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domingo, 5 de janeiro de 2014

Santo Afonso Maria de Ligório - Sobre a pobreza de Jesus Menino

 
MEDITAÇÃO XI.

SOBRE A POBREZA DE JESUS MENINO.

Céu!! quem não se compadeceria ao ver o filho dum rei nascer em pobreza tal que o obrigasse a abrigar-se numa caverna úmida e fria, a não ter nem leite, nem servos, nem lume, nem mesmo os paninhos necessários para se acalentar?

Ah! meu Jesus, sois o Filho do Senhor do céu e da terra, e nessa gruta gelada não tendes senão uma manjedoura por berço, um pouco de palha por leito, e miseráveis paninhos para vos cobris! Os anjos vos rodeiam e louvam, mas não trazem nenhum alívio à vossa pobreza. Meu Redentor, quanto mais pobre sois, tanto mais amável vos devemos achar pois abraçastes essa grande pobreza para melhor ganhar o nosso amor. Se tivésseis nascido num palácio, se tivésseis um berço de ouro, se fosseis servido pelos maiores príncipes da terra, inspira-ríeis aos homens mais respeito, mas menos amor; essa gruta em que estais, esses panos grosseiros que vos cobrem, essa palha em que repousais, essa manjedoura que vos serve de berço, oh! como tudo isso obriga nossos corações a amar-vos, tanto mais que vos fizestes tão pobre a fim de vos tornar mais caro aos nossos olhos. “Quanto mais ele se abaixa por mim, exclama S. Bernardo, tanto mais caro me é”. Fizestes-vos pobre para enriquecer-nos dos vossos bens, isto é, da vossa graça e da vossa glória; é S. Paulo que o diz: Ele se fez indigente... a fim de que sua indigência nos enriquecesse.

A pobreza de Jesus Cristo é para nós uma fonte de grandes riquezas, porque nos move a adquirirmos os bens do céu desprezando os da terra. — Ó meu Jesus, a quantos santos a vossa pobreza fez deixar tudo, riquezas, honras, mesmo coro-as, para viverem pobres convosco. Por favor, ó meu Salvador, desapegai-me também de toda afeição aos bens terrenos, a fim que me torne digno de obter o vosso santo amor e de possuir a vós, Bem infinito!


Afetos e Súplicas.

Ó divino Infante, pena que não posso dizer-vos com vosso caro S. Francisco: “Meu Deus, sois tudo para mim!” ou com Davi: Que há para mim no céu? e fora de vós, que posso desejar sobre a terra? Sois o Deus do meu coração, e a minha única herança para a eternidade. Oxalá pudesse, também eu, não desejar no futuro outra riqueza senão a do vosso amor; de maneira que as vaidades do mundo não tivessem mais domínio sobre o meu coração, e só vós fosseis o seu único Senhor, ó meu Bem-amado! Sim, quero começar hoje a dizer-vos: Sois o Deus do meu coração e a minha herança para a eternidade!

Ah! no passado procurei os bens terrestres, e que encontrei? espinhos e fel! Hoje sinto mais contentamento em me achar aos vossos pés, para vos agradecer e amar, do que proporcionaram todos os meus pecados. Uma só coisa me aflige: o te-mor de que me não tenhais ainda perdoado. Mas as vossas promessas de perdoar a quem se arrepende, a pobreza a que vos vejo reduzido por meu amor, a vossa voz que me convida a amar-vos, as lágrimas, o sangue que derramastes por mim, as dores, as ignomínias, a morte cruel que sofrestes para a minha salvação, tudo isso me consola e me faz esperar com segurança o meu perdão. E se ainda me não perdoastes, dizei-me o que tenho a fazer. Quereis me arrependa de minhas iniqüidades, oh! arrependo-me de todo o coração de vos haver ofendido, meu Jesus! Quereis que vos ame? amo-vos mais do que a mim mesmo. Quereis que renuncie e tudo? oh! sim, renuncio a tudo e dou-me todo a vós. Sei que me aceitais; sem isso, não teria nem arrependimento, nem amor, nem desejo de dar-me a vós. Dou-me pois a vós, ó meu Deus, e vós me recebeis; amo-vos e vós me amais. Não permitais que esse nosso mútuo a-mor cesse jamais de nos unir.
Minha Mãe, Maria, obtende-me a graça de amar sempre a Jesus e de ser sempre amado por Jesus.


Fonte: Blog São Pio V

Jesus é alimentado - Santo Afonso Maria de Ligório


 
Quis mihi det te fratrem meum, sugentem ubera matris meae? — “Quem te dará a mim por irmão, que tomara o leite da minha mãe?” (Cant. 8, 1.)

Sumário. Quando o Menino Jesus foi envolto em paninhos, suspirou pelo alimento da Virgem Maria, e tomando-o já pensava em como havia de mudá-lo naquele sangue com que deveria um dia resgatar as almas sobre a cruz e alimentar nelas a vida da graça pela Comunhão. Roguemos à divina Mãe que nos alimente com o leite de uma devoção terna e amorosa à Infância de Jesus.

I. Depois que o Menino Jesus foi envolto nas faixas, pediu por vagidos a alimentação de Maria. A esposa dos Cânticos desejava ver seu irmãozinho tomando o alimento maternal — Quis mihi det te fratrem meum, sugentem ubera matris meae? Aquela esposa desejava-o, mas não foi atendida. Nós, ao contrário, temos a ventura de ver o Filho de Deus, feito homem e nosso irmãozinho, pedir a Maria o alimento próprio da sua idade. Que espetáculo era para o Paraíso ver o Verbo divino feito criança, nutrir-se com o leite que lhe oferecia uma virgenzinha, sua criatura! Aquele que nutre todos os homens e todos os animais da terra, ei-lo reduzido a tal estado de fraqueza e de pobreza, que precisa de um pouco de leite para sustentar a vida. Soror Paula Camaldulense, ao contemplar uma imagem de Jesus tomando leite, sentia cada vez o coração abrasado de terníssimo amor para com Deus.

Jesus, porém, alimentava-se poucas vezes por dia, e cada vez em pequena quantidade. Foi revelado à Soror Mariana, da ordem franciscana, que Maria Santíssima alimentava o Filho só três vezes cada dia. Ah! Como foi precioso para nós aquele leite que nas veias de Jesus Cristo devia mudar-se em sangue e assim preparar um banho salutar, no qual pudéssemos lavar as nossas almas! — Ponderemos ainda que Jesus tomava o leite a fim de nutrir este corpo que queria deixar-nos como nosso alimento na santa Comunhão. Ó meu pequenino Redentor, enquanto tomais alimento, estais pensando em mim; pensais em como aquele leite se transformará no sangue que um dia derramareis antes de morrer, a fim de resgatar por tão alto preço a minha alma e alimentá-la com o Santíssimo Sacramento, que é o leite salutar por meio do qual o Senhor conserva as nossas almas na vida da graça. Lac vestrum Christus est, diz Santo Agostinho, — O vosso leite é Jesus Cristo.

Ó meu amado Menino, ó Jesus meu, permiti que eu também exclame com a mulher do Evangelho: Beatus venter qui te portavit, et ubera quae suxisti (1) — “Bem-aventurado o ventre que te trouxe e os peitos a que foste criado”. Bem-aventurada sois vós, ó divina Mãe por terdes tido a sorte feliz de alimentardes o Verbo encarnado. Por piedade: admiti-me, em companhia do vosso divino Filho, a receber de vós o leite de uma devoção terna e amorosa à infância de Jesus e a vós, minha amadíssima Mãe.


II. Ó dulcíssimo e amabilíssimo Jesus Menino! Vós sois o Pão do céu, que sustenta aos anjos; Vós dispensais alimentos a todas as criaturas. Como é, pois, que estais reduzido à necessidade de pedir a uma virgenzinha um pouco de leite para sustentardes a vida? Ó amor divino! Como pudestes reduzir um Deus a tal estado de pobreza, que precisa pedir algum alimento? Mas já Vos entendo, ó meu Jesus: nessa gruta aceitais o leite de Maria a fim de mudá-lo em vosso sangue, e oferecê-lo um dia a Deus como sacrifício em satisfação pelos nossos pecados. Ó Maria, continuai a alimentar o vosso Filho, porque cada gota desse leite servirá para limpar a minha alma das suas culpas, e a nutri-la depois na santa Comunhão. Ó meu Redentor, como poderá deixar de Vos amar aquele que crê tudo que tendes feito e padecido pela nossa salvação? E eu, como me foi possível saber tudo isso e ser-Vos tão ingrato?

Mas, a vossa bondade é a minha esperança, porque me ensina que basta querer a vossa graça para obtê-la. Pesa-me, ó meu supremo Bem, de Vos ter ofendido e amo-Vos sobre todas as coisas. Ou, para dizer melhor, não amo nada senão a Vós, e só a Vós quero amar. Vós sois e sereis sempre o meu único bem, o meu único amor. Meu amado Redentor, concedei-me, Vô-lo peço, uma terna devoção à vossa santa infância, como a concedestes a tantas almas que com pensarem em Vós, ó Deus-Menino, se esqueciam de todas as coisas e, ao que parece, não pensavam em mais nada senão em Vos amar. Verdade é que elas são inocentes, e eu sou pecador; mas Vós Vos fizestes menino para Vos fazerdes amar também pelos pecadores. Pecador tenho sido; mas agora amo-Vos de todo o meu coração e nada mais desejo senão vosso amor. — Ó Maria, concedei-me uma parte dessa ternura com que alimentastes a Jesus Menino. (II 367.)
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1. Luc. 11, 27.


(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 117 - 119)





Fonte: Blog São Pio V

Santo Afonso - Ocupações do Menino Jesus no estábulo de Belém

 
 
MEDITAÇÃO X.

OCUPAÇÕES DE JESUS MENINO NO ESTÁBULO DE BELÉM.

 
As duas ocupações principais dum eremita são: orar e fazer penitência: na gruta de Belém Jesus Menino nos dá o exemplo disso. No estábulo, que escolheu por oratório sobre a terra, não cessa de orar a seu Pai eterno; lá faz continuamente atos de adoração, de amor e de súplica.
 
É certo que já antes desse tempo a Majestade divina tinha sido adorada pelos anjos e pelos homens; mas não recebera certamente de todas as criaturas a honra que lhe prestou o Menino Jesus, adorando-a no estábulo em que nasceu. Unamos pois sempre as nossas adorações às que Jesus ofereceu a Deus enquanto se achava no mundo.
 
Quão puros e perfeitos eram os atos de amor que o Verbo encarnado oferecia a seu Pai na meditação! O Senhor ordenara aos homens o amassem de todo o coração e de todas as forças; mas esse preceito nunca fora perfeitamente observado por nenhum homem: a primeira mulher que o cumpriu foi Maria; e o primeiro homem foi Jesus Cristo que o cumpriu duma maneira imensamente mais extensa do que Maria. Pode-se dizer que o amor dos Serafins era frio em comparação do divino Infante. Aprendamos dele a amar o nosso Deus como o devemos, e peçamos-lhe nos comunique uma centelha do amor puríssimo com que amava seu Pai eterno no estábulo de Belém.
 
E quão belas também, e perfeitas e agradáveis a Deus eram as preces do Menino Jesus! Orava ao Pai em todos os instantes, e as suas preces eram todas para nós, e para cada um de nós em particular. Todas as graças que cada um de nós recebeu do Senhor, como a vocação à verdadeira fé, o tempo de fazer penitência, as luzes, o arrependimento dos pecados cometidos, o perdão, os santos desejos, as vitórias alcançadas contra as tentações, e todos os outros atos de virtude que fizemos ou que faremos, como de confiança, humildade, amor, agradecimento, oferecimento, resignação, foi Jesus que nos obteve tudo, tudo é feito das preces de Jesus. Quando pois lhe devemos, e quanto lhe devemos, e quanto lhe devemos agradecer e amar!


Afetos e Súplicas.
 
Ah! quanto vos devo, meu caro Redentor! Se não tivésseis orado por mim, em que estado de ruína eu me acharia! Agradeço-vos, meu Jesus, as vossas preces me obtiveram o perdão dos meus pecados, e, espero, me obterão ainda a perseverança até à morte. Orastes por mim, agradeço-vos de todo o coração; mas, conjuro-vos, não cesseis de pedir. Sei que, mesmo no céu, continuais a ser o novo Advogado: Nós temos, diz S. João, um advogado junto do Pai, Jesus Cristo. Sei que continuais a pedir por nós: Ele intercede ainda por nós, ajunta S. Paulo. Continuai, pois, meu Jesus, mas pedi mais particularmente por mim que, mais do que os outros, necessito das vossas preces. Confio que, em consideração dos vossos méritos, já me tenhais perdoado; mas como tenho caído tantas vezes, posso cair ainda: o inferno não se cansa e não se cansará de tentar-me para me fazer perder de novo a vossa amizade. Ah! meu Jesus, sois a minha esperança: espero de vós a força de resistir; a vós é que a peço e de vós a espero. Mas não me contento com a graça de não recair, peço-vos ainda a graça de vos amar muito. Aproxima-se a hora da minha morte; se morresse agora, esperaria ser salvo, mas pouco vos amaria no céu porque pouco vos tenho amado até este dia; ora, quero amar-vos muito no resto da minha vida para vos amar muito na eternidade.
 
Ó Maria, minha Mãe, pedi também, pedi a Jesus por mim: os vossos rogos são onipotentes junto desse divino Filho, que tanto vos ama. Já que desejais tão ardentemente vê-lo amado, impetrai-me um grande amor da sua bondade, e que esse amor seja constante e eterno.


Fonte: Blog São Pio V

sábado, 4 de janeiro de 2014

Comentário ao Evangelho do dia (04/01) por Santo Afonso Maria de Ligório



Santo Afonso-Maria de Ligório (1696-1787), bispo, doutor da Igreja
1ª meditação para a Oitava do Natal
«Eis o Cordeiro de Deus!»
«Ando errante como ovelha tresmalhada; vinde em busca do vosso servo» (Sl 118,176). Senhor, eu sou a pobre ovelha que se perdeu quando corria atrás da satisfação dos seus gostos e dos seus caprichos. Mas Tu, que és simultaneamente Pastor e Cordeiro, Tu desceste do céu para me salvar, imolando-Te na cruz como vítima em expiação pelos meus pecados: «Eis o Cordeiro de Deus.» Assim, pois, se quero corrigir-me, nada tenho a temer. […] «Eis o Deus que me salva, tenho confiança e nada temo» (Is 12,2). Tu entregaste-Te a mim e, para me inspirares confiança, não podias dar-me maior prova da tua misericórdia.

Querido Menino! Tenho tanta pena de Te ter ofendido! Fiz-Te chorar no estábulo de Belém; mas sei que vieste procurar-me. Por isso, lanço-me a teus pés e, a despeito da pobreza e da humilhação em que Te vejo nesse presépio e sobre essa palha, reconheço-Te como meu rei e meu soberano Senhor. Compreendo o sentido das tuas doces lágrimas, que me convidam a amar-Te e me pedem o coração. Ei-lo aqui, meu Jesus, estou hoje a teus pés para To oferecer. Muda-o, abrasa-o, porque desceste do céu para abrasar os corações com o teu santo amor. Oiço-Te dizer-me desse presépio: «Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração» (Mt 22,37; Dt 6,5); e respondo-Te: «Meu Jesus, se não Te amar a Ti, meu Senhor e meu Deus, a quem amarei?»


Créditos: Evangelho Quotidiano

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Não recuso o combate - Santa Teresinha do Menino Jesus

 Oh! não, não me atemorizo com uma vida longa. Não me nego  ao combate, pois o Senhor é a rocha na qual fui criada. Adestra minhas mãos para a luta, e meus dedos para a guerra. É o meu escudo. Nele espero. Por isso, nunca pedi ao Bom Deus que morresse jovem. Verdade é, sempre esperei com o desejo de trabalhar pela sua glória, e sabeis, minha Madre, que meus desejos são muitos grandes. Sabeis, outrossim, que Jesus me apresentou mais de um cálice amargo, mas afastou-o dos meus lábios antes que o bebesse, mas não antes que me fizesse saborear sua amargura.

Madre muito amada, tinha razão o santo Rei Davi, quando cantava: Oh! quão bom e quão suave é para irmãos habitarem juntos em perfeita unidade. É exato, experimentei-o muitas vezes, mas é nas entranhas dos sacrifícios que tal união deve formar-se na terra. Não foi para viver com minhas irmãs que vim ao Carmelo, mas unicamente para atender ao chamado de Jesus. Ah! bem pressentia que viver com suas irmãs, quando se não quer fazer nenhuma concessão à natureza, seria motivo de contínuo sofrimento.

Como se pode afirmar que é maior perfeição apartar-se alguém dos seus?... Já se levou a mal alguma vez que irmãos combatam no mesmo campo de batalha, que juntos acorram para alcançar a palma do martírio?... Sem dúvida alguma, formou-se a justa opinião de que se animariam uns aos outros, como também que o martírio de cada qual se tornaria comum de todos. Assim, também, acontece na vida religiosa, a que os teólogos chamam de martírio. - Quando o coração se dá a Deus, não perde a afetividade. Pelo contrário. A afetividade cresce, na medida que se torna mais pura e mais divina.

Madre muito amada, é com um afeto assim que vos amo, que amo minhas irmãs. Sinto-me feliz de combater, em família, pela glória do Rei dos Céus. Estou, porém, disposta a voar para outro campo de luta, se o Divino General me manifestar seu desejo. Não se faria mister voz de comando; apenas um olhar, um simples aceno.


Santa Teresinha do Menino Jesus, História de Uma Alma

A noite de luz - Santa Teresinha do Menino Jesus



Em 25 de Dezembro de 1886 recebi a graça de sair da infância, numa palavra, a graça de minha conversão completa. - Voltávamos da Missa da meia-noite, na qual tive a ventura de receber o Deus forte e poderoso. Chegando aos Buissonnets, senti a alegria de ir pegar meus sapatos na lareira. Tanta alegria nos proporcionara na infância o antigo costume, que Celina queria continuar a ter-me como caçula, por ser o bebê da família... Papai gostava de ver minha satisfação, de ouvir meus gritos de alegria, quando eu retirava cada surpresa de dentro dos sapatos encantados, e o contentamento do meu querido Rei aumentava minha felicidade. Jesus, porém, querendo mostrar-me que devia livrar-me dos defeitos da infância, subtraiu-me também as inocentes alegria dessa idade. Permitiu que Papai, extenuado com a Missa da meia-noite, se enfadasse à vista dos meus sapatos na lareira, e proferisse estas palavras que me atravessaram o coração: "Afinal, que sorte ser este o último ano!..." Então, subia eu a escada para tirar o chapéu. Conhecendo minha sensibilidade, e vendo lágrimas brilharem em meus olhos, Celina também estava bem a ponto de chorar, pois me queria muito bem e compreendia minha mágoa: "Ó Teresa, disse-me ela, não desças. Ser-te-ia por demais custoso ir neste momento ver o que há nos teus sapatos". Teresa, porém, já não não era a mesma. Jesus transformara-lhe o coração. Depois de sufocar minhas lágrimas, desci rapidamente a escadaria. A comprimir as batidas do coração, peguei meus sapatos, coloquei-os diante do Papai, e fui tirando alegre todos os objetos, com ar feliz de uma rainha. Papai ria-se, tinha também recuperado a alegria, e Celina estava sob a impressão de um sonho!... Felizmente, era uma doce realidade. Teresinha reencontrara a força de ânimo que perdera aos quatro anos e meio, e conserva-la-ia para sempre!...

A partir desta noite de luz, começou o terceiro período de minha vida, o mais belo de todos, o mais repleto de graças do Céu... A tarefa que em dez anos não me foi possível desempenhar, Jesus a executou num ápice, contentando-se com minha boa vontade, que nunca me faltou. Como seus Apóstolos, poderia dizer-lhe: "Senhor, pesquei toda a noite, e nada apanhei". Para comigo, mais misericordioso ainda, do que para com seus Discípulos, o próprio Jesus tomou a rede, lançou-a, e recolheu-a cheia de peixes... Fez-me pescadora de almas. Senti grande desejo de trabalhar pela conversão dos pecadores,, desejo que nunca sentira de maneira tão pronunciada... Senti, numa palavra, a caridade penetrar-me no coração, a necessidade de esquecer-me a mim mesma, para dar prazer, e, desde então, fui feliz!...


Santa Teresinha do Menino Jesus, História de uma alma.

Porque Jesus quis nascer criança - Santo Afonso Maria de Ligório




Porque Jesus quis nascer criança

Por Santo Afonso Maria de Ligório

Parvulus enim natus est nobis, et filius datus est nobis — “Nasceu-nos uma criança; foi-nos dado um filho” (Is. 6, 9).

Sumário. São vários os motivos pelos quais Jesus quis nascer criança. Primeiro, quis desta forma mostrar-nos a sua propensão e facilidade em dar-nos os seus bens. Quis, em segundo lugar, afastar de nós todo o temor ao vermo-Lo reduzido, por assim dizer, a um estado de impotência para nos castigar pelos nossos pecados. Mas sobretudo Jesus nasceu como criança para se fazer amar por nós, não somente de apreço, senão de ternura. Amemo-Lo, pois, de todo o coração, cheguemo-nos a Ele, e peçamos-Lhe toda a sorte de bens.

I. Considerai que ao fim de tantos séculos, depois de tantas súplicas e suspiros, o Messias, a quem os santos Patriarcas e Profetas não tinham sido dignos de verem, o Suspirado das gentes, o desejo das colinas eternas, o nosso Salvador, já veio, já nasceu e já se deu todo a nós: Parvulus natus est nobis, et filius datus est nobis — “Nasceu-nos uma criança; foi-nos dado um filho.” O Filho de Deus se fez pequenino, para nos fazer grandes; deu-se a nós, a fim de que nós nos demos a Ele, veio mostrar-nos o seu amor a fim de que nós Lhe respondamos com o nosso. Façamos-Lhe acolhida afetuosa, amemo-Lo e recorramos a Ele em todas as nossas necessidades.

Puer facile donat. As crianças, diz São Bernardo, gostam de dar o que se lhes pede. Jesus veio como criança para se nos mostrar todo inclinado e propenso a comunicar-nos os seus bens. “Nele estão encerrados todos os tesouros.” (1) “O Pai tudo tem posto em sua mão.” (2) Se desejamos luz, Ele veio para nos iluminar. Se queremos força para resistirmos aos inimigos, Ele veio exatamente para nos confortar. Se queremos o perdão e a salvação, ei-Lo que veio para nos perdoar e nos salvar. Se queremos, finalmente, o dom supremo do divino amor, Ele veio para abrasar-nos o coração. É sobretudo para este fim que se fez criança. Quis aparecer no meio de nós tanto mais amável, quanto mais pobre e humilde, quis tirar-nos todo o temor e ganhar o nosso amor, como observa São Pedro Crisólogo: Taliter venire debuit, qui voluit timorem pellere, quaerere caritatem.

Além disso, Jesus quis vir pequenino para ser de nós amado com amor não somente de apreço, senão também de ternura. Todas as crianças sabem ganhar o afeto de todos aqueles que as vêem; mas quem não amará com toda a ternura a um Deus feito criancinha, necessitado de leite, tiritante de frio, pobre, humilhado, abandonado; a um Deus que chora e está vagindo numa manjedoura sobre a palha? Isso fez o amante São Francisco exclamar: Amemus Puerum de Bethlehem; Amemus Puerum de Bethlehem. Vinde amar a um Deus feito criança, feito pobre, e tão amável que baixou do céu para se dar todo a vós.

 
II. Ó meu Jesus, tão amável e de mim tão desprezado, baixastes do céu, a fim de nos remirdes do inferno e Vos dardes todo a nós, e nós, como temos podido desprezar-Vos tantas vezes e virar-Vos as costas? Ó Deus, os homens mostram-se tão agradecidos às criaturas! Se alguém lhes faz qualquer favor, se alguém vem de longe a visitá-los, se se lhes dá alguma demonstração de afeto, não podem esquecê-lo e sentem-se obrigados a retribuí-lo. E depois são tão ingratos para convosco, que sois o seu Deus, que sois tão amável e que por seu amor não recusastes dar o sangue e a vida.

Mas, ai de mim, que tenho sido para convosco pior do que os outros, por ter sido mais amado de Vós e mais ingrato a vosso amor. Ah! Se tivésseis concedido a um herege, a um idólatra as graças que me dispensastes a mim, ele se teria tornado santo, e eu Vos tenho ofendido. Por piedade, esquecei as injúrias que Vos tenho feito. Mas, Vós já dissestes, que quando um pecador se arrepende, não mais Vos lembrais de todos os ultrajes recebidos (3). Se em outro tempo não Vos amei, para o futuro não quero senão amar-Vos. Vós Vos destes todo a mim e eu Vos dou toda a minha vontade; com esta amo-Vos, amo-Vos, amo-Vos; quero repetí-lo sempre: amo-Vos, amo-Vos. Repetindo isto quero viver, e assim quero morrer, exalando o espírito com estas doces palavras nos lábios: Meu Deus, amo-Vos. Desde o primeiro instante em que entrar na eternidade quero começar a amar-Vos com um amor contínuo, que durará sempre, sem que eu possa ainda deixar de Vos amar.

Entretanto, ó meu Senhor, meu único Bem e meu único Amor, resolvo antepor a vossa vontade a qualquer querer meu. Ainda que me oferecessem o mundo inteiro, não o quero. Não quero mais deixar de amar a quem tanto me tem amado; não quero mais dar desgosto a quem merece da minha parte um amor infinito. Ajudai-me, ó meu Jesus, com a vossa graça, a realizar este desejo. — Maria, minha Rainha, é à vossa intercessão que me reconheço devedor de todas as graças recebidas de Deus; não deixeis de interceder por mim. Vós que sois a Mãe da perseverança, obtende-me a perseverança final. (II 346.)
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1. Col. 2, 3.
2. Io. 3, 35.
3. Is. 43, 25.


(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 111 - 114)

Fonte: Blog São Pio V

Santo Afonso Maria de Ligório, Meditação - Solidão de Jesus no estábulo

 
 
MEDITAÇÃO IX.

SOLIDÃO DE JESUS NO ESTÁBULO.

 
Jesus, ao nascer, escolheu-se para ermitagem e oratório o estábulo de Belém; quis nascer fora da cidade, numa caverna solitária, para inspirar-nos o amor da solidão e do silêncio. Entremos nessa gruta, lá só acharemos solidão e silêncio: Jesus conserva-se silencioso na manjedoura; Maria e José o adoram e contemplam em silêncio. Foi revelado à Irmã Margarida do SS. Sacramento, carmelita descalça, apelidada a Esposa do Menino Jesus, que tudo o que se passou na gruta de Belém, mesmo a visita dos pastores e a adoração dos Santos Reis Magos se fez em silêncio.
 
O silêncio das outras crianças provém da sua impotência; o de Jesus Cristo foi uma virtude. Jesus Menino não fala; mas em seu silêncio, que não diz Ele? Oh! felizes os que se entretém silenciosamente com Jesus, Maria e José nessa santa solidão do presépio! Os pastores lá passaram poucos instantes e saíram inflamados de amor para com Deus louvando-o e bendizendo-o. Oh! feliz a alma que se retira à solidão de Belém para contemplar a divina misericórdia e o amor que um Deus teve e tem aos homens! Eu a levarei à solidão e falarei a seu coração. Lá o divino Infante lhe falará não aos ouvidos mas ao coração, e a convidará a amar um Deus que tão ternamente a ama. Ao ver a pobreza desse encantador ermitãozinho que fica na gruta gelada, sem lume, tendo apenas uma manjedoura por berço e um pouco de palha por leito; ao ouvir os vagidos e ao ver as lágrimas desse Menino, a inocência mesma; ao refletir que é o seu Deus, como poderia pensar em outra coisa senão em amá-lo? O estábulo de Belém, eis a doce ermida para a alma que tem fé.
 
Imitemos a Maria e José que, inflamados de amor, contemplam o adorável Filho de Deus revestido de carne e sujeito às misérias desta vida, o Sábio por excelência tornado criança sem palavra, o Grande feito pequeno, o Altíssimo tão rebaixado, o Riquíssimo feito tão pobre, o Todo-poderoso feito fraco. Numa palavra, vejamos a Majestade divina oculta sob a forma duma criancinha, desprezada e abandonada por todos, fazendo e sofrendo tudo para se tornar amável aos homens, e peçamos-lhe a graça de sermos admitidos nessa santa solidão; detenhamo-nos lá, lá fiquemos e de lá não saiamos mais. “Ó bela solidão, exclama S. Jerônimo, na qual Deus fala e conversa com as almas que ama”, não como um soberano, mas como um amigo, como um irmão, como um esposo! Oh! que paraíso, entreter-se a sós com Jesus Menino na humilde gruta de Belém!

Afetos e Súplicas.

Meu caro Salvador, sois o Rei do céu, o Rei dos reis, o Filho de Deus; como pois vos vejo nesse estábulo abandonado de todos? junto de vós só vejo José e vossa santa Mãe. Desejo juntar-me a eles para vos fazer companhia; não me repilais. Sou indigno disso; mas considerando-vos parece-me ouvir no fundo do meu coração uma doce voz que me chama... Sim, venho a vós, ó querido Infante! deixo tudo para ficar a sós convosco durante toda a minha vida, ó divino Solitário, único amor de minha alma! Insensato que fui no passado, quando vos abandonei, meu Jesus, e vos deixei só, para mendigar das criaturas prazeres miseráveis e envenenados; mas agora, aclarado pela vossa graça, não tenho outro desejo senão de viver solitário convosco, que quereis viver solitário neste mundo. Ah! quem me dará asas como as da pomba, e voarei ao lugar do meu repouso. Quem me dará a força de sair deste mundo, onde tantas vezes encontrei a minha ruína, de fugir, e de ficar sempre convosco, que sois a alegria do paraíso e o verdadeiro amigo da minha alma? Senhor, prendei-me a vossos pés, a fim que me não afaste mais de vós, e tenha a felicidade de vos fazer sempre companhia. Pelos méritos de vossa solidão na gruta de Belém, concedei-me um contínuo recolhimento interior, fazei que minha alma se torne como uma cela solitária, onde, unicamente atento em entreter-me convosco, eu vos submeta todos os meus pensamentos e todas as minhas ações, vos consagre todos os meus afetos, e vos ame sem cessar, suspirando pelo momento de sair da prisão do meu corpo para ir amar-vos face a face no céu. Amo-vos, Bondade infinita, e espero amar-vos sempre no tempo e na eternidade.
 
Ó Maria, que tudo podeis, pedi a Jesus me prenda com as cadeias de meu amor, e não permitais me suceda perder novamente a sua graça.


Fonte: Blog São Pio V

Santo Afonso Maria de Ligório - Sobre o Nome de Jesus

 
SOBRE O NOME DE JESUS
 
Por Santo Afonso Maria de Ligório

O nome de Jesus é um nome divino, anunciado a Maria da parte de Deus por S. Gabriel: Dar-lhe-eis, disse o anjo, o nome de Jesus. Também está escrito que é um nome superior a todos os nomes, e o único em que podemos achar a salvação. 

Esse grande nome é, pelo Espírito Santo, comparado ao óleo; Vosso nome é um óleo derramado. A razão disso é que, segundo S. Bernardo, como o óleo é uma luz, um alimento, um remédio, assim o nome de Jesus é uma luz para o nosso espírito, um alimento para o nosso coração e um remédio para nossa alma. 

É uma luz para o nosso espírito. Por esse nome o mundo passou das trevas da idolatria à luz da fé. Nós que nascemos em países cujos habitantes eram pagãos antes da vinda do Messias, se-lo-íamos como eles, se Jesus não nos viesse iluminar. Quantas graças não devemos pois render a Jesus Cristo pelo dom da fé! Que seria de nós, se tivéssemos nascido na Ásia, na África ou em algum país, onde reina a heresia, o cisma? Quem não crer, será condenado. Estaríamos, pois, provavelmente perdidos.
 
Ademais, o nome de Jesus é um alimento para o nosso coração. De fato, esse nome adorável recorda-nos o que nosso divino Redentor fez e sofreu para salvar-nos, e por isso nos consola nas tribulações, nos dá a força de caminhar na via da salvação, reanima nossa confiança nas dificuldades, e informa-nos de amor a Deus.
 
Enfim, esse grande nome é ainda um remédio para nossa alma; fortifica-nos contra as tentações e os ataques de nossos inimigos. Os poderes infernais tremem e fogem, quando se invoca esse santo nome; é a doutrina do Apóstolo: Ao nome de Jesus dobra-se todo o joelho ao céu, na terra e nos infernos. Quem se vir tentado a invocar a Jesus, não cairá; quem o invocar jamais caíra, será salvo: Louvarei e invocarei o Senhor, cantava o salmista, e estarei livre dos meus adversários. Quem jamais se perdeu depois de haver invocado o nome de Jesus nas tentações? Perde-se quem o não chama em seu auxílio, que cessa, de o fazer nas tentações mais persistentes.

Afetos e Súplicas.
 
Ó meu Jesus, se vos tivesse eu sempre invocado, não teria sido jamais vencido pelo demônio. tive a infelicidade de perder a vossa graça porque, nas tentações deixei de pedir o vosso auxílio. Agora ponho toda a minha confiança no vosso santo nome: Tudo posso naquele que me conforta. Gravai, meu Salvador, gravai em meu coração o vosso poderoso nome de Jesus, a fim de que, tendo-o sempre no coração pelo amor, eu o tenha também sempre nos lábios e o invoque nos assaltos com que o inferno me ameaça para tornar-me novamente seu escravo e separar-me de vós. No vosso nome acharei todos os bens: se eu estiver aflito, me consolará recordando-me que muito mais vos afligistes por meu amor; se os meus pecados abalarem a minha confiança, me animará lembrando-me que viestes ao mundo para salvar os pecadores; se for tentado, me fortalecerá recordando-me que, se o inferno é poderoso para vencer-me, vós o sois mais para socorrer-me; se enfim me sentir frio no vosso amor, despertará o meu fervor, lembrando-me o quanto me amais. Amo-vos, meu Jesus! Vós sois, e espero, sereis sempre o meu único amor. Dou-vos todo o meu coração, ó meu Jesus, quero amar unicamente a vós, e estou resolvido a invocar-vos o mais que me seja possível. Quero morrer tendo nos lábios o vosso santo nome, nome de esperança, nome de salvação, nome de amor!

Ó Maria, se me amais, espero de vós uma graça, a de invocar sempre o vosso santo nome com o de vosso divino Filho. Fazei que esses doces nomes sejam a respiração de minha alma, e que o repita sempre durante a vida, para redizê-lo ainda no último suspiro: Jesus e Maria, socorrei-me; Jesus e Maria, eu vos amo: Jesus e Maria, em vossas mãos entrego a minha alma.


Fonte: Blog São Pio V

A circuncisão de Jesus e o sacramento do batismo.

 
A circuncisão de Jesus e o sacramento do batismo. 

Por Santo Afonso Maria de Ligório

Consummati sunt dies octo, ut circuncideretur Puer — “Foram cumpridos os oito dias para ser circuncidado o Menino” (Luc. 2, 21).

Sumário. A cerimônia da circuncisão era figura do sacramento do batismo. Podemos, por tanto, imaginar que Jesus Cristo, quando foi circuncidado, pensou em cada um de nós, e que oferecendo a seu divino Pai as primícias do seu sangue, desde então nos mereceu a graça de sermos regenerados pelo batismo. Oh, que dom inestimável é o do santo batismo! Como, porém, temos respondido a tamanho favor? Temos, por ventura, manchado a vestimenta branca da inocência?

I. Considera o Pai Eterno, que, tendo enviado seu Filho a fim de padecer e de morrer por nós, quer que no dia de hoje seja circuncidado e comece a derramar o seu sangue divino, para depois acabar de derramá-lo no dia da sua morte na cruz num, oceano de dores e desprezos. E porque? A fim de que esse Filho inocente pague assim as penas por nós merecidas. É, pois, com razão que a Igreja canta: Ó bondade admirável da misericórdia divina para conosco! Ó inestimável amor de compaixão! A fim de remires o homem entregaste teu Filho à morte! — Ó Deus eterno, quem seria capaz de fazer-nos esse dom infinito, senão Vós que sois a bondade infinita? E se, com o dom do vosso Filho, me destes o que mais caro possuíeis, justo é que eu miserável me dê todo a Vós.

Considera por outro lado o divino Filho, que, todo humilde e cheio de amor para conosco, abraça a morte amargosa, que lhe está destinada, para nos salvar, a nós pecadores, da morte eterna. De boa vontade começa hoje a satisfazer por nós à divina justiça, com o preço do seu sangue. — Nosso Senhor disse: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a própria vida por seus amigos.” (1) O amor, porém, de Jesus Menino foi muito além, porquanto, assim como diz São Paulo, Ele chegou a sacrificar a vida por nós, seus inimigos: Cum inimici essemus, reconciliati sumus Deo per mortem Filii eius (2) — “Sendo inimigos de Deus, fomos com Ele reconciliados pela morte de seu Filho”.

Portanto, ó meu Jesus, é por meu amor que aceitastes a morte; e que farei eu? Continuarei porventura a ofender-Vos com os meus pecados? Não, Redentor meu, não mais quero ser-Vos ingrato; hoje quero com todas as veras começar a amar-Vos de todo o meu coração. Vós, porém, ó Deus todo-poderoso, concedei-me a graça para Vos ser fiel. “E já que me fizestes chegar ao começo deste ano, salvai-me pelo vosso poder, a fim de que no correr do mesmo não caia eu em nenhuma falta, e os meus pensamentos, palavras e obras tenham por único escopo fazer aquilo que com toda a justiça exigirdes de mim.” (3)

II. A cerimônia da circuncisão, no dizer dos Santos Padres, prefigurava o sacramento do batismo. É portanto bem a propósito considerarmos que Jesus Menino, quando se sujeitou à circuncisão, pensava em cada um de nós. Oferecendo então a Deus Pai as primícias do seu sangue, começou a merecer-nos a graça de sermos regenerados na fonte batismal. Oh, que dom inapreciável é o do santo batismo! Por meio d'Ele as nossas almas deixaram de ser escravas do demônio, condenadas ao inferno, e se tornaram filhas escolhidas de Deus e herdeiras ditosas do reino dos céus. — Mas, como é que nós temos respondido a tão grande favor?... Lancemos a vista sobre a nossa consciência e vejamos se jamais temos manchado a vestimenta branca da inocência, e prostrando-nos aos pés de Jesus Cristo renovemos os nossos votos do batismo. Para que depois os guardemos fielmente, consideremos cada dia que desponta, como se fosse o último da nossa vida. E, com efeito, meu irmão, quem sabe se ainda vereis o fim do ano que hoje começa?

Senhor meu amabilíssimo, prostrado na presença de vossa divina Majestade, agradeço-Vos o me haverdes adotado por filho no santo batismo. Quero hoje renovar (as promessas que Vos fiz naquele dia, e Vô-las ofereço tintas no sangue que Jesus por meu amor derramou na sua dolorosa circuncisão. Em nome da Santíssima Trindade, Padre, Filho e Espirito Santo, protesto que de todo o coração renuncio a Satanás, às suas pompas e às suas obras. Pesa-me de haver tantas vezes profanado pelos meus pecados o caracter de cristão, e juro que para o futuro Vos quero permanecer fiel. Ó anjos do paraíso, e em particular vós, ó meu anjo da guarda, que um dia anotastes as minhas promessas, sêde hoje novamente testemunhas desta minha resolução. Antes quero morrer do que faltar à promessa do meu batismo, e viver um instante na inimizade de Deus. Vós, ó meu Jesus, dai-me a santa perseverança; fazei-o pela intercessão do Santo cujo nome tomei na pia batismal; fazei-o pelo amor de São José e de Maria Santíssima, que no dia da vossa circuncisão ficaram tão aflitos vendo-Vos derramar pela primeira vez o vosso preciosíssimo sangue. (*II 386.)
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1. Io. 15, 13.
2. Rom. 5, 10.
3. Or. Eccl.


(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 105 - 108.)

Santo Afonso Maria de Ligório - Meditação: Jesus chora

 
JESUS CHORA.
 
As lágrimas de Jesus Menino foram bem diferentes das outras crianças que vêm ao mundo: estas, diz S. Bernardo, choram de dor, enquanto que Jesus chorava, não de dor, mas de compaixão e de amor por nós Os prantos são grande sinal de amor; eis por que os judeus, vendo Jesus chorar a morte de Lázaro, diziam entre si: Eis como o amava. Da mesma forma os anjos poderiam dizer, vendo as lágrimas de Jesus Menino: Ecce quomodo amat eos: Vede como nosso Deus ama os homens: por seu amor chega a fazer-se homem, a fazer-se criança e a chorar!

Jesus chorava e oferecia suas lágrimas a seu Pai para obter-nos o perdão de nossos pecados: “Suas lágrimas lavavam os meus pecados”, dizia S. Ambrósio. Por seus vagidos e prantos Jesus pedia misericórdia para nós condenados à morte eterna, e aplacava assim a cólera de seu Pai! Oh! aquelas lágrimas bem sabiam advogar a nossa causa. Quão agradáveis foram elas a Deus! Foi então que o Senhor fez anunciar por seus anjos que fazia a paz com os homens e os recebia em sua graça: Paz na terra aos homens de boa vontade. 

Jesus chorou de amor, mas chorou também de dor vendo que tantos pecadores apesar de todas as suas lágrimas e de seu sangue derramado até a última gota continuariam a desprezar a sua graça. Ao considerar um Deus menino que chora as nossas faltas, que coração tão bárbaro poderia não chorar com ele, e detestar os pecados que tanto fizeram chorar esse terno Salvador? Ah! em vez de aumentarmos sem cessar a pena desse inocente Menino, apressemo-nos a consolá-lo unindo nossas lágrimas às suas. Ofereçamos a Deus os prantos de seu Filho e peçamos-lhe nos perdoe em atenção aos seus méritos.

Afetos e Súplicas. 

Meu amado Menino, enquanto choráveis na gruta de Belém, pensáveis em mim; tínheis diante dos olhos todos os meus pecados, causa das vossas lágrimas. É verdade, meu Jesus, em vez de vos consolar com meu amor e reconhecimento, sabendo quanto sofrestes para salvar-me, aumentei a vossa dor e a causa das vossas lágrimas! Se tivesse pecado menos, menos teríeis chorado. Ah! chorai, sim, chorai; tendes motivo de chorar vendo a ingratidão dos homens para com o amor que lhes tendes demonstrado. Mas já que chorais, Senhor, chorai também por mim; as vossas lágrimas são a minha esperança. Eu também choro os desgostos que vos tenho dado, meu Redentor. Eu os odeio, os detesto e deles me arrependo de todo o coração. Deploro os infelizes dias e as tristes noites em que vivi na vossa inimizade e na privação da vossa divina graça; mas de que servem todas as minhas lágrimas sem as vossas? — Pai eterno, ofereço-vos as lágrimas de Jesus Menino; por essas santas lágrimas, dai-me o perdão. — E vós, meu doce Salvador, oferecei por mim todas as lágrimas que derramastes em vossa vida, e aplacai por elas a divina Justiça. Peço-vos ainda, ó meu amor, enterneçais o meu coração por essas mesmas lágrimas e o abraseis de vosso santo amor. Ah! possa eu no futuro consolar-vos tanto quanto vos ofendi e contristei com minhas ofensas! Fazei, pois, Senhor, não empregue o resto da vida em desgostar-vos, mas só em chorar os desgostos que vos dei e em amar-vos com todos os afetos de minha alma.
 
Ó Maria, pela terna compaixão que tantas vezes sentistes vendo chorar o Menino Jesus, peço-vos me obtenhais uma dor contínua das ofensas que tive a ingratidão de lhe fazer.


Fonte: Blog São Pio V

Vida de tribulações que Jesus Cristo começou a levar desde o seu nascimento - Santo Afonso Maria de Ligório


Defecit in dolore vita mea, et anni mei in gemitibus — “A minha vida tem desfalecido com a dor, e os meus anos com os gemidos” (Ps. 30, 11).

Sumário. A vida de Jesus Cristo foi um martírio contínuo, e mesmo um duplo martírio, porque tinha continuamente diante dos olhos todas as dores que haviam de atormentá-Lo até à morte. Entre todas aquelas dores, porém, a que mais o afligiu, foi a previsão dos nossos pecados e da nossa ingratidão depois de tamanho amor da sua parte. É, pois, verdade, ó Jesus, que com os meus pecados Vos tenho causado aflição durante toda a vossa vida!

I. Jesus Cristo podia salvar-nos sem padecer nem morrer; mas não quis. A fim de nos fazer conhecer até que ponto nos amava, quis escolher uma vida toda de tribulações. Por isso, o profeta Isaías o chamou: virum dolorum — “Homem das dores”, porque a vida de Jesus Cristo devia ser uma vida toda cheia de dores. A sua Paixão não teve seu princípio no tempo da sua morte, mas sim, no começo da sua vida.

Vêde que Jesus, apenas nascido, é posto na manjedoura de uma estrebaria, onde tudo concorria para o atormentar. É atormentado na vista, que não descobre na gruta senão paredes grosseiras e negras. É atormentado no olfato, pelo fedor das imundícies dos animais que ali se acham. É atormentado no tato, pelas picadas da palha que lhe servia de cama. Pouco depois de nascido, vê-se obrigado a fugir para o Egito, onde passou vários anos da infância, na pobreza e no desprezo. Nem diferente foi a sua vida depois em Nazaré; e eis que finalmente termina a sua vida em Jerusalém, morrendo sobre uma cruz, pela veemência dos tormentos.

De sorte que a vida de Jesus foi um martírio contínuo, e mesmo um duplo martírio, por ter sempre diante dos olhos todos os sofrimentos que em seguida deviam atormentá-Lo até à morte. À soror Maria Madalena Orsini, queixando-se um dia a Jesus crucificado, disse-lhe: “Mas, Senhor, Vós passastes somente três horas pregado na cruz, ao passo que eu já estou sofrendo vários anos” Jesus, porém respondeu-lhe: “Ó ignorante! Que estás dizendo? Desde antes de nascer sofri todas as dores da minha vida e da minha morte.”

II. Não foram precisamente as dores futuras que atormentaram Jesus Cristo, visto que de livre vontade aceitara os padecimentos. O que O afligiu foi a previsão dos nossos pecados e da nossa ingratidão depois de tão grande amor seu. Santa Margarida de Cortona não se cansava de chorar as ofensas feitas a Deus, até que um dia o confessor lhe disse: “Margarida, basta; não chores mais porque Deus já te perdoou.” A Santa, porém, respondeu: “Ah, meu Pai, como poderei deixar de chorar, sabendo que os meu pecados têm afligido o meu Jesus durante sua vida toda?

É, pois, verdade, ó meu doce Amor, que eu também, pelos meus pecados, Vos tenho afligido todo o tempo da vossa vida? Dizei-me agora, ó meu Jesus, o que tenho de fazer, para me poderdes perdoar; que de boa vontade o hei de fazer. Arrependo-me, ó Bem supremo, de todas as ofensas que Vos tenho feito. Arrependo-me e amo-Vos mais do que a mim mesmo. Sinto-me com um grande desejo de Vos amar, sois Vós que me destes este desejo; dai-me portanto também forças para Vos amar muito. Justo é que Vos ame muito, eu que tantas vezes Vos tenho ofendido.

Lembrai-me sempre o amor que me tendes mostrado, a fim de que a minha alma esteja sempre abrasada em vosso amor, sempre pense em Vós, não suspire senão por Vós, e só a Vós procure agradar. Ó Deus de mor, a Vós me entrego todo, eu que em outros tempos fui escravo do inferno. Aceitai-me por piedade e prendei-me com os laços de vosso amor. Meu Jesus, para o futuro quero sempre viver amando-Vos, e amando-Vos quero morrer. — Ó Maria, Mãe e Esperança minha, ajudai-me a amar o vosso e meu Deus amado; é esta a única graça que vos peço e de vós a espero. (II 359.)


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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 99 - 101.)
 
 
Fonte: Blog São Pio V


quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Santo Afonso Maria de Ligório - Meditação - Jesus sobre a palha

 por Santo Afonso Maria de Ligório
 
MEDITAÇÃO V.

JESUS SOBRE A PALHA.

Jesus nasce no estábulo de Belém. A sua pobre Mãe não tem lã nem pluma para confeccionar um leito conveniente ao tenro Menino. Que fará então? ajunta um pouco de palha numa manjedoura e nela o deita. Mas, ó céu! esse é um leito demasiado duro e penoso para uma criancinha recém-nascida! Os membros duma criancinha recém-nascida! Os membros duma criancinha são extremamente delicados, e sobretudo os membros de Jesus, formados expressamente pelo Espírito Santo para serem mais sensíveis à dor. A dureza desse leito foi-lhe pois penosíssima.

Foi uma pena e foi também um opróbrio. Que criança, mesmo entre as mais pobres pessoas do povo, se vê ao nascer obrigada a deitar-se sobre palha? A palha é leito para os animais; e o Filho de Deus não acha sobre a terra senão vil palha por leito! S. Francisco de Assis ouviu um dia ler, quando se achava à mesa, as palavras do Evangelho: Ela o deitou numa manjedoura; e exclamou: “Como? meu Senhor está sobre palha, e eu continuaria sentado?” No mesmo instante deixa seu lugar, lança-se por terra e assim termina sua pobre refeição que rega de lágrimas de ternura ao considerar os sofrimentos de Jesus Menino deitado sobre a palha.

Mas por que Maria, que tanto desejara ver nascer esse Filho adorável e que o amava tão ternamente, por que, em vez de conservá-lo em seus braços, o pôs sobre esse leito de dores? — Eis um mistério, responde S. Tomás de Vilanova. Esse mistério é interpretado de vários modos; mas, entre todas as explicações é a de S. Pedro Damião que mais me agrada: Jesus recém-nascido quis ser deitado sobre a palha para nos ensinar a mortificação dos sentidos. O mundo perdera-se pelos prazeres sensuais; assim perderam-se Adão e grande número de seus descendentes. O Verbo eterno veio do céu para ensinar-nos o amor dos sofrimento, e começou ao nascer a ensinar-nos escolhendo para si o que uma criancinha pode suportar de mais penoso. Foi pois Ele que inspirou sua Mãe a não conservá-lo em seus braços tão suaves, e a colocá-lo no duro leito a fim de melhor sentir o frio da gruta e sofrer as picadas da palha.

Afetos e Súplicas.

Ó terno Amante das almas, meu amável Redentor, não vos bastam a dolorosa paixão que vos aguarda e a morte cruel que vos preparam na cruz; quereis começar a sofrer desde o primeiro momento de vossa existência! Sim, porque desde o vosso nascimento quereis começar a ser meu Redentor, e a satisfazer por meus pecados à divina Justiça. Por leito escolhestes a palha, a fim de me livrar do fogo do inferno, aonde muitas vezes eu merecera ser precipitado. Chorais e gemeis sobre a palha para me obter de vosso Pai, por vossas lágrimas, o perdão das minhas faltas. Ah! essas lágrimas me afligem e me consolam. Afligem-me pela compaixão que tenho de vós, inocente menino, vendo-vos sofrer por crimes que não são vossos; consolam-me, porque nos vossos sofrimentos vejo a minha salvação e o amor imenso que me tendes. Mas, meu Jesus, não vos quero deixar só a gemer e sofrer; quero chorar convosco, eu que mereci chorar por causa dos desgostos que vos dei; já que mereci o inferno, não recuso nenhuma pena, contanto que recupere a vossa graça. Perdoai-me, pois, restitui-me vossa amizade e castigai-me depois como vos aprouver. Livrai-me das penas eternas, e depois tratai-me como quiserdes. Não vos peço nenhuma satisfação nesta vida: não a merece quem teve a audácia de ofender-vos, Bondade infinita! Sinto-me contente em sofrer todas as cruzes que me enviardes; mas, ó meu Jesus, eu quero amar-vos.
Ó Maria, fiel companheira de Jesus em seus sofrimentos, nos quais compartilhastes tão vivamente, obtende-me a força de suportar minhas penas com paciência. Ai de mim, se após tantos pecados, eu nada sofrer nesta vida! Feliz de mim, ao contrário, se tiver a ventura de acompanhar-vos na via dos sofrimentos, ó minha Mãe aflita e meu Jesus que fostes crucificado por meu amor.


Fonte: Blog São Pio V

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Felicidade de quem nasceu depois da Redenção e na Igreja Católica - Santo Afonso Maria de Ligório

Por Santo Afonso Maria de Ligório

Ubi venit plenitudo temporis, misit Deus Filium suum, ut eos, qui sub lege erant, redimeret — “Quando chegou a plenitude do tempo, enviou Deus a seu Filho, para que remisse aqueles que estavam debaixo da lei” (Gal. 4, 4).

I. Que graças devemos dar a Deus por nos haver feito nascer depois de já realizada a grande obra da Redenção humana! É isso o que quer dizer a palavra plenitudo temporis — “plenitude do tempo” — , tempo venturoso pela plenitude da graça que Jesus Cristo nos mereceu pela sua vinda. Infelizes de nós, se, réus de tantos pecados como somos, tivéssemos vivido nesta terra antes da vinda de Jesus Cristo!

Antes da vinda do Messias, ah! Em que lamentável condição se achavam os homens! O verdadeiro Deus era apenas conhecido na Judéia; em todas as outras partes do mundo reinava a idolatria, de modo que os nossos antepassados adoravam a pedra, a madeira e os demônios.

Adoravam um sem-número de falsos deuses. Somente o verdadeiro Deus não era amado, nem mesmo conhecido. Ainda em nossos tempos, quantos países não há onde é reduzido o número de católicos e todos os demais são pagãos ou hereges, dos quais a maior parte com certeza se condenarão! Quanto mais nós devemos ser agradecidos a Deus, porque não somente nos fez nascer depois da vinda de Jesus Cristo, mas além disso em um país católico!

Senhor meu, graças Vos dou. Ai de mim, se, depois de cometer tantos pecados, vivesse no meio dos infiéis ou dos hereges! Reconheço, ó meu Deus, que me quereis salvo, e eu desgraçado tantas vezes quis perder-me perdendo a vossa graça. Redentor meu, tende piedade de minha alma que tanto Vos custou!

II. Misit Deus Filium suum, ut eos, qui sub lege erant, redimeret (1) — “Deus enviou seu Filho, para que remisse aqueles que estavam debaixo da lei”. Peca o escravo, e pecando entrega-se ao poder do demônio; e eis que vem seu Senhor mesmo para o resgatar com a sua morte! Ó amor imenso, ó amor infinito de Deus para com o homem!

Portanto, ó meu Redentor, se Vós não me tivésseis remido com a vossa morte, o que seria de mim? De mim, digo, que pelos meus pecados tantas vezes tenho merecido o inferno. Se Vós, ó Jesus meu, não tivésseis morrido por mim, já Vos teria perdido para sempre, nem haveria mais para mim esperança alguma de recuperar a vossa graça, nem de ver um dia no paraíso o vosso belo rosto. Meu caro Salvador, graças Vos dou, e espero ir ao céu para Vos agradecer eternamente. Pesa-me acima de todos os males, de Vos ter desprezado em outro tempo. Para o futuro proponho antes sofrer toda a pena, qualquer morte, do que ofender-Vos. Mas como em tempos passados Vos tenho traído, posso tornar a trair-Vos para o futuro. Ó meu Jesus, não queirais permití-lo. Ne permittas me separari a te (2) — “Não permitais que eu me aparte de Vós”. Amo-Vos, Bondade infinita, e quero amar-Vos sempre nesta vida e durante toda a eternidade. — Ó minha Rainha e Advogada, Maria, guardai-me sempre debaixo de vosso manto e livrai-me do pecado. (III 319.)
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1. Gal. 4, 4.
2. Or. “Anima Christi”.


(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 94 - 96.)

Santo Afonso, Meditação: Jesus amamentado

 por Santo Afonso Maria de Ligório
 
MEDITAÇÃO IV.

JESUS AMAMENTADO.

O Menino Jesus, depois de envolvido em paninhos, pedia e tomava o leite do seio de Maria. A Esposa dos Cânticos desejava ver seu irmãozinho sugando o leite de sua mãe; mas seu desejo não foi satisfeito. Nós, ao contrário, tivemos a felicidade de ver o Filho de Deus feito homem e tornado nosso irmão, tomar seu alimento do seio de Maria. Oh! que espetáculo para o céu ver o Verbo divino feito menino e sugando o leite duma jovem virgem, sua criatura!

Eis pois Aquele que alimenta todos os homens e todos os animais da terra, feito tão fraco e tão pobre, que necessita dum pouco de leite para sustentar a vida! A Irmã Paula, camaldulense, ao ver uma imagem de Jesus amamentado, sentiu-se logo abrasada de terno amor para com Deus. Jesus tomava pouco leite e só raramente; foi revelado à Irmã Maria-Ana, franciscana, que sua Santíssima Mãe lhe dava o seio só três vezes ao dia. Ó leite precioso para nós! convertido em sangue nas veias de nosso Redentor, tornou-se depois num banho de salvação para nossas almas manchadas. 

Consideremos ainda que Jesus tomava esse leite para sustentar o corpo que queria dar-nos em alimento na santa comunhão. — Assim, meu terno Salvador, sugando o leite de vossa Mãe, pensastes em mim: pensastes em mudar esse leite em sangue, para o derramar depois na vossa morte, em fazer dele o preço da minha redenção, e em nutrir minha alma no Santíssimo Sacramento, que é o leite salutar pelo qual conservais nossas almas na vida da graça: “O leite de vossas almas é Jesus Cristo”, dizia S. Agostinho. 

Ó Menino querido ao meu coração, ó meu Jesus, permiti exclame eu como a mulher do Evangelho: Felizes as entranhas que vos levaram, e os peitos que sugastes. — Sim, sois bem-aventurada ó Mãe de Deus, que amamentastes o Verbo encarnado! Ah! permiti que me una a vosso divino Filho para receber de vós o leite duma terna e afetuosa devoção ao Menino Jesus e a vós, minha queridíssima Mãe! 

Rendo-vos graças, ó divino Infante, que vos sujeitastes à necessidade do leite a fim de me testemunhar o vosso amor! — O Senhor deu a entender a S. Maria Madalena de Pazzi que se reduziu a essa necessidade precisamente para nos mostrar seu amor para com as almas por Ele resgatadas.

Afetos e Súplicas. 

Ó meu doce Jesus, amável Menino, sois o Pão do céu e o alimento dos anjos; vós nutris todas as criaturas; como estais reduzido a mendigar um pouco de leite duma virgem para sustentar vossa vida? — Ó amor divino, como pudestes tornar um Deus tão pobre ao ponto de necessitar dum nutrimento terrestre? Ah! compreendo-vos, meu Jesus, recebeis o leite de Maria no estábulo para o transformar em sangue precioso que quereis oferecer a Deus na cruz em sacrifício de expiação por nossos pecados! Dai, ó Maria, dai todo o leite que podeis dar a vosso divino Filho, pois cada gota desse leite deve servir para lavar minha alma de suas manchas, e nutri-la depois na santa comunhão! — Ó meu Redentor, como vos não amará aquele que crê no que fizestes e sofrestes para salvar-nos? E eu sabendo isso, como pude ser tão ingrato para convosco? Mas a vossa bondade é minha esperança e me assegura que, se eu quiser a vossa graça, ela me pertence. Ó Bem supremo, arrependo-me de vos haver ofendido, e amo-vos sobre todas as coisas, ou antes, não amo senão a vós, e só a vós quero amar, sois e sereis sempre meu único Bem e meu único Amor. Meu caro Redentor, dai-me, vo-lo peço, uma terna devoção à vossa santa infância, como o fizestes a tantas almas que, à recordação de vossa infância, parecem esquecer tudo e não mais poder pensar senão em vos amar. É verdade que elas são inocentes e eu pecador; mas vos fizestes pequeno para vos fazer amar também pelos pecadores. Sim, meu Deus, eu vos ofendi, mas agora amo-vos de todo o meu coração e só desejo o vosso amor. 

Ó Maria, dai-me um pouco da ternura com que nutríeis com vosso leite o Menino Jesus.

Fonte: Blog São Pio V

Oferecimento do coração a Jesus Menino - Santo Afonso Maria de Ligório


 
Oferecimento do coração a Jesus Menino
 
Santo Afonso Maria de Ligório

Dilectus meus mihi et ego illi, qui pascitur inter lilia. — “O meu amado é meu e eu sou dele, que se apascenta entre as açucenas” (Cant. 2, 16).

I. Alma devota, aviva a tua fé e a tua confiança. O mesmo Jesus que, por nosso amor, baixou do céu à terra e quis nascer numa gruta fria, está agora, abrasado no mesmo amor, escondido no Santíssimo Sacramento. Que é o que faz ali? Respiciens per cancellos (1) — “Olha por entre as grades”. Qual amante aflito pelo desejo de ver seu amor correspondido, Jesus de dentro da Hóstia consagrada, como que por entre uma grade estreita, olha-te sem ser visto, espreita os teus pensamentos, os teus afetos, os teus desejos, e convida-te suavemente achegar-te a si. Eia pois, dá contento ao Amante divino e aproxima-te d'Ele.

Lembra-te, porém, do que ordena: Non apparebis in conspectu meo vacuus (2) — “Não aparecerás em minha Presença com as mãos vazias”. Quem se chegar ao altar para me honrar, não se chegue sem me presentar alguma oferta. Na noite do Natal, os pastores que foram visitar o Menino Jesus na gruta de Belém, trouxeram-lhe os seus presentes. É pois mister que tu também Lhe ofereças o teu presente. Que poderás oferecer-lhe? O presente mais precioso, que possas trazer para o Menino Jesus, é um coração penitente e amante: Praebe, fili mi, cor tuum mihi (3) — “Meu Filho, dá-me o teu coração”.

Ó meu Senhor, eu não devia ter ânimo de me chegar a Vós, vendo-me tão manchado de pecados. Mas já que Vós, Jesus meu, me convidais com tamanha benevolência e me chamais com tamanho amor, não quero resistir. Não quero fazer-Vos esta nova afronta que, depois de Vos ter tantas vezes virado as costas, deixasse agora por desconfiança de aceder a vosso doce convite. Mas sabeis que sou pobre de tudo e que não tenho nada que oferecer-Vos. Não tenho senão o meu coração, e este Vô-lo dou. Verdade é que este meu coração durante algum tempo Vos tem ofendido, mas agora está arrependido, e contrito como se acha, eu Vô-lo ofereço. Sim, meu divino Menino, pesa-me de Vos ter dado desgosto. Confesso-o: tenho sido um traidor, um ingrato, um desumano fazendo-Vos sofrer tanto e derramar tantas lágrimas no presépio de Belém; mas as vossas lágrimas são a minha esperança. Sou um pecador e não mereço perdão, mas dirijo-me a Vós, que, sendo Deus, Vos fizestes criança para me perdoar. — Pai Eterno, se eu mereci o inferno, vêde as lágrimas desse vosso Filho inocente; são elas que Vos imploram o meu perdão. Vós não negaes nada às súplicas de Jesus Cristo. Atendei-O, visto que Vos pede que me perdoeis nestes dias santíssimos, que são dias de alegria, dias de salvação, dias de perdão.


II. Ó meu pequenino Jesus, espero que me perdoareis; mas só o perdão de meus pecados não basta. Neste santo tempo do Natal dispensais às almas graças grandes. Eu também quero uma graça bem grande, e deveis conceder-ma: é a graça de Vos amar. Agora que me chego aos vossos pés, abrasai-me todo em vosso amor e prendei-me a Vós, mas prendei-me de tal modo que eu nunca mais me afaste de Vós. Assim, ó meu Deus amabilissimo, espero que Vos amarei sempre e que Vós sempre me amareis: assim, ó meu amado Jesus, espero que serei sempre todo vosso e que Vós sempre sereis todo meu: Dilectus meus mihi et ego illi — “O meu amado é para mim e eu sou para ele.” Creio em Vos, ó Bondade infinita; espero em Vós, ó Bondade infinita; amo-Vos, ó Bondade infinita. Amo-Vos, ó meu Deus, feito Menino por meu amor, amo-Vos, e sempre o hei de repetir, amo-Vos, amo-Vos. † Jesus, meu Deus, amo-Vos sobre todas as coisas (4).

Mas, não Vos amo bastante; quero amar-Vos muito, e Vós deveis fazer que assim seja. Ofereço-Vos o meu coração, entrego-o todo inteiro, não o quero mais. Mudai-o e guardai-o para sempre. Não mo entregueis mais, pois, se o entregardes em minhas mãos, tenho medo que Vos tornará a trair.

Maria Santíssima, vós sois a Mãe desse grande Filho, sêde também minha Mãe; em vossas mãos deposito o meu coração, apresentai-o a Jesus; se Lho apresentardes, Jesus não o rejeitará. Apresentai-o, pois, e rogai que o queira aceitar. Amém. (*III 730.)
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1. Cant. 2, 9.
2. Exod. 23, 15.
3. Prov. 23, 26.
4. 50 dias de indulg. para quem rezar esta jaculatória ou a ensinar aos outros.


(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 89 - 91.)


Fonte Blog São Pio V

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Santo Afonso - Uma visita à Gruta de Belém.



Transeamus usque Bethlehem, et videamus hoc verbum, quod factum est — “Cheguemos até Belém, e vejamos o que é isto que sucedeu” (Luc. 2, 15).

I. Tende ânimo, Maria convida todos, os justos e os pecadores, a entrarem na Gruta para adorarem seu divino Filho e beijarem-Lhe os pés. Eia pois, ó almas devotas, entrai e vêde sobre a palha o Criador do céu e da terra, feito Menino pequenino, mas tão encantador, tão radiante que para toda a parte irradia torrentes de luz. Já que Jesus nasceu, a gruta não é mais horrorosa, senão foi feita um paraíso. Entremos e não temamos.

Jesus nasceu, e nasceu para todos. Ego flos campi, et lilium convallium: Eu, assim manda-nos avisar Jesus, eu sou a flor do campo, e a açucena dos vales (1). Jesus se chama açucena dos vales, para nos dar a entender que, assim como Ele nasceu tão humilde, assim somente os humildes o acharão. Por isso o anjo não foi anunciar o nascimento de Jesus Cristo a César nem a Herodes; mas sim a pobres e humildes pastores. Jesus chama-se também flor dos campos, porque, segundo a interpretação do cardeal Hugo, quer que todos o possam achar. As flores dos jardins estão reclusas e não se permite a todos procurá-las e tomá-las. Ao contrário, as flores dos campos estão expostas à vista de todos, e quem quiser as pode tirar: é assim que Jesus Cristo quer estar ao alcance de todo aquele que O desejar.

Entremos, pois a porta está aberta: Non est satelles, qui dicat: non est hora — “Não há guarda”, diz São Pedro Crisólogo, “para dizer que não são horas.” Os príncipes deixam-se ficar fechados nos seus palácios, cercados de soldados, e não é fácil obter-se audiência. Quem deseja falar com os reis, tem de afadigar-se muito, e bastante vezes será mandado embora com o conselho de voltar em outro tempo, por não ser dia de audiência. Não é assim com Jesus Cristo. Está na Gruta de Belém, como criancinha, para atrair a quem vier procurá-Lo. A gruta está aberta, sem guardas nem portas, de modo que cada um pode entrar à vontade, quando quiser, para achar o pequenino Rei, para falar com Ele e mesmo abraçá-Lo, e assim satisfazer a seu amor.

II. Almas devotas, contemplai naquela manjedoura, sobre aquela pobre palha o tenro Menino que está a chorar. Vêde como é formoso; mirai a luz que irradia, e o amor que respira; esses olhos atiram setas aos corações que O desejam, esses vagidos são chamas abrasadoras para os que O amam. No dizer de São Bernardo, a própria gruta e as próprias palhas clamam e vos dizem que ameis aquele que vos ama, que ameis um Deus que é digno de amor infinito, baixou do céu, se fez menino e menino pobre para manifestar o amor que vos tem e para cativar por seus sofrimentos o vosso amor.

Perguntai-Lhe: Ó formoso Menino pequenino, dize-me, de quem és filho? Responde-lhe: Minha mãe é esta linda e pura Virgem, que está a meu lado. E teu pai, quem é? Meu pai é Deus. Mas como? Tu és o Filho de Deus, e és tão pobre, tão humilde? Nesse estado quem te reconhecerá? Quem te respeitará? A santa fé, responde Jesus, me fará conhecer por quem sou, e me fará amar pelas almas que eu vim remir e inflamar em meu amor. Não vim para me fazer temido, senão para me fazer amado, e por isso, quis manifestar-me, a primeira vez que me vedes, como criança tão pobre e humilde, a fim de que assim me ameis com mais ternura, vendo a que estado me reduziu o amor que vos tenho.

Mas dize-me, meu Menino, porque volves os teus olhos para todos os lados? Que estás esperando? Ouço que suspiras, dize-me: para que são estes suspiros? Ó Deus, ouço que estás chorando, dize-me: porque choras?

Ah, responde Jesus, eu olho ao redor de mim, porque estou procurando alguma alma que me queira. Suspiro pelo desejo de ver junto de mim algum coração abrasado em meu amor, assim como estou abrasado em seu amor. Choro, sim, e choro porque não vejo corações, ou vejo-os nimiamente poucos, corações que me procurem e me queiram amar.

Ó Maria, Mãe do belo amor, fazei que o meu coração seja também do número daqueles que buscam e amam Jesus. (*III 729)
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1. Cant. 2, 1


(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 84 - 86.)


Fonte: Blog São Pio V

Este mundo é muito bom - Santo Atanásio

Este mundo é muito bom, tal como foi feito e tal como o vemos, porque Deus o quer assim: ninguém pode duvidar disso. Se a criação fosse desordenada, se o universo evoluísse ao acaso poder-se-ia pôr em causa esta afirmação. Mas como o mundo foi feito com sabedoria e ciência, de modo racional e lógico, posto que foi ornado de toda a beleza, é preciso que Aquele que a ele preside e que o organizou não seja senão a Palavra de Deus, o seu Verbo, o seu Logos.

Sendo a boa Palavra do Deus de bondade, foi esse Verbo que dispôs a ordem de todas as coisas, que reuniu os contrários com os contrários para com eles formar uma só harmonia. É Ele, «poder e sabedoria de Deus» (1Cor 1,24), que faz girar o céu, que tem a terra suspensa e que, sem que ela assente em nada, a mantém com a sua própria vontade (cf Heb 1,3). O sol ilumina a terra com a luz que recebe dele, e a lua recebe a sua medida da sua luz. Por Ele a água fica suspensa nas nuvens, as chuvas regam a terra, o mar mantém-se nos seus limites, a terra cobre-se de toda a espécie de plantas (cf Sl 103).

A razão de esta Palavra, Verbo de Deus, ter vindo até às criaturas é verdadeiramente admirável. […] A natureza dos seres criados é passageira, fraca, mortal; mas, sendo pela sua natureza bom e excelente, o Deus do universo ama os homens. […] Assim, vendo que, entregue a si própria, toda a natureza criada se esvai e se dissolve, para evitar que isso aconteça e para que o universo não regresse ao nada […], Deus não o abandona às flutuações da sua natureza. Na sua bondade, com o seu Verbo, Ele governa e mantém toda a criação, […] que não sofre, portanto, o destino que teria se o Verbo não cuidasse dela, isto é, a aniquilação. «Ele é a imagem do Deus invisível, o primogénito de toda a criatura; porque foi nele que todas as coisas foram criadas, no céu e na terra, as visíveis e as invisíveis, […] tudo nele subsiste. […] Ele é a cabeça do Corpo, que é a Igreja» (Col 1,15-18).
 
 
Fonte: Senza Pagare

Comentário ao Evangelho do dia (30/12) feito pelo Papa Francisco



«Falava do menino a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém»

«Deus prepara para eles uma cidade» (cf Heb 11,16): a fé e o bem comum. Ao apresentar a história dos patriarcas e dos justos do Antigo Testamento, a Carta aos Hebreus põe em relevo um aspecto essencial da sua fé; esta não se apresenta apenas como um caminho, mas também como edificação, preparação de um lugar onde os homens possam habitar uns com os outros […]. Se o homem de fé assenta sobre o Deus-Amen, o Deus fiel (cf Is 65,16), tornando-se assim ele mesmo firme, podemos acrescentar que a firmeza da fé se refere também à cidade que Deus está a preparar para o homem. A fé revela quão firmes podem ser os vínculos entre os homens, quando Deus Se torna presente no meio deles. Não evoca apenas uma solidez interior, uma convicção firme do crente; a fé também ilumina as relações entre os homens, porque nasce do amor e segue a dinâmica do amor de Deus. O Deus fiável dá aos homens uma cidade fiável.

Devido precisamente à sua ligação com o amor (cf Gal 5,6), a luz da fé coloca-se ao serviço concreto da justiça, do direito e da paz. A fé nasce do encontro com o amor gerador de Deus que mostra o sentido e a bondade da nossa vida; esta é iluminada na medida em que entra no dinamismo aberto por este amor, isto é, enquanto se torna caminho e exercício para a plenitude do amor. A luz da fé é capaz de valorizar a riqueza das relações humanas, a sua capacidade de perdurarem, serem fiáveis, enriquecerem a vida comum. A fé não afasta do mundo, nem é alheia ao esforço concreto dos nossos contemporâneos.

Sem um amor fiável, nada poderia manter verdadeiramente unidos os homens: a unidade entre eles seria concebível apenas enquanto fundada sobre a utilidade, a conjugação dos interesses, o medo, mas não sobre a beleza de viverem juntos, nem sobre a alegria que a simples presença do outro pode gerar. […] A fé é um bem para todos, um bem comum: a sua luz não ilumina apenas o âmbito da Igreja nem serve somente para construir uma cidade eterna no além, mas também ajuda a construir as nossas sociedades de modo que caminhem para um futuro cheio de esperança. 
 
Lumen Fidei
 
Créditos: Evangelho Quotidiano,

domingo, 29 de dezembro de 2013

Hugo de São Vitor - Sermão por ocasião do Natal do Senhor



SERMO LXIII

Sobre a Jornada de Gedeão
contra os Madianitas,
por ocasião do Natal do Senhor.


"Tu quebraste o pesado jugo que o oprimia,
e a vara que lhe rasgava as espáduas,
e o cetro de seu exator,
como o fizeste na jornada de Madian".

Isaías 9,4

Caríssimos, estas palavras proféticas se referem principalmente a Cristo. De onde que, um pouco mais adiante, o mesmo profeta, isto é, o profeta Isaías, de quem são estas palavras, no-las profetiza abertamente de Cristo, dizendo:

"Porquanto um menino nasceu para nós,
e um filho nos foi dado,
e foi posto o principado sobre o seu ombro;
e será chamado Admirável,
Conselheiro, Deus Forte,
Pai do século futuro, Príncipe da Paz.
O seu império se estenderá cada vez mais,
e a paz não terá fim;
sentar-se-á sobre o trono de Davi
e sobre o seu reino,
para o firmar e fortalecer
pelo direito e pela justiça,
desde agora e para sempre.
Fará isto o zelo do Senhor dos exércitos".

Is. 9, 6-7

"Tu quebraste o pesado jugo que o oprimia". Este jugo é a culpa. "A vara que lhe rasgava as espáduas". Esta vara é a pena em que incorremos pela culpa. "E o cetro de seu exator". Este cetro é a condenação eterna. Pelo jugo éramos oprimidos, pela vara feridos, pelo cetro condenados. O exator é o demônio, o vencedor é Cristo. Cristo, de fato, entrou no mundo assumindo nossa carne, conforme no-lo ensina o Evangelho:

"Quando um homem forte e armado
guarda a entrada de sua casa,
estão em segurança os bens que possui;
porém, sobrevindo outro mais forte do que ele,
há de vencê-lo e aprisioná-lo.
Só então poderá despojá-lo de seus bens".

Mt. 12,29; Lc. 11,22

O homem forte e armado é o demônio; a entrada de sua casa é o mundo; o outro homem mais forte é Cristo; seus bens são as almas; o despojo destes bens é a obra da Redenção; o aprisionamento do homem forte é o acorrentamento do demônio. Vencido, pois, o nosso exator e quebrado o seu jugo, a sua vara e o seu cetro, faremos uso daquela parábola profética que o mesmo profeta Isaías no-la preceitua, ao dizer, cinco capítulos mais adiante:

"E naquele tempo em que o Senhor
te tiver dado descanso,
depois de teu trabalho e de tua opressão,
e da dura servidão a que estiveste sujeito,
usarás desta parábola contra o rei de Babilônia,
e dirás:

Como terminou o exator,
e como se acabou o tributo?
O Senhor despedaçou o bastião dos ímpios,
a vara dos dominadores,
e o que na sua indignação
feria os povos com uma chaga incurável,
o que sujeitava as nações no seu furor,
o que cruelmente as perseguia.
Toda a terra está em descanso e em paz,
ela se encheu de prazer e de regozijo.
Até as faias e os cedros do Líbano
se alegraram com a tua perda.
Desde que tu morreste,
não subirá quem nos corte".

Is. 14, 3-8

Merecidamente, pois, devemos louvar o vencedor, pois nos foi retirado o jugo que prendia as nossas faces, destruída a vara que nos percutia, e quebrado o cetro de nosso exator. Vejamos, porém, como se realizou esta batalha espiritual, e como se alcançou esta vitória.

Foi, no-lo diz Isaías,

"como na jornada de Madian".

Is. 9, 4

Ora, lemos no livro de Juízes que, depois da morte de Débora, os filhos de Israel pecaram contra o Senhor, o qual os entregou na mão dos madianitas durante sete anos, pelos quais foram muito oprimidos. Depois disto, tendo-o ordenado o Senhor, lutou Gedeão contra os madianitas e, vencendo-os, libertou o povo de Israel (Jz.6-8). A história é conhecida, e sei estar-me dirigindo a quem também já conhece as Escrituras. Parece-me, pois, tratar-se de coisa longa e supérflua repetir todo o episódio. Omitiremos, portanto, a narrativa histórica, para que possamos dirigir toda a nossa atenção ao seu entendimento espiritual e nele vejamos de que modo Cristo, que luta por nós e nos salva, quebrou "o pesado jugo que nos oprimia, a vara que rasgava nossas espáduas e o cetro de nosso exator, como na jornada de Madian".

Madian, traduzido, significa iniqüidade. O povo de Madian é, portanto, a multidão dos demônios, que nunca tem a eqüidade por objeto de suas obras, mas a iniqüidade.

Os quatro príncipes de Madian, Oreb, Zeb, Zebee e Salmana, são figuras dos príncipes de todos os demônios, os quais podem ser designados por um número quaternário por nos perseguirem e nos moverem guerra pelas quatro partes do mundo; ou certamente porque nos conduzem aos quatro vícios que são significados pelas quatro partes do mundo. O Oriente, de fato, de onde se origina a luz, significa a astúcia, pois, conforme diz o Evangelho,

"os filhos deste século são mais hábeis
no trato com os seus semelhantes
do que os filhos da luz".

Luc. 16, 8

O Ocidente, por nele morrer o Sol, e nele também perder a luz a parte superior da terra, significa a ignorância. Deste modo também o Sul, por ser quente, significa a luxúria, e o Norte, por ser frio, significa a malícia. Os príncipes dos demônios são genericamente quatro, na medida em que nos dissipam por meio destes quatro vícios, como se se utilizassem dos quatro ventos principais para nos distrair e dispersar.

Julgo também que estes sejam os quatro anjos que lemos no Apocalipse terem sido proibidos de causar dano à terra, ao mar e às árvores, naquela passagem onde está escrito:

"E vi outro anjo que subia da parte do Oriente
tendo o selo do Deus vivo.
E clamou em alta voz aos quatro anjos,
a quem fora dado o poder
de fazer mal à terra e ao mar, dizendo:
`Não façais mal à terra,
nem ao mar, nem às árvores,
até que assinalemos sobre a sua fronte
os servos de nosso Deus'".

Apoc. 7, 2-3

A terra são aqueles que vivem estavel e firmemente na conversação de uma vida santa. O mar são aqueles que flutuam nas ações exteriores, movidos pela necessidade da vida presente. As árvores são aqueles que frutificam crescendo no alto da contemplação divina. A todos estes os príncipes dos espíritos malignos são proibidos de fazerem mal, na medida em que são impedidos, por uma oculta disposição divina, de lhes causarem dano. A estes mesmos, porém, infligem danos que nos movem à admiração e à comiseração quando, por causa de pecados cometidos, relaxa-se esta mesma disposição divina e é-lhes permitido prevalecer sobre os homens. De onde que corretamente se afirma no livro de Juízes que os filhos de Israel foram muito oprimidos pelos madianitas:

"Porque eles vinham
com todos os seus rebanhos e tendas e,
à maneira de gafanhotos,
esta multidão inumerável de homens e camelos
cobria todas as coisas,
destruindo tudo o que tocava".

Jz. 6, 5

Eles cobriam a terra dos Israelitas como gafanhotos, porque são leves e voam em círculos, oprimindo os sentidos carnais e os afetos com as suas maldades.

Conforme a mesma história nos conta, o acampamento dos madianitas estava situado num vale, ao norte de um alto outeiro. Este vale é a profundidade do desespero, o norte é a frieza da malícia, o alto outeiro a proximidade do orgulho. Sempre, efetivamente encontramos o orgulho unido aos demônios.

Os camelos em que os madianitas eram trazidos são os homens réprobos, curvados ao que é terreno, enormes e carregados pela corcova do pecado. Os quais camelos são inumeráveis como a areia do mar pois, conforme diz o Eclesiastes,

"o número dos insensatos",

estéreis em boas obras,

"é infinito".

Ec. 1, 15

"E os madianitas, com os seus camelos, talavam tudo quanto os filhos de Israel haviam semeado quando ainda estava em erva" (Jz. 6,3), porque os demônios, pelas perseguições promovidas pelos homens réprobos sobre aqueles que pareciam viver retamente, destróem-lhes as virtudes e as boas obras quando ainda são tenras. "Não deixavam aos israelitas nada do que é necessário à vida" (Jz. 6,4), na medida em que matam-lhes as principais virtudes; "nem ovelhas, nem bois, nem jumentos" (Jz. 6,4), porque roubam- lhes a continência, a inocência e a paciência. Assim os israelitas espirituais se viram obrigados a servir aos madianitas espirituais durante sete anos (Jz. 6,1), isto é, durante todo o tempo em que haviam abandonado a Deus, submetendo-se aos vícios, envolvidos no pecado, carecendo de virtudes, destituídos de boas obras. E, embora a história nos diga que os israelitas fizeram para si

"covas e cavernas nos montes,
e lugares muito fortes para resistirem",

Jz. 6, 2

nem assim podiam resistir aos inimigos e escapar de suas mãos, porque, conforme diz Jeremias, quando abandonamos a Deus e somos por Ele abandonados,

"Nossos inimigos se tornam mais velozes
do que as águias do céu,
perseguem-nos sobre os montes,
armam-nos ciladas no deserto".

Lam. 4, 19

É necessário, pois, que venha um homem valente que estava, como diz a Escritura,


"limpando o trigo no lagar",


Jz. 6, 11


e que era, na expressão do anjo,


"o mais valente dos homens".


Jz. 6, 12


Estamos nos referindo a Gedeão, aquele que havia destruído no mundo o altar da idolatria e o bosque da ignorância que o circundava (Jz. 6, 25), que ofereceu um touro, ou melhor, um novilho engordado, isto é, ele próprio, oferecido em sacrifício a Deus Pai (Jz. 6, 25), e que buscou um sinal não apenas no véu, nem no orvalho, mas naquilo que foi significado por ambos (Jz. 6, 36-40). Era necessário que este homem se manifestasse visivelmente, vencesse os inimigos, libertasse e salvasse o seu povo.

Como?

Pelo som das trombetas, pela quebra das ânforas, pelo acender das lâmpadas (Jz. 7,16).

Cristo também, assim como Gedeão, pregando o Evangelho, fêz soar a trombeta. Sustentando os sofrimentos de sua paixão, quebrou a ânfora. Realizando seus milagres, acendeu a lâmpada.

Cristo, de fato, tocou a trombeta ao louvar o Pai:


"Eu te louvo",


dizia Jesus,


"ó Pai, Senhor do céu e da terra,
porque escondeste estas coisas
aos sábios e aos prudentes,
e as revelastes aos pequeninos".



Mt. 11, 25


Pois, assim como existe a trombeta do ensino, existe também a trombeta do louvor. De fato, está escrito:


"Tocai a trombeta na neomênia,
no plenilúnio, nesse dia solene,
porque é um preceito para Israel,
e uma ordem do Deus de Jacó".


Salmo 80, 4-5


e também:


"Louvai o Senhor ao som da trombeta,
louvai-O com o saltério e a cítara".


Salmo 150, 3


Cristo também quebrou a sua ânfora, conforme o profeta o havia anunciado, ao dizer:


"Eis que o dominador,
o Senhor dos exércitos,
quebrará a ânfora no terror,
e os de estatura agigantada serão cortados".


Is. 10, 33


A ânfora é a carne humana, e o Senhor "quebrou a ânfora no terror" quando, por ocasião da morte de Cristo, estremeceram os homens e estremeceram os demônios. Diz, de fato, São Lucas:


"Estremeceram os homens,
e toda a multidão daqueles que assistiam
a este espetáculo,
vendo a terra tremer,
e as demais coisas que sucediam,
retiravam-se batendo no peito".


Luc. 23, 48


Os demônios também estremeceram, porque viram-se em seguida serem aprisionados, as portas do abismo serem abertas, as profundezas da morte serem invadidas e os eleitos serem libertos do cativeiro com poder. "E os de estatura agigantada foram cortados", porque os homens orgulhosos foram privados de seus antigos domínios.

Cristo também, à semelhança de Gedeão, acendeu a lâmpada, manifestando ao mundo uma multidão de boas obras. Ele mesmo disse aos judeus:


"Tenho-vos mostrado
muitas boas obras
por virtude de meu Pai".


Jo. 10, 32


Gedeão chamou para a batalha cerca de trinta mil homens, mas venceu a luta com apenas trezentos (Jz. 7,8). Assim também, no exército de Cristo,


"muitos são os chamados;
poucos, porém, os escolhidos".


Mt. 20, 16


Estes trezentos homens, de fato, significam todos os escolhidos que estão verdadeiramente armados pela fé na santa e indivisa Trindade, ou pelas três principais virtudes que são a fé, a esperança e a caridade. Estes são os que não dobraram os seus joelhos, nem beberam das águas da torrente submergindo nela as suas bocas (Jz. 7,6), pois das coisas que passam buscam apenas o necessário, nunca o supérfluo. Os réprobos, porém, dobrando os joelhos, para beberem a água submergem os lábios de suas bocas na torrente, assim como se submergem inteiramente nos prazeres das coisas temporais.

Gedeão venceu os seus inimigos não apenas aquém, mas também além do Jordão. Assim também Cristo derrotou o demônio não apenas na Judéia, mas também entre os gentios.

Como Gedeão, assim também Cristo lutou e venceu. E assim também nós, caríssimos irmãos, consideremos como lutamos, para que possamos alcançar a vitória:


"O que me virdes fazer",


disse Gedeão aos seus homens,

"fazei-o vós também.
E gritai todos a uma:
Ao Senhor, e a Gedeão".


Jz. 7, 17-18


É assim igualmente que Cristo quer que com Ele lutemos, gritemos e vençamos. Ele, efetivamente, nos deu o exemplo, e assim como Ele fêz, assim também nós o façamos. É isto que Ele parecia esperar de nós, quando dizia:


"Aquele que crê em mim,
fará também as obras que eu faço,
e fará outras ainda maiores".



Jo. 14, 12


Temos, porém, para lutar por nós e nos salvar não apenas a Cristo, mas também nossos prelados, que fazem as vezes de Cristo, os quais nos devem preceder na batalha e nos mostrar, pelo seu exemplo, como se luta. Sejam eles como Gedeão, não como Abimelec (Jz. 9,1-57).

Abimelec é o prelado réprobo e iníquo, que busca o que é seu, não o que é de Cristo. Abimelec trucidou os seus irmãos sobre uma pedra. O prelado iníquo destrói os seus irmãos pela sua dureza. Abimelec matou os homens de sua cidade e semeou-a com sal. O prelado iníquo mata, na Igreja, pela palavra e pelo exemplo, os súditos que lhe foram confiados, sem deixar nela, o tanto quanto lhe permitir a sua maldade, nem sábios nem sabedoria. Os homens de Siquém tinham a Abimelec; tomara nós que tenhamos a Gedeão.


"Foram as árvores para eleger sobre si um rei,
e disseram à oliveira, à figueira e à videira:

`Reina sobre nós'.

Todas, porém, se recusaram a reinar
e a serem superiores entre as árvores.
Disseram então as árvores ao espinheiro:

`Vem, e reina sobre nós'.

E ele respondeu-lhes:

`Se vós deveras me constituís vosso rei,
vinde, e repousai debaixo da minha sombra;
mas, se não o quereis,
saia fogo do espinheiro
e devore os cedros do Líbano'".


Jz. 9, 8-15


As árvores da floresta são, segundo a parábola de Joatão, os homens de Siquém, e o espinheiro é Abimelec. Segundo sua significação mística, porém, o que pode-se entender mais corretamente pelas árvores da floresta senão as nações ou qualquer multidão infrutuosa, os homens acostumados e envelhecidos no pecado, prontos para o incêndio eterno?

Pela oliveira podemos entender qualquer homem fiel, excelso pela virtude da misericórdia. Pela videira, devido a que Cristo, sendo a sabedoria de Deus, ter dito de si próprio:


"Eu sou a videira";


Jo. 15, 1


e devido também a estar escrito que


"o vinho,
moderadamente tomado,
aguça o engenho",


entendemos qualquer homem justo, exímio pela virtude da sabedoria. Pela figueira, finalmente, entendemos aqueles que se sobressaem pela graça de uma doçura interior. O fruto da figueira, de fato, prima pela sua doçura.

As árvores silvestres se dirigem à oliveira, à videira e à figueira para fazer delas seus reis quando quaisquer homens cujos pensamentos não produzem frutos pedem para si um prelado misericordioso, sábio, manso ou doce. Mas a oliveira, a videira e a figueira rejeitam semelhante reinado porque os eleitos, quando investidos do poder para reger os maus, temem verem-se privados de seus próprios frutos por causa da malícia dos seus súditos, além de com isto em nada poderem ser-lhes de proveito. As árvores, então, elegem o espinheiro para serem o seu rei todas as vezes que os homens iníquos escolhem outro iníquo, envolvido pelos espinhos do pecado, como seu governante. Ambos então são devorados por um fogo mútuo, na medida em que os súditos perversos e o seu perverso prelado são consumidos um pelo furor do outro. De tais homens, consumidos por tais chamas, o profeta assim se expressa:


"O vosso espírito
como fogo vos devorará".


Is. 33, 11


De fato, invejando-se mutuamente, mordem-se também mutuamente e mutuamente se consomem. Voltemos, porém, ao nosso assunto.

Cristo, conforme dizíamos, quebrou o pesado jugo que nos oprimia e o cetro de nosso exator, como na jornada de Madian, porque pela trombeta de sua pregação, pela paixão de sua morte e pela manifestação de suas boas obras venceu o demônio e nos libertou de seu domínio. Temos, porém, um outro Gedeão, isto é, alguém que nesta batalha faz as vezes de Cristo que luta e nos salva, que é o nosso prelado, o qual vence todos os dias, mediante o auxílio de Cristo, nossos inimigos. É necessário que ele ofereça, juntamente com Gedeão, pães ázimos pela simplicidade de sua doutrina, um cabrito pela penitência, cozido pelo amor, e que derrame incenso sobre eles pela compunção (Jz. 6,19-23). Ofereça também um touro (Jz. 6,24-27), isto é, a si próprio, pois ainda que não aconteça ter que por obra morrer pelo povo a si confiado, deve estar todavia sempre pronto a isto pela sua vontade.


"Entrarei",


diz Gedeão,


"por um lado do acampamento;
imitai, então, o que eu fizer".


Jz. 7, 17


É assim que todo prelado deve mostrar a forma de bem viver aos que lhes forem confiados, sem ser do número daqueles que "dizem mas não fazem" (Mt. 23,3), "colocando sobre os ombros dos homens cargas pesadas e impossíveis de levar, não querendo movê-las, porém, eles próprios, nem com um dedo" (Mt. 23,4). Entrem no acampamento inimigo não apenas providenciando ou dispondo as coisas úteis ou necessárias para evitar o mal ou exercitar o bem, mas principalmente colocando-as em prática por obras. Entrem por um lado do acampamento, exercendo o seu ministério. Entrem por um lado do acampamento, porque ninguém pode fazer tudo sozinho, pois são pesadas as mãos de Moisés, e necessitam de auxílio para se sustentarem (Ex. 17,12). Faça soar a sua trombeta ensinando e cantando, quebre a ânfora jejuando e vigiando, acenda a tocha exercitando as virtudes e as boas obras. E nós clamemos juntos ao Senhor e a Gedeão, imitando-o em todas as coisas.

Há, porém, alguns homens carnais, inclusive revestidos do hábito da religião, cujo som da trombeta é inteiramente carnal. Nunca falam das coisas de Deus, nem das coisas puras, pois, segundo a sentença do Apóstolo,


"Não gostam das coisas que são do espírito,
mas das que são da carne".


Rom. 8,5


Dormimos pouco, dizem eles, comemos pouco, vivemos pauperrimamente. Se não os contentarmos, não apenas murmuram, como se revoltam, e devemos dar-nos por satisfeitos se, feitas as suas vontades, conseguem permanecer em paz. Não os repreendemos, todavia, por falarem de coisas necessárias ao corpo; o que é admirável aos nossos olhos é que eles falam sempre do que é carnal, nunca do que é espiritual. Falar do que é necessário ao corpo, dentro da medida do conveniente, é coisa louvável, porque


"nunca ninguém odiou a sua própria carne;
antes, a nutre e cuida dela".


Ef. 5, 29


Falar, porém, das coisas que pertencem ao espírito é inteiramente necessário, pois o espírito humano é a parte principal do homem ou certamente, como diz certo filósofo, é o próprio homem. "A mente de cada um", diz ele, "é o próprio homem". Há outros que no refeitório abrem a sua boca com satisfação para comer e beber, enquanto que, no coro, para ler e cantar, o mais das vezes ou sempre a fecham. Outros ainda, não com menor culpa, mas com maior demência, confiantes em Deus, movem a cabeça, falsificam as vozes, efeminam o canto e, tomados pelo espírito de vanglória, mais gritam ou assobiam os louvores divinos do que os cantam. Pouco com o coração, muito com a boca.

Agora, portanto, caríssimos, corrijamo-nos e sejamos corrigidos de todas estas coisas, mutua e fraternalmente, para que nossa trombeta produza um bom som e afugentemos o acampamento inimigo. Com muita correção a palavra de Deus, ensinada ou cantada, que neste história nos foi figurada pela trombeta, nesta mesma história nos é também subentendida pelo pão e pela espada:


"Aproximando-se Gedeão do acampamento madianita,
um deles contava ao seu companheiro o seu sonho,
e deste modo lhe referia o que tinha visto:

`Tive um sonho, e parecia-me ver
como que um pão de cevada
cozido debaixo do rescaldo, que rolava,
e ia cair sobre o acampamento de Madian.
E, tendo-se chocado contra uma tenda,
a sacudiu com a pancada
e a lançou de todo por terra'.

O outro, a quem ele falava, respondeu:

`Isto não é outra coisa senão a espada de Gedeão,
filho de Joás, homem israelita;
porque o Senhor lhe entregou Madian em suas mãos,
e todo o seu acampamento'".


Jz. 7,13-14


A palavra de Deus, pois é trombeta, é pão e é espada. É trombeta porque soa aos ouvidos. É pão porque revigora a mente dos que têm fome de justiça. É espada porque penetra os segredos dos corações. Por isto diz o Apóstolo:


"A Palavra de Deus é viva e eficaz,
e mais penetrante do que a espada de dois gumes;
e chega até à separação da alma e do espírito,
das junturas e das medulas,
e discerne os pensamentos e intenções do coração,
e não há nenhuma criatura invisível na sua presença".


Heb. 4, 12-13


É necessário, pois, que não somente façamos soar a trombeta, conforme expusemos, ensinando e cantando, mas que também quebremos a ânfora, crucificando nossa carne com os seus vícios e concupiscências. Muitos há que professam a religião, mas aborrecem a sua salutar aspereza, desejando viver num confortável repouso, afirmando que Deus não exige que molestemos a carne. Nós, porém, caríssimos, quebremos esta ânfora na fome e na sede, no frio e na nudez, no trabalho e na tribulação, e em todas as demais coisas como estas. Acendamos nossas lâmpadas, para que exercitemos as virtudes e as boas obras. Com estas armas venceremos nossos inimigos, alcançaremos a vitória, possuiremos a palma. Refiro-me à palma dourada, como lemos de Gedeão, que pediu e recebeu de seu exército os brincos de ouro da presa dos inimigos. Assim também nós, caríssimos, se lutarmos corretamente, possuiremos esta palma dourada, que outra coisa não é senão a glória celeste.

E que a tanto se digne vir em nosso auxílio Cristo Jesus.

Amén.




Nota ao Sermo 63

Lemos no texto deste sermão que Hugo de S. Vitor, comentando o décimo primeiro de Mateus, afirma que


"assim como existe a trombeta do ensino,
existe também a do louvor".


Desta e de outras passagens de sua obra depreende-se que, segundo a doutrina de Hugo de São Vítor, o louvor e o ensino são dois aspectos de uma mesma atitude, e ambos procedem do dom do Espírito Santo de entendimento, conforme diz o Salmo:


"Publicarei todas as tuas obras
às portas da filha de Sião".


Salmo 72, 28


Pelas portas da filha de Sião deve-se entender, de fato, a incoação da contemplação que se dá pelo dom de entendimento, conforme diz o Salmo 86:


"O Senhor ama as portas de Sião,
mais do que todas as tendas de Jacó".


Salmo 86, 2


Louvar, de fato, é, na concepção dos vitorinos, aprovar com entusiasmo. Diz, por exemplo, neste sentido, Ricardo de S. Vitor:


"Laudare est ex admiratione approbare".


Benjamin Minor C. 11
PL 196, 8


Ora, para aprovar com entusiasmo é preciso primeiro entender cristalinamente, e isto é precisamente o efeito do dom de entendimento. O verdadeiro ensinar, assim, provém da mesma origem de onde procede o louvor. Por meio do dom de entendimento produz-se uma aprovação entusiástica proveniente de um entendimento límpido da obra divina a qual, não se contentando em manifestar-se apenas poeticamente, vê a necessidade de também evidenciar aos homens a extensão das maravilhas de Deus.

Comentando Ricardo de S. Vitor, Josef Pieper afirma que


"o louvor de Deus é a forma extrema
que existe de aprovação da realidade".


Hugo de São Vitor poderia muito bem acrescentar a esta reflexão que, do mesmo modo, ensinar é a forma extrema que existe do louvor.

Cabe dizer também que no primeiro sermão da série da qual o presente é o 63, Hugo de São Vitor afirma que na construção material de uma igreja os sinos representam aqueles que, no Corpo Místico de Cristo, têm a função de ensinar. Entendida neste contexto, esta afirmação tem também o sentido mais amplo segundo o qual os sinos não têm apenas a função de chamar o povo para as celebrações; sua majestosa sonoridade foi freqüentemente usada para exprimir o louvor a Deus. Assim também é o ensino; quando se realiza em sua forma mais autêntica, é ele a mais acabada expressão de louvor que o homem pode oferecer à obra de Deus.


Fonte: Cristianismo.org
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