quinta-feira, 6 de março de 2014

Comentário do Evangelho do dia (23/02) feito por São Francisco de Assis




(1182-1226), fundador da Ordem dos Frades Menores
Admoestações, 9-10


«Eu, porém, digo-vos: não oponhais resistência ao mau»


«Amai os vossos inimigos», diz o Senhor. Amar verdadeiramente o inimigo é em primeiro lugar não se lamentar pelas injustiças sofridas. É sentir dolorosamente o pecado cometido pelo outro como uma ofensa ao amor de Deus, e é provar-lhe, por acções, que ainda o amamos.

«Cometi um pecado? A culpa é do diabo! Sofri uma injustiça? A culpa é do outro!» – esta é a atitude de muitos cristãos. Mas não são os outros que devo culpar, pois o inimigo está nas mãos de cada um; o inimigo é o egoísmo que nos faz cair em pecado. Feliz, portanto, o servo que sempre mantiver acorrentado este inimigo entregue em suas mãos, e estiver armado contra ele com sabedoria; desde que se comporte assim, nenhum outro inimigo, visível ou invisível, poderá fazer-lhe mal.


 Fonte: Evangelho Quotidiano

Comentário do Evangelho do dia (22/02) feito por São Leão Magno



(?-c. 461), papa, doutor da Igreja

Sermão 4, sobre o aniversário da sua ordenação, 2 (trad. do Breviário de 22 de Fevereiro)


«Sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja»


Nada podia escapar à sabedoria e ao poder de Cristo: os elementos da natureza estavam ao seu serviço, os espíritos obedeciam-Lhe e os anjos serviam-no. […] De entre os homens de todo o mundo, é Pedro o único escolhido para ser posto à frente de todos os povos chamados à fé, para ser posto à frente de todos os apóstolos e de todos os Padres da Igreja; e assim, embora haja no povo de Deus muitos sacerdotes e muitos pastores, Pedro é o verdadeiro guia de todos aqueles que têm Cristo como chefe supremo. […]

A todos os apóstolos pergunta o Senhor o que pensam os homens acerca dele; e a resposta de todos revela de modo unânime as hesitações da humana ignorância. Mas quando procura saber o pensamento dos discípulos, o primeiro na confissão do Senhor é o primeiro na dignidade apostólica. Tendo ele dito: «Tu és Cristo, o Filho do Deus vivo», Jesus respondeu-lhe: «És feliz, Simão, filho de Jonas, porque não foram a carne nem o sangue que to revelaram, mas sim meu Pai que está nos céus» (Mt 16,16-17); ou seja, és feliz porque meu Pai te ensinou, e não foste enganado pela opinião da terra, mas instruído pela inspiração do céu; e não foram a carne nem o sangue que to revelaram, mas sim Aquele de Quem sou o Filho Unigénito.

«E Eu digo-te», acrescentou; ou seja, assim como meu Pai te manifestou a minha divindade, assim Eu te revelo a tua dignidade: «Tu és Pedro», isto é: Eu sou a pedra inquebrantável, Eu sou «a pedra angular» que «de dois povos fez um só» (Ef 2,20.14), Eu sou o fundamento que ninguém pode substituir (1Cor 3,11); todavia, também tu és pedra, porque solidário com a minha força e, desse modo, o poder que Me é próprio por prerrogativa pessoal ser-te-á comunicado pela participação comigo. «E sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja» (Mt 16,18). […] Sobre esta fortaleza construirei um templo eterno, e as alturas da minha Igreja, que hão-de penetrar no céu, erguer-se-ão sobre a firmeza da fé de Pedro. 
 
 
Fonte: Evangelho Quotidiano

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

O pecador aflige o Coração de Deus - Meditação de Santo Afonso para os dias de Carnaval (Parte I)





Exacerbavit Dominum peccator: secundum multitudinem irae suae non quaeret ― "O pecador irritou ao Senhor: não se importa da grandeza de sua indignação" (Ps. 9, 24).

Sumário. Não há dissabor maior do que ver-se pago com ingratidão por uma pessoa amada e beneficiada. Daí infere quanto deve estar amargurado o Coração sensibilíssimo de Jesus, que, não obstante os imensos e contínuos benefícios concedidos aos homens, é tão vilmente ultrajado pela maior parte deles, especialmente neste tempo de carnaval. Jesus não pode morrer; mas, se o pudesse, havia de morrer só de tristeza. Procuremos nós ao menos desagravá-Lo um pouco com os nossos obséquios.

I. O pecador injuria a Deus, desonra-O e por isso amargura-O sumamente. Não há dissabor mais sensível do que ver-se pago com ingratidão por uma pessoa amada e beneficiada. A quem ofende o pecador? Injuria um Deus, que o criou e amou a ponto de dar por amor dele o sangue e a vida. Cometendo um pecado mortal, bane esse Deus de seu coração.

Que mágoa não sentirias, se recebesses injúria grave de uma pessoa a quem tivesses feito bem? É esta a mágoa que causaste a teu Deus, que quis morrer para te salvar. Com razão o Senhor convida o céu e a terra, para de alguma sorte compartilharem com ele a dor que lhe causa a ingratidão dos pecadores: Ouvi, céus, e tu, ó terra, escuta: Criei uns filhos e engrandeci-os; porém, eles me desprezaram. ― Ipsi autem spreverunt me (1). ― Numa palavra, os pecadores, com o pecado, afligem o coração de Deus: Exacerbavit Dominum peccator. Deus não está sujeito à dor, mas, se a pudesse sofrer, um só pecado mortal bastaria para O fazer morrer de tristeza, porque Lhe causaria uma tristeza infinita. Assim, o pecado, no dizer de São Bernardo, por sua natureza é o destruidor de Deus: Peccatum, quantum in se est, Deum perimit.

Quando o homem comete um pecado mortal, dá, por assim dizer, veneno a Deus, faz o que está em si, para tirar-lhe a vida. Segundo a expressão de São Paulo, renova de certo modo a crucifixão e as ignomínias de Jesus e calca-O aos pés, pois que despreza tudo o que Jesus Cristo fez e sofreu para tirar o pecado do mundo: Qui filium Dei conculcaverit (2). Eis porque a vida do Redentor foi tão amargurada e penosa: tinha sempre diante dos olhos os nossos pecados.

II. Se um só pecado basta para afligir o coração de Deus, considera quanto deverá ficar amargurado particularmente no tempo de carnaval, quando se comete um sem-número de pecados. ― Santa Margarida Alacoque, para consolar um pouco o seu divino Esposo de tantas amarguras, alcançara de Deus que cada ano no carnaval lhe sobreviessem dores acerbíssimas, que soíam* durar até a quarta-feira de Cinzas, dia em que parecia reduzida aos extremos. Dando conta desta graça assinalada a seu diretor, a Santa exprime-se assim: "Esses dias são para mim um tempo de tamanho sofrimento, que não posso contemplar senão o meu Jesus sofredor, compadecendo-me das aflições de seu sacratíssimo Coração".

Meu irmão, se não tens suficiente ânimo para imitar aquela amantíssima esposa de Jesus, ao menos, já que agora consideraste a malícia do pecado, afasta-te no futuro bem longe dele. E nestes dias de desenfreada libertinagem, não percas de vista as seguintes belas palavras de Santo Agostinho: "Os gentios", diz ele (e o mesmo fazem os maus cristãos), "regozijam-se com gritos de alegria, mas vós alegrai-vos com a palavra de Deus; eles correm aos espetáculos, vós procurai apressadamente as igrejas; eles embriagam-se, mas vós, sede sóbrios e temperantes".

Se porventura em outros tempos cometeste alguma culpa grave e assim afligiste o teu Deus tão amável, dize-Lhe agora com coração contrito e amoroso: + "Meu amável Jesus, para mostrar-Vos minha gratidão e para reparar as minhas infidelidades, dou-Vos o meu coração e consagro-me inteiramente a Vós, e com vosso auxílio proponho não pecar mais" (3). + Ó doce Coração de Maria, sede a minha salvação. (*II 70.)
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1. Is 1, 2.
2. Heb 10, 29.
3. Indulg. de 100 dias.

*soíam: do verbo soer = costumar.


(Santo Afonso Maria de Ligório. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo Primeiro: Desde o primeiro Domingo do Advento até Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 264-266.)
Fonte: Blog São Pio V

Carta da Irmã Lúcia, vidente de Fátima, explicando a Devoção Reparadora ao Imaculado Coração de Maria à sua madrinha


 Tuy, 1-11-1927

Minha querida Madrinha

Venho hoje agradecer a sua amável cartinha, à qual já devia ter respondido há muito, mas espero que me perdoará o meu prolongado silêncio.

Gostei muito de saber que tinha feito a viagem a Lourdes sem novidade e que aos pés da nossa querida Mãe do Céu não esqueceu essa pobre alma. EU nas minhas pobres orações também não esqueci ainda a minha boa Madrinha.

Não sei se já tem conhecimento da devoção reparadora dos 5 sábados ao Imaculado Coração de Maria, mas como ainda é nova, lembrou-me de lha inculcar por ser uma pedida por a nossa querida Mãe do Céu, e por Jesus ter manifestado desejo que seja abraçada. Pareceu-me por isso que a Madrinha estimará muito não só de ter o conhecimento dela, para dar a Jesus a consolação de a praticar, mas também a de a fazer conhecer e abraçar por muitas outras pessoas.

Consta no seguinte: Durante 5 meses, no 1º sábado, receber Jesus Sacramentado, rezar um Terço, fazer 15 minutos de companhia a Nossa Senhora, meditando nos mistérios do Rosário, e fazer uma confissão. Esta pode ser antes alguns dias e, se nesta confissão anterior nos esquecemos de formar a intenção, podemos oferecer a confissão seguinte, contanto que no 1º sábado se receba a Sagrada Comunhão em estado de graça com o fim de reparar as ofensas que se proferem contra a S.S. Virgem,, e que têm amargurado o seu Imaculado Coração.

Parece-me, minha boa Madrinha, que somos felizes por poder dar à nossa querida Mãe do Céus esta prova de amor, que sabermos deseja que se Lhe ofereça. Quanto a mim, confesso (que) nunca me sinto tão feliz como quando chega o 1º sábado. E não é verdade que a nossa maior felicidade está em sermos todas de Jesus e Maria; e amá-l'Os a Eles só, sem reserva? Vemos isto tão claro na vida dos santos ... Eles eram felizes porque amavam, e nós, minha boa Madrinha, havemos de procurar amar como eles, não só para gozar de Jesus, que é o menos, - se O não gozarmos cá, gozá-l'O-hemos lá - , mas para darmos a Jesus e Maria a consolação de serem amados. E se o pudéssemos fazer de modo que Eles Se vissem amados, sem saber de quem, e que assim, em troca deste amor, salvassem muitas almas, então me parece que seria de todo feliz. Mas já que isto não podemos, ao menos amemo-l'Os para Eles serem amados.

Adeus, minha boa Madrinha, abraço-a nos Corações S.S. de Jesus e Maria.

Maria Lúcia de Jesus

Carta da Irmã Lúcia à sua madrinha.
Fátima e o Coração de Maria, Pe. António Maria Martins, S.J.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Comentário ao Evangelho do dia (21/02) feito por São Rafael Arnaiz Baron



(1911-1938), monge trapista espanhol
Escritos espirituais 07/04/1938


«Se alguém quiser vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me»

 
Como se vive bem no coração de Cristo! Quem se pode queixar por sofrer ? Só o insensato, que não adora a Paixão de Cristo, a cruz de Cristo, o coração de Cristo, pode sentir-se desesperado com o seu próprio sofrimento. […] Que bem se vive junto à cruz de Jesus!

Cristo Jesus, […] mostra-me essa sabedoria que consiste em amar o desprezo, as injúrias, o opróbrio; ensina-me a sofrer com a alegria humilde e sem clamor dos santos; ensina-me a ser manso com aqueles que não me amam ou que me desprezam; mostra-me esse conhecimento que Tu, no alto do calvário, mostras ao mundo inteiro.

Eu sei: uma voz interior, muito suave, explica-me tudo; sinto em mim uma coisa que vem de Ti e que não sei definir, que me decifra muitos mistérios que o homem não pode compreender. Eu, Senhor, à minha maneira, entendo tudo. É o amor. É só isso. Vejo-o, Senhor, não preciso de mais nada. É o amor! Quem pode explicar o amor de Cristo? Que os homens e as outras criaturas se calem; calemo-nos, para que, no silêncio, escutemos os sussurros do amor, do amor humilde, do amor paciente, do amor imenso, infinito, que Jesus nos oferece, pregado à sua cruz, com os braços totalmente abertos. O mundo, na sua loucura, não O escuta.

Fonte: Evangelho Quotidiano

Comentário do Evangelho do dia (20/02) feito por São Rafael Arnaiz Baron



(1911-1938), monge trapista espanhol
Escritos espirituais 07/04/1938


«Começou, depois, a ensinar-lhes que o Filho do Homem tinha de sofrer muito»

 
Jesus bendito, que me ensinaram os homens que Tu não me tenhas ensinado na Tua cruz? Ontem vi claramente que só aprendemos acorrendo a Ti e só Tu nos dás forças nas provas e tentações; que somente ao pé da tua cruz, vendo-Te pregado a ela, aprendemos o perdão, a humildade, a caridade, a bondade. Não Te esqueças de mim, Senhor; olha para mim, prostrado na tua frente, e concede-me o que Te peço. Depois, que venham os desprezos, que venham as humilhações […], que me importa! Contigo a meu lado tudo posso. A lição prodigiosa, admirável, inexprimível que me dás com a tua cruz dá-me forças para tudo.

Cuspiram-Te, insultaram-Te, flagelaram-Te, pregaram-Te a uma cruz e, sendo Tu Deus, perdoaste, calaste-Te humildemente e ofereceste-Te a Ti próprio. Que posso dizer da tua Paixão? É melhor não dizer nada e que, no fundo do meu coração, medite no que o homem nunca poderá chegar a compreender; que me contente com amar profundamente, apaixonadamente, o mistério da tua Paixão. […]

Que doce é a cruz de Jesus! Que doce é sofrer perdoando! [...] Como não ficar louco? Ele mostra-me o seu coração aberto aos homens e por eles desprezado. Onde já se viu e quem alguma vez sonhou suportar tamanha dor? Como vivemos bem no coração de Cristo! 
 

Fonte: Evangelho Quotidiano

Comentário do Evangelho do dia (19/02) feito por Santa Juliana de Norwich



(1342-depois de 1416), mística inglesa
Revelações do amor divino, cap. 52 


«Vês alguma coisa?»


Vi que Deus Se regozija por ser nosso pai, que Deus Se regozija por ser nossa mãe, que Deus Se regozija por ser o nosso verdadeiro esposo e por ter a nossa alma por esposa bem-amada. Cristo regozija-Se por ser nosso irmão, Jesus regozija-Se por ser o nosso Salvador. […]

Durante o tempo da nossa existência, nós os que vamos ser salvos conhecemos uma espantosa mistura de bem e de mal. Temos em nós a Nosso Senhor Jesus Cristo ressuscitado, e temos em nós a miséria e a malícia da queda e da morte de Adão. […] Ficámos tão afectados pela queda de Adão que, devido ao pecado e a vários outros sofrimentos, temos a sensação de estar nas trevas; cegos, mal conseguimos sentir o mais pequeno conforto. Mas, pela nossa vontade e o nosso desejo, permanecemos em Deus e cremos com confiança na sua misericórdia e na sua graça; é assim que Ele opera em nós. Através da sua bondade, abre o olhar do nosso entendimento, que umas vezes nos faz ver mais, outras vezes menos, consoante a capacidade que Ele nos dá. Tão depressa nos eleva, como permite que caiamos.

Esta mistura é tão desencorajante que nos é difícil saber, no que diz respeito a nós próprios e aos nossos semelhantes em Cristo, qual o caminho que trilhamos, de tal forma o que sentimos é mutável. Mas o que conta é dizer um santo «sim» a Deus quando O sentimos, querer estar verdadeiramente com Ele com todo o nosso coração, com toda a nossa alma, com todas as nossas forças (Mc 12,30); então odiamos e desprezamos o nosso impulso para o mal. […] Encontramo-nos nesta encruzilhada todos os dias da nossa vida. 
 
Fonte: Evangelho Quotidiano
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