domingo, 26 de julho de 2015

O que é a caridade - Santa Teresinha do Menino Jesus



O que é a caridade (Santa Teresinha do Menino Jesus)
Este ano, minha querida Madre, Deus concedeu-me a graça de compreender o que é a caridade. Dantes compreendia-o, é verdade, mas de uma maneira imperfeita. Não tinha aprofundado estas palavras de Jesus: «O segundo mandamento é semelhante ao primeiro: Amarás o teu próximo como a ti mesmo». Aplicava-me, sobretudo a amar a Deus, e foi amando-O que compreendi que o meu amor não se devia traduzir só em palavras, porque: «Não são aqueles que dizem: Senhor, Senhor, que entrarão no reino dos Céus, mas aqueles que fazem a vontade de Deus». Jesus deu a conhecer esta vontade diversas vezes; deveria dizer, quase em cada página do Evangelho. Mas na última Ceia, quando sabe que o coração dos seus discípulos se abrasa num amor mais ardente para com Ele, que acaba de Se lhes dar no inefável mistério da Eucaristia, este benigno Salvador, quer dar-lhes um mandamento novo. Diz-lhes com uma ternura inexprimível: «Dou-vos um mandamento novo, que vos ameis uns aos outros, e que assim como Eu vos amei, vós também vos ameis uns aos outros. O sinal pelo qual todos conhecerão que sois meus discípulos, é amar-vos mutuamente».

Como amou Jesus os seus discípulos, e porque os amou? Ah! não eram as qualidades naturais deles que O podiam atrair; havia entre eles e Ele uma distância infinita: Ele era a Ciência, a Sabedoria eterna; eles eram pobres pescadores, ignorantes e cheios de pensamentos terrestres. Apesar disso, Jesus chama-lhes seus amigos, seus irmãos. Quer vê-los reinar com Ele no reino de seu Pai, e para lhes abrir esse reino quer morrer numa cruz, pois disse: «Não há maior amor do que dar a vida por aqueles que se ama».

Caríssima Madre, ao meditar estas palavras de Jesus, compreendi quanto era imperfeito o meu amor para com as minhas Irmãs; vi que não as amava como Deus as ama. Ah! compreendo agora que a caridade perfeita consiste em suportar os defeitos dos outros, em não se escandalizar com as suas fraquezas, em edificar-se com os mais pequenos atos de virtude que se lhes vir praticar; mas compreendi, sobretudo, que a caridade não deve ficar encerrada no fundo do coração: «Ninguém, disse Jesus, acende uma candeia para a colocar debaixo do alqueire, mas coloca-a sobre o candelabro para alumiar todos os que estão em casa». Creio que essa luz representa a caridade, que deve iluminar e alegrar, não só os que são mais queridos, mas todos aqueles que estão em casa, sem excetuar ninguém.

Quando o Senhor ordenara ao seu povo que amasse o seu próximo como a si mesmo, não tinha ainda vindo à terra. Por isso, sabendo em que grau se ama a própria pessoa, não podia pedir às suas criaturas um amor maior para com o próximo. Mas quando Jesus deu aos Apóstolos um mandamento novo, o seu mandamento, como diz mais adiante, não fala já de amar o próximo como a si mesmo, mas de o amar como Ele, Jesus, o amou, como o amará até à consumação dos séculos…

Ah, Senhor! eu sei que não mandais nada que seja impossível, conheceis melhor do que eu a minha fraqueza, a minha imperfeição, sabeis bem que nunca poderia amar as minhas Irmãs como Vós as amais, se Vós mesmo, ó meu Jesus, não as amásseis também em mim. Foi porque me queríeis conceder esta graça que ditastes um mandamento novo. - Oh! como gosto dele, já que me dá a certeza de que a vossa vontade é amardes em mim todos aqueles a quem me mandais amar! …

Sim, eu sinto que quando sou caridosa, é só Jesus que age em mim; quanto mais estiver unida a Ele, tanto mais amo também as minhas Irmãs. Quando quero fazer crescer em mim este amor, sobretudo quando o demónio procura pôr-me diante dos olhos da alma os defeitos de tal ou tal Irmã que me é menos simpática, apresso-me a procurar as suas virtudes, os seus bons desejos, digo para comigo que se a vi cair uma vez, pode muito bem ter alcançado um grande número de vitórias que esconde por humildade, e que mesmo o que me parece uma falta, pode muito bem ser, por causa da intenção, um ato de virtude. Não me custa persuadir-me disso, pois um dia fiz uma pequena experiência que me provou que nunca se deve julgar. – Foi durante um recreio; a porteira tocou duas vezes, era preciso ir abrir o portão dos operários para meterem dentro árvores destinadas ao presépio. O recreio não estava animado, pois vós não estáveis lá, minha querida Madre; portanto, pensei que, se me mandassem servir de terceira, ficaria muito contente. Precisamente a Madre Sub-prioresa disse-me que fosse eu, ou então a Irmã que estava ao meu lado. Comecei logo a tirar avental, mas bastante devagar, para que a minha companheira tirasse o dela antes de mim, pois pensava ser-lhe agradável, deixando-a fazer de terceira. A Irmã que substituía a ecónoma olhava para nós a rir, e, vendo que eu tinha sido a última a levantar-me, disse-me: Ah! bem me parecia que não éreis vós que ganharíeis uma pérola para a vossa coroa, com todos esses vagares…

Com toda a certeza, toda a Comunidade pensou que eu agira naturalmente, e não conseguiria dizer o bem que uma coisa tão pequena fez à minha alma, e me tornou indulgente para com as fraquezas das outras. Isso impede-me também de ter vaidade quando sou julgada favoravelmente, pois digo assim para comigo: «Já que tomam os meus pequenos atos de virtude por imperfeições, podem também enganar-se tomando por virtude aquilo que é somente imperfeição». Então digo com S. Paulo: «Pouco me importa ser julgada por um tribunal humano. Nem me julgo a mim mesma, quem me julga é o Senhor». E assim, para que este julgamento me seja favorável, ou antes, para não ser sequer julgada, quero ter sempre pensamentos caridosos, pois Jesus disse: «Não julgueis, e não sereis julgados».

Minha Madre, ao lerdes o que acabo de escrever, poderíeis pensar que a prática da caridade não me é difícil. É verdade. De há alguns meses para cá já não tenho que combater para praticar esta bela virtude; não quero dizer com isto que nunca me aconteça cometer faltas, ah! sou demasiado imperfeita para tal, mas não me custa muito levantar-me quando caí, pois houve um certo combate em que consegui a vitória; por isso, a milícia celeste vem agora em meu socorro, pois não pode consentir em ver-me vencida, depois de ter saído vencedora na gloriosa guerra que vou tentar descrever.

Há na Comunidade uma Irmã que tem o condão de me desagradar em todas as coisas: as suas maneiras, as suas palavras, o seu caráter, pareciam-me muito desagradáveis. Apesar de tudo, é uma santa religiosa, que deve ser muito agradável a Deus; por isso, não querendo ceder à antipatia natural que sentia, disse comigo que a caridade não devia consistir nos sentimentos, mas nas obras. Então apliquei-me a fazer por essa Irmã o que faria pela pessoa que mais amo. Cada vez que a encontrava, rezava por ela a Deus, oferecendo-Lhe todas as suas virtudes e os seus méritos. Estava certa de que isso agradava a Jesus, pois não há artista que não goste de receber louvores pelas suas obras, e Jesus, o Artista das almas, fica contente quando não nos detemos no exterior, mas, penetrando até ao santuário íntimo que escolheu para sua morada, lhe admiramos a beleza. Não me contentava com rezar muito pela Irmã que me proporcionava tantos combates; procurava prestar-lhe todos os serviços possíveis e, quando tinha a tentação de lhe responder de uma maneira desagradável, contentava-me com dar-lhe o meu sorriso, e procurava desviar a conversa, pois a Imitação de Cristo diz: Vale mais deixar cada um com a sua opinião do que deter-se a discutir.

Muitas vezes também, quando não estava no recreio (quero dizer, durante as horas de trabalho), tendo alguns contactos de ofício com esta Irmã, quando os meus combates eram muito violentos, fugia como um desertor. Como ela ignorava absolutamente o que eu sentia por ela, nunca suspeitou dos motivos da minha conduta, e continua persuadida de que o seu caráter me é agradável. Um dia, no recreio, disse-me mais ou menos estas palavras, com um ar muito contente: «Poderíeis dizer-me, minha Irmã Teresa do Menino Jesus, o que tanto vos atrai em mim, cada vez que olhais para mim vejo-vos sorrir?» Ah! o que me atraía era Jesus escondido no fundo da sua alma … Jesus, que torna doce o que há de mais amargo. Respondi-lhe que sorria porque ficava contente de a ver (claro que não acrescentei que era sob o ponto de vista espiritual).

Minha caríssima Madre, já vo-lo disse, o meu último recurso para não ser vencida nos combates é a deserção. Já durante o noviciado o empregava, e sempre me deu bom resultado. Vou contar-vos um exemplo, minha Madre, que creio que vos fará sorrir. Durante uma das vossas bronquites, vim uma manhã, muito de mansinho, pôr na vossa cela as chaves da grade da comunhão, pois era sacristão Na verdade, não estava aborrecida por ter essa ocasião de vos ver, estava até muito contente, mas esforçava-me por não o dar a entender. Uma Irmã, animada dum santo zelo, e que no entanto me amava muito, vendo-me entrar na vossa cela, minha Madre, pensou que eu vos ia acordar. Quis tirar-me as chaves, mas eu era astuta demais para lhas dar e ceder os meus direitos. Disse-lhe o mais delicadamente possível que desejava tanto como ela não vos acordar, e que me pertencia a mim entregar as chaves… Compreendo agora que teria sido muito mais perfeito ceder a essa Irmã, nova, é verdade, mas enfim, mais antiga do que eu. Não o compreendia então, por isso, querendo a todo o custo entrar atrás dela, apesar de ela empurrar a porta para não me deixar passar, não tardou que a desgraça que ambas temíamos acontecesse: o barulho que fazíamos fez-vos acordar… Então, minha Madre, tudo recaiu sobre mim: a pobre Irmã, a quem eu resistira, pôs-se a declamar todo um discurso, cujo conteúdo era o seguinte: «Foi a Irmã Teresa do Menino Jesus que fez barulho… Meu Deus, como ela é insuportável…» etc. Eu, que sentia exatamente o contrário, tinha bastante vontade de me defender; felizmente, ocorreu-me uma ideia luminosa: disse comigo que com certeza, se me começasse a justificar, não conseguiria conservar a paz na minha alma; sentia também que não tinha virtude bastante para me deixar acusar sem dizer nada; a minha única tábua de salvação era, portanto, a fuga. Dito e feito. Saí pela calada, deixando a Irmã continuar o seu discurso, que se parecia com as imprecações de Camilo contra Roma. O meu coração batia com tanta força que me foi impossível ir longe, e sentei-me na escada para gozar em paz os frutos da minha vitória. Não havia nisso valentia, não achais, minha querida Madre? Mas apesar disso, creio que vale mais não se expor ao combate quando a derrota é certa. Ai de mim!quando me recordo do tempo do meu noviciado, vejo bem quanto era imperfeita… Sofria por tão pouco, que agora rio-me disso. Ah! como o Senhor é bom por ter feito crescer a minha alma, por lhe ter dado asas … Todos os laços dos caçadores não seriam capazes de me assustar, porque: «É em vão que se arma o laço diante dos olhos daqueles que têm asas» (Prov.). Mais tarde, sem dúvida, o tempo em que estou vai-me parecer ainda cheio de imperfeições, mas agora já não me admiro nada, não tenho desgosto por ver que sou a própria fraqueza, pelo contrário, é nela que me glorio, e conto descobrir em mim todos os dias novas imperfeições. Lembrando-me de que a Caridade cobre a multidão dos pecados, bebo nessa mina abundante que Jesus abriu na minha frente. No Evangelho, o Senhor explica em que consiste o seu mandamento novo. Diz em S. Mateus: «Ouvistes que foi dito: amareis o vosso amigo e odiareis o vosso inimigo. Mas eu digo-vos: amai os vossos inimigos, rezai por aqueles que vos perseguem». Sem dúvida, no Carmelo não se encontram inimigos, mas enfim, há simpatias, sente-se atração por uma Irmã, ao passo que outra nos faria dar uma grande volta para evitar encontrá-la; assim, mesmo sem o saber, ela torna-se objeto de perseguição. Pois bem! Jesus diz-me que esta Irmã, é preciso amá-la, que é preciso rezar por ela, mesmo que o seu comportamento me levasse a pensar que ela não me ama; «Se amais aqueles que vos amam, que reconhecimento haveis de ter? Pois também os pecadores amam aqueles que os amam» (S. Lucas, VI). E não basta amar, é preciso prová-lo. Fica-se naturalmente contente por dar um presente a um amigo; gosta-se sobretudo de fazer surpresas, mas isso de modo algum é caridade, pois os pecadores também o fazem. Eis o que Jesus me ensina ainda: «Dai a todo aquele que vos pede; e se tomarem o que vos pertence, não o reclameis». Dar a todas as que pedem é menos agradável que oferecer por si mesma, pelo impulso do seu coração; ainda quando pedem com delicadeza, não custa dar, mas, se por infelicidade, não empregam palavras bastante delicadas, logo a alma se revolta, se não estiver fortalecida na caridade. Arranja mil razões para recusar o que se lhe pede, e só depois de ter convencido a que pede da sua indelicadeza, é que, por fim, lhe dá por favor o que reclama, ou lhe presta um pequeno serviço que teria levado vinte vezes menos tempo a realizar do que foi preciso para fazer valer direitos imaginários. Se é difícil dar a todo aquele que pede, ainda o é mais deixar tomar o que nos pertence sem o reclamar. Oh, minha Madre! digo que é difícil, deveria dizer antes que isso parece difícil, pois o jugo do Senhor é suave e leve; quando se aceita sente-se logo a sua suavidade, e exclama-se com o salmista: «Corri pelo caminho dos vossos mandamentos, desde que dilatastes o meu coração». Só a caridade me pode dilatar o coração. Ó Jesus! desde que esta ditosa chama o consome, corro com alegria pelo caminho do vosso mandamento novo… Quero correr por ele até ao dia bem-aventurado em que, juntando-me ao cortejo virginal, poderei seguir-Vos nos espaços infinitos, cantando o vosso cântico novo, que deve ser o do Amor.

Santa Teresa do Menino Jesus, Obras Completas, Edições Carmelo, 1996, pp. 256-263

Fonte: O Camponês

Santa Maria Madalena. Das Homilias sobre os evangelhos, de São Gregório Magno, papa



Das Homilias sobre os evangelhos, de São Gregório Magno, papa
(Hom.25,1-2.4-5:PL 76,1189-1193)(Séc.VI)

Sentia o desejo ardente de encontrar a Cristo,
que julgava ter sido roubado

Maria Madalena, tendo ido ao sepulcro, não encontrou o corpo do Senhor. Julgando que fora roubado, foi avisar aos discípulos. Estes vieram também ao sepulcro, viram e acreditaram no que a mulher lhes dissera. Sobre eles está escrito logo em seguida: Os discípulos voltaram então para casa (Jo 20,10). E depois acrescenta-se: Entretanto, Maria estava do lado de fora do túmulo, chorando (Jo 20,11).

Este fato leva-nos a considerar quão forte era o amor que inflamava o espírito dessa mulher, que não se afastava do túmulo do Senhor, mesmo depois de os discípulos terem ido embora. Procurava a quem não encontrara, chorava enquanto buscava e, abrasada no fogo do seu amor, sentia a ardente saudade daquele que julgava ter sido roubado. Por iso, só ela o viu então, porque só ela o ficou procurando. Na verdade, a eficácia das boas obras está na perseverança, como afirma também a voz da Verdade: Quem perseverar até o fim, esse será salvo (Mt 10,22).

Ela começou a procurar e não encontrou nada; continuou a procurar, e conseguiu encontrar. Os desejos foram aumentando com a espera, e fizeram com que chegasse a encontrar. Pois os desejos santos crescem com a demora; mas se diminuem com o adiamento, não são desejos autênticos. Quem experimentou este amor ardente, pôde alcançar a verdade. Por isso afirmou Davi: Minha alma tem sede de Deus, e deseja o Deus vivo. Quando terei a alegria de ver a face de Deus? (Sl 41,3). Também a Igreja diz no Cântico dos Cânticos: Estou ferida de amor (Ct 5,8). E ainda: Minha alma desfalece (cf.Ct 5,6).

Mulher, por que choras? A quem procuras? (Jo 20,15). É interrogada sobre o motivo de sua dor, para que aumente o seu desejo e, mencionando o nome de quem procurava, se inflame ainda mais o seu amor por ele.

Então Jesus disse: Maria (Jo 20,16). Depois de tê-la tratado pelo nome comum de mulher sem que ela o tenha reconhecido, chama-a pelo próprio nome. Foi como se lhe dissesse abertamente: Reconhece aquele por quem és reconhecida. Não é entre outros, de maneira geral, que te conheço, mas especialmente a ti. Maria, chamada pelo próprio nome, reconhece quem lhe falou; e imediatamente exclama: Rabuni, que quer dizer Mestre (Jo 20,16). Era ele a quem Maria Madalena procurava exteriormente; entretanto, era ele que a impelia interiormente a procurá-lo.

Fonte: O Camponês

sábado, 25 de julho de 2015

Amor à Virgem, Amor ao Cristo


Com um só decreto Deus Todo-Poderoso estabeleceu a Encarnação do Verbo e a existência de Maria Santíssima; por conseguinte, tudo o que se refere à Virgem Maria é profundamente cristocêntrico, e tudo o que se refere a Cristo Jesus, Verdadeiro Deus e Verdadeiro Homem, é intrinsecamente mariano! Que Mistério grandioso, comovente e maravilhoso! Quanto mais amamos e adoramos a Beatíssima Trindade, por meio da Pessoa Maravilhosa de Nosso Senhor Jesus Cristo, mais profunda e reverente é a nossa veneração à Soberana Virgem, Sua Mãe Imaculada. Da mesma forma, quanto mais honrarmos e amamos à Santíssima Virgem Nossa Senhora, mais estaremos honrando ao Cristo Senhor.

Que esta reflexão sirva para que cresçamos em devoção e Amor à Virgem Mãe, Suserana Nossa, e para que procuremos uma identificação, cada dia maior, com a Consagração Total a Ela - que muitos de nós já fizemos ou estamos prestes a fazer.

Christian dos Santos Claudino

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Oração pelos sacerdotes (Indulgenciada por S. Pio X em 03/03/1905)


Oração pelos sacerdotes (Indulgenciada por S. Pio X em 03/03/1905)

Ó Jesus, Pontífice Eterno, Divino Sacrificador, Vós que, no Vosso incomparável amor, deixastes sair do Vosso Sagrado Coração o sacerdócio cristão, dignai-Vos derramar, nos Vossos sacerdotes, as ondas vivificantes do Amor infinito.

Vivei neles, transformai-os em Vós, tornai-os, pela Vossa graça, instrumentos de Vossas Misericórdias.

Atuai neles e por eles, e fazei que, revestidos inteiramente de Vós pela fiel imitação de Vossas adoráveis virtudes, operem, em Vosso nome e pela força de Vosso espírito, as obras que Vós mesmo realizastes para a salvação do mundo.

Divino Redentor das almas, vede como é grande a multidão dos que dormem ainda nas trevas do erro; contai o número dessas ovelhas infiéis que ladeiam os precipícios; considerai a multidão dos pobres, dos famintos, dos ignorantes e dos fracos que gemem ao abandono.

Voltai para nós por intermédio dos Vossos sacerdotes. Revivei neles; atuai por eles, e passai de novo através do mundo, ensinando, perdoando, consolando, sacrificando, e reatando os laços sagrados do amor entre o Coração de Deus e o coração humano.

Amém.

Por: Equipe Christo Nihil Praeponere
Referência
Do livro «O Sagrado Coração e o Sacerdócio», de Madre Luísa Margarida Claret de La Touche. Fonte: presbiteros.com.br

domingo, 31 de maio de 2015

Comentário ao Evangelho (31/05, Solenidade da Santíssima Trindade) feito por Santo Antônio de Lisboa



Comentário do dia
Santo António de Lisboa (c. 1195-1231), franciscano, doutor da Igreja
Sermões para o domingo e as festas dos santos


«Um só Deus, um só Senhor, na trindade das pessoas e na unidade da natureza» (Prefácio)

O Pai, o Filho e o Espírito Santo são de uma só substância e de uma inseparável igualdade. A unidade está na essência, a pluralidade nas pessoas. O Senhor indica abertamente a unidade da essência divina e a trindade das pessoas quando diz: «Baptizai em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.» Não diz «nos nomes», mas «em nome», mostrando assim a unidade da essência. Em seguida, porém, emprega três nomes, para mostrar que há três pessoas.

Nesta Trindade se encontra a origem suprema , a beleza perfeita, a alegria bem-aventurada de todas as coisas. A origem suprema, afirma Santo Agostinho no seu livro sobre a verdadeira religião, é Deus Pai, de quem provêm todas as coisas, de quem procedem o Filho e o Espírito Santo. A beleza perfeita é o Filho, a verdade do Pai, que em nada se distingue dele, que veneramos com o Pai e no Pai, que é o modelo de todas as coisas, porque tudo foi feito por Ele e tudo se refere a Ele. A alegria bem-aventurada, a soberana bondade, é o Espírito Santo, que é o dom do Pai e do Filho; e devemos crer e manter que este dom é exactamente como o Pai e o Filho.

Ao contemplar a criação, concluímos pela Trindade de uma só substância. Apreendemos um só Deus: Pai, de quem somos, Filho, por quem somos, Espírito Santo, em quem somos. Príncipe, a quem recorremos; modelo, que seguimos; graça, que nos reconcilia.

Créditos: Evangelho Quotidiano

São Luís Maria de Montfort ensina como rezar o Santo Rosário


O Santo Rosário, na forma como é rezado presentemente, foi inspirado à Igreja, e dado pela Santíssima Virgem a São Domingos, no ano de 1214, para converter os albigenses e os pecadores, conforme relatou o Beato Alano de la Roche.

São Domingos, inspirado pelo Espírito Santo, instruído pela Santíssima Virgem e por sua própria experiência, pregou o Rosário todo o resto de sua vida.

Desde o estabelecimento do Rosário por São Domingos, até 1460, quando o Beato Alano o restabeleceu por ordem do Céu, ele foi chamado de Saltério de Jesus e da Virgem, porque contém 150 Ave-Marias — o mesmo número dos Salmos de Davi.

AS ORAÇÕES VOCAIS DO ROSÁRIO

1. Credo, ou Símbolo dos Apóstolos, é rezado na Cruz do Rosário.
Contém ele um resumo das verdades cristãs e é uma oração de grande mérito, porque a fé é o fundamento e o princípio de todas as virtudes cristãs e de todas as orações que agradam a Deus. “Creio em Deus” contém os atos das três virtudes teologais, a fé, a esperança e a caridade, e têm uma eficácia maravilhosa para santificar a alma e aterrorizar o demônio.

2. O Pai Nosso, ou Oração Dominical (de Dominus, Senhor), tira sua primeira excelência de seu Autor, Jesus Cristo, o próprio Rei dos Anjos e dos homens.

“Era necessário, diz São Cipriano, que Aquele que nos veio dar a vida da graça como Salvador, nos ensinasse como Mestre a maneira de rezar”.

O Pai-Nosso contém todos os deveres que nós temos em relação a Deus; contém ademais os atos de todas as virtudes e os pedidos para todas as nossas necessidades espirituais e corporais.

Ele é o resumo do Evangelho, como diz Tertuliano. Ele ultrapassa, diz Tomás de Kempis, todos os desejos dos Santos; compreendia todas as doces sentenças dos salmos e dos cânticos; pede tudo o que nos é necessário; louva a Deus de modo excelente; e eleva a alma da terra ao céu, unindo-a estreitamente a Deus.

Devemos recitar a Oração Dominial na certeza de que o Pai Eterno a atenderá, pois é a oração de seu Filho, que Ele sempre atende.

Santo Agostinho assegura que o Pai-Nosso bem rezado apaga os pecados veniais.

Dizendo: “Pai nosso, que estais no Céu”, formulamos atos de fé, de adoração e de humildade. Desejando que seu Nome seja santificado e glorificado, manifestamos zelo por sua glória.
Pedindo-Lhe que venha a nós o seu Reino, fazemos um ato de esperança. Desejando que sua vontade seja feita na terra como no céu, fazemos um ato de perfeita obediência.
Pedindo-Lhe o pão nosso de cada dia, praticamos a pobreza de espírito e o desapego dos bens terrenos.
Pedindo que nos perdoe as nossas ofensas, realizamos um ato de arrependimento; e perdoando aqueles que nos ofendem, exercitamos a misericórdia na sua mais alta perfeição.
Pedindo seu socorro para não cairmos em tentação, fazemos atos de humildade, de prudência e de fortaleza. Esperando que Ele nos livre do mal, praticamos a paciência.
Enfim, pedindo todas essas coisas, não somente para nós, mas também para o nosso próximo e para todos os membros da Igreja, cumprimos o dever de verdadeiros filhos de Deus, pois O imitamos na sua caridade, que abarca todos os homens, e cumprimos o mandamento do amor ao próximo.

c) A Ave Maria. A Ave Maria, também conhecida como “Saudação Angélica”, é tão sublime e elevada, que o Beato Alano de la Roche julgou que nenhuma criatura pode compreendê-la e que somente Jesus Cristo, nascido da Virgem Maria, pode explicá-la.

Ela tira principalmente sua excelência da Santíssima Virgem à qual foi dirigida; da finalidade da Encarnação do Verbo para a qual foi trazida do céu; e do Arcanjo São Gabriel, que a pronunciou pela primeira vez. A Saudação Angélica resume toda a teologia cristã sobre Maria Santíssima.

A Santíssima Trindade revelou a primeira parte da Ave Maria; Santa Isabel, iluminada pelo Espírito Santo, acrescentou a segunda; e a Igreja, no I Concílio de Éfeso (ano 430), pôs a conclusão, após ter definido que Nossa Senhora é verdadeiramente Mãe de Deus. Esse Concílio ordenou que Ela fosse invocada com as seguintes palavras: “Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte”.

Deus Pai é glorificado quando honramos a mais perfeita de suas criaturas. Deus Filho é glorificado porque louvamos sua puríssima Mãe. O Espírito Santo é glorificado porque admiramos as graças com as quais Ele cumulou sua Esposa.

Assim como a Virgem, em seu belo cântico Magnificat, remeteu a Deus os louvores e as bençãos que Lhe dirigiu Santa Isabel, assim também Ela remete prontamente a Deus os elogios e as bençãos que Lhe damos pela Saudação Angélica.

No momento em que Santa Isabel ouviu a saudação que lhe deu a Mãe de Deus, ela foi comulada pelo Espírito Santo, e a criança que levava no seio estremeceu de alegria.

Maria é a nossa Mãe e nossa amiga. Ela é a Imperatriz do universo, e nos ama mais do que todas as mães e rainhas juntas amaram um homem mortal. Pois, diz Santo Agostinho, a caridade da Virgem Maria excede todo o amor natural de todos os homens e de todos os Anjos.

Tenhamos sempre a Ave Maria no coração e nos lábios para honrar a Santíssima Trindade, para honrar a Jesus Cristo, nosso Salvador, e sua santa Mãe.

Ademais, no fim de cada dezena acrescentemos:
“Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Assim como era no princípio, agora e sempre, por todos os séculos dos séculos. Amém”.

A ORAÇÃO MENTAL (meditação) — OS QUINZE MISTÉRIOS DO ROSÁRIO
Mistério é uma coisa sagrada e difícil de compreender. As obras de Jesus Cristo são todas sagradas e divinas, porque Ele é Deus e Homem ao mesmo tempo. As da Santíssima Virgem são santíssimas, porque Ela é a mais perfeita de todas as puras criaturas.
Chamam-se mistérios as obras de Jesus Cristo e de sua santa Mãe, porque são repletas de maravilhas, perfeições e instruções profundas e sublimes, que o Espírito Santo revela aos humildes e às almas simples que Os honram.

São Domingos dividiu a vida de Jesus Cristo e da Santíssima Virgem em quinze mistérios que nos representam suas virtudes e suas principais ações, como quinze quadros, cujas cenas devem nos servir de regra e de exemplo para conduzirmos nossa vida.

Nossa Senhora ensinou a São Domingos esse excelente método de oração e lhe ordenou que o pregasse, a fim de reacender a piedade dos cristãos e de fazer reviver em seus corações o amor de Jesus Cristo.

O Rosário sem a meditação dos mistérios sagrados de nossa salvação não seria senão um corpo sem alma, uma excelente matéria sem a forma que é a meditação.

A primeira parte do Rosário contém cinco mistérios, o primeiro dos quais é a anunciação do Arcanjo São Gabriel à Santíssima Virgem; o segundo, a visitação da Virgem a Santa Isabel; o terceiro, o nascimento de Jesus Cristo; o quarto, a apresentação do Menino Jesus no Templo e a purificação da Virgem; o quinto, o encontro de Jesus no
Templo, entre os doutores. Chamam-se esses mistérios gozosos por causa da alegria que deram a todo o universo.

A segunda parte do Rosário se compõe também de cinco mistérios, que se chamam dolorosos, porque nos representam Jesus Cristo acabrunhado de tristeza, coberto de chagas, sobrecarregado de opróbrios, de dores e de tormentos.
O primeiro desses mistérios é a oração de Jesus e sua agonia no Horto das Oliveiras; o segundo, sua flagelação; o terceiro, sua coroação de espinhos; o quarto, o carregamento da Cruz; e o quinto, sua crucifixão e morte sobre o Calvário.

A terceira parte do Rosário contém cinco outros mistérios, que se chamam gloriosos, porque neles contemplamos a Jesus e Maria no triunfo e na glória.
O primeiro é a ressurreição de Jesus Cristo; o segundo, sua ascensão ao céu; o terceiro, a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos; o quarto, a assunção da gloriosa Virgem; e o quinto, sua coroação.

Essas são as quinze flores perfumadas do Rosário místico, sobre as quais as almas piedosas pousam como sábias abelhas, para colher o néctar admirável e dele compor o mel de uma sólida devoção.

Nossa vida é uma guerra e uma tentação contínuas, na qual não temos que combater inimigos de carne e de sangue, mas as próprias potências do inferno.

Armai-vos, pois, com a arma de Deus que é o santo Rosário. Esmagareis assim a cabeça do demônio e permanecereis inabaláveis diante de todas as suas tentações.

Santo Agostinho assegura que não há exercício mais frutuoso e mais útil para a salvação do que pensar frequentemente nos sofrimentos de Nosso Senhor.

Santo Alberto Magno, mestre de Santo Tomás de Aquino, soube por revelação que a simples lembrança ou meditação da paixão de Jesus Cristo é mais meritória ao cristão do que jejuar a pão e água todas as sextas-feiras de um ano inteiro, ou recitar todos os dias os cento e cinquenta Salmos.

Ah! qual não será, em consequência, o mérito do Rosário que rememora toda a vida e paixão de Nosso Senhor?

COMO SE DEVE REZAR O ROSÁRIO
Não é o prolongamento de uma oração que agrada a Deus e lhe conquista o coração, mas o seu fervor. Uma só Ave-Maria bem rezada tem mais mérito do que cento e cinquenta mal rezadas.

Em primeiro lugar, é preciso que a pessoa que reza o Rosário esteja em estado de graça, ou pelo menos na resolução de sair do seu pecado, porque a Teologia nos ensina que as boas obras e as orações feitas em pecado mortal são obras mortas, que não agradam a Deus nem podem merecer a vida eterna.

Deus ouve antes à voz do coração que à da boca. Rezar a Deus com distrações voluntárias seria uma grande falta de respeito, que tornaria os nossos Rosários infrutíferos.

Para isso, colocai-vos na presença de Deus, pensando que Ele e sua santa Mãe têm os olhos postos sobre vós.

Pensai que vosso Anjo da Guarda está à vossa direita, colhendo as Ave-Marias que rezais, quando elas são bem rezadas, como se fossem rosas, para com elas tecer uma coroa para Jesus e Maria; e que, pelo contrário, o demônio está à vossa esquerda e ronda em torno de vós para devorar vossas Ave-Marias e as anotar no seu livro da morte, se elas são rezadas sem atenção, devoção e modéstia.

Sobretudo, não deixeis de fazer os oferecimentos das dezenas em honra dos mistérios, e de vos representar na imaginação a Nosso Senhor e à sua Santíssima Mãe no mistério que estais honrando.

Se for preciso combater, durante o Rosário, contra as distrações, combatei valentemente de armas na mão, ou seja, prosseguindo o Rosário, ainda que sem nenhum gosto nem consolação sensível.

É um combate terrível, mas é salutar à alma fiel.

“Quem é fiel nas pequenas coisas também o será nas grandes” (Lc 16,10)

Coragem pois, bom e fiel servidor de Jesus Cristo e da Santíssima Virgem, que tomastes a resolução de rezar o Rosário todos os dias! Que a multidão das moscas (chamo assim as distrações que vos fazem guerra enquanto rezais) não vos faça deixar covardemente a companhia de Jesus e de Maria, na qual estais quando dizeis vosso Rosário. A partir daqui indicarei os meios para diminuir as distrações.

Invocai inicialmente o Espírito Santo para bem rezar o vosso Rosário, e colocai-vos em seguida um momento na presença de Deus.

Antes de começar cada dezena, parai um pouco para considerar o mistério que estais celebrando, e pedi sempre, pela intercessão de María Santíssima, uma das virtudes que mais ressaltam naquele mistério ou da qual tendes mais necessidade.

Tende, pois, sempre em vista, ao rezar o Rosário, alguma graça a pedir, alguma virtude a a imitar ou algum pecado a evitar.

É importante rezar o Rosário com atenção e devoção.

Deve-se rezar o Rosário com modéstia, tanto quanto possível de joelhos e com as mãos postas, tendo o Rosário nas mãos.

Pode-se rezá-lo na cama, se está doente; se em viagem, pode-se rezá-lo caminhando.

Pode-se até mesmo rezar o Rosário trabalhando, quando não se pode deixar o trabalho por causa dos deveres profissionais; pois o trabalho manual nem sempre é contrário à oração vocal.

Se não tendes tempo para rezar o terço do Rosário de uma só vez, rezai uma dezena aqui, uma dezena acolá, de tal forma que, apesar das vossas ocupações e negócios, tenhais o Rosário inteiro rezado antes de vos deitardes à noite.

De todas as maneiras de rezar o Rosario, a mais gloriosa a Deus, mais salutar á alma e mais terrível ao demônio, é salmodiá-lo ou rezá-lo publicamente em dois coros.

O Rosário cotidiano tem tantos inimigos, que eu considero um dos mais assinalados favores de Deus a graça de perseverar nele até à morte.

Perseverai nele e terei a coroa admirável que está preparada nos ceus para a vossa fidelidade: “Permanece fiel até à morte e te darei a coroa” (AP 2,10).

***

Fonte: MONTFORT, Luís Maria Grignion de. A eficácia maravilhosa do Santo Rosário. São Paulo: Artpress, 2000
Créditos: O Camponês

domingo, 26 de abril de 2015

Santo Epifanio «Os Últimos Dias da Virgem Maria»




Santo Epifanio

«Os Últimos Dias da Virgem Maria»

«Voltando-se o Senhor, viu o discípulo a quem amava
e lhe disse, a respeito de Maria: 'Eis aí tua Mãe'; 
e então à Mãe: 'Eis aí teu filho'»

(Jo 19,26).

Ora, se Maria tivesse filhos, ou se seu esposo ainda estivesse vivo, por que o Senhor a confiaria a João, ou João a ela? Mas, e também por que não a confiou a Pedro, a André, a Mateus, a Bartolomeu? Fê-lo a João, por causa de sua virgindade. A ele foi que disse: "Eis aí tua mãe".

Não sendo mãe corporal de João, o Senhor queria significar ser ela a mãe ou o princípio da virgindade: dela procedeu a Vida. Nesse intuito dirigiu-se a João, que era estranho, que não era parente, a fim de indicar que sua Mãe devia ser honrada. Dela, na verdade, o Senhor nascera quanto ao corpo; sua encarnação não fora aparente, mas real. E se ela não fosse verdadeiramente sua mãe, aquela de quem recebera a carne, e que o dera à luz, não se preocuparia tanto em recomendá-la como a sempre Virgem. Sendo sua Mãe, não admitia mancha alguma na sua honra e no admirável vaso de seu corpo.

Mas prossegue o Evangelho: "e a partir daquele momento, o discípulo a levou consigo".

Ora, se ela tivesse esposo, casa e filhos, iria para o que era seu, não para o alheio.

Temo, porém, que isso de que falamos venha a ser deturpado por alguns, no sentido de que pareça estimulá-los a manter as mulheres que dizem companheiras e diletas - coisa que inventaram com péssima intenção.

Com efeito, ali (no caso de João e da Santíssima Virgem) tudo foi disposto por uma providência especial, que tornava a situação desligada das obrigações comuns que, conforme a lei de Deus, se devem observar. Aliás, depois daquele momento em que João a levou consigo, não permaneceu ela longamente em sua casa.

Se alguém julgar que estamos laborando em erro, pode consultar a Sagrada Escritura, onde não achará a morte de Maria, nem se foi morta ou não, se foi sepultada ou não. E quando João partiu para a Ásia, em parte alguma está dito que tenha levado consigo a santa Virgem: sobre isso a Escritura silencia totalmente, o que penso ocorrer por causa da grandeza transcendente do prodígio, a fim de não induzir maior assombro às mentes.

Temo falar nisso e procuro impor-me silêncio a este respeito. Porque não sei, na verdade, se podem achar indicações, ainda que obscuras, sobre a incerta morte da santíssima e muito bem-aventurada Virgem. Pois de um lado temos a palavra, proferida sobre ela: "uma espada transpassará tua alma, para que sejam revelados os pensamentos de muitos corações" (Lc 2,35). De outro lado, todavia, lemos no Apocalipse de João (Ap 12), que o dragão avançou contra a mulher, quando dera à luz um varão; e que foram dadas a ela asas de águia, de modo a ser transportada para o deserto, onde o dragão não a alcançasse. Isso pode ter-se realizado nela. Embora eu não o afirme totalmente. Nem digo que tenha ficado imortal nem posso afirmar que tenha morrido. A Sagrada Escritura, transcendendo aqui a capacidade da mente humana, deixa a coisa na incerteza, em atenção ao Vaso exímio e excelente, de sorte que ninguém lhe atribua alguma sordidez própria da carne. Portanto, se ela morreu, não sabemos. E mesmo que tivesse sido sepultada, jamais teve comércio carnal: longe de nós essa blasfêmia! Quem ousaria, em furor de loucura, impor esse opróbrio à santa Virgem, erguendo contra ela a voz, abrindo a boca para uma afirmação assim nefanda, ao invés de lhe entoar louvores? quem iria desonrar assim o Vaso digno de toda honra?

Foi a ela que prefigurou Eva, ao receber o título, um tanto misterioso, de mãe dos viventes (Gn 3,20). Sim, porque o recebeu depois de ter escutado a palavra: "tu és terra e à terra hás de tornar", isto é, depois do pecado.

Numa consideração exterior e aparente, dir-se-ia que de Eva derivou a vida de todo o gênero humano, sobre a terra. Mas na verdade é de Maria que deriva a verdadeira vida para o mundo, é ela que dá à luz o Vivente, ela a Mãe dos viventes. Portanto, o título de "mãe dos viventes" queria indicar, na sombra e na figura, Maria.

Com efeito, não se aplica, porventura, às duas mulheres aquela palavra: "quem deu a sabedoria à mulher, quem lhe deu a ciência de tecer?" (Jo 18,36)

Eva, a primeira mulher sábia, teceu vestes visíveis para Adão, a quem despojara. Fora condenada ao trabalho. Já que tinha sido responsável pela nudez dele, precisou confeccionar a veste que cobrisse essa nudez externa, que cobrisse o corpo exposto aos sentidos.

A Maria, porém, coube vestir o cordeiro e" ovelha; com cujo esplendor e glória, como se fora uma lã, foi confeccionada sabiamente para nós uma veste, na virtude de sua imortalidade.

Outra coisa, além disso, pode considerar-se em ambas - Eva e Maria - digna de admiração. Eva trouxe ao gênero humano uma causa de morte, por ela a morte entrou no orbe da terra; Maria trouxe uma causa de vida, por ela a Vida se estendeu a nós. Pois o Filho de Deus veio a este mundo, para que" onde abundara o delito, superabundasse a graça" (Rm 5,20). Onde a morte havia chegado, chegou a vida, para" tomar seu lugar; e aquele mesmo que nasceu da mulher para ser nossa Vida haveria de expulsar a morte, introduzida pela mulher.

Quando ainda virgem, no paraíso, Eva desagradou a Deus, por sua desobediência. Por isso mesmo, emanou da Virgem a obediência própria da graça, depois que se anunciou o advento do Verbo revestido de corpo, o advento da eterna Vida do Céu.

FONTE:

GOMES, C. F. Antologia dos Santos Padres. Ed. Paulinas - São Paulo, 1979
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