sexta-feira, 21 de março de 2014

Santo Antão - A Obra que agrada a Deus



A OBRA QUE AGRADA A DEUS
- Sentença dos escritos de Santo Antão -


A obra pela qual o homem pode agradar a Deus é a lei e a obra da caridade.

Ela é a boa vontade, que perfeitissimamente agrada a Deus.

Cumpre-a aquele que incessantemente louva a Deus com pensamentos puros, que produzem a memória de Deus e a memória dos bens que Ele nos prometeu, e que em nós cumpriu por obras, e de sua grandeza. Da memória destas coisas se origina no homem aquele amor perpétuo que nos foi prescrito:
"Amarás o Senhor teu Deus 
de todo o teu coração, 
de toda a tua alma, 
e com toda a tua força".

Está também escrito:

"Como a corça que suspira pelas águas da torrente, 
assim minha alma suspira por vós, ó Senhor".

Assim é necessário que cumpramos para com o Senhor esta obra e esta lei, para que em nós se cumpra aquela sentença do Apóstolo:
"Quem poderá separar-nos do amor de Cristo? 
Certamente nem as tribulações, 
nem as tristezas, nem a fome, 
nem a nudez, nem as angústias, 
nem a espada, nem o fogo".


Santo Antão


Fonte: Cristianismo.org

sábado, 15 de março de 2014

São Pedro de São José Betancur - Avisos ascético-espirituais




São Pedro de São José Betancur

AVISOS ASCÉTICO-ESPIRITUAIS


Recordações de alguns conselhos espirituais

do irmão Dom Gregório para aproveitá-los

no transcurso da vida humana.


"São os escritos, parábolas, sentenças e reflexões,

com que o irmão Pedro costumava dirigir-se

aos seus irmãos e às pessoas em geral,

para animá-los no caminho espiritual

e advertí-los sobre os perigos do mundo".


1.Conselhos diversos.

Quando sofremos alguma aflição, temos que entender que isto é parte da cruz de Cristo e que, por meio do sofrimento, podemos beijar esta cruz.

Quando fizermos alguma coisa, temos que refletir sobre ela, para que possamos compreender o motivo pela qual a fazemos, se é para agradar a Deus ou para estar bem com os demais, porque o demônio costuma servir-se da vaidade. Assim, pois, sempre devemos examinar a razão de nossa conduta, considerar a boa intenção, e fazê-lo tudo para a honra a e glória de Deus.

Cada qual deve perguntar-se a si mesmo: com que finalidade faço isto? Para honra e glória de Deis ou para adquirir com isso a fama que o mundo aprecia? Porque se o fazes com outra finalidade que não seja a glória de Deus, estás perdido.

Consideremos sempre a boa intenção, porque a cada momento caímos no erro de não nos fixarmos na boa intenção do que fazemos ou dizemos. Portanto, abramos os sentidos, estejamos alertas, porque no Dia do Juízo se verão as intenções e o dano que a vanglória nos terá causado.

Se presumes ser servo de Deus e desejas padecer por Cristo, mas quando te dizem coisas duras e ofensivas te irritas e incomodas, e interiormente te sentes de tal forma que pareces ter uma legião de demônios, adverte pois que esta é a escola de Deus onde os humildes aprendem.

Mesmo que te digam o que quiserem, nunca te queixes a ninguém, senão a Deus.

Quando pensas que és algo, tem por certo que não és nada; e quando pensas que não és nada, tem por certo que és algo.

Na oração mental é um atrevimentro meditar de imediato na Santíssima Trindade, em vez de prostarmo-nos aos pés de Cristo e suas sacratíssimas chagas, porque elas nos ensinarão como e de que maneira é este tão grande mistério, e nos farão meditar sempre com humildade nas chagas de Cristo.

Examina sempre se te motiva algum amor própio, porque o amor deve-se por somente em Jesus Cristo e não em coisas terrenas e que hão de perecer.

Que se faça em tudo a vontade de Deus, mesmo que nos coloquem onde quiserem, porque mesmo que nos tirem a nossa vontade, não nos podem tirar a Deus.

Tenhamos sempre a devoção de encomendar a Deus aqueles que nos ofendem por palavra ou por obra. Quem isto fizer, cumpre com o Evangelho de Deus.

Se por acaso nos sentirmos tristes, examinemo-nos e vejamos de onde procede a tristeza; porque o demônio costuma dar peso muito grande com coisa muito leve.

Devem-se ter muito presente os mandamentos da Lei de Deus, para examinar se O ofendemos, e se assim for, deve-se recorrer logo à confissão. Se não houver nada em que tenhamos ofendido a Deus, atiremos todas as demais preocupações a um fogo, e isto à face do demônio, e dediquemo-nos a servir a Deus com alegria.

Procuremos sempre o mais baixo lugar e assento, e humilhemo-nos em tudo por Deus.

Eis aqui um argumento contra o demônio. Quando o demônio nos disser que não façamos esforços para servir a Deus, digamos-lhe que assim como ele, com grande esforço, quis ser soberbo e o foi, e conseguiu colocar-se em lugar tão alto, assim também, com grande esforço o servo de Deus deve procurar abater-se entre todos, e que o tenham em nada, por amor de Deus.

Muitas vezes inspira Deus a seus servos para que façam em público algumas devoções, e as fazem porque sabem a quem servem; porém são objeto de murmurações por parte de pessoas que não conhecem ao Senhor, e que não tem espírito de Deus. Observa, servo de Deus, se sentes que não há vaidade, que não te importem as murmurações: dá bom exemplo e serve ao Senhor, pois serves a bom Senhor.

Alegra-te sempre com a cruz de Cristo; todo o desejo do servo de Deus deve ser seguir a Cristo; este é o verdadeiro desejo do servo de Deus.

Duas coisas deve ter o servo de Deus, e se não as tem, deve trabalhar muito para alcançá-las, e elas são: não obedecer em nada à própria vontade; ao contrário, fazer antes a vontade do outro que a sua; não ter cobiça de nada, nem mesmo em coisas muito pequenas, porque do pequeno se passa sempre ao maior. No fim, em tudo se começa por pouco, e o demônio é sutil.

Todas as honras e favores que nos podem dar e fazer nesta vida têm tão pouco valor, que não merecem estar nem sequer debaixo dos pés. Pelo contrário, todas as afrontas, opróbios e desprezos que soframos por Cristo, ainda que os tratemos como às meninas dos olhos, não têm o lugar que merecem.

O servo de Deus deve exercitar-se em considerar as dores que padeceu Cristo naquelas carnas sacrossantas; as penas interiores que padeceu Cristo em sua allma; as afrontas que padeceu em sua honrfa. A maneira de exercitar estas coisas consiste em dizer, quando padeçamos dores no corpo: quero padecer estas dores em satisfação de meus pecados. Se são penas interiores digamos: penas de Cristo, vos ofereço as minhas. Se são ofensas que ferem nossa honra, dizer: afrontas de Cristo, por vós as padeço.

Persuade-te, homem, que não há mais do que duas coisas boas, que são: Deus e a alma, e se o quiseres ver bem, pensa e traze à memória todo o criado, e examina cada coisa em si mesma, e verás como tudo é nada. Fixa-te cuidadosamente na terra, no mar, na prata, no ouro, em toda criatura na terra e no mar, e verás, segundo te disse, como tudo é nada. E assim, posto que tudo é nada, há que estimar-se tudo como nada, e buscar a Deus, que o é tudo, e assim acertarás. Vá a alma a Deus, e venha Deus à alma, pois Ele a criou capaz de fruí-lo.

2. Proveitos para os que assistem Missa.

Vejamos o que dizem os doutores cujos escritos foram achados no Sagrado Convento de Ara Coeli em Roma.

Afirma São Bernardo que se o homem andasse peregrinando por todo o mundo por amor de Deus e desse todo o seu dinheiro em esmola, não ganharia tanto bem para a sua alma como pela missa ouvida devotamente, isto é, estando em graça.

Assevera São Jerônimo que, enquanto a missa se celebra, aquelas almas pelas quais se oficia, se estiverem no Purgatório, não são atormentadas durante o tempo em que dura a celebração.

Diz Santo Ambrosio que qualquer coisa que o homem comesse depois de ouvir missa, lhe aproveitará para sustento de sua vida mais que se a comesse antes de ouvir missa.

Afirma Santo Agostinho que o homem, enquanto ouve missa, não envelhece nem enfraquece, assim como Adão não haveria adoecido, nem a vida se lhe terminaria, se não tivesse comido do fruto da árvore da vida.

Acrescenta o mesmo santo que o pecador que devotamente está na missa, se aquele dia morresse tendo-se arrependido sinceramente de seus pecados, mesmo que não recebesse os demais sacramentos da Igreja, a missa lhe valeria por todos eles.

Também segundo Santo Agostinho, todos os passos que o homem dá quando vai ouvir missa, os conta e os escreve o Anjo da Guarda para que o Senhor lhe dê um grande prêmio. Diz o mesmo doutor que durante aquela hora que se emprega em visitar e adorar o Sagrado Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo, o demônio sai do corpo.

3. A moradia cristã.

Deve seguir os exemplos de Marta e de Maria, que são exemplos de vida ativa e contemplativa. O que for como Marta, isto é, tão ativo, que não se lembrar de Maria, isto é, do contemplativo, vai perdido; e o que for tão Maria, isto é, tão contemplativo que não se lembrar de Marta, vive enganado.

4. O caminho do céu. Meios proveitosos para o caminho do céu.

A mortificação interior e exterior.


Não está a mortificação no exterior, mas no operar com boa intenção. Vejam, meus irmãozinhos, é preciso cuidar muito da intenção com que realizamos alguns atos de caridade. Porque pode haver muito mal no que a todos parece bom. Como digo, tendo boa intenção, nenhum erro se pode cometer.

5. Sobre o Natal.

Irmãos, quando chegar [o Natal], percam o juízo pelo Menino Jesus. Sejam humildes e não desejem mandar.

6. Sobre a humildade.

A. Devemos ser a vassoura do povo, porque temos que andar sentindo-nos debaixo de todos, sem vaidade ou orgulho. Ao ver um índio que leva sua carga, se esta for demasiada, devemos ajudá-lo a levá-la.

Alternando-se por semanas, dois irmãos devem ir às obras para ajudar a terminar sua tarefa aos trabalhadores que trabalham forçados e não por sua livre vontade.

E para ensinar a nos desprender das coisas deste mundo e a aborrecer as culpas passadas, para que não se nos agarre o pó da mundanidade que busca entrar em nós, temos que estar como no ar, como um pássaro que, desde a altura, olha para baixo.

B. Ser humildes por Cristo é caminho seguro de salvação, a tal ponto que eu me sentiria satisfeito e agradecido de que em público me dessem duzentos açoites.

C. Sejam humildes por Cristo, o que é seguro. Me alegraria e fariam um grande favor se me dessem açoites pelas ruas desta cidade.

7. Negação de si mesmo.

Alguns começam a servir a Deus com grandes ânsias, e para isto abandonam pais, amigos, casas, dinheiro e demais comodidades; porém, por sua miséria espiritual e sua fraqueza, apesar de terem deixado tudo isto, são estorvados por algumas coisinhas e aflições que os impedem do verdadeiro aproveitamento e perfeição. É como alguém que sai com grande determinação para fazer uma grande viagem, e depois de muitos dias passa outra pessoa por ali e o encontra no princípio do caminho, detido porque uma corda do sapato se enrolou em um raminho, e está tão cego que não se dá conta daquele impedimento. Ou, se o vê, não tem força ou determinação para desamarrar a corda ou cortar o ramo. Então, impedido de findar a jornada, fica assim, e mesmo depois de ter desatado a corda, volta a enredar-se com coisas muito pequenas, que para si parecem montanhas de dificuldades.

E assim, se queremos chegar à perfeição, temos que romper com tudo, cortando os laços que nos unem com o mundo, ainda que nos doa muito, e isto se faz melhor se nos aconselhamos uns aos outros.

Se eu encontrasse em meus irmãos de comunidade esta disposição de ânimo, lhes diria que ganharam muitos méritos e coroas; porém me preocupo quando ouço que alguém perdeu o domínio de si mesmo; que se nega totalmente quando tratam de ajudá-lo; que, ao buscá-lo, o encontram fechado na cela de sua própria vontade, não somente sentado, mas deitado, e mais ainda, envolto em suas próprias paixões, sendo que eu esperava encontrá-lo livre, fora já da prisão de seu egoísmo.

8. Andar na presença de Deus.

Procuremos fabricar no interior de nossa alma uma ermida ou capela espiritual, onde sempre estejamos com recolhimento. Um lugar que nos sirva de refúgio, assim como quando, estando na rua, se alguém vê que um touro o persegue, se mete em sua casa e fecha as portas, e assim escapa do perigo e fica seguro. Graças a este gênero de recolhimento, estaremos alertas para conhecer as tentações quando se lançam sobre nós, e logo, como em um porto seguro, entraremos na capela da alma para pedir socorro a Deus, fechando as portas ao entrar. Estas, e as demais partes da capela espiritual, devem ser fabricadas por meio daquelas virtudes que permitem resistir aos ataques da tentação. Esta capela serve para comungar espiritualmente, e para ver, graças à meditação, os santos apóstolos e a Virgem Santíssima, todos com velas acesas nas mãos.

9. Guarda dos sentidos.

A alma é como uma jovem muito bela, filha de um homem pobre, que a mantinha em uma casa com muitas portas, porque não havia quem dela cuidasse, a não ser ele mesmo. Pois bem, a filha é a alma, a casa é o corpo, e os sentidos são as portas. Para vigiar e conservar bem a esta filha temos que ter presentes os dez mandamentos, mas também os sete pecados mortais e todas as demais coisas que podem ser instrumento ou causa de pecado. Assim pois, o homem deve estar muito vigilante, e utilizar os remédios para guardar a alma em meio a tantos riscos, recorrendo à oração como principal guarda das portas da alma. Mesmo assim, é necessário examinar todas as nossas ações e ver que virtudes nos são necessárias para guardar estas portas.

10. Sobre a paciência.

Não acreditemos no demônio quando nos move a nos ressentirmos por isto ou aquilo, e perder a paciência. Antes, devemos resistir-lhe, porque muitos se perdem por não exercitarem a virtude da paciência.

11. Sobre a oração.

Feliz é a alma que acompanha sua oração com estas quatro virtudes: confiança, humildade, perseverança e mortificação de seus apetites, porque sempre alcançará do Senhor o que lhe pedir e o encontrará todas as vezes que o busque.

12. Sobre a mortificação.

Vale mais uma pequena cruz, uma dorzinha, uma pena, angústia ou enfermidade enviada por Deus, que os jejuns, disciplinas, cilícios, penitências e mortificações que nós fazemos, se estas penas forem levadas por Deus. Porque aquilo que nós fazemos ou decidimos por nossa única vontade, está envolvido nosso próprio querer, por mais que procuremos afastá-lo da escória no crisol da vontade do pai espiritual que nos aconselha. Porém naquilo que Deus nos envia, se o aceitamos como vindo de sua mão, com resignação e humildade, não querendo outra coisa que o que Deus quer, aí está a vontade de Deus, e em nossa conformidade com ela está nosso êxito e nosso lucro, como em uma riquíssima feira em que recebemos ouro de muitos quilates dando em troca nossas bugigangas e bagatelas. E se nossa pobre mercadoria traz a traça do amor próprio, Deus, que conhece e penetra tudo, em sua misericórdia saberá dar a cada coisa o seu justo valor.

13. Bênçãos.

A. Com toda a humildade de que sou capaz, em nome da Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, eu, ainda que indigno pecador, te abençoo. Que Deus te torne humilde.

B. Em nome da Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, ainda que indigno pecador, vos abençoo, meus irmãos, no que possa, e que Deus vos torne humildes.


Fonte: Cristianismo.org.br

sexta-feira, 14 de março de 2014

Oh formosura que excedeis! - Poema de Santa Teresa D'Ávila


Oh formosura que excedeis!
Santa Teresa D'Ávila

Formosura que excedeis
mesmo as grandes formosuras!
Sem ferir, sofrer fazeis,
e sem sofrer desfazeis
o amor das criaturas.

Oh, laço que assim juntais
duas coisas díspares!,
não sei porquê vos soltais,
pois atando força dais
pra ter por bem os pesares.

Quem não tem ser vós juntais
com o Ser que não se acaba;
sem acabar, acabais,
e sem ter que amar amais,
engradeceis o nosso nada.


Fonte : Bicho de Seda

quinta-feira, 13 de março de 2014

Comentário ao Evangelho do dia (02/03) feito por São João Crisóstomo



(c. 345-407), presbítero de Antioquia, bispo de Constantinopla, doutor da Igreja
Catequeses baptismais, n° 8, 19-25; SC 50


«Porventura não é a vida mais do que o alimento?»


Se dermos realmente o primeiro lugar às realidades espirituais, não teremos de nos preocupar com os bens materiais, pois Deus, na sua bondade, no-los dará em abundância. Se, pelo contrário, nos preocupamos unicamente com os nossos interesses materiais sem cuidarmos da nossa vida espiritual, a preocupação constante com os assuntos terrenos conduzir-nos-á à negligência da nossa alma. […] Não troquemos portanto a ordem das coisas. Conhecendo a bondade do nosso Senhor, confiar-Lhe-emos tudo e não nos deixaremos vencer pelas preocupações desta vida. […] «O vosso Pai Celeste bem sabe que tendes necessidade de tudo isto, mesmo antes que Lho tenhais pedido» (Mt 6,32.8).

Jesus quer que estejamos livres das preocupações deste mundo e que nos consagremos totalmente às obras espirituais. «Procurai pois, diz-nos Ele, os bens espirituais e Eu próprio zelarei amplamente por todas as vossas necessidades materiais. […] Olhai as aves do céu: não semeiam nem ceifam nem recolhem em celeiros; e o vosso Pai celeste alimenta-as» Dito de outra forma: «Se Eu tomo conta das aves do céu, que são irracionais, e lhes proporciono tudo aquilo de que elas necessitam, sem sementeiras nem trabalhos, tanto melhor o farei por vós, que sois dotados da razão, desde que escolhais preferir o espiritual ao corporal. Vendo que as criei para vós, tal como a todos os outros seres, dos quais tanto cuido, de que solicitude não vos julgarei dignos, vós para quem fiz tudo isto?»


Fonte: Evangelho Quotidiano

terça-feira, 11 de março de 2014

A importância da meditação da Paixão de Cristo



       Aquele que deseja avançar de virtude em virtude, de graça em graça, deve meditar continuamente na Paixão de Jesus...

         Não há prática mais proveitosa para a inteira santificação da alma do que a freqüente meditacão nos sofrimentos de Jesus Cristo.
 

São Boaventura

segunda-feira, 10 de março de 2014

São Pedro de Alcântara - Avisos para o Exercício da Meditação



São Pedro de Alcântara
AVISOS PARA O EXERCÍCIO DA MEDITAÇÃO
 

1. Introdução

Tudo o que até aqui dissemos serviu para oferecer matéria de consideração para os que aprendem a meditar, o que é uma das principais partes deste tema. De fato, poucas pessoas possuem suficiente material para reflexão na meditação e, deste modo, por falta dele, não são poucos os que não conseguem dar-se a esta prática.

Agora, porém, resta declarar abreviadamente a maneira e a forma pelas quais pode-se meditar. E. mesmo que nesta matéria o principal Mestre seja o Espírito Santo, todavia a experiência nos mostrou que são necessários alguns avisos, porque o caminho para ir a Deus é árduo e necessita de guia, sem o que muitos andam muito tempo perdidos e desencaminhados.

2. Primeiro Aviso

Seja, pois, este o primeiro aviso: que quando nos pomos a considerar algumas das coisas que já mencionamos como matéria de meditação em seus devidos tempos e exercícios, não devemos estar tão presos a estas matérias que consideremos como serviço mal feito deixarmos uma para tomarmos outra, quando nisto encontrarmos maior gosto ou maior proveito, porque, como a finalidade de tudo é a devoção, o que mais servir para este fim, será isto que se deve considerar como sendo o melhor. Porém isto não se deve fazer por motivos levianos, mas com vantagem conhecida. Sendo assim, se em alguma passagem de sua oração sentirmos maior gosto ou devoção do que em outro, detenhamo-nos nele por todo o espaço de tempo em que dure este afeto, mesmo que todo o tempo do recolhimento se gaste nisto. Porque, como o fim de tudo isto é a devoção, conforme já o explicamos, seria um erro buscar em outra parte, com esperança duvidosa, o que já temos como certo em nossas mãos.

 3. Segundo Aviso

Seja o segundo aviso que trabalhe o homem para desculpar neste exercício a demasiada especulação do entendimento, e procure deixar este negócio mais com afetos e sentimentos da vontade que com discursos e especulações do entendimento.

Porque sem dúvida não acertam este caminho aqueles que de tal maneira se põe na oração a meditar os Mistérios Divinos como se os estivessem estudando para pregar, o que seria mais derramar o espírito do que recolhê-lo e seria mais andar fora de si do que dentro de si. De onde nasce que, acabada a sua oração, ficam secos e sem suco de devoção, e tão fáceis e prontos para qualquer leviandade como o estavam antes. Porque a verdade é que tais pessoas de fato não oraram, mas falaram e estudaram, o que é coisa bem diversa da oração. Estes tais deveriam considerar que no exercício da oração mais nos aproximamos para escutar do que para falar. Para acertar, portanto, neste negócio, aproxime-se o homem com o coração de uma velhinha ignorante e humilde, e mais com a vontade disposta e aparelhada para sentir e afeiçoar-se às coisas de Deus do que com o entendimento esperto e atento para esquadrinhá-las, pois isto é próprio dos que estudam para saber, e não dos que oram e pensam em Deus para chorar.

4. Terceiro Aviso

O aviso anterior nos ensina como devemos sossegar o entendimento e entregar todo este negócio à vontade; mas o presente põe também sua taxa e medida à própria vontade, para que não seja excessiva nem veemente em seu exercício, para o qual deve-se saber que a devoção que pretendemos alcanças não é coisa que se há de alcançar à força de braços, como alguns pensam, os quais, com demasiado afinco e tristezas forçadas e como que por encantamentos procuram alcançar lágrimas e compaixão quando pensam na Paixão do Salvador, porque isto costuma mais secar o coração e torná-lo mais inábil para a visitação do Senhor, conforme ensina Cassiano. E ademais estas coisas costumam causar dano à saúde corporal, e às vezes deixam a alma tão atemorizada com o sensabor que ali alcançou, que teme retomar outra vez ao exercício como a algo que experimentou ter-lhe dado muita pena. Contente-se, pois, o homem com fazer de boa vontade o que é de sua parte, que é encontrar-se presente ao que o Senhor padeceu, admirando com olhar simples e sossegado e com um coração terno e compassivo e aparelhado para qualquer sentimento que o Senhor lhe quiser conceder pelo que Ele padeceu, mais disposto para receber o efeito que sua misericórdia lhe conceder do que para expressá-lo à força de braços. E, feito isso, não se aflija pelo restante, quando não lhe for dado.

 5. Quarto Aviso

De tudo quanto foi dito podemos concluir qual é o modo da atenção que devemos ter na oração, porque aqui principalmente convém ter o coração não caído nem frouxo, mas vivo, atento e erguido para o alto. Mas assim como é necessário estar aqui com esta atenção regrada e moderada, para que não seja danosa à saúde nem impeça a devoção, porque há alguns que fatigam a cabeça com a demasiada força que empregam para estarem atentos ao que pensam, conforme já dissemos, assim também há outros que, para fugirem deste inconveniente, estão ali muito frouxos e remissos e muito fáceis de serem levados por todos os ventos. Para fugir destes extremos convém conduzir um meio termo que nem com a demasiada atenção fatiguemos a cabeça, nem com o muito descuido e frouxidão fiquemos vagando com o pensamento por onde ele bem entenda. De modo que, assim como costumamos dizer ao homem que caminha sobre uma besta maliciosa que mantenha as rédeas firmes, isto é, nem muito apertada nem muito frouxa, para que nem volte para trás, nem caminhe com perigo, assim devemos procurar que nossa atenção siga com moderação e não forçada, com cuidado mas não com fadiga e aflição.

Mas particularmente convém avisar que no princípio da meditação não fatiguemos a atenção com demasiada atenção, porque quando isto se faz, mais adiante costumam faltar as forças, como faltam ao caminhante quando no princípio da jornada se entrega a uma demasiada pressa para caminhar.

 6. Quinto Aviso

Mas entre todos estes avisos o principal é que não desanime aquele que ora, nem desista de seu exercício quando não sente imediatamente aquela suavidade da devoção que ele deseja. É necessário que com longanimidade e perseverança esperar a vinda do Senhor, porque à glória de Sua Majestade e à baixeza de nossa condição e à grandeza do negócio que tratamos pertence que estejamos muitas vezes esperando e aguardando às portas de seu palácio sagrado.

Pois quando desta maneira tenhas aguardado um pouco de tempo, se o Senhor vier, dá-lhe graças por sua vinda e, se te parecer que não vem, humilha-te diante dEle, e conhece que não mereces o que não te deram, e contenta-te com ter feito ali o sacrifício de ti mesmo e negado a tua própria vontade e crucificado o teu apetite e lutado com o demônio e contigo mesmo, e feito pelo menos o que era de tua parte. E se não adoraste o Senhor com a adoração sensível que desejavas, basta que o tenhas adorado em espírito e em verdade, como Ele quer ser adorado (Jo. 4, 23). E creia-me, com certeza, que este é o caso mais perigoso desta navegação e o lugar onde se provam os verdadeiros devotos, e que se dele te saires bem, em tudo o demais seguirás prosperamente.

Finalmente, se mesmo assim te perecesse que fosse tempo perdido perseverar na oração e fatigar a cabeça sem proveito, neste caso não teria por inconveniente que, depois de ter feito o que está em ti, tomasses algum livro devoto e trocasses então a oração pela lição, contanto que a leitura não fosse corrida nem apressada mas pausada e com muito sentimento quanto ao que estivesses lendo, misturando muitas vezes em seus lugares a oração com a leitura, o qual é coisa muito proveitosa e muito fácil de fazer para todo gênero de pessoas, mesmo que sejam muito rudes e principalmente neste caminho.

7. Sexto Aviso

Não é documento diverso do anterior, nem menos necessário avisar que o servo de Deus não se contente com qualquer gostozinho que encontre em sua oração (como fazem alguns que derramando uma lagrimazinha ou sentindo alguma ternura de coração, pensam que já cumpriram com o seu exercício). Isto não basta para o que aqui pretendemos. Porque assim como um pequeno filete de água não basta para que a terra frutifique, que não faz mais do que tirar a poeira e molhar a terra por fora, mas é necessária tanta água que desça até o íntimo da terra e a deixe encharcada de água para que possa frutificar, assim também aqui é necessária a abundância deste rio e desta água celestial para que possa dar fruto de boas obras. É por isto que com muita razão se aconselha que tomemos para este santo exercício o maior espaço de tempo que pudermos. E melhor seria um tempo longo do que dois tempos curtos, porque se o espaço é breve, todo ele será gasto em sossegar a imaginação e aquietar o coração, e depois de já quieto nos levantaremos do exercício quando o teríamos de começar.

E descendo a maiores detalhes no que diz respeito a delimitar este tempo, parece-me que tudo o que for menos de uma hora e meia ou duas horas é um tempo muito curto para a oração, porque muitas vezes se passa mais do que meia hora em moderar o caminho e acalmar a imaginação e todo o restante do tempo é necessário para gozar do fruto da oração. É verdade que quando este exercício é feito depois de alguns outros santos exercícios, como depois do ofício das matinas ou depois de ter assistido ou celebrado missa ou depois de alguma leitura devota ou oração vocal, o coração se encontra mais disposto para este negócio e, assim como ocorre com a lenha seca, mais rapidamente se acende este fogo celestial. Também o tempo da madrugada costuma ser mais curto porque é o mais aparelhado que existe de todos quantos há para este ofício. Mas o que for pobre de tempo por causa de suas muitas ocupações, não deixe de oferecer seu quinhãozinho com a pobre viúva do Templo (Lc. 21, 2), porque se isto não ocorre por sua negligência, Aquele que provê a todas as suas criaturas conforme a sua necessidade e natureza, prove-lo-á também segundo a sua.

8. Sétimo Aviso

Conforme a este documento se dá outro semelhante a ele, e é que quando a alma for visitada na oração, ou fora dela, com alguma visita particular do Senhor, que não a deixe passar em vão, mas que se aproveite daquela ocasião que se lhe oferece, porque é certo que com este vento navegarão homem mais em uma hora que sem Ele durante muitos dias. Assim se diz que o fazia São Francisco, de quem escreve São Boaventura em sua vida que era tão especial o cuidado que tinha nisto que se ao andar pelo caminho nosso Senhor o visitava com algum favor especial, fazia ir adiante todos os companheiros e permanecia quieto até acabar de ruminar e digerir aquele bocado que lhe vinha do céu. Os que assim não o fazem costumam comumente ser castigados com esta pena, a de que não encontram a Deus quando o buscarem, porque quando Ele os buscava não os encontrou.

 9. Oitavo Aviso

O último e mais principal aviso seja que procuremos neste santo exercício juntar em uma só coisa a meditação com a contemplação, fazendo da primeira a escada para subir até a segunda, para o que deve-se saber que o ofício da meditação consiste em considerar com estudo e atenção as coisas divinas discorrendo de umas para as outras para mover nosso coração a algum efeito e sentimento das mesmas, que é como quem fere uma pedra para arrancar dela alguma centelha. Mas a contemplação consiste em já ter arrancado esta centelha, quero dizer, já ter encontrado este efeito e sentimento que se buscava, e estar em repouso e silêncio em seu gozo, não com muitos discursos e especulações do entendimento, e sim com uma simples vista da verdade, por causa do que diz um santo doutor que a meditação discursa com trabalho e com fruto, mas a contemplação o faz sem trabalho e com fruto; a primeira busca, enquanto que a segunda encontra; a primeira rumina a comida, enquanto que a segunda a degusta; a primeira discorre e tece considerações, enquanto que a segunda se contenta com uma simples vista das coisas, porque já possui o amor e o gosto das mesmas; finalmente, a primeiro é como um meio, enquanto que a segundo é como um fim; a primeira é como caminho e movimento, enquanto que a segunda é como o término deste caminho e movimento.

Daqui se conclui uma coisa muito comum, que é ensinada por todos os mestres da vida espiritual, ainda que pouco entendida por parte dos que a lêem, a saber, que assim como ao se alcançar um fim cessam os meios, assim como chegando ao porto cessa a navegação, assim também quando o homem, mediante o trabalho da meditação, chegar ao repouso e ao gosto da contemplação, deve então cessar daquela piedosa e trabalhosa investigação. E contente com uma simples vista e memória de Deus, como se o tivesse presente, tomar posse daquele afeto que se lhe é dado, seja ora de amor, ora de admiração ou de alegria ou coisa semelhante. A razão pela qual isto se aconselha está em que, como o fim de todo este negócio consiste mais no amor e nos afetos da vontade do que na especulação do entendimento, quando a vontade já está presa e tomada deste afeto, devemos dispensar todos os discursos e especulações do entendimento, na medida em que nos seja possível, para que nossa alma com todas as suas forças se empregue nisto sem derramar-se pelos atos de outra potência. E por isso aconselha um doutor que assim que o homem sentir-se inflamado do amor de Deus, deve logo deixar todos estes discursos e pensamentos, por mais altos que possam parecer, não porque sejam maus, mas porque neste caso se tornam impedimentos de outro bem maior, o que não é outra coisa mais do que cessar o movimento quando se chega ao seu término e deixar a meditação por amor da contemplação. Pode-se assinalar que isto pode ser feito no fim de todo o exercício, depois de se pedir o amor de Deus, de que antes já havíamos tratado, pelos seguintes dois motivos. Primeiro, porque pressupõe-se que neste momento o trabalho já feito no exercício terá dado à luz a algum efeito e sentimento de Deus, e, como diz o Sábio, mais vale o fim da oração do que o seu princípio (Eccles. 7,7). Segundo, porque depois do trabalho da meditação e da oração é razoável que o homem dê um pouco de folga ao entendimento e o deixe descansar nos braços da contemplação. Neste tempo, portanto, abandone o homem todas as imaginações que se lhe oferecerem, cale o entendimento, aquiete a memória e fixe-a em Nosso Senhor, considerando que está diante de sua presença e não especulando em particularidades das coisas divinas. Contente-se com o conhecimento que ele possui de Deus pela fé e aplique a sua vontade e amor, pois somente este o abraça e nele está o fruto de toda a meditação, pois o entendimento quase nada alcança do que se pode conhecer de Deus ao passo que a vontade pode amá-Lo muito. Encerre-se dentro de si mesmo no centro de sua alma onde está a imagem de Deus, e ali esteja atento a Ele, como quem escuta ao que fala a partir de alguma elevada torrem ou como quem o tivesse dentro de seu coração, e como se em toda a criação não houvesse mais nada senão somente ela ou somente ele. E mesmo de si mesma e do que faz deveria esquecer-se, porque, como dizia um daqueles Padres, a perfeita oração é aquela onde o que está orando não se recorda que está orando. E não somente no fim do exercício, como também no meio e em qualquer outra parte em que nos tomar este sonho espiritual, quando o entendimento está como que adormecido da vontade, devemos fazer esta pausa, gozar deste benefício e retornar ao nosso trabalho ao acabar de digerir e degustar aquele bocado. É assim que faz o jardineiro quando rega a sua terra a qual, depois de tê-la enchido de água, suspendo o jorro da corrente e deixa empapar e difundir-se pelas entranhas da terra seca o que esta recebeu e, uma vez feito isto, volta a soltar o jorro da fonte, para que receba mais e mais e fique melhor regada. Mas o que então a alma sente, o que goza da luz, da fartura, da caridade e da paz que recebe, não se pode explicar com palavras, pois aqui está a paz que excede todo o sentido e a felicidade que nesta vida se pode alcançar.

Há alguns tão tomados pelo amor de Deus que tão logo tenham começado a pensar nEle a memória de seu doce nome lhes derrete as entranhas. Estes têm tão pouca necessidade de discursos e considerações para amá-Lo como a mãe ou a esposa para regalar-se com a memória de seu filho ou esposo quando lhe falam dele. Há outros também que não somente no exercício da oração, como também fora dele, andam tão abosortos e tão empapados de Deus, que de todas as coisas e de si mesmos se esquecem por causa dEle pois, se isto o pode muitas vezes o amor furioso de um perdido, quanto mais não o poderá o amor daquela infinita beleza, se não é menos poderosa a graça do que a natureza e do que a culpa? Pois quando a alma o sentir, em qualquer parte da oração em que o sinta, de nenhuma maneira o deve menosprezar, mesmo que todo o tempo do exercício se gastar nisso, sem rezar ou meditar nas outras coisas que lhe estavam determinadas, a não ser que estas lhes fossem obrigatórias, porque assim como diz Santo Agostinho que deve-se deixar a oração vocal quando esta em alguma circunstância fosse impedimento da devoção, assim também deve-se deixar a meditação quando fosse impedimento da contemplação.

De onde que também deve-se muito notar que assim como nos convém deixar a meditação pelo afeto para subir do menos ao mais, assim também, pelo contrário, às vezes convirá deixar o afeto pela meditação, quando o afeto fosse tão veemente que se temesse perigo para a saúde perseverando nela, como muitas vezes acontece aos que, sem este aviso, se entregam a estes exercícios e os tomam sem discrição, atraídos pela força da divina suavidade. E em um caso como este, diz um doutor, é bom remédio entregar-se a algum afeto de compaixão, meditando um pouco na Paixão de Cristo, ou nos pecados e nas misérias do mundo, para aliviar e desafogar o coração.


Fonte: Cristianismo.org.br

Ave Maria - Tomás Luís de Victoria


O Padre Tomás Luís de Victoria é um dos mais importantes compositores de música sacra de todos os tempos. Foi discípulo do grande Giovanni Pierluigi della Palestrina - o Príncipe da Música Sacra. Contemporâneo e conterrâneo de Santa Teresa D'Ávila, Victoria conheceu a grande Doutora da Igreja em sua juventude. Inclusive, há quem diga que o sacerdote compositor era também místico, e teve experiências místicas na oração semelhantes as narradas por Santa Teresa em seus magníficos livros. Ou seja, as músicas por ele compostas são fruto não apenas do seu profundíssimo conhecimento musical, de sua criatividade de gênio, mas também de um elevado conhecimento teológico e de uma espiritualidade riquíssima. Música ideal para nos levar a Deus, e para os braços de Nossa Senhora!
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