eis que se senta nos joelhos virginais; a terra é escabelo de seus pés, tocando-a com as plantas dos pés infantis.

Ó feliz e afortunado Adão, que, ao nascer o Senhor, recobrou a honra e o esplendor perdidos! Felicíssimos mortais que, vasos de ira para a morte (Rm 9,22) lhe deram o revestimento da própria argila! Redirei felicíssimos aqueles a quem foi dado ver o fogo de nossos corações envolto em seus paninhos!

Tamanhas coisas fez Deus para corrigir a estultície de um só homem! Visto que o servo caíra pela própria soberba, o Senhor o levantara em sua humildade.

Demos, pois, irmãos caríssimos, graças a Deus Pai que, para remir servos, entregou o próprio Filho. Exaltemos igualmente a Jesus com os máximos louvores, pois curou com tanta felicidade as feridas dos homens. E, por fim, veneremos piamente o Espírito de ambos, que nos foi dado (Rm 5,5) para que tenhamos a vida e a tenhamos em abundância. (Jo 10,10)

Santo Efrém, Doutor da Igreja. Sermão III de diversis
 
Cŕeditos: GRAA
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