terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Comentário do Evangelho do dia (12/01) feito por São Gregório de Nazianzo


(330-390), bispo, doutor da Igreja
Sermão 39, para a Festa das Luzes; PG 36, 359

«Convém que cumpramos assim toda a justiça»
 
João está a baptizar e Jesus vem até ele: vem santificar aquele que vai baptizá-Lo. Vem afogar nas águas por completo o velho Adão e, antes de o fazer e para o fazer, santifica as águas do Jordão. Ele, que é espírito e carne, quer completar o homem pela água e pelo Espírito (Jo 3,4).

O Baptista recusa e Jesus insiste. «Eu é que tenho necessidade de ser baptizado por Ti», diz a lâmpada ao Sol, o amigo ao Esposo, o maior dos filhos de mulher ao Primogénito de toda a criação (Jo 5,35; 3,29; Mt 11,11; Col 1,15). Diz o que dera um salto no ventre de sua mãe a Este que fora adorado no ventre de sua mãe, diz o precursor Àquele que acaba de Se manifestar e que Se manifestará no fim dos tempos: «Eu é que tenho necessidade de ser baptizado por Ti»; sabia, com efeito, que receberia o baptismo do martírio […].

Jesus levanta-Se das águas, arrastando nessa elevação todo o universo. Vê os céus rasgarem-se, esses céus que outrora Adão fechara para si mesmo e para a sua descendência, esse paraíso que estava como que aferrolhado por uma espada flamejante (Gn 3,24). O Espírito testemunha a divindade de Cristo; vem unir-Se ao seu igual. E uma voz desce do céu, porque é do céu que vem Aquele de quem dá testemunho. E uma pomba torna-se visível aos olhos da carne, para honrar a nossa carne que se torna divina. 
 
 
Créditos: Evangelho Quotidiano

Comentário do Evangelho do dia (11/01) feito por Santo Agostinho



(354-430), bispo de Hipona (Norte de África), doutor da Igreja
Sermão no nascimento de São João Baptista


Crescer ou diminuir?

«Ele é que deve crescer, e eu diminuir». Em João a justiça humana atingiu o auge possível para o género humano. A própria Verdade (Jo 14,6) dizia: «Entre os nascidos de mulher, não apareceu ninguém maior do que João Baptista» (Mt 11,11), por isso nenhum homem podia superá-lo. Mas ele era apenas homem, enquanto Jesus era homem e Deus. E porque, segundo a graça cristã, nos é pedido [...] que não nos gloriemos a nós próprios, mas «quem se gloria, que se glorie no Senhor» (2Cor 10,17), [...] por esse motivo diz João: «Ele é que deve crescer, e eu diminuir». É óbvio que, em Si próprio, Deus não pode aumentar ou diminuir. Mas nos homens, à medida que a verdadeira vida espiritual progride, cresce a graça divina ao diminuir o poder humano, até que a Igreja de Deus, formada por todos os membros do Corpo de Cristo (1Cor 3,16), alcance a perfeição a que foi destinada, e todas as dominações, poderes e autoridades desapareçam para Deus ser «tudo em todos» (Cl 1,16; 1Cor 15,28). [...]

«O Verbo era a luz verdadeira que, ao vir ao mundo, a todo o homem ilumina [...] [e] todos nós participamos da Sua plenitude» (Jo 1,9.16). Em Si própria, uma Luz assim é sempre total, crescendo naquele que é iluminado, que se vê diminuído quando se destrói tudo o que nele havia sem Deus. Porque sem Deus o homem só pode pecar, e esta capacidade humana diminui assim que a graça divina triunfa do pecado. A fraqueza da criatura cede então ao poderio do Criador e a vaidade do nosso egoísmo desmorona-se perante o amor que preenche todo o universo. Do fundo do nosso infortúnio João Baptista proclama a misericórdia de Cristo: «Ele é que deve crescer, e eu diminuir». 
Créditos: Evangelho Quotidiano

Comentário do Evangelho do dia (10/01) feito pelo Papa Francisco



Encíclica «Lumen fidei / A luz da fé», §§ 54-55 (trad. © Libreria Editrice Vaticana)


Um leproso reintegrado na sociedade

 
Quantos benefícios trouxe o olhar da fé cristã à cidade dos homens para a sua vida em comum! Graças à fé, compreendemos a dignidade única de cada pessoa, que não era tão evidente no mundo antigo. No século II, o pagão Celso censurava os cristãos por algo que lhe parecia uma ilusão e um engano: pensar que Deus tivesse criado o mundo para o homem, colocando-o no vértice do universo inteiro. […] No centro da fé bíblica, há o amor de Deus, o seu cuidado concreto por cada pessoa, o seu desejo de salvação que abraça toda a humanidade e a criação inteira e que atinge o clímax na encarnação, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Quando se obscurece esta realidade, falta o critério para individuar o que torna preciosa e única a vida do homem; e este perde o seu lugar no universo, extravia-se na natureza, renunciando à própria responsabilidade moral, ou então pretende ser árbitro absoluto, arrogando-se um poder de manipulação sem limites.

Além disso a fé, ao revelar-nos o amor de Deus Criador, faz-nos olhar com maior respeito para a natureza, fazendo-nos reconhecer nela uma gramática escrita por Ele e uma habitação que nos foi confiada para ser cultivada e guardada; ajuda-nos a encontrar modelos de progresso que não se baseiem apenas na utilidade e no lucro, mas considerem a criação como dom, de que todos somos devedores. 
 
Créditos: Evangelho Quotidiano

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

A participação da fé de Maria Santíssima


Os verdadeiros devotos da Santíssima Virgem participam de sua fé pura, firme e inquebrantável


Em um capítulo do excelente Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, São Luís de Montfort fala sobre os "maravilhosos efeitos desta devoção na alma que lhe é fiel" 01. O santo francês enumera e explica as maravilhas que são operadas naquelas almas que, totalmente entregues a Nossa Senhora, cultivam esta devoção, esforçando-se por colocá-la em prática. Estes efeitos são percebidos, sobretudo, "na alma", já que a verdadeira devoção mariana é interior: "parte do espírito e do coração"02.

O primeiro efeito do qual fala São Luís é o conhecimento e desprezo de si mesmo. De fato, quanto mais nos aproximamos de Deus, especialmente por meio da oração, mais conhecemos o quanto somos fracos, miseráveis e indignos. Nesta devoção, a luz do Espírito Santo revela ao homem o seu "fundo mau", a sua "corrupção e incapacidade para todo bem". Escreve São Luís: "Considerar-te-ás como um caracol, que tudo estraga com a sua baba, ou como um sapo, que tudo envenena com a sua peçonha, ou como uma serpente maliciosa, que só procura enganar".

Eis o verdadeiro caminho para chegar à humildade. Esta consiste em nada mais do que conhecer o que somos: "de barro somos feitos, (...) apenas somos pó" (Sl 102, 14). É, ao mesmo tempo, uma chave importante na luta contra o pecado: a desconfiança de nós mesmos. Quem confia demais em si mesmo, não duvidando das próprias disposições, dificilmente evitará as ocasiões de pecado e acabará por tornar-se presa fácil do demônio e de sua carne, tomada pela concupiscência. Ao contrário, quem conhece sua natureza decaída, sabendo de seu "fundo mau", evitará, resolutamente, o ócio, pelo qual advêm inúmeros maus pensamentos; a exposição a ambientes e ocasiões particulares de perigo; e as más companhias, "que corrompem os bons costumes" (1 Cor 15, 33).

O segundo efeito da verdadeira devoção é a participação da fé de Maria Santíssima. Quando aqueles que viveram de maneira virtuosa nesta vida partem à glória do Céu, já não precisam da fé, pois, entrando na plena posse de Deus, já contemplam face a face Aquele em que creram sem ter visto (cf. 1 Pd 1, 8). Com Maria, no entanto, aconteceu de modo diferente, diz São Luís: Deus preservou a sua fé, "a fim de conservá-la na Igreja militante para os Seus mais fiéis servos e servas". A fé de Maria é uma joia preciosa entesourada por Deus para a comunhão dos santos.

Aqueles que viverem fielmente esta devoção participarão da fé de Nossa Senhora: terão uma fé viva e animada de caridade – que fará a alma empreender todas as coisas pura e simplesmente por amor –, firme e inquebrantável – que não esmorece diante das dificuldades –, ativa e penetrante – capaz de perscrutar os mistérios do coração de Deus – , corajosa e reluzente – uma fé missionária que, tomada pelas graças de Deus por mediação de Maria, levará a outros a boa nova da salvação – e, por fim, uma fé pura, isto é, que não se preocupa "com o que é sensível e extraordinário".

Esta fé pura da qual fala São Luís é uma fé que escolhe "a melhor parte" (Lc 10, 42), por assim dizer. Com efeito, muitos escravos da Virgem permanecem na exterioridade desta devoção. "Se não experimentam prazer sensível nas suas práticas, julgam que já não fazem nada, desorientam-se, abandonam tudo, ou fazem as coisas precipitadamente"03, escreve o santo. Os verdadeiros devotos de Nossa Senhora, por outro lado, ainda que não sintam grandes coisas ou presenciem fatos extraordinários, permanecem em vigilância e oração. Eles têm consciência de que a vida aqui é um "vale de lágrimas", que Maria Santíssima não promete aos seus servos nenhuma felicidade plena neste mundo e que é preciso amar menos as consolações de Deus que o próprio Deus das consolações.

Aqueles que recorrem à bem-aventurada Virgem Maria com confiança granjeiam de nosso Senhor Jesus Cristo este precioso dom que é o de permanecer em contínua comunhão Consigo, com o desejo ardente de orar e falar-Lhe ao coração. Com a fé pura de Nossa Senhora, entregam-se à meditação e às coisas celestes não raras vezes sacrificando a própria vontade e oferecendo ao Senhor um sacrifício verdadeiramente agradável a Seus olhos.

Para mostrar a importância da pureza da fé, do não se preocupar "com o que é sensível e extraordinário", São Josemaría Escrivá responde à pergunta "Se não sinto vontade, não é autêntico?": 
 

Fonte: Padre Paulo Ricardo

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Imitação de Cristo III - Cap 22 - Da recordação dos inumeráveis benefícios de Deus


1. A alma: Abri, Senhor, meu coração à vossa lei, e ensinai-me o caminho de vossos preceitos. Fazei-me compreender a vossa vontade, e com grande reverência e diligente consideração rememorar os vossos benefícios, gerais ou particulares, para assim render-vos por eles as devidas graças. Bem
sei e confesso que nem pelo menor benefício vos posso render condignos louvores e agradecimentos. Eu me reconheço inferior a todos os bens que me destes, e quando considero vossa majestade, abate-se meu espírito com o peso de vossa grandeza.


2. Tudo o que temos, na alma e no corpo, todos os bens que possuímos, internos e externos, naturais e sobrenaturais, todos são benefícios vossos, e outras tantas provas de vossa bondade, liberalidade e muní cência, que de vós todos os bens recebemos. E ainda que este receba mais e outros menos, tudo é vosso, e sem vós ninguém pode alcançar a menor coisa. E aquele que recebeu mais não pode gloriar-se de seu merecimento, nem elevar-se acima dos outros, nem desprezar o menor; porque só é maior e melhor aquele que menos atribui a si, e é mais humilde e fervoroso em vos agradecer. E quem se considera mais vil e se julga o mais indigno de todos é o mais apto para receber maiores dons.

 3. O que, porém, recebeu menos não deve a igir-se, nem queixar-se, nem ter inveja do mais rico; olhará, ao contrário, para vós, e louvará vossa bondade, que tão copiosa e liberalmente prodigalizais vossas dádivas, sem acepção de pessoas. De vós nos vêm todas as coisas; por todas, pois, deveis ser louvado. Vós sabeis o que é conveniente dar a cada um, e não nos pertence indagar por que este tem menos, aquele mais; só vós podeis avaliar os merecimentos de cada um.

4. Por isso, Senhor meu Deus, considero como grande benefício o não ter eu muitas coisas que trazem a glória exterior e os humanos louvores. Portanto, ninguém, à vista de sua pobreza e da vileza de sua pessoa, deve conceber, por isso, desgosto, tristeza ou desalento, senão grande alegria e consolo, porque vós, Deus meu, escolheste por vossos particulares e íntimos amigos os pobres, os humildes e os desprezados deste mundo. Testemunho disto são vossos apóstolos, a quem constituístes príncipes sobre a terra. Todavia, viveram neste mundo tão sem queixa, tão humildes e com tanta
singeleza da alma, tão sem malícia ou dolo, que se alegravam de sofrer contumélias por vosso nome, e com grande afeto abraçavam o que o mundo aborrece.

5. Nada, pois, deve alegrar tanto aquele que vos ama e reconhece vossos benefícios, como ver executar-se a seu respeito vossa vontade e o beneplácito de vossas eternas disposições. Tanto deve com isto estar contente e satisfeito, que queira de tão boa vontade ser o menor, como outro desejaria
ser o maior; e tão sossegado e contente deve estar no último como no primeiro lugar, tão satisfeito em ser desprezado e abatido, sem nome nem reputação, como se fosse o mais honrado e estimado no mundo. Porque a vossa vontade e o amor de vossa honra deve ser anteposto a tudo, e deve
consolar e agradar mais ao vosso servo, que todos os dons presentes ou futuros.

Imitação de Cristo, Tomás de Kempis

Comentário do Evangelho do dia (08/01) feito por São Bernardo



(1091-1153), monge cisterciense, doutor da Igreja
1º Sermão para a Epifania

«Foi ter com eles de madrugada»

Eis que se manifesta «a bondade de Deus, nosso Salvador e o seu amor para com os homens» (Tt 3,4). Demos graças a Deus que nos dá a sua consolação em abundância neste nosso estado de peregrinos, neste exílio, nesta miséria aqui na terra. […] Antes de surgir a sua humanidade, a sua bondade também estava escondida. Claro que já existia anteriormente, porque «o amor do Senhor é eterno» (Sl 103, 17). Mas como poderíamos nós saber que era tão grande? Ela era objecto de uma promessa e não duma experiência. Eis a razão por que muitos não acreditavam. […]

Mas agora os homens podem acreditar no que vêem, pois «é digna de fé esta palavra»; e, para que não fique oculta a ninguém, «Deus fez, lá no alto, uma tenda para o Sol» (Sl 93,5; 19,5). Eis que a paz já não é prometida, mas enviada, já não é adiada para mais tarde, mas dada, já não é profetizada, mas proposta. Eis que Deus enviou à terra o tesouro da sua misericórdia, esse tesouro que haveria de ser aberto pela Paixão, para espalhar o preço da nossa Salvação que nele estava escondido. […] Pois, embora nos tenha sido dado apenas um Menino (cf Is 9,5), «é nele que habita realmente toda a plenitude da divindade» (Col 2,9). Na plenitude dos tempos, Ele veio na carne para ser visível aos nossos olhos de carne e para que, vendo a sua humanidade, a sua benevolência, reconhecêssemos a sua bondade. […] Haverá coisa que prove melhor a sua misericórdia, do que ver que Ele tomou a nossa miséria? «Senhor, que é o homem para cuidardes dele e o filho do homem para dele vos ocupardes?» (Sl 144,3; Job 7,17). 


Créditos: Evangelho Quotidiano

domingo, 5 de janeiro de 2014

Comentário do Evangelho do (05/01) por São Rafael Arnaiz Baron - Festa da Epifania do Senhor


Comentário do dia
São Rafael Arnaiz Baron (1911-1938), monge trapista espanhol
Escritos espirituais, 06/01/1937

«Entrando na casa, viram o Menino»

Adoração dos reis: os poderosos deste mundo prostram-se diante do humilde berço de uma criança. Ouro, incenso e mirra vindos do Oriente; ansiedade nos corações, poeira dos caminhos percorridos durante a noite, guiados por uma estrela. «Onde está O que acaba de nascer?» […] Passaram-se vinte séculos: muitas almas percorrem os caminhos da terra como os reis magos do Oriente e continuam a perguntar ao passar: «Vistes, acaso, aquele que a minha alma ama?» (Ct 3,3) É também uma estrela de luz que, iluminando o nosso caminho, nos conduz à humildade de uma manjedoura e nos mostra o que nos fez sair «das muralhas da cidade» (Heb 13,13; cf Lc 16,27). Ela mostra-nos um Deus que, sendo embora Senhor de tudo, carece de tudo. O Criador da luz e do calor do sol sofre de frio; Aquele que vem ao mundo por amor aos homens é esquecido pelos homens.

Tal como outrora, também agora há almas que procuram Deus. […] Infelizmente, nem todos conseguem encontrá-Lo, nem todos olham para a estrela que é a fé; também não ousam aventurar-se pelos caminhos que conduzem a Ele, que são a humildade, a renúncia, o sacrifício e quase sempre a cruz. […]

Quando esta noite, no coro, me recordava sem querer da minha infância, da minha casa, dos reis, o meu hábito de monge dizia-me outra coisa: tal como os magos, também eu vim à procura de uma manjedoura. Já não sou uma criança a quem se dêem brinquedos: os sonhos são agora maiores e não pertencem a esta vida. Os sonhos do mundo, tal como os brinquedos das crianças, dão felicidade enquanto esperamos por eles, mas depois tudo não passa de cartão. Os sonhos do céu são sonhos que duram toda a vida e depois não desapontam. Como os reis magos devem ter regressado felizes depois de terem visto Deus! Também eu O verei, só tenho de esperar um pouco. A manhã chegará em breve e, com ela, a luz. Que despertar feliz será esse! 
 
 
Fonte: Blog São Pio V
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